• Aucun résultat trouvé

Les principes communs à la distribution de l’eau en France et en Suisse

Dans le document Le droit comparé et le droit suisse (Page 143-148)

Analyse comparée

2. Les principes communs à la distribution de l’eau en France et en Suisse

Você se mostrar melhor que o outro é uma questão de honra, e levar desaforo para casa é vergonhoso. (J.) afirma que “é mulher e homem, aqui ninguém pode abaixar a cabeça” (Grupo Focal 1). O “baixar a cabeça” citado por (J.) diz respeito ao não revidar, o deixar pra lá, significa o se entregar, e é sinônimo da demonstração de fragilidade. (C.) diz, “se alguém me bate eu bato, as mulheres daqui são muitas gaiatas. Se você não quer brigar elas di- zem que você pediu pinico” (Grupo Focal 2).

Contradizendo o imaginário construído sobre os papéis socialmente esperados, os jovens de Mata Escura enfatizam que a violência não faz parte só do cotidiano masculino, as mulheres, tanto quanto os homens, se metem em brigas e são também agentes da violência. Segundo o grupo de jovens com quem convivemos por alguns meses, brigas entre mulheres fazem parte da rotina. E uma das motivações segundo (R.) é que “mulher tem inveja de mulher” (Grupo Focal 2). Percebemos, nos argumentos utilizados pelos jo- vens, a idéia de que as mulheres se afirmam a partir de competições, que a construção do ser mulher está ligada a uma constante rivalidade entre elas, que se dá nas comparações de quem se veste melhor, quem é mais cheirosa,

Violência e comtemporaneidade

e quem tem o corpo mais próximo de tipo ideal de beleza compartilhado nessa unidade social. Essa seria umas das motivações para as brigas entre mulheres, assim como a fofoca e a briga por homem. Se afirmando a “miseravona”, ao reproduzir práticas violentas.

Embora existam diferentes motivações para a prática de ações violentas entre as mulheres, as brigas por homem são o tipo de conflito mais apontado às meninas. Brigas, estas, como demonstradas pela fala de (C.): “vem uma vagabunda pra roubar o marido da outra e o marido nem se mete e os vizi- nhos ainda incentivam [...] não briguem, se matem!” (Grupo Focal 3).4 A pe- culiaridade desse processo não é em si mesma demonstrada quando investi- gamos as motivações para a briga, pois estas são sempre vistas com desdém pelos outros, sem procurar perceber suas reais motivações. Diferentemente das brigas masculinas, suas repercussões serão veiculadas, na sua grande maioria, como brigas por homem.

No Grupo Focal 3, os meninos afirmaram que quando as meninas bri- gam por eles, os mesmos se sentem os gostosos, poderosos. Enquanto a mo- tivação para a ação violenta é apontada pelos outros como sendo pura e sim- plesmente por homem e pela atenção do homem, outras motivações são, muitas vezes, despercebidas e desprezadas. Esse efeito míope acaba geran- do poder nas relações sociais entre gêneros, reforça os processos de domina- ção masculina. Esta prática não deve ser pensada puramente pela sua di- mensão instrumental, o machismo incrustado nos valores da sociedade ori- enta as práticas sem que haja, necessariamente, um processo de racionaliza- ção, de questionamento das agências, que acabam empoderando, ainda mais, os homens. A mulher, assim como o homem, busca além de tudo ser melhor que a outra, não só para ele, mas para si mesma e diante de todos. A partir das práticas violentas, as mulheres buscam acima de tudo sua auto-afirma- ção. Há, entretanto, uma confusão na observação desse fato, os meios são entendidos como fins, a briga por homens, é apontada, pela maioria, como o fim, embora seja uma estratégia, um dos meios para a auto-afirmação.

As discussões dos grupos focais ressaltaram o fato de que há uma trans- formação nas disposições para a prática. E conseqüentemente uma mudança nas práticas que se esperam que as mulheres adotem. Estas disposições in- corporadas organizam e orientam as práticas dos agentes no campo social, e os diferenciam socialmente. É sabido que esse fato não é tão novo assim, mas todos o enfatizaram e alegaram que “não são só os homens, há muita violên-

4 O grupo focal 3 discutiu também sobre o tema violência em 22 de setembro de 2007, mas

Helder Bomfim e Natasha Krahn cia entre as mulheres também”, mostrando que apesar de ser “normal” e corriqueira, esta prática ainda surpreende, pois ainda existe no imaginário coletivo a idéia de que as mulheres devem agir de forma diferente. Esperam- se outros comportamentos das mulheres, apesar de a maioria das jovens te- rem admitido já ter brigado com outras mulheres.

Discutindo sobre gênero, percebemos que o machismo prevalece, ele disciplina os corpos e o comportamento dos agentes; no caso das meninas, ele impõe que a menina deva agir tendo suas ações orientadas por um con- junto de disposições bem definidas, traçadas por diferenciações do universo masculino desde a infância. Esta é uma questão bastante controversa, pois, embora a apologia da violência também seja feita para as meninas. Relembremos a fala de (E.), supracitada, que dizia que sua mãe a advertiria se ela chegasse em casa apanhada; ainda assim a reprodução destas práticas é vista como um desvio.

Nesse contexto as meninas se encontram no meio de diferentes propos- tas de condutas, uma apologética à violência e outra que também disciplina e normatiza as condutas orientando padrões de comportamentos tidos como ideáis, propondo que a mulher seja “certinha”. Por certinha percebemos que eles caracterizam as mulheres que não saem com vários homens, que são fiéis, que não se envolvem em confusões, e que não “dão ousadia”. Enquan- to o homem continua com o comportamento socialmente esperado, olhando para todas as meninas, mesmo na presença de suas namoradas, traindo-as, até com um consentimento imposto a elas, brigando uns com os outros. A menina que sai com muitos homens é a piriguete, e o homem que sai com muitas mulheres é o gostosão, é o cara. Mas apesar dessa diferenciação dos significados dados às suas ações a mulher começa a ter as mesmas atitudes socialmente esperadas dos homens, usando as mesmas estratégias de afir- mação que eles, brigando por eles, constituindo barreiras e até mesmo crian- do rixas.

As motivações para comportamento da mulher e do homem, na maio- ria das vezes, são as mesmas, as necessidades de auto-afirmação. Embora haja essa consonância de motivações, os discursos construídos para explicar o fato, a forma como os fatos vão sendo veiculados, no boca a boca, é dada de forma distinta. Em muitos casos as brigas de mulheres são associadas à briga por homens, fofoca ou inveja, enquanto que a briga de homens são sempre associados a outros motivos, “não brigo com o homem, por causa de mulher, [...] porque ‘se o cara buliu com ela foi porque ela deu ousadia’. [...] ‘se ele é gostoso ou não, ela não olhe, vire para o outro lado’ (R., Grupo Focal 3)”. “Mulher briga muito por fofoca, por inveja, já o homem se mete mais nas

Violência e comtemporaneidade

rixas, brigas em festas (R., Grupo Focal 2)”. O importante é perceber que o que também motiva as práticas dos homens para a inserção nas brigas em festas, ou em outros espaços, é a auto-afirmação e a necessidade de esclareci- mento das fofocas, e em alguns casos também a inveja. Não percebemos a existência de uma diferenciação das motivações, mas sim, percebemos que o diferente tratamento e as distintas repercussões se dão devido ao machismo enraizado na Sociedade, que disciplina corpos e embasa discursos. O machismo se manifesta no discurso como estrutura estruturante, que ao ser reproduzido se solidifica na estrutura social.

Outra peculiaridade das relações social são dadas pelas diferenciações internas de classe do bairro, gera distinções entre as meninas e os meninos em Mata Escura. No bairro de Mata Escura existem aqueles que são conside- rados metidos ou metidas, seja por uma questão de atitude, ou devido ao seu capital econômico. Os metidos e metidas são considerados os mauricinhos e as patricinhas. São caracterizados como boys e patis aqueles que se compor- tam como se fossem pessoas diferentes dos outros moradores do bairro. Es- sas diferenciações são também motivadoras da formação de rixas. Implicân- cias rotineiras são práticas de ambas as partes.

Conclusão

Entendemos por cultura da violência a incorporação, que é dada por um processo disciplinador, das disposições para as práticas violentas no dia-a-dia de convivência. A reprodução das práticas estruturadas são estruturantes, como proposto por Bourdieu (1989), na sua conceituação de habitus. Na sua proposta, os habitus são as disposições incorporadas que orientam a ação e diferenciam os agentes no espaço social. E por sociabili- dade violenta caracterizamos as estratégias de uso dessas práticas como instrumentos para inserção dos agentes na vida social, dado pelo processo de auto-afirmação. Ao se inserirem eles se diferenciam, e ao se diferencia- rem eles se identificam e se identificam agregando às suas representações determinadas características, reproduzem práticas, utilizam sinais, conso- mem bens materiais, que são valorizados dentro da cultura da violência na qual eles se inserem a partir da sociabilidade violenta. Esse processo de identificação é marcado por uma constante luta para manutenção das iden- tidades, visando suprimir a condição precária e eternamente inconclusa da identidade. A “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado, [...] como alvo de um esforço, “um objetivo”; como coisa que ainda se pre-

Helder Bomfim e Natasha Krahn cisa construir a partir do zero [...] e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais (BAUMAN, 2005 p. 21-22). E é a partir dos valores da cultura da violência que se dá o processo de reconstrução de um capital simbólico, buscando-se, a partir do uso das práticas violentas, que o outro reconheça a força do seu capital simbólico.

O deslocamento da atenção do universo masculino quando pensamos no fenômeno da violência, a ênfase dada à reprodução de agências violentas protagonizadas por agentes femininos, para obtenção desse capital simbóli- co, demonstram que o fenômeno não mais se restringe ao universo masculi- no. As mulheres, que antes eram apenas apontadas como vítimas da violên- cia, embora não tenham deixado ser, hoje passam a ser importantes protago- nistas desse fenômeno, reestruturando a gramática normativa de gênero da sociedade contemporânea. Assim como no mercado de trabalho, falando das mulheres em geral, não restringindo a atenção às mulheres de Mata Escura, elas passam a ser reconhecidas se inserindo nos espaços sociais públicos, enquanto agentes, reprodutores de práticas também violentas disciplinadoras e disciplinadas.

A necessidade de auto-afirmação através desse capital simbólico, reconstruído por eles, pode estar associada a uma baixa auto-estima, devido a estigmatização da população local. Além da vulnerabilidade social,

concomitante a urbanização de região a construção da Penitenciária Lemos de Brito, no nordeste da área do bair- ro (1974) e a duplicação da BR 324 (entre 1974 e 1975), na porção oeste contribuirão com a ocupação do bairro atra- indo parentes dos presos e ex-detentos, incrementando o comércio local (CALDAS; NUNES; SANTOS, 2007 p. 35).

Por conta desta peculiaridade, criou-se um forte estigma aos morado- res do bairro, quando a imagem dos habitantes do local é diretamente associ- ada à presença da penitenciária. Eles internalizam, embora também critiquem essas construções simbólicas: “Eles [os outros] acham que aqui moram ban- didos e parentes de bandidos (R.,Grupo Focal 2).”

Percebemos através do Projeto que trabalhos sociais como “Convivên- cia, Arte e Criação” são importantes na construção de novas formas de auto– afirmação e sociabilização. O questionamento das verdades naturalizadas pode ser instigado a partir da inter-relação e da convivência de diferentes agentes sociais. A troca de experiência norteou uma reconstrução de senti- dos das práticas cotidianas. E mostra que a reprodução de práticas violentas, por ser um construto histórico-cultural não é estático. A resignificação das

Violência e comtemporaneidade

condutas pode levar a constituição de um agente reflexivo, a partir do exercí- cio do questionamento das naturalizações da vida cotidiana. Que permite que a sociabilidade violenta pode ser substituída por outras formas de soci- abilidade.

Helder Bomfim e Natasha Krahn

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Difel; Bertrand, 1989. CALDAS, Alcides dos Santos; NUNES, Eduardo J. Fernandes; SANTOS, Walfran.

Odu, Egbé, Dudu: caminhos da Mata Escura. Salvador, 2007.

CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2006. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 23. ed. São Paulo: Graal, 2007a. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 34. ed. Petrópoles: Vozes, 2007b.

SILVA, Luiz A. Machado. Sociabilidade Violenta: Por Uma Interpretação da Criminalidade Contemporânea no Brasil Urbano. In: RIBEIRO, Luiz Cesar Queiroz (Org.). Metrópoles: entre a coesão e a fragmentação, a cooperação e o conflito. São Paulo: Ed. Perseu Abramo, 2004, p. 291-351. (v. 1)

ZALUAR, Alba. Integração Perversa: pobreza e tráfico de drogas. Rio Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2004.

O peso da família na constituição dos

Dans le document Le droit comparé et le droit suisse (Page 143-148)