Capítulo 6. Resultados de la investigación en las comunidades hackerinvestigación en las comunidades hacker
6.2 Educación hacker en sus contextos originales
6.2.2 Análisis cualitativa del cuestionario Comunidades Hacker
Alegria achareis neste poema como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória dura e acídula, como um homem se conhece respirando, ou como quando se entristece sem causa ou se doente, ou se lavando sempre ou comparando-se às dimensões das coisas relativas
Jorge de Lima
Nesse segundo anexo, constam integralmente os quatro livros publicados por Orlando Parolini, com as especificações deixadas pelo autor. Foram feitas, como descrito no anexo anterior, algumas alterações e mudanças mínimas (uma seção, alguns erros ortográficos), preparando o texto original datilógrafo para o (possível) leitor dessa tese. A grafia de todos os livros abaixo foi atualizada de acordo com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que vigora no Brasil desde o ano de 2009.
O texto foi estabelecido a partir de originais datilógrafos de Orlando Parolini – respeitou-se a vontade lúcida do autor, à exceção de algumas poucas emendas. Esses originais pertencem à coleção particular do editor Sergio Cohn196 – que gentilmente cedeu cópias xerográficas do material com o qual trabalhei aqui na tese. Não houve trabalho com variantes, pois os possíveis materiais com essas variantes não existem. Os poemas sem título têm sua(s) primeira(s) palavras grafada(s) em versalete. Vamos aos livros:
196 Em e-mail pessoal, Sergio Cohn explica que o “material entregue ao editor da revista Azougue, Sergio
Cohn, por Carlos Reichenbach, em 2001. Os originais haviam sido passados por Orlando Parolini ao próprio Reichenbach na virada dos anos 1990, e estavam guardados com ele desde então”. Em uma entrevista ao site Jornal de Poesia, Cohn fala da história da publicação de sua revista e, de quebra, um pouco sobre Parolini e as loucas aventuras de seus originais: “Então a gente começou a pensar no conteúdo da revista com outras perspectivas. Naquele primeiro número nós publicamos o Orlando Parolini, que era uma figura fantástica, um poeta que atuava nos filmes do Carlão Reichenbach, mas que nunca teve seus livros publicados em vida, e que era inteiramente desconhecido. Um dia eu estava de carro com o Daniel na avenida Paulista, e a gente vê o Carlão, que era um diretor já importante, esperando no ponto de ônibus, porque ele tinha a teoria de que cineasta de verdade tem que andar de ônibus, para ver as pessoas. Uma teoria que devia ser melhor difundida. E nós demos uma carona para ele, eu falei da revista, do meu interesse pelo Parolini, e no dia seguinte ele me dá uma pasta de textos do Parolini acompanhados por uma apresentação que ele tinha feito na época que o Parolini morreu, alguns anos antes.”. In: Jornal de Poesia. < http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag68revista03.htm> Acesso em: 10 de outubro de 2017.
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Poemas
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APOCALIPSE
não sei se era anjo ou cataclisma se demônio ou fresca brisa se era peixe ou serpente será pedra será pão? unicamente sei que olhando fiquei a grande flor se naufragando 1957 OS BARCOS
os barcos peixes não trouxeram parados
mortos na areia morta vomitados
eram raízes
eram frutos de tempestade os afogados acenavam com gestos de onda no fundo das águas
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(ANONIMAMENTE)
que floresças os teus versos na paisagem mineral não é o essencial o que importa é mitigar a sede do teu deserto e o fogo apagar
dos teus ossos calcinados
1957 DILÚVIO o tempo tempo-girassol (desespero de pedra) escorregou
inundando as coisas mortas
e mortas permaneceram as formas naufragadas só o relógio mecanismo vivo é que voava (ave de cera) na catástrofe da hora,
hora que não era a paralítica de minha ausência a água imóvel
(seria um mar ao longe?) dilúvio cotidiano do tempo nascida tempo ex-relógio derramou-se e o momento marcado no cristal do dia apagou-se
somos todos os afogados inútil soltar
os acorrentados pássaros
191 SE ESTAMPAM no rosto
florescem as flores cicatrizes as dores
como poderei transbordar os abismos os sonhos voar muito além da névoa? o gesto seria o manifesto do invisível do visível atrás do véu estático no êxtase como poderei revelar o que além do tempo existe se as palavras dormem no silêncio da forma apenas pressentida?
1957
INÚTIL A MANHÃ que vem inútil a flor
a rosa inútil
inútil folha tremulante o poema inútil
colher o derradeiro eco na concha das mãos pétala morta inútil oferecer um ramo (ou de espinho) o gesto perdido no dia da infância inútil a luz a sombra inútil paradoxal inútil o passado o futuro (o presente não há) inútil despojarmo-nos mortos estamos mortos mortos
mortos quais cadáveres mortos o tempo escorre
inundando os ossos
192
FUNERAL
a estrela última caiu pesadamente esmagando as horas
do invisível desceu o pássaro abrindo as asas
velando o tempo
1957
OS CAVALOS que voam do ventre à garganta
do meu ventre à minha garganta fogo
sou inútil na hora crucial na longitude perdida
o silêncio são de trevas as mãos que eu aceno florescer primeiro
caminhos mortos de minhas raízes
193
CORO N.1 DAS TRANSITORIEDADES
dizer que vamos para o mar
RECUAMOS
o mar é que nos afoga com todos os peixes e sais e algas de sangue
fetos gestos de dar água,
iremos com as mãos sobre a face
HESITAMOS
é perene o desejo de morrermos de nós as pessoas na areia
diário de fuga
RECUAMOS
perdidos caminhamos assim perdidos
acritudes na boca cilícios nos rins
as nossas portas estão fechadas não importa bater
HESITAMOS
a onda se quebra no limiar da janela 1ª VOZ:
tenho o rosto diante do espelho de mim
os olhos perenes
bolhas deslizando na água-cristal de mim
um relógio vergasta os pensamentos íntimos sou agora de mim hora
não ressoa o meu eco no fundo do mar (recuamos – hesitamos)
e dizer que vamos pelo mar-espaço no tempo dos cartões alinhavados a grande vinha estremece para a colheita
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CORO N.2 DAS TRANSITORIEDADES
a areia amortizou os nossos passos e somos agora caminhantes longe do mar
– já não vamos – nas mãos trazemos algas e sargaços
frutos colheremos ao alvorecer
um espelho partido mostrando-nos a face de cicatrizes tecemos o retrato
(imagem vaga) de cicatrizes
de cicatrizes já não somos permanecemos na dor
qual praia no mar
e tudo passa na pressa de flor que na tarde morre
– e vivemos – – e amamos – – e choramos – 1ª VOZ:
esta é a folha que arranquei da Grande Árvore cotidiano vou pelo relógio
relógio a bater a hora da violência esta é a flor, inútil,
de lágrimas o seu orvalho eis os olhos
abertos
sem pálpebras para vigílias (e a onda se afasta – já não vamos)
ó mar possuído de quem não somos os navegantes engoliu a vaga os nossos rastros
195 PROCURAR agora
as palavras que não dirão nada (no alto mar)
do que tenho de pedras no íntimo fechado do gesto prenunciando a nuvem no ar a forma tornou-se nítida pássaro voando procurar agora será perder-se no pensamento próprio que a palavra encerra muda e inútil no dicionário aberto sentir se deve
o sangue negro a escorrer dos dedos negros – se falo rosa não digo nada se um mundo guardo dentro de mim rosa eu digo chaga viva mas extinta o que de pedras tenho no íntimo fechado
1958 ANDRÓGINO
fruto que em si mesmo a própria flor encerrasse vi a forma do corpo envolver-se nos lençóis dupla que era no desejo incontido
a cabeça sobre o amado repousava na mão esquerda um relógio o enigma denunciava (noite – quase madrugada) e na direita uma taça convidava para a estesia (noite – quase madrugada)
ninguém diria ao ver as rosas em suas mãos que um anjo ali pousara
era o andrógino era
196 É PRECISO partir
que seja de dor o caminho é preciso partir
talvez agora
sempre partindo à procura do mar da grande árvore única de fumaça sei o inverso da viagem interrompida sei a asa quebrada em voo inaugural sei de nós
as mãos e os pés silenciosas jornadas para nós
para a flor que morre no gesto antecipado (flor – elétrica rosa)
ir em nós como água partir
que o relógio marque a hora não esperada o tempo corra
espectral aurora
1958
AS CABEÇAS dançam no ar os cabelos são nuvens a mulher na janela mastiga uma flor ontem colhida
as cabeças rolam e os cabelos
mas os pássaros morrem todos eletrocutados e não serão anjos
na poça d’água uma estrela apodrece
197
BALADA DO ESQUECIMENTO
escassa voz do pranto o vento entre as folhas fluindo
chorando o vento no limiar do tempo escassa voz do pranto nada olvidará a flor
e a música de acordes na memória ouvidos antes do minuto do mar profundo
o adeus do esquecimento escassa voz do pranto no relógio o vento chorando abrindo a porta
para o tormento o eco repetirá a voz não repetirá o eco a voz chorando ventando o vento a alma em si mesma guardará
agora
depois do último gesto derradeira flor a brotar no esquecimento escassa voz do pranto
198
BALADA DO MORTO AMIGO
nos cabelos gemendo o vento o vento nos cabelos
e a lágrima seca e petrificada
o vento gemendo nos cabelos o vento nos cabelos gemendo o vento era assim como pássaro em nuvem azul em nuvem como pássaro perdido
perdidamente no silente voo era como pássaro
na nuvem azul em céu azul gestos oscilando na distância morto, era a flor e a voz e a flor morto, a água escorrendo no último desejo escorrendo a água
diluindo a flor e a voz morto, amigo,
em flor azul era como o pássaro petrificada lágrima não chorada agora a lágrima petrificada morto amigo
palavra não pronunciada antes que gemendo o vento nos cabelos esperando a hora em que liberto o corpo voo azul como pássaro azul e pássaro reconhecida aurora na madrugada em tom de púrpura a aurora na madrugada reconhecida repouso lábios em repouso
e as mãos perdidas no etéreo tempo eterno tempo
tempo eterno
eternidade e repouso o lábio olvidadas todas as palavras
199 DIGO:
– a noite e sangue sobre os gestos
no alto-mar – no mar tão baixo de minha intenção se tenho espinhos
não importa a noite com a suavidade de seu veludo não importa a noite caindo como flores
caindo como flores caindo como flores agora e noite
na estante os livros não são humanos serão pedras?
mãos que consolam eu sei que às vezes são mas serão pedras?
agora e noite
talvez direi: – abrindo o livro terei comigo um pai? tudo e silêncio, agora, eu escrevo
silêncio em mim silêncio em mim silêncio em mim
não importa a noite com a suavidade de seu veludo se caminho no deserto
se meu gesto é de renúncia guardai-o na vossa compreensão
200
O SUICIDA (1958)
1.
sua mão boiava como um gesto partido perdido
na derradeira aurora, olhos de vidro,
as lágrima todas guardadas num prenúncio de voz e o silêncio entre as pedras
talvez não tenha chegado a hora do desejo – e o suicida dorme
amanhã será a vigília do mutilado (no chão as flores impenitentes) quando pedir a imutável água
(nas taças de cristal as flores impenitentes) os pés nos espinhos repousando
(no remo as flores impenitentes) o nada importará o anseio do seu grito (na face do amigo as flores impenitentes) e nada importará
o desconhecido para à margem do caminho flutuam entre os dedos as flores impenitentes nos trilhos,
o suicida dorme aguardando a sombra 2.
dirão que o pássaro lhe pousou no ombro e com os pés recurvos arrancou-lhe os olhos dirão que o grito sufocado no silêncio foi o motivo da negação
– o suicida permanece impassível – dirão que de pedras era seu caminho no horizonte a sombra projetada dirão que à noite não dormia frio o lençol, terra que o cobria – o suicida permanece impassível – dirão que amava a estrela invisível no corpo as chagas da agonia
dirão que ouvia a voz do amigo louco, no vulto louco, louco já não seria – o suicida permanece impassível – todos dirão quando vier o sol,