Cair no ridículo ou ser difamado por certas pessoas no lugar onde mora quando se é considerado como “covarde” ou “medroso”, acaba criando uma espécie de reconhecimento social indesejado pelos jovens selecionados na amostra. As sanções de exclusão social, desprezo e ridículo podem ser enca- radas em certas circunstâncias como intoleráveis. O “viver por si”, resolven- do os problemas através da violência como meio imediato e efetivo pode também ser derivado da busca pela aceitação, reconhecimento e afirmação perante a sociedade.
Além disso, as situações de conflito também se revelam enquanto um modo de vida próprio do lugar, por isso, certos indivíduos engen- dram um conjunto de perspectivas e parâmetros para reger suas condu- tas. A violência neste sentido pode ser manifestada “como uma forma social de ser, algo que representa as vontades e interesses de indivíduos ou grupos sociais em constituir um ethos próprio de sobreviver na socie- dade [...]” (SANTOS, 2001, p. 57). Mas através de quais caminhos esse ethos é traçado e transmitido? Nas relações estabelecidas por esses jovens no bairro e suas formas de encarar o mundo tentaremos fazer uma breve sinalização sobre certos fatores que influenciam as maneiras comportamentais dos mesmos. Para isso, fundamentamos nossa discus- são através da interligação entre o modo de ser dessas pessoas e suas relações com os outros no ambiente em que vivem.
Para Bourdieu (1997, p. 165), “Se o habitat contribui para fazer o hábito, o hábito contribui também para fazer o habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a fazer”. Nas relações exercidas no bairro ou na rua como espaço de sociabilidade, e também de violência, visamos analisar as diversas facetas da conduta humana bem como sua dis- posição prática na vida cotidiana. Cada situação apresenta expectativas es- pecíficas, exigindo do participante individual respostas específicas a essas expectativas. Os papéis executados dão forma e constroem tanto a ação como o ator, a identidade é atribuída socialmente, sustentada e transformada soci- almente. A representação de papéis e processos formadores da identidade são geralmente irrefletidos e não planejados (BERGER, 1978).
A rua é um lugar repleto de fluidez e movimento. Nela afloram-se sen- timentos e tipos de ações com leis particulares que regem a vida dos indiví- duos de forma normativa. É uma “zona em que cada um deve zelar por si, enquanto Deus olha por todos” (DA MATTA, 1991, p. 61) e onde relações de sociabilidade podem ocorrer de forma violenta. É também espaço de violên-
Elisângela Silva dos Santos cia que atinge adolescentes e jovens na interação com o mundo da delin- qüência, do consumo de drogas, do crime, das agressões policiais ou de ex- terminadores. É lugar de individualização e onde sentidos e moralidades comuns subjazem à formação de sentido e à orientação da ação. Ao mesmo tempo, as ruas e praças como espaço de sociabilidade podem ser ocupadas por diversos agrupamentos coletivos juvenis, que se estruturam a partir de galeras, bandos, grupos de orientação musical7, entre outros. Em certos mo- mentos a violência sem significação aparente surge como parceira inseparável dessas manifestações coletivas .
Certos espaços de sociabilidade podem ser palcos de violência e agres- são entre grupos de jovens, onde em uma situação de interação um ou vários atores podem agir de maneira direta ou indireta, causando danos a uma ou mais pessoas em graus variáveis tanto na sua integridade física quanto na sua integridade moral (WAISELFISZ, 2005). Por sabermos que nas competi- ções da vida cotidiana a resolução dos conflitos podia ser dada através da violência, no acerto de contas na porrada, na bala ou facada, buscamos iden- tificar os sentimentos que afloravam nesses jovens. Era preciso perceber como se dava a construção dos itinerários da vida cotidiana através dessa lingua- gem da violência.
Em Mata Escura a possibilidade de que os espaços de sociabilidade se transformem em espaços de violência entre os jovens ocorre de forma bas- tante freqüente, segundo as afirmações dos alunos do projeto:
Sabrina: Toda vez que tem festa no fim de linha tem briga do pessoal do inferninho, grupinho contra grupinho. Os do bairro também brigam entre si, mas quando vem al- guém de fora se junta pra bater eles mesmo.
Bruna: Aqui no final de linha quando os bares estão aber- tos e rola bebida, sempre rola briga. Eu tenho uns amigos que só andam em barreira, ninguém pode tocar neles. Elisângela: E quando estão sozinhos?
Bruna: Eles mexem, mas aí o cara vai correndo chamar a barreira.
7 Como acontece em São Paulo com o Rhythm and Poetry (RAP), entendido como produ-
to da sociabilidade juvenil, que revela uma diferente forma de apropriação do espaço urbano e do agir coletivo, que tem a capacidade de mobilizar jovens excluídos em torno de uma identidade comum. A apropriação do espaço da rua tem como objetivo criar músicas, cantar – uma forma de contar sobre o que se passa – seus dilemas, denunciar ou ridicularizar o que ocorre na sociedade. Ver Sposito (1993).
A cultura da violência
Mário: Eles procuram briga. Não achei briga, vou brigar com alguém. Quando tá na barreira se acha o máximo, mas quando tá sozinho parece uma putinha. Aí o povo quer descontar e ele corre e chama a barreira.
Elisângela: Vocês acham que devem resolver tudo na por- rada?
Juliana: Acho que sim. Você conversa e não resolve nada.
As situações de conflito e violência passam a ser naturalizadas por esses jovens, que buscam se afirmar no local onde moram. Mas aqui não se trata apenas de máscaras ou de cenários que o indivíduo usa ou desusa ao seu bel prazer, mas também de estratégias diante da realidade, com esferas de sentido que a constituem e permitem moralizar e normalizar o comportamento por meio de perspectivas próprias. Os comportamentos, gestos, atitudes estão de acordo com uma forma distinta de organização do espaço, em que ações e reações no mundo da vida cotidiana englobam um panorama onde as diferenciações que se podem encontrar são com- plementares, jamais exclusivas e paralelas. No bairro de Mata Escura há um discurso criado como reflexo de relações cotidianas que são vividas pela tensão constante de não se mostrar frágil ou inferior: “Aqui ninguém baixa a cabeça não. Se baixar a cabeça eles montam. Em outros bairros eu baixo a cabeça, mas aqui não”, diz Sabrina.
Em outros casos as brigas ocorridas no bairro ou no ambiente da rua acontecem como autodefesa e não apenas como fator de reconhecimento social, como nos contou Joaquim: “Quando eu tô quieto num lugar e alguém procura briga a gente tem que revidar. Se não revidar a pessoa sempre vai procurar briga”.
No que tange às relações de convivência no bairro, entre os jovens que tivemos contato, descobrimos, nas discussões do grupo focal, que não há respeito entre eles quando algum morador passa sem cumprimentar o ou- tro. Se você não estabelece boas relações de convivência entre os morado- res pode sofrer situações de violência como assaltos, agressões, etc. Pode- mos encarar tal situação como fazendo parte da noção de novas imagens de conflitividade social na cidade. Há uma infinidade de significados cultu- rais que subjazem à formação de sentido e à orientação da ação, que se estabelecem na vida diária, onde a forma violenta de ser pode influenciar na organização da mesma.
Elisângela Silva dos Santos
Conclusão
O indivíduo é um elemento nas interações sociais, reagindo a seus efei- tos pela sua própria vontade e sendo influenciado pela forma de estruturação da sociedade em que vive. Devemos ter em mente que a confirmação da hipótese nunca é categórica e definitiva e que existem possibilidades de ou- tros dados serem capazes de chegar ao resultado desejado. Procuramos nes- te trabalho compreender a originalidade da realidade da vida que rodeia esse grupo de jovens e no seio da qual estão situados, para colocar em evi- dência a estrutura das relações e da significação cultural nas suas formas diversas.
O conceito de cultura é valorativo e para nós a realidade empírica é cultura porque e enquanto a relacionamos com as idéias de valor. Ela abran- ge os elementos da realidade e a ínfima parte desta realidade singular, que é examinada de cada vez, se deixa colorir por nosso interesse determinado por essas idéias de valor. Somamos a tal idéia o fato de que a maneira como a sociedade está estruturada nos fornece uma medida de organização para a vida social, constituindo-se por um conjunto de práticas que a regulam. É importante salientar que as práticas da vida cotidiana são dependentes de um grande conjunto de elementos de difícil delimitação, não havendo possi- bilidade de abarcar todas as situações que acontecem nas relações entre os indivíduos.
A vida dos jovens selecionados é formada por uma diversidade absolu- tamente infinita de coexistências e sucessões de acontecimentos que apare- cem e desaparecem. Os elementos que se distribuem nessa relação de coexis- tência se acham uns ao lado dos outros, cada um situado em seu lugar “pró- prio” e distinto (mas em certas circunstâncias podem, também, misturar-se), utilizando-se do bairro como um espaço onde se dão tais acontecimentos.
No percurso que se constrói na vida cotidiana, pudemos perceber que esses indivíduos utilizam-se dos modos violentos de ser por alguns motivos e situações. Isso pode ocorrer como forma imediata de viver, servindo-se de certa agressividade para a superação de agressões e conflitos; nas relações de sociabilidade, como autodefesa e ainda como uma questão de afirmação e reconhecimento social. Nesse sentido buscamos sinalizar as circunstâncias que deram possibilidade para a configuração da cultura da violência como condição de vida.
Mata Escura é lugar periférico daqueles que sonham, dos que se utilizam de certos códigos de conduta para sobreviver no ambiente social ao qual estão
A cultura da violência
inseridos, dos que querem ser aceitos pelos “de fora”, dos que se impõem aos “de dentro”, daqueles que se conformam com a vida que levam e de outros tantos indivíduos de variados perfis que não propomos analisar nesse estudo. Eles buscam, também, se incluir num sistema que é regido por regras próprias de convivência no lugar e moldam seus comportamentos a partir de disposi- ções práticas internalizadas com caráter normativo e regulador.
Elisângela Silva dos Santos
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