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Environnement : deuxième itération de la PHASE B

6.3. Diagnostic informationnel

6.3.1. Environnement : deuxième itération de la PHASE B

Nesta investigação, aparece como um procedimento metodológico central a operacionalização da técnica de análise de conteúdo – entendida enquanto “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens” (Bardin, 1979 [1977]:42), tendo como propósito o estabelecimento de categorias, com a finalidade de analisar sistematicamente os dados a partir dos documentos seleccionados (Judith Bell, 1997:97).

Partimos do princípio, genérico, que “ o motivo para submeter a análise de conteúdo aos meios de comunicação de massas é que estes (…) reflectem ordenamentos institucionais (socioeconómicos) da sociedade, são elementos poderosos que moldam a opinião pública e podem encerrar uma relação causal com diversas características sociais” (Klaus Krippendorf, 1997:253), na convicção que a análise de conteúdo é “uma técnica de investigação que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto” (Vala, 1986: 103), sendo que, como sublinha Bardin (1977), é a inferência que permite a passagem da descrição à interpretação, enquanto atribuição de sentido às características do material que foram levantadas, enumeradas e organizadas. Subscrevemos Jorge Vala, ao considerar que “ (…) o material sujeito à analise de conteúdo é concebido como o resultado de uma rede complexa de condições de produção (…) Trata-se da desmontagem de um discurso e da produção de um novo discurso através de um processo de localização-atribuição de traços de significação, resultado de uma relação dinâmica entre as condições de produção do discurso a analisar e as condições de produção da análise (Vala, 1986:104).

Desde o primeiro momento assumimos que a utilização desta técnica seria imprescindível, pois só ela permitiria reconstruir as representações sobre a política ocultas nos discursos dos colunistas, através de procedimentos que ambicionassem tornar objectivos dados da subjectividade, objectivando aquilo que é, intrinsecamente,

subjectivo, como a expressão de uma opinião. Mas se desde sempre estivemos cientes que não só não é uma tarefa fácil como também está envolta, na comunidade científica, em controvérsia, no decorrer da investigação avolumaram-se as dúvidas e as dificuldades aumentaram. De entre elas, a mais significativa consistiu no questionamento se não estaríamos, ao invés, a arriscar decisões e operações eminentemente subjectivas na (vã) tentativa de captar algumas dimensões do real, que só não se tornam “objectivas” porque não conseguíamos obter a “grelha de análise” adequada para as interpretar (ver anexo 4).

São pertinentes os argumentos daqueles que têm uma atitude de desconfiança face à análise de conteúdo tradicional. De acordo com Hackett, a primeira crítica que se pode fazer a esta técnica é a de que ela tem mais em conta a repetição dos significantes denotativos repetidos do que a procura do código subjacente que utiliza os significantes; sendo que a limitação à denotação não deixa, igualmente, de ser uma falha, na medida em que se presume que a denotação não é problemática, que é universal, e que os significantes querem dizer a mesma coisa coisa para toda a gente ([1984] 1999:116).

O mesmo autor sustenta que a análise de conteúdo está associada à problemática da parcialidade, basicamente por três ordens de razões: porque a parcialidade é, muitas vezes, concebida em termos quantitativos (a extensão da coluna, as proporções de afirmações “favoráveis” e “desfavoráveis feitas acerca de alguém, etc..), o que favorece a adequação da metodologia da análise de conteúdo (ao pretender quantificar); porque se observa em grande parte da pesquisa uma pressuposição behaviorista residual segundo a qual a repetição das unidades de conteúdo está associada ao impacto na audiência (pelo que a tabulação de frequências é suposta ser um indicador útil da mensagem que o público está a receber);e porque, seguindo Sumner (1979:99), argumenta-se que apesar das suas pretensões esporádicas a ser uma técnica neutral de descrição, o verdadeiro objecto da análise de conteúdo é a mensagem intencional e os motivos do comunicador. (Hackett ( [1984]1999: 114)

Como nota ainda Hackett, o interesse crescente na ideologia e a consequente desvalorização da parcialidade têm estado associados à emergência de novos métodos de interpretação dos textos mediáticos, sobretudo aqueles inspirados na semiótica ou na análise estrutural. Os seus proponentes desafiam os propósitos científicos da análise de

conteúdo, argumentando que é totalmente insuficiente estudar o modo como a ideologia estrutura as mensagens mediáticas. Isto acontece, em parte, porque a análise de conteúdo só lida com o conteúdo manifesto, com significantes denotativos ([1984] 1999: 115).

Assim, contra a restrição da análise de conteúdo aos significantes denotativos, a semiótica insiste na importância do signo em toda a sua complexidade, e na estruturação interna de um texto ou mensagem (Woollacott, 1982:94-95, cit por Hackett (Idem ), reivindicando a necessidade de uma técnica de “análise imanente”, na qual “se observe um dado sistema do interior” (Barthes, 1967:96) (uma vez que se considera que a análise de conteúdo viola o princípio de imanência ao inferir a apartir do conteúdo manifesto da mensagem, linearmente, os motivos psicológicos ou a posição social do emissor, ou o seu impacto comportamental no receptor). A analise estrutural procura identificar relações consistentes entre os signos, entendendo a relação com o texto mais como um todo estruturado do que com uma “série de componentes fragmentados”– “os códigos culturais (análogos às línguas) que estabelecem as combinações possíveis de elementos que geram significado num texto particular ou num conjunto de textos são o objecto de análise” (Hackett, [1984]1999: 115).

É neste sentido, de renitência face aos procedimentos da análise de conteúdo, que também vão os argumentos de José Rebelo que, corroborando algumas das críticas a esta técnica, cita Greimas: “ (...) fabricando grelhas de leitura, decide, antecipadamente, sobre o que considera importante” (1988:36). Mas não são estes procedimentos, assentes em escolhas (ainda que nesta técnica concreta, incidindo sobre as operações de categorização, as unidades de conteúdo, a fixação de regras..) transversais a toda a investigação científica em ciências sociais? Sendo incontornáveis, não são os seus efeitos minimizados pelo constante exercício de vigilância epistemológica?

Na análise de conteúdo, como nas demais técnicas, encontram-se respostas em função das perguntas que se colocam – “Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta” (Sousa Santos, 1987:48) – há, pois, que “interrogar” o texto, accionar um código que permita aceder a esse outro código que configura o texto opinativo. Deste modo, assumimos, na esteira de Berelson(1968), que

a análise de conteúdo, em grande medida “vale pelas suas categorias” e que estas são o reflexo das hipóteses do investigador.

É iniludível que o texto, tal como outros “factos sociais”, surgem-nos “indefesos” e o exercício do nosso poder sobre ele revelava-se desigual. Na operacionalização da análise de conteúdo, no contexto desta investigação, não raramente emergiu um certo pavor pela “familiaridade” e pelos “pré-conceitos” que duvidávamos ter em relação ao objecto de estudo. A esta inevitabilidade e à procura do “rigor” e da “objectividade”, que às vezes nos pareciam ressuscitar as pretensões ingénuas do empirismo e do positivismo, foi preciso (tentar) responder com uma práxis que assentasse no repensar cauteloso e permanente de todas as nossas opções, através de um controle que se pretendeu racional, assente numa ruptura contínua e sistemática com os “obstáculos” com que nos íamos deparando.

Por um lado, é certo que também nos parece absurda a identificação entre a frequência e importância que os autores críticos da análise de conteúdo denunciam, na medida em que também concordamos que o mais importante nem sempre é o que se repete mais vezes ou grita mais alto – nos argumentos da abordagem semiótica: “não há razão para se considerar que o item que se repete mais frequentemente é o mais importante ou o mais significante, pois um texto é, evidentemente, um todo estruturado, e o lugar ocupado pelos diferents elementos é mais importante do que o número de vezes que eles se repetem (Burgelin, 1972:319) –razão pela qual recusamos a análise de conteúdo de cariz exclusivamente quantitativo, preferindo uma análise de natureza qualitativa, na qual o principal objectivo é “capturar o sentido, a ênfase e os temas das mensagens e perceber a organização e o processo em como se apresentam” (Altheide,1996:33).

Por outro lado, temos como paradoxal a defesa da análise que pretende ir para além dos “conteúdos manifestos”, que incida no “não-dito”, no “implícito”, no acto ilocutório39 - esses sim, por mais relevantes que, em tese, possam ser, são domínios de manifesta dificuldade de operacionalização metodológica, onde é expectável a expressão de todas as subjectividades do investigador, desde os procedimentos meramente intuitivos até

39 Recorrendo a Austin (1970), precisaríamos que o acto ilocutório revela, numa situação de

comunicação, a intenção do enunciador, enquanto que o acto locutório exprime o conteúdo da enunciação e o acto perlocutório o efeito produzido no enunciatário

aos desvios na interpretação, ao perigo da circularidade, isto é, a análise poder ser influenciada por aquilo que o investigador entende da significação da mensagem.

Assim, reiteramos o que Holstoi (1968:600) não escamoteia: “O requisito da objectividade estipula que sejam registados apenas aqueles simbolos e combinações de simbolos que aparecem, de facto, na mensagem. Por outras palavras, o processo de codificação não pode ser o de “ler nas entrelinhas”. Nesse sentido, a análise de conteúdo está limitada aos atributos manifestos no texto” (Holstoi, 1968:600).

A dualidade da perspectiva aqui defendida faz antever o compromisso e o equilíbrio que perseguimos ao longo da análise de conteúdo das colunas de opinião, procurando a conciliação entre “posturas”, no essencial, antagónicas: entre a assunção de pressupostos da análise de conteúdo dita tradicional e de outros vindos justamente de perspectivas que o contestam, entre a recusa do meramente quantitativo e a crítica ao qualitativo que perca de vista o rigor e a objectividade.

Recusámos procedimentos mais próximos da linguística, como a análise léxica e sintáctica através de indicadores como “ o número total de palavras ou ‘ocorrências’; o número total de palavras diferentes ou ‘vocábulos’; (...) a relação ocorrências/vocábulos, dá conta da riqueza (ou da pobreza) do vocabulário utilizado pelo autor da mensagem (...) palavras plenas, isto é palavras ‘portadoras de sentido’: substantivos, adjectivos, verbos; palavras instrumentais, isto é, palavras funcionais de ligação: artigos, preposições, pronomes, advérbios, conjunções, etc; a frequência dos verbos por modo” (Bardin, 82-88). Mais à frente, neste texto, ficarão claras também as nossas objecções à análise do discurso.

Procurámos, então, “procedimentos” que consideramos mais adequado para efectuar a démarche da análise de conteúdo, numa tentativa, também ela dupla: “ (…) compreender o sentido da comunicação (como se fosse o receptor normal), mas também e principalmente desviar o olhar para uma outra significação, uma outra mensagem entrevista através ou ao lado da mensagem primeira (…) Não se trata de atravessar significantes para atingir significados, à semelhança da decifração normal, mas atingir

através de significantes ou de significados (metodologicamente manipulados), outros “significados” de natureza psicológica, sociológica, política, histórica, etc.» (Bardin, 1979 [1977]:41).

Deste modo, o texto suporte – a coluna de opinião – foi sendo sujeito a “depurações” e “re-categorizações”, impondo-se, em cada momento, que essas operações não descontextualizassem ou alterassem o sentido das mensagens expressas na coluna de opinião e conduzissem à confirmação ou infirmação das questões teoricamente colocadas.

Foi essencial executar as operações que os manuais aconselham: 1ª- delimitação dos objectivos e definição de um quadro de referência teórico orientador da pesquisa; 2ª- constituição de um corpus; 3ª- definição de categorias; 4ª definição de unidades de análise; 5ª- elaboração de um conjunto de procedimentos que permitam assegurar a validade do ponto de análise de conteúdo; 6ª o tratamento dos resultados.

Os critérios utilizados na selecção do corpus empiricus foram:

a) Colunas de colunistas que não exerciam actividade político-partidária;

b) Colunistas que registaram maior regularidade/presença no período em que incide a análise;

c) Colunas que abordaram temas relacionados com a actividade política portuguesa;

d) De entre os “editorialistas” de cada jornal (no caso dos diários, onde não é sempre a mesma pessoa que os escreve) aqueles que assinaram o maior número de editoriais.

Público D.Notícias Expresso Independente NºItems Jornal Nome Colu na Editori al Colu na Editori al Colu na Editori al Colu na Editori al Alfredo Barroso X 19 António Barreto X 22 António J.Teixeira X 19 Constança C. e Sá X 8 E. Prado Coelho X 102 Editorial (equipa) X 24 Henrique Monteiro X 14

Inês Serra Lopes X 20

José António Saraiva X 22

José Júdice X 20

José M. Fernandes X 66

Luís Delgado X 92

M. Sousa Tavares X 16

M.Villaverde Cabral X 18

Maria João Avillez X 18

Mário B. Resendes X 36

V.Pulido Valente X 35

Vítor Cunha X 15

As “unidades de registo”40 consideradas foram as afirmações/considerações (frases, parágrafos, muitas vezes a totalidade do texto, fundindo-se nas “unidades de contexto”41) sobre a grande temática “politica nacional” contidas nas colunas ou no editorial, identificando-se os temas e as “avaliações” produzidas sobre eles.

40 A unidade de registo «é a unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento de conteúdo a

considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial.” (Bardin:104).

41 A unidade de contexto «serve de unidade de compreensão para codificar a unidade de registo e

corresponde ao segmento da mensagem cujas dimensões (superiores às da unidade de registo) são óptimas para que se possa compreender a significação exacta da unidade de registo. Isto pode, por exemplo, ser a frase para a palavra e o parágrafo para o tema» (Ibidem:107).

Na verdade, a noção de tema, sendo largamente utilizada em análise temática, é característica da análise de conteúdo (Bardin: 105), definindo-se, segundo Bereleson, como “uma afirmação acerca de um assunto. Quer dizer, uma frase, ou uma frase composta, habitualmente um resumo ou uma frase condensada, por influência da qual pode ser afectado um vasto conjunto de formulações singulares” (cit Bardin:105). Na alusão de M.C.d’Urung, o tema é “uma unidade de significação complexa, de comprimento variável; a sua validade não é de ordem linguística, mas antes de ordem psicológica: podem constituir um tema, tanto uma afirmação como uma alusão; inversamente, um tema pode ser desenvolvido em várias afirmações (ou proposições”(cit Bardin:105). O tema, como adverte Bardin (106) é geralmente utilizado como unidade de registo para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências.

Deste modo, e na esteira também de Bardin, consideramos que fazer uma análise temática, consiste na descoberta de “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença ou frequência com que aparecem pode significar alguma coisa para o objectivo analítico escolhido (Idem:105).

Para operacionalizarmos a “análise temática” e ir de encontro aos “núcleos de sentido”, construiu-se uma “grelha de análise” que permitisse aceder à resposta à seguinte interrogação: "que representações são veiculadas na opinião publicada acerca da política nacional?", Nela, construíram-se as seguintes “categorias”: tema/problemática; pessoas/instituições referidas; aspectos negativos (desfavoráveis) e aspectos positivos (favoráveis) apontados, por referência ao tema e pessoa ou instituição abordados; propostas apresentadas (tendo por referência os aspectos referidos); caracterização/avaliação dos políticos e/ou da praxis política; propostas/reflexões sobre a melhoria das prestações políticas.

Interessou-nos centrarmo-nos nos “temas” e no modo como os diversos actores (colunistas), ao longo do período analisado, os abordaram ou ignoraram, procurando identificar “regularidades” – são abordados os mesmos temas, durante certos períodos? Qual a duração desses espaços temporais? As opiniões são similares, há unanimidades

– e “singularidades” – há temas tratados só por um ou poucos colunistas? Há diversidade de “pontos de vista”? Numa palavra, em que moldes foi sendo feita a abordagem da política nacional, em alturas tão particulares e “sensíveis”como as de pré-campanha e campanha eleitoral? Tentámos reconstruir um certo “clima de opinião” que os diversos textos foram gerando. Por isso, não nos interessou direccionar a atenção para cada colunista, per si, mas antes para o conjunto atrás apresentado. A construção de categorias de análise mais específicas só foi possível efectuar-se à posterior, depois de pré-analisado todo o corpus empiricus.