Capítulo 2. Empoderamiento en la sociedad en redsociedad en red
2.2 Nuestra comprensión de empoderamiento
Nos últimos anos, a nova realidade comunicacional, que permite manifestações como
Perdi meu amor na balada e as “fábricas de memes”, impõe desafios para pensar
comunicação e educação. Com as mudanças significativas nos mecanismos de produção e circulação simbólica, há reconfigurações na forma como as redes sociais e manifestações contemporâneas, incluso os memes, adentram a escola em comparação a veículos como TV, jornal e rádio. Para Martín-Barbero (2014), o movimento se caracteriza por “deslocalizações e
destemporalizações” em razão da crescente presença das tecnologias digitais.
Menos ligadas ao conteúdo que aos modos de elaboração e compreensão, a aprendizagem escapa agora também das demarcações de idade e das demais delimitações temporais que facilitavam sua inscrição em um só tipo de lugar, agilizando seu controle. A educação continuada ou a aprendizagem ao longo da vida, exigida pelos novos modos de relação entre conhecimento e produção social, as novas modalidades de trabalho e as reconfigurações dos ofícios e profissões, não significam o desaparecimento do espaço-tempo escolar. Mas as condições de existência desse tempo, e de sua particular situação na vida, se veem transformadas radicalmente não só porque agora a escola tem que conviver com saberes-sem-lugar-próprio, mas porque inclusive os saberes que nela se ensinam encontram-se atravessados por saberes do ambiente tecnocomunicativo regidos por outras modalidades e ritmos de aprendizagem que os distanciam do modelo de comunicação escolar. (MARTÍN-BARBERO, 2014, p. 83).
Na mesma direção que Martín-Barbero e a partir de reflexões sobre as mudanças experimentadas na educação formal no contexto contemporâneo, Citelli (2015) aponta que os “processos de comunicação, as redes digitais, as mídias móveis, passaram a desempenhar papel decisivo para a vida associada, deixando o lugar de instrumentos ou veículos para se constituírem em tecnologias digitais” (CITELLI, 2015. p. 73). Para o autor, os vínculos entre a educação e a nova realidade comunicacional, resultado do impulso veloz das tecnologias digitais, devem ser refletidos a partir das mediações de um olhar ecossistêmico na organização da vida contemporânea.
Não há sentido prosseguir em dualismos do tipo tecnofobia contra tecnofilia, pois os arranjos ecossistêmicos entre maneiras de ser e estar e os mecanismos expressivos tanto se delineiam como se re-configuram nas dinâmicas que marcam a cultura. Assim como a revolução industrial criou as suas marcas econômicas, sociais comportamentais, valorativas, e de organização das escolas, também a chamada alta modernidade vem provocando a maturação de novas sociabilidades e, consequentemente, requisitando outras maneiras de situar a educação formal no interior dos descentramentos tecnocomunicativos (CITELLI, 2015, p. 73).
Setton (2014), que discute a inserção da mídia na escola, dialoga com as perspectivas de Martín-Barbero e Citelli, indicando que as maneiras como nos posicionamos frente ao mundo e como orientamos nossas ações sofreram transformações com a incessante influência dos meios de comunicação no cotidiano. Para a autora, somos cada vez mais interpelados pela cultura da mídia, que “compõe o imaginário e a vida prática de todos” (SETTON, 2014, p.
23), especialmente os jovens e o universo escolar, que convivem de forma mais intensa com as mudanças.
Para a autora, a influência dos meios de comunicação não pode ser reduzida à mera manipulação ou distorções na formação dos estudantes, o que rotineiramente, ela afirma, acontece. A mídia deve integrar a teia de relações que estabele frente ao cotidiano escolar, nas sociabilidades e na percepção de realidade. Os produtos culturais contemporâneos — e, claro, podemos incluir os memes —, para Setton (2014), são responsáveis pela circulação e produção de linguagens que integram à vida social, com implicações diretas às formas de se relacionar com a realidade.
O objetivo ao mencionar os referidos autores é ter uma visão abrangente da tradição intelectual que nos orienta sobre como a comunicação adentrou o território da educação. Evidentemente as citações são indicativos da orientação teórica de cada um. O reducionismo não objetiva transformar em fragmento o trabalho dos teóricos, mas sim enaltecer, mesmo que brevemente, a proximidade em torno do conceito de ecossistema comunicativo, que conduziu a construção de nosso objeto de pesquisa.
Ora, pensar os movimentos em redes digitais é para a Educomunicação, portanto, entender as plataformas digitais como espaço de relações sociais. Logo, um estudo sobre memes no contexto infanto-juvenil implica compreender que tratamos das dinâmicas culturais dos jovens sob novos parâmetros comunicacionais, com novas modalidades temporais e de espaço que reconfiguram o cotidiano de todos (SETTON, 2014).
Para Citelli, trabalhar com Educomunicação frente ao cenário contemporâneo exige uma compreensão mais abrangente sobre a nova realidade comunicacional, geradora de novos “processos constituidores de sentido”:
Trata-se, em última instância, de instaurar uma prática de busca e entendimento dos processos constituidores dos sentidos, algo comprometido com o encontro das estruturas significativas, sejam elas de puro deleite, prazer difuso provocador de riso, sobriedade analítica ou mesmo a necessária resposta social que pede a participação e envolvimentos transformadores. (CITELLI, 2004, p. 17).
Os memes na internet constituem um das principais expressões do que Citelli classifica como processos constituidores de sentido. Tratamos de um elemento significativo para analisar as dinâmicas que reconfiguram a forma como jovens interagem com e nas
tecnologias. Apropriados em larga escala, os memes sintetizam o momento histórico de transformações em que comunicação passou a tensionar em termos de produção, circulação e recepção dos bens simbólicos. Tratar de memes é, em última instância, investigar esse território de transformações e analisar que tipo de apropriação esses jovens estão desenvolvendo.
Tal mudança metaforiza a crescente importância da comunicação enquanto agência socializadora. A comunicação, como nunca antes na história da humanidade, passa a ser desenvolvida velozmente e intensamente dentro da internet, tendo os atores sociais como protagonistas dos processos comunicativos. É o novo contexto que privilegia o “usuário comum” — termo que será explicado na definição sobre o que é cibercultura.
Não se trata de cultuar as novidades do mercado digital em que todos podem consumir e produzir. Assim como não pretendemos descartar ou, pior, condenar a tradição e os métodos do universo escolar em favor dos memes. O que buscamos é a compreensão das contradições e dos jogos de linguagem que compõem as representações e as percepções presentes nas redes sociais e que passam a integrar o cotidiano da escola.
Partimos da premissa que a Educomunicação, como tentamos demonstrar, não serve apenas para ensinar a usar o Facebook em sala de aula ou como criar estratégias de engajamento e alcance orgânico nas redes sociais — o que seria uma apropriação instrumental dos processos comunicativos. O propósito é, a partir da utilização dos meios técnicos, sejam eles quais forem — do WhatsApp à fita cassete —, propiciar o uso consciente e crítico para buscar transformações no mundo. Isso não pode ser confundido com tecnofobia ou aversão às possibilidades oferecidas pelas novidades.
Negar ou demonizar o jogo de representações e linguagens que circulam nas redes sociais ou numa poderosa tecnologia que surge na próxima semana, fazendo sucesso avassalador entre crianças e adolescente — um bom exemplo é o fenômeno Pokémon Go 27
27 Em meados de 2016, o lançamento do jogo para celulares Pokémon Go no Brasil causou alvoroço entre
jovens, pais e sistemas de ensino. Configurado para que os jogadores caçassem — via GPS — os pequenos objetos virtuais pelas ruas das cidades, o game despertou reações raivosas sobre as possíveis manipulações e ameaças que os jovens poderiam sofrer. Evidentemente há implicações socioculturais que devem ser discutidas, como, por exemplo, a privacidade e utilização de informações dos usuários ao navegar pelas cidades. Ou seja, até onde vai o limite dos interesses do capital financeiro frente às relações sociais. No entanto, e esse é motivo para citarmos Pokémon em nosso trabalho, condenar sumariamente o game e as crianças e os adolescentes por caçarem Pokémons é desperdiçar a oportunidade de compreender que tipo de apropriação os jovens estão fazendo da tecnologia. No jogo de linguagens, que vai do Pokémon Go a rodar peão nas ruas, é que os jovens constroem a própria cultura. Demonizar, seja qual for o processo, é jogar fora o bebê junto com a água do banho. Com o título 'Pokémon e o sequestro do desejo', reportagem da Carta Capital ilustra bem o episódio marcante do ano de 2016. Disponível em :<https://goo.gl/QZJoMC>. Acesso em 12 de abril de 2017.
—, é negar a produção simbólica que circula entre esses jovens. A possibilidade de melhores resultados passa, arriscamos dizer, pela compreensão da negociação de sentidos e da sintonia com aquilo que faz parte do cotidiano dos estudantes, ou seja, esse novo cenário comunicacional.
Os memes cumprem um papel fundamental nesse sentido, pois, sendo uma das expressões mais significativas produzidas na interação on-line, carregam em seu interior alto poder de síntese, como se fossem micronarrativas, apresentando, a partir de suas características de reprodução, discursos, representações e percepções das ideias que circulam na sociedade. São afetos e a própria trama cultural que circulam nas montagens e deboches memeais. Temos aí um material importante para compreender as dinâmicas contemporâneas.
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Definida a ênfase de nosso trabalho em termos de Comunicação e Educação, passamos a discutir como os memes têm resultantes diretas às sociabilidades contemporâneas. Para isso, definimos três categorias para melhor esclarecer: (1) o que são memes e qual a inserção destes no ciberespaço; (2) os memes como produto da sociedade contemporânea; e (3) cultura juvenil e o que significam os memes para as sociabilidades coetâneas.