2 Les inscriptions artistiques contestataires
2.1 Les prémices du street art
2.1.2 En Espagne : Des pionniers du graffiti Hip Hop au street art
Falar da ADTO nos leva a falar de texto, que, para Fairclough (2001, p. 99), mais que simples exemplar de linguagem, é uma manifestação linguística da prática discursiva, uma dimensão do evento discursivo. O texto e a prática social, compreendidos como dimensões do evento discursivo, são mediados por uma terceira dimensão, que examina o discurso como exemplo de prática discursiva. A ênfase é, então, o texto: sua produção, sua distribuição e seu consumo (FAIRCLOUGH, 2001, p. 99).
Essa concepção de Fairclough (2001) é compatível com a de Orlandi (1996a), que considera o texto como um recorte que se impõe em quaisquer dos pontos do discurso. Por causa disso, pretendo considerar também a da autora. Para ambos, o texto é parte do discurso, mas não se confunde com ele. É pelo e no texto que analisamos o discurso, que, por sua vez, o perpassa e o ultrapassa de muitas maneiras.
Outra concepção não apenas compatível, mas já assimilada por seguidores da ADC, é a compreensão de texto da perspectiva multimodal. Segundo Rocha (2012), o texto não é construído apenas por meio da escrita, mas pode se materializar por meio dela, da oralidade, da imageticidade, bem como da articulação ou da integração dessas modalidades da linguagem. Dessa maneira, são considerados, aqui, os textos orais, transcritos das entrevistas feitas com moradores e não moradores, as imagens e os textos oriundos da internet e a própria estrutura física do lugar, com seus lotes menores do que os de outras áreas de Taguatinga, suas ruas mais estreitas etc.
Podemos acrescentar, a essa visão, a de Halliday e Hasan (1990), que afirmam que não se pode tratar a teoria do texto como extensão da teoria gramatical. Devido à sua natureza de entidade semântica, um texto tem de ser entendido tanto como produto quanto como processo. Para eles, o texto é produto, por ser um resultado, uma construção que pode ser representada em termos sistemáticos: pode ser gravado e estudado, por exemplo. É processo, por ser continuamente constituído de escolhas semânticas, de movimento em uma rede de significados potenciais, com cada conjunto de opções que constituem os meios para um novo conjunto. Ou seja, o texto está sempre em movimento, não é estático; suas possibilidades interpretativas mudam, conforme se modificam as condições de leitura, que formam nova “rede de significados”, novas possibilidades de construção dos sentidos.
Na perspectiva sociossemiótica desses autores, o texto pode ser visto em seu aspecto “processo”, como um evento interativo, uma troca social de significados. Texto é uma forma de troca; e a forma fundamental de um texto é a de diálogo, de interação entre falantes. Mas cada tipo de texto, em todos os idiomas, é significativo. O texto, então, para Halliday e Hasan (1990), é tanto objeto quanto instância de significação social em determinado contexto. É produto de seu ambiente, em processo contínuo de escolhas.
Desse modo, o texto, ainda que seja uma totalidade coesa e coerente, é aberto e constitutivamente incompleto. É assim que uma abordagem discursiva vê. Ele é carregado de historicidade, mas não é um documento estático à espera de catalogação. Ele faz parte de uma rede de remissões a outros textos e a outros discursos. Seus enunciados remetem a outros enunciados. Todo texto se modifica ao ser lido, manipulado, descrito, impresso, catalogado etc.
Fairclough (2001, p. 99) assegura que verificar a intertextualidade é o modo de fazer a conexão dos processos de produção, distribuição e consumo do texto com o próprio texto. Além disso, considero que verificar a interdiscursividade — como propõe Orlandi (2001) — seja a maneira de chegar a discursos que são refletidos nos textos e refratados por eles, pois “a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam” (BAKHTIN, 2002, p. 41), já que “a palavra reflete sutilmente as mais imperceptíveis alterações da existência social” (BAKHTIN, 2002, p. 42).
A perspectiva do modelo interacional, como apresentada por Koch (2000; 2001; 2003), acrescenta ao texto a intencionalidade do sujeito, o que é compatível com o sujeito capaz de escolhas postulado pela ADC. A autora afirma que o texto é construto histórico-social complexo e multifacetado e propõe pensá-lo
como lugar de constituição e de interação de sujeitos sociais, como um evento, portanto, em que convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais (...), ações
por meio das quais se constroem interativamente os objetos-de-discurso e as múltiplas propostas de sentidos, como função de escolhas operadas pelos co- enunciadores entre as inumeráveis possibilidades de organização textual que cada língua lhes oferece (KOCH, 2003, p. 9)
As vozes intertextuais, interagentes, expressam suas intenções de mudança ou de preservação das relações sociais nos textos, que, se discursivamente “desvendados” (como diz KOCH, 2003), podem mostrar, além disso, as regularidades – e as irregularidades – relativas às identidades dos moradores do Chaparral e à sua apartação social (BUARQUE, 1993), o que faz parte dos objetivos desta tese. Nos dados gerados por este estudo, investigam-se os discursos a respeito do Chaparral que constituem tanto os textos dos moradores quanto os textos de não- moradores do lugar. Nos textos e por eles, os discursos se refletem e se refratam (BAKHTIN, 2002); ou seja, além de os discursos estarem refletidos nos textos, também neles se refratam, mudam de direção, a depender do modo como são articulados, de com que outros discursos são combinados, das vozes que se falam dentro de cada texto.
2.5.1 Intertextualidade
A intertextualidade — termo cunhado por Julia Kristeva, no seio da Teoria Literária, em 1966 (KOCH, BENTES e CAVALCANTE, 2007), para dizer que todo texto é uma espécie de “mosaico de citações” —, como todo vocábulo, tem sua própria história de construção, mudança, acréscimo de sentidos. O significado dessa palavra toma nuanças diversas, que têm em comum o efeito de sentido de “relação entre textos” (SANT’ANNA, 2000; KOCH, BENTES e CAVALCANTE, 2007).
Autores diferentes costumam tratar a intertextualidade como a relação entre textos, seja ela mais direta (explícita) ou menos direta (implícita) (SANT’ANNA, 2000). Na intertextualidade considerada explícita, a fonte é facilmente identificada, pois o texto novo estabelece relação direta com o texto fonte, por meio de remissões que seguem certas regras (citação, epígrafe, referências etc.) ou por ser este amplamente conhecido e lembrado. Na implícita, o texto fonte não é apresentado claramente por meio desses elementos, o que exige do leitor dedução e inferência a partir de conhecimentos prévios compartilhados com o autor. Muitas vezes, isso é feito pelo leitor sem que ele sequer perceba a ligação feita. Se, entretanto, ele não tiver esse conhecimento prévio necessário ao entendimento do dito, não achará graça de uma anedota, por exemplo, porque não chegará à compreensão dela.
Bakhtin (2002) afirma que os textos não existem nem podem ser compreendidos de modo isolado, uma vez que estão sempre em diálogo com outros. A Linguística Textual integra
essa visão dialógica de texto e, a partir disso, Koch, Bentes e Cavalcante (2007) mostram que há necessariamente a presença do outro em tudo o que é dito. De acordo com as autoras, qualquer texto está, pois, radicalmente conectado ao seu exterior, a outros textos, a outros dizeres. Para elas, essa conexão se faz pela intertextualidade: “em um texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade ou da memória discursiva (...) dos interlocutores.” (KOCH, BENTES e CAVALCANTE, 2007, p. 17)
Apesar disso, para fazer a distinção entre interdiscurso e intertextualidade, visto que ambos mobilizam sentidos, considero a intertextualidade como o diálogo entre dois ou mais textos, que não é estruturado pelo esquecimento (ORLANDI, 2001, p. 34). Entendo, pois, que na intertextualidade, o texto com o qual o novo texto faz a relação pode ser resgatado pelo leitor, conforme seu conhecimento de mundo compartilhado com o autor (KOCH, BENTES e CAVALCANTE, 2007).
Obviamente, nem sempre o conhecimento entre autor e leitor é completamente compartilhado, por causas históricas, sociais, geográficas (e outras), mas, se houver intertextualidade, há relação entre textos e o “original” pode, de algum modo, ser retomado, ainda que o leitor necessite de pesquisa ou de orientação para isso. Se a relação que mobiliza a construção dos sentidos está no campo do esquecimento, ela é interdiscursiva e determina o dito sem que os sujeitos necessariamente se deem conta. No intertexto, pelo menos o autor, frequentemente, tem consciência da ligação feita. A meu ver, porém, ainda que ele não tenha essa consciência, isso não significa que não haja intertextualidade, mas que, pelo menos para ele, a relação é interdiscursiva, não obstante seja intertextual para outros. Quando for esse o caso, considero a relação como intertextual (se o texto retomado for resgatável para mim).
Koch, Bentes e Cavalcante (2007) fazem a distinção entre intertextualidade intergenérica (intercâmbio entre diferentes gêneros textuais com o objetivo de produzir certos efeitos de sentido) e tipológica (sequências ou tipos textuais que permitem reconhecer um texto como pertencente a dada classe). Essas designações são produtivas para mim, pois trabalho com textos publicados na internet no terceiro capítulo desta tese. Para as análises, utilizo os conceitos, já mencionados, de campo, tenor e modo de Halliday e Hasan (1990) na busca de delimitar um pouco as condições de produção dos discursos e nelas entram classificações de gênero e tipo textuais específicos.
As autoras também distinguem a intertextualidade da polifonia, cuja construção, segundo elas, não necessita de textos efetivamente existentes, enquanto a intertextualidade
necessita. Considero, entretanto, que tanto a intertextualidade quanto a interdiscursividade, como entendidas neste estudo, podem ser compreendidas como tipos de polifonia, pois esta abarca não apenas o texto, mas todo o discurso. As autoras trabalham ainda o conceito de transtextualidade, que se divide em intertextualidade restrita, paratextualidade, arquitextualidade, metatextualidade e hipertextualidade (GENNETE apud KOCH, BENTES e CAVALCANTE, 2007), às quais não pretendo me ater.
2.5.2 Gênero textual
Para Marcuschi (2004/05), os gêneros surgem e operam socialmente como formas de controle social, político, ideológico, científico etc. O autor mostra que toda e qualquer atividade discursiva se dá em algum gênero, logo, eles são fundamentais para a interlocução humana. Eles são atividades discursivas até certo ponto socialmente estabilizadas que se prestam tanto ao controle social quanto ao exercício de poder. Não obstante, tanto para Fairclough (2003) quanto para Marcuschi (2004/5) essa estabilidade é relativa, pois é também histórica e mutável ao longo do tempo. Ainda conforme Fairclough (2003), novas tecnologias, por exemplo, trazem mudanças nas formas dos gêneros.
Também para Marcuschi (2004/5), a forma pode ser constantemente burlada e inovada, embora, muitas vezes, o suporte estabeleça uma influência que exorbite o próprio conteúdo: o mesmo artigo publicado em revista internacional ou em revista regional de pouca circulação é visto e avaliado diferentemente. Portanto, afirma o autor, há algo mais do que gênero em questão, há relações de poder que atuam por meio dos gêneros.
Marcuschi parte do pressuposto de que, apesar de a sociedade nos moldar sob vários aspectos e nos induzir a determinadas ações, o controle social exercido pelos gêneros textuais não é determinista. Os gêneros são instrumentos da máquina sociodiscursiva, cujos domínio e manipulação dependem da forma de inserção e de poder social, ou seja, de quem tem poder para dizer o que é dito sob determinada forma: expedir diplomas, carteiras de identidade, alvarás de soltura, portes de arma, escrever reportagens jornalísticas, teses de doutorado, fazer conferências, dar aulas expositivas, decretar leis etc. Os textos dos autores analisados nesta tese têm “pesos” diferentes, pois uma notícia de jornal de grande circulação certamente tem mais poder e exerce mais influência do que um post de blog ou um comentário em site.
Com as possibilidades atuais, entretanto, ter a capacidade de agir socialmente por meio de gêneros textuais não é prerrogativa de quem tem mais poder econômico e social. Depois do advento da internet, pessoas de todos os tipos e lugares podem fazer isso. Lemos (2011a, b e
c), por exemplo, escolheu agir. Por meio da internet, em dois gêneros distintos, embora parecidos para efeitos de sua intencionalidade — o post de blog e o comentário em site (que, no caso de Lemos, se assemelha ao post) —, o autor interagiu socialmente para falar do Chaparral.
Para conviver socialmente é preciso ter conhecimento de que gênero usar em cada contexto social, do que confere valor aos gêneros, que funcionam como sistemas de coerção. Igualmente ocorre quanto à distribuição dos gêneros na sociedade. Eles são padrões comunicativos socialmente utilizados, que, similarmente às regras de etiqueta, funcionam como modelos comunicativos globais e dependem de conhecimento social situado (MARCUSCHI, 2004/5). Como parte das condições de produção dos discursos estudados nesta tese, a capacidade de os sujeitos sociais interagirem por meio de gêneros textuais para atuarem sobre os demais é bastante relevante, pois é a diferença entre poder e não poder dizer. Morador da periferia e ex-morador de invasão de área pública, Lemos, por exemplo, pôde falar a respeito do Chaparral, pois entendeu o funcionamento do post de blog e do comentário.