La tâche publique de distribution de l’eau en Suisse
2. La dimension locale de la tâche de distribution d’eau potable en Suisse
(Em briga de foice mulher se mete!)
1Helder Bomfim Natasha Krahn
As brigas são pra ver quem manda,
todo mundo quer ter o poder (J. J., Grupo Focal 1).2
Partindo da noção de Foucault (2007a) de que qualquer relação social é uma relação de poder, o presente artigo discute e enuncia as principais estra- tégias utilizadas por alguns jovens de Mata Escura no processo de auto-afir- mação de suas identidades. Essa comunidade do miolo da cidade do Salva- dor é considerada como localidade de grande vulnerabilidade social, pois é formada por um “grande aglomerado residencial de baixa renda e carente de infra-estrutura, que ocupa as meias encostas das diversas localidades do bairro” (CALDAS; NUNES; SANTOS, 2007, p. 31). E por conta de suas pecu- liaridades, como a presença da Penitenciária Lemos de Brito, a população desse bairro é estigmatizada e discriminada, e ela encontra na violência uma forma de “ser alguém”, de se provar para os outros, de ser visível e respeita- da. Essa prática não abrange só os homens; as mulheres têm encontrado tam- bém na violência uma forma de impor respeito e buscar dignidade, mostran- do uma transformação nos papéis socialmente esperados de cada gênero. Se o processo de afirmação não pode ser dado, a priori, a partir do capital eco- nômico, o poder se impõe através da violência, tanto na sua forma física, quanto verbal, reforçando o estigma e recriando um capital simbólico pauta- do nos valores ditados na cultura da violência.
O conceito “violência” pode ser entendido de diversas formas, ou visto em diferentes dimensões. De forma geral, violência se resume a toda ação, numa interação social, que manifeste no(s) outro(s) constrangimentos, danos
1 Com essa frase fazemos referência a um diálogo da peça Uma Noite Terrível, escrita
pelo professor Gey Espinheira, dirigida por Petinha Barreto e interpretada pelos jovens integrantes do projeto Convivência, Arte e Criação, em 2007.
2 O grupo focal 1 discutiu sobre o tema violência no dia 22 de setembro de 2007 e teve
Violência e comtemporaneidade
físicos, morais e/ou psicológicos, quando este o considera dessa forma. Pode ser um evento extraordinário ou parte constante da vida cotidiana desses agentes. Entendemos que a noção de violência transcende essa definição, ela deve ser considerada em suas dimensão simbólica. Como proposto por Silva (2004, p. 295), a violência é considerada também como uma
[...] construção simbólica que destaca e recorta aspetos das relações sociais que os agentes consideram relevan- tes, em função dos quais constroem o sentido e orientam suas ações. [...] [E essa construção simbólica] revela aos agentes modelos mais ou menos obrigatórios de condu- ta, contendo, portanto, uma dimensão prático-normativa institucionalizada que deve ser considerada.
Na nossa análise, procuraremos nos ater à violência que ocorre cotidia- namente entre os jovens de um bairro em situação de vulnerabilidade social, a violência que não se dá, necessariamente, para a obtenção de bens materi- ais, mas sim por status, por afirmação, por visibilidade, pela valorização do ego. Cuja principal estratégia utilizada tem sido a reprodução de práticas violentas no dia-a-dia. Embora esses processos possam ser alcançados a par- tir do consumo e da obtenção de determinados bens materiais que são enca- rados como sinais diferenciadores de classe. O uso de práticas violentas, o se impor para os outros, o não abaixar a cabeça, o “tá me olhando por quê?”, são formas de “ser alguém” sem necessariamente possuir capital econômico. Ao usar o expressão “ser alguém” não queremos utilizá-la aos moldes de Zaluar (2004), que usa essa expressão ligando à prática do ir a escola e atra- vés do estudo conquistar um emprego digno. Mas queremos sim resignificá- la, e com essa expressão, ressaltar que na cultura da violência o “ser alguém”, refere-se a ser “bicho solto”, ou a ser “miseravão” ou “miseravona”, e está associado ao uso da violência como estratégia de auto-afirmação. Sendo que tais práticas na cultura da violência são legitimadas, significadas e geram status.
As Barreiras
(J.): as brigas são por rixa, você na área dos outros, [vol- tando do] [...] muquifest, no ônibus teve briga [por causa de uma rixa], um cara falou pro outro não descer do ôni- bus e ele desceu e o outro atirou nele (Grupo Focal 1).
Helder Bomfim e Natasha Krahn Durante as discussões, principalmente, nos grupos focais, percebemos o quão são importantes para esses agentes os processos ligados a auto-afir- mação, e como em qualquer processo de identificação, a negação do outro é o primeiro passo para afirmar quem sou eu. Essa negação do outro é dada, muitas vezes, pelo uso de práticas violentas. E o mesmo processo se dá com a identificação de grupo. “As pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, formando redes sociais entre vizinhos” (CASTELLS, 2006, p. 79). Entretanto, o próprio Castells aponta que redes são criadas não só pela territorialidade, e sim também por outros fatores de coesão. Os grupos formados são chamados, em Mata Escura, de barreiras.
Por barreira compreendemos um obstáculo, algo difícil de ser ultrapas- sado, e esse é o sentido figurado indicado pelo dicionário de língua portu- guesa, o primeiro significado da palavra corresponde a “parapeitos ou trin- cheiras construídas de paus muito próximos e alinhados”. Entretanto, em Mata Escura há uma resignificação desse termo, e barreira passa a corresponder a um grupo de pessoas ligadas por laços de solidariedade, que são reforça- dos pelas identificações territoriais, andam em grupos e são pertencentes a estes, na sua maioria, são jovens. A territorialidade é o fator de coesão que mais foi identificado durante nossa coleta de dados, mas é importante frisar que este não é o único fator de coesão dos grupos. Existem outras identifica- ções que reforçam os laços de coesão entre os agentes.
(J.): O que mais tem aqui é barreira. Sussuarana com Mata Escura sempre procura briga quando tem festa no fim de linha [...].
(E.): Eu tenho uns amigos que só andam em barreira, nin- guém pode tocar neles.
Elisângela: e quando estão sozinhos?
(E.): eles mexem, mas aí o cara vai correndo chamar a barreira (Grupo Focal 1).
As barreiras, como qualquer outro grupo, possuem suas normas determinantes de pertencimento: o “cair pra dentro” é uma das práticas que garantem a coesão deste grupo. Por “cair pra dentro” entendemos o entrar para a briga no momento de enfrentamento de barreiras, todos integrantes devem entrar na “batalha”, devem “cair pra dentro”. Essas “batalhas” são o clímax das chamadas rixas, que são rivalidades existentes entre os diferentes
Violência e comtemporaneidade
grupos e que são reforçadas por contínuas diferenciações. Podem ser exter- nas, como mostrado na fala de (J.), exemplificando a rixa entre os bairros de Sussuarana e da Mata Escura, e reforçada pela fala de outro jovem: “se você chega em Santo Inácio e diz que é de Mata Escura cai no pau, o mesmo acon- tece aqui”; assim como podem ser internas, entre as diferentes ruas ou micro regiões do bairro, fazendo com que algumas pessoas tenham algumas restri- ções quanto a por onde possam transitar tranquilamente, pois estão indireta- mente ligadas à alguma barreira.
As rixas acabam normativizando e disciplinando os comportamentos no dia-a-dia dos moradores do bairro, não restringindo aos envolvidos dire- tamente nos conflitos. “Por causa de um grupo todo mundo é prejudicado (J. J., Grupo Focal 2)”.3
A partir de nossas discussões percebemos que não só as barreiras, que praticam ações violentas em grupo, e por causa de sua identidade grupal, fazem parte do cotidiano dos jovens de Mata Escura. As ações violentas são práticas corriqueiras também entre aqueles que não têm uma identifi- cação direta à uma barreira. Existem códigos de condutas que orientam as ações tanto dos grupos quanto dos indivíduos isoladamente, nas relações interpessoais, que acabam gerando brigas. O “olhar torto” para alguém é muito citado pelos jovens como sendo gerador de brigas. O olhar vigilante de Foucault (2007b) nos mostra como é importante a aprovação do outro, e o olhar que desaprova, que condena, que estigmatiza serve de alavanca para um “tirar pergunta”, ou até mesmo uma agressão física. Esse olhar dociliza, causa raiva, e o revidar é a lei, é uma prática normativizada e natu- ralizada, o revidar se tornou uma resposta ideal para provocação do “olhar torto”, e o “tirar pergunta”, que é o questionamento das provocações, tem sido apontado como ineficaz, “tem muito bate-boca, mas acaba em porra- da. Ninguém quer conversar mais não, não fica muito no bate-boca não (E., Grupo Focal 1)”.
A ausência, a ineficácia e o descrédito na Instituição Policial e Judicial acentuam o desejo e a necessidade de resolver os problemas com as própri- as mãos. A atuação violenta no bairro, por parte da instituição Policial é um dos principais motivos de descrédito na Instituição. Em uma entrevista fei- ta com os participantes do Projeto, eles afirmaram que a ação policial é um dos principais agentes da violência no bairro. E quando questionados a res- peito da Instituição Judicial seus argumentos demonstram que eles carac-
3 O grupo focal 2 discutiu sobre o tema convivência em 14 de novembro de 2007 e teve
Helder Bomfim e Natasha Krahn terizam essa instituição como morosa, por isso eles vêem o ato de prestar queixas como ineficaz. Segundo Foucault (2007b), a legitimidade do uso da violência passou da centralização das mãos do Soberano para as mãos das Instituições sociais. Devido ao descrédito e a ineficácia destas Instituições, há uma ampliação da legitimação das práticas violentas, centralizadas nas ações institucionais, para a ação de agentes não institucionais. O resolver com as próprias mãos é produto da construção de discursos legitimadores dessas práticas.
A vingança é alcançada com o resolver com as próprias mãos, pois fugir da briga significaria ser identificado enquanto medroso e/ou fraco, estigma que seria cotidianamente lembrado. Além de se estigmatizarem os medro- sos e os fracos, quem apanha também se torna motivo de chacota, os própri- os pais ressaltam que se eles chegarem a casa tendo apanhado, apanharão novamente, como mostrado nas falas:
(C.): se alguém apanhar, todo mundo começa a comediar. (E.): se eu apanhar, quando eu chegar em casa minha mãe me bate outra vez por ter apanhado (Grupo Focal 1).