3. Former un lecteur : différentes perspectives
3.2. former un lecteur
3.2.2. Acquérir la procédure d’assemblage phonologique
Ana formou-se em Física já na primeira década deste século. O motivo que a levou a escolher a física
não foi assim tão romântico (risos) como gostaria, mas o meu interesse, na verdade, foi inicialmente pela Astronomia. Era óbvio que tinha uma tendência, talvez natural, para a área das ciências, principalmente na área da matemática e da física. Por isso, comecei a pensar que possibilidades poderia ter e estava bastante inclinada para as engenharias. Mas, gostava muito de fazer investigação, de ser cientista, principalmente na área da Astronomia. Agora olhando para trás, não sabia muito bem o que era ser cientista, mas a ideia de pesquisar fascinava-me. Sempre fui muito interessada em saber para além dos livros, dos livros da escola, e a todos os níveis, não só ao nível das ciências. As coisas mudaram e percebi que, apesar desse interesse, gosto pela área da Astronomia e Cosmologia, sou uma pessoa de natureza muito pragmática e então optei por uma área mais aplicada da física, a Física de Materiais. (Entrevista, Ana)
Procurando saber quem foi maioritariamente responsável pelo percurso na física, Ana conta-nos:
Oh! O meu professor de física do secundário, do liceu, claro, sem dúvida (risos). Foi de facto a partir do meu 10º ano quando tive um professor de física que me fez interessar pela disciplina. Havia realmente alguma empatia e gostava do seu pragmatismo em expor as matérias. Até essa altura, confesso que não tinha qualquer interesse na área das físicas, das físico-químicas. Isso tem a ver muitas vezes com a empatia que se tem com os professores e isso é muito importante, não é? (risos).
(Entrevista, Ana)
Embora contasse com o apoio da família na sua decisão de estudar física, admite alguma preocupação pelas consequências da decisão, pois
a carreira de investigação na física não é assim uma carreira tão conhecida. Nem eu própria a conhecia na altura. E lembro-me de na altura o meu pai ficar um pouco preocupado porque não fazia a mínima ideia do que me iria acontecer depois. … Era mais fácil ter ido para uma engenharia civil, em que as opções profissionais são muito mais óbvias, e a carreira de cientista é ainda muito pouco conhecida. …
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Também há aquele preconceito que só os génios é que iriam para este tipo de profissão, de cursos, o que eu obviamente não me considerava e não o era (risos).
(Entrevista, Ana)
Algumas das preocupações pareciam residir também no facto de física se tratar de uma área essencialmente masculina pois Ana refere que
não era uma área de investigação das ciências que atraísse muitas meninas ou muitas mulheres. O que até me surpreendeu quando cheguei à universidade, porque havia mais raparigas do que eu estava à espera. Foi muito bom. … tive pessoas da minha família que se preocupavam com o meu futuro, que me fizeram pensar um pouco mais nas opções. Uma das opções - inclusivamente eu falei com muita gente - apresentou-se a opção “vai para física mas então segue o ensino” porque talvez fosse a de professor de física a única profissão que conheciam que envolvia uma formação em física. Nisso fui um bocado intransigente e não o fiz (risos).
(Entrevista, Ana)
Conta-nos que quando começou a trabalhar no laboratório de investigação no Reino Unido, no final da primeira década do século, este era gerido diretamente pelo estado, e ficou surpreendida pelo elevado número de cientistas homens britânicos e brancos. Atualmente a situação é muito diferente e reflete a multiculturalidade que é comum encontrar nos centros de investigação. Refere que “(...) nunca houve, pelo menos assim tão descaradamente, qualquer tipo de preconceito … pelo menos não óbvio” (Entrevista, Ana) pelo facto de ser mulher.
Sentiu como maior obstáculo o facto de ser nova pois
há sempre um pouco o preconceito da falta de experiência, que é verdade, mas às vezes as oportunidades de progressão são-nos limitadas por esse fator. (…) Às vezes é difícil passarmos alguns obstáculos, obviamente que aqui se move o mérito mas também tem muito a ver com a idade, os anos de serviço … e isso é de facto uma dificuldade. Mas é geral, não é só aqui. (Entrevista, Ana)
Acredita que de um modo geral as mulheres são diferentes dos homens, têm muitas
coisas diferentes e até mesmo um raciocínio diferente (Entrevista, Ana), o que traz vantagens
e desvantagens. Como desvantagens identifica, no seu caso, a falta de tendência natural para [se] interessar por fios, cabos elétricos ou apertar os parafusos (Entrevista, Ana). Fá-lo, mas
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sem se encontrar minimamente motivada ou interessada nisso (Entrevista, Ana). Vê como vantagens o facto de conseguir perceber as suas limitações e não ter vergonha de as ter, rodeando-se de pessoas que a complementem, o facto de se envolver nos assuntos ou a
facilidade em multitasking(Entrevista, Ana).
Não se lembra de situações em que tenha sido discriminada por ser mulher ou porque
de facto nunca existiram ou porque [foi] imatura o suficiente para as perceber (Entrevista,
Ana). Acrescenta que no Reino Unido, não sente que haja discriminação em relação às mulheres. No seu caso, talvez pelo facto de ser mulher e latina, é mais emotiva, e tal nem sempre é visto como profissionalismo. Mas, naquele país, ser mãe e profissional, é até um aspeto valorizado referindo que
sair mais cedo do meu trabalho para ir buscar os meus filhos, não os tenho, mas se os tivesse na escola, isso é bem visto. Portanto, promove-se este balanço saudável entre a vida familiar, social e a vida profissional. Isso é excelente… . (Entrevista,
Ana)
No entanto, faz referência ao modo como a maternidade interfere na progressão na carreira dizendo que há até mesmo estudos de mulheres que têm filhos antes dos 35 anos,
acabam por não chegar ao nível de salário de uma mulher que teve os filhos após os 35 anos. É claro que isso tem impacto… (Entrevista, Ana).
Quando iniciou o seu trabalho de investigação em Portugal, havia poucas mulheres no grupo. No Reino Unido não sentiu um tão grande desfasamento de géneros nas equipas de investigação e explica esta diferença mais por razões conjunturais do que estruturais, mais pela cultura dos países do que de alterações decorrentes da evolução no tempo. No entanto, refere a tentativa das instituições, mesmo das entidades e agências que fomentam a
investigação, da União Europeia, em fomentar a entrada das mulheres nestas áreas. As biologias estão muito bem representadas por mulheres. As engenharias e a física já nem tanto
(Entrevista, Ana).
Reconhece que o peso do estereótipo, de que os rapazes são melhores do que as raparigas na matemática e na física, é comum ao nível da sociedade, mas que no seu percurso escolar tal nunca lhe foi dito diretamente por professores. No entanto, recorda intervenções
de alguns professores a colegas nesse sentido (Entrevista, Ana). Conta-nos como se sentiu frustrada com uma situação passada na Universidade:
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Uma colega que estava a fazer o exame e que o professor lhe diz “tu não devias estar aqui, devias estar em casa a lavar a roupa”. E isso na altura gerou controvérsia da nossa parte, mas devido a imaturidade e insegurança não levámos esse caso para a frente. Mas, isso vindo de um professor, de alguém que nós consideramos role model, magoa muito. E talvez por isso, dentro do curso, o que eu assisti ao grupo que entrou comigo, a maioria das mulheres optaram pelo ramo educacional. Só duas optaram pelo ramo científico. E não foi por não serem boas alunas, não quererem, não terem capacidades … isso deixou-me triste. (Entrevista,
Ana)
Considera que os professores são os decisores ou as pessoas que realmente
influenciam a escolha da carreira [e que] deveriam ser mais consciencializados para o impacto que têm no futuro dos alunos [pelo que] principalmente a nível universitário seria importantíssimo (Entrevista, Ana) trabalharem as questões do género e dos estereótipos na
sua formação. Pensa que o género influencia as escolhas das carreiras, não por razões da própria natureza de cada individuo, mas pela forma como a sociedade vê essas escolhas. Sendo os professores fruto dessa sociedade […] estão carregadíssimos desses preconceitos. (Entrevista, Ana).
Quando é levada a pensar sobre que aulas mais gostava e quais as características que mais apreciava no grupo de docentes que teve ao longo do seu percurso escolar, lembra que o que mais
gostava era de facto de aulas que me fizessem pensar. Eu gostava de ir para casa pensar nesses assuntos e às vezes até escrever notas minhas e isso era o que gostava de fazer. Era esse tipo de aulas que eu realmente gostava. Mesmo na área das ciências, quando gostava de alguma coisa, não estava tão interessada em fazer ... enfim, de experimentar na aula, mas sim que viesse para casa pensar que outras opções teria, como é que aquilo se associava a outro assunto. (Entrevista, Ana)
Recorda um dos seus professores de Português como um dos que a mais influenciou, motivando-a para a aprendizagem pela forma como comunicava e associava os conteúdos a situações atuais. Reconhece
que quando as aulas são mais práticas, principalmente quando vamos para as ciências, para a matemática, ou se calhar nem só, em geral, realmente motiva o aluno na sala de aula, o que é muito importante (…) mas muitas vezes fica aí. Acaba a aula e a motivação acabou ali na sala de aula. Essa motivação não foi depois
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extrapolada para o aluno, no caminho para casa, em casa, para o dia seguinte, talvez para que daqui a um mês continuar a pensar nessa aula. (Entrevista, Ana)
No que respeita à importância do papel das e dos docentes na escolha de uma carreira científica refere que
o papel de um professor é crucial. É muito, muito poderoso. Mas tanto para o positivo como o negativo. E acho que se deve trabalhar nesse sentido. Talvez de forma a educar a sociedade, talvez os cientistas devam sair mais dos laboratórios, das instituições, para falar do que fazem e esclarecer o papel das ciências, o que é a profissão de cientista. Acho que isso ajudaria imenso. Lembro-me da altura (…) em que tive de escolher a profissão, de como foi difícil. As pessoas que estavam à minha volta e que iam influenciar a minha escolha, elas próprias não estavam muito esclarecidas, o que era preciso, o que esta profissão, carreira, acarretava. Acho que mais do que os professores, mas incluindo-os também, é preciso educar e comunicar mais com a sociedade pois é uma profissão muito misteriosa (risos) … muito misteriosa para as pessoas, para a sociedade em geral. (Entrevista, Ana)
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