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No intuito de apresentar os sujeitos entrevistados, fazemos, então, nesta parte inicial das análises de seus relatos e a partir das informações por eles fornecidas, uma descrição geral do grupo dos alunos entrevistados.

Quanto ao percurso escolar desses alunos, de forma geral, não há diferenças relevantes. Todos eles cursaram pelo menos um ano de pré-escola ou Ensino Infantil e, exceto por Viviane – que havia abandonado a 1ª série (hoje 2º ano) do EF, por motivo que declara ter sido de saúde –, os alunos entrevistados nunca passaram por reprovações.

Quanto à idade, como podemos acompanhar através da Tabela 25 abaixo, três alunos da escola privada estavam com 12 anos e apenas um, Gabriel, contava com 11 anos no momento da pesquisa – mas iria completar 12 anos até o final daquele ano. Já entre os alunos entrevistados da escola pública, os três meninos tinham 12 anos, Viviane estava com 14 e Daniela, assim como Gabriel, estava com 11 anos.

Tabela 25 – Idade, situação e composição familiar dos alunos entrevistados Alunos

Entrevistados

Idade (em anos) Situação Familiar37 Nº de Irmãos

11 12 14



0 1 2 5 Ricardo x x x Fábio x x x João x x x Viviane x x x Daniela x x x Gabriel x x x Marcos x x x Luana x x x Elisa x x x Total Esc.Púb. 1 3 1 3 1 1 1 1 2 1

Total Esc. Priv. 1 3 - 3 1 - - 4 - -

TOTAL de alunos 2 6 1 5 3 1 1 5 2 1

Fonte: Entrevistas individuais, levantamento de campo, 2007.

37 Legenda: = Pais moram juntos ou são casados e aluno mora com eles; 

= pais separados, mas já conviveram antes e aluno mora com a mãe; = pais nunca foram casados e aluno sempre morou com a mãe.

Quanto à situação familiar, também apresentada na Tabela 25, vemos que, considerando o grupo de entrevistados de cada escola como um todo, há um equilíbrio quanto à distribuição desse dado entre o grupo da escola particular e o da escola pública. Mas há diferenças importantes quando olhamos cada caso em particular.

Fábio, Viviane, Daniela (alunos da escola pública) e Gabriel, Luana e Elisa (alunos da escola privada) moram com seus pais, que são casados, e irmãos. Desse grupo, a família de Fábio tem uma característica diferente: sua mãe separou-se de seu pai há muito tempo e também há anos vive com o seu novo marido, que é padrasto dos seus filhos e por eles considerados como um pai.

João, da escola pública, e Marcos, da escola privada, moram apenas com a mãe, já que seus pais são separados, mas chegaram, quando pequenos, a morar com os dois, enquanto viveram juntos. Ricardo é o único aluno do grupo todo que nunca viveu com o pai. Ele mora somente com a mãe, pois seus pais nunca foram casados ou viveram juntos.

Quanto ao número de irmãos, há maiores diferenças entre os grupos de alunos de cada escola. Os quatro alunos da escola particular têm todos apenas um irmão (ou irmã). Portanto, a constituição de suas famílias segue certo padrão: famílias pequenas, constituídas por dois filhos apenas. Já as famílias dos cinco alunos da escola pública apresentam uma boa variação quanto a esse dado. Ricardo pode ser considerado filho único, porém, tem três irmãos que não conhece e que moram com o pai – com quem nunca viveu. Daniela tem dois irmãos, mas moram em outra cidade – onde ela vivia até então com a avó e primos, antes de vir para São Paulo morar com os pais. João tem uma irmã mais velha que já se casou e saiu de casa. E há Viviane que tem uma família bem grande, composta de 4 irmãos consangüíneos e um adotivo, totalizando cinco irmãos. Nem todos da sua família moram juntos, sendo que as pessoas que moram em sua casa são: um irmão, a cunhada e o filho pequeno deles, uma irmã, outro sobrinho – que é filho de uma outra irmã mais velha que está em tratamento para dependência química (drogas) – , sua mãe e seu pai.

Completando e esclarecendo o quadro anterior, a Tabela 26, a seguir, apresenta a escolaridade, a profissão e a idade dos pais desses alunos, o tipo de moradia em que os alunos moram e quem exatamente mora com eles.

É interessante observar, quanto à profissão e escolaridade dos pais e tipo de moradia em que vivem, a semelhança desses dados entre os alunos pertencentes a uma mesma escola e sua diferença quando comparamos o grupo da escola pública com o da escola privada.

Tabela 26 - Perfis das famílias dos alunos entrevistados

Fonte: Entrevistas individuais, levantamento de campo, 2007.

Alunos Profissão Escolaridade Idade Mora com Tipo de moradia Escola Pública

Ricardo

Mãe Leiloeira ES incompleto 37

Mãe alugado Apto. 2 dorm.

Pai Dono de micro-

empresa de peças metalúrgicas

Não sabe 40

Fábio

Mãe Bombeira EM completo 30 Mãe, padrasto

e 2 irmãs de 8 e 2 anos

Apto. alugado 2 dorm.

Padrasto Maître EF completo 38

João

Mãe Enfermeira Não sabe

(EF completo?) 46 Mãe Apto. próprio 1 dorm. Pai Caldeireiro – funcionário de uma fábrica Alfabetizado 42 Viviane

Mãe Dona de casa, ex-

enfermeira EM completo 45 irmão e irmã, Mãe, pai, cunhada e 2

sobrinhos

Apto. alugado 1 dorm. Pai Chefe de cozinha EF incompleto 42

Daniela

Mãe Cabeleireira EM completo 34

Mãe e pai alugado - Apto. quitinete

Pai Dono de micro-

empresa de pintura de imóveis

ET incompleto 37

Escola Privada

Elisa

Mãe Secretária ES completo 41

Mãe, pai e irmão bebê Apto. próprio 3 dorm. Pai Representante comercial (administrador de empresa) ES completo 47

Marcos Mãe Dona de loja EF completo 44 Mãe e irmã de 13 anos alugado Apto. 3 dorm.

Pai Engenheiro ES completo 65

Luana Mãe Vendedora de componentes para computador – autônoma ES incompleto 38 Mãe, pai e irmão de 6 anos Apto. alugado 4 dorm

Pai Dono de micro-

empresa de produtos alimentícios

EM completo 42

Gabriel

Mãe Design de jóias ES completo 50 Mãe, pai e

irmã de 17 anos

Apto. próprio 4 dorm.

Assim, em termos de escolaridade, os pais dos alunos da escola pública têm no máximo, em sua maioria, o Ensino Médio completo. Somente a mãe de Ricardo chegou a ingressar numa faculdade, mas abandonou-a logo no início.

Já os pais dos alunos da escola privada têm, a maioria, o Ensino Superior completo. Apenas a mãe Marcos estudou somente até concluir o Ensino Fundamental e a de Luana até o final do Ensino Médio.

Quanto às profissões exercidas, pode-se dizer que os pais dos alunos da escola pública exercem profissões com menor prestígio e remuneração que os pais dos alunos da escola privada – o que era esperado, já que as despesas financeiras para manter um filho estudando numa escola privada não são pequenas.

Quanto ao tipo de moradia em que vivem as famílias dos alunos entrevistados, há uma grande diferença entre os grupos das duas escolas. Enquanto os alunos da escola pública moram em apartamentos pequenos – na maioria dos casos alugados, com um ou dois quartos no máximo e, no caso de Viviane, comportando diversas pessoas –, os alunos da escola privada moram com poucas pessoas em apartamentos de alto padrão, geralmente próprios e bem grandes – com três ou quatro quartos. Assim como as profissões exercidas por seus pais, o tipo e as condições de moradia do aluno revelam a situação sócio-econômica de sua família – e há uma notável diferença quanto a isso entre os alunos da escola pública e privada.

Em relação ao dia-a-dia dos alunos, também existe diversidade, mas há algumas semelhanças interessantes, que merecem ser destacadas.

Quanto às diferenças, algumas delas tangem aspectos que parecem mais relacionados à condição econômica das famílias dos alunos do que a qualquer outro motivo. Assim, os alunos da escola pública, tanto meninos quanto meninas, têm obrigações e responsabilidades com o cuidado e limpeza da casa – ajudam a mãe nos afazeres domésticos e a maioria sabe cozinhar, sendo que, em alguns casos, são eles os responsáveis por preparar as refeições da família. Já as famílias dos alunos da escola privada têm empregadas domésticas que realizam todos os serviços da casa – raramente eles comentam sobre esses afazeres, com exceção de algumas meninas que dizem saber cozinhar alguns pratos (geralmente doces) e o fazem apenas eventualmente. Para ir à escola os alunos da escola privada, mesmo morando nos arredores dessa, vão sempre de carro, levados por seus pais, ou, mais raramente, pela perua ou microônibus escolar – que os pega e os deixa em casa, após o término das aulas. Os alunos da escola pública, por sua vez, vão todos a pé e sozinhos ou com colegas que encontram no caminho – e muitas vezes são eles os responsáveis por levar os irmãos mais novos até suas próprias escolas. E no contra-turno do horário das aulas, a maioria dos alunos entrevistados da

escola pública declara que gosta de ir para lá. Muitos fazem vôlei ou futebol e são atletas das equipes do colégio, outros vão para lá para praticar esses esportes por lazer e para encontrar os amigos (as aulas de Educação Física são ministradas no mesmo período que as outras aulas). Entre os alunos da escola privada são poucos, no entanto, que vão para a escola, para praticar esportes ou realizar quaisquer outras atividades no período em que não estão em aula.

Há, no entanto, algumas atividades e práticas comuns entre os alunos das duas escolas que parecem bastante significativas. Por exemplo, muitos deles têm celular e computador em casa; quase todos gostam de navegar na Internet, comunicarem-se por email ou através de sites e “comunidades virtuais” de encontros e conversas (Orkut, MSN, “fakes”, etc.); geralmente brincam no prédio onde moram; muitos fazem algum tipo de curso (línguas, informática, artes do corpo, esportes) no contra-turno do horário escolar; e todos os meninos dizem que jogar videogame é a atividade de lazer que mais gostam. Essas práticas, compartilhadas por alunos pertencentes a grupos sócio-econômicos tão distantes, revela, de certa forma, a cultura infantil, a cultura da idade, de uma geração urbana, que vive numa grande metrópole.