• Aucun résultat trouvé

Les représentations sociales qui influencent les relations entre les

CHAPITRE 4 : PROFIL D’APTITUDES DES HOMMES ADMIS EN DÉTENTION

5.3. Les obstacles environnementaux de type socioculturel propres à la prison :

5.3.1. Les représentations sociales qui influencent les relations entre les

Até aqui, Certeau (1994) nos possibilita, então, a compreensão da relação das pessoas com uma ordem ou um sistema através das modos de fazer com: uso e consumo. No entanto, ao buscar entender essa relação de um outro prisma, isto é, de uma referência polemológica, onde o que se deve buscar é a explicitação dos combates entre fortes e fracos, irá precisar os conceitos de tática e estratégia.

Assim, ele facilita uma melhor compreensão das práticas cotidianas, que são concebidas, neste trabalho, como o combate diário entre os motoboys e os produtos culturais da cidade de São Paulo, ou seja, o conjunto de ações de resistência, de significação e ressignificação, que auxilia esses profissionais a sobreviverem na cidade.

57 Droga frequentemente utilizada em crianças com diagnóstico de hiperatividade. Fato controverso que

encontra inúmeros opositores, principalmente dentro da Psicologia, pois, se alguns profissionais acreditam que o problema da hiperatividade deve ser resolvido por uma maior atenção dos pais as crianças, ao invés de transformar as escolas em depósito das mesmas, outros afirmam que ela não existe, ou seja, que a hiperatividade é um falso diagnóstico de uma sociedade perversa, que busca sempre a culpa, pelos seus problemas, no outro, principalmente nos mais fracos.

Nesse sentido, é necessário analisar a definição proposta por Certeau (1994) para os conceitos de tática e estratégia.

Chamo de estratégia o cálculo (ou manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaça (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa, etc. (p. 99).

A estratégia se caracteriza pelo poder de fundar um próprio (CERTEAU, 1994), um espaço para racionalizar, antever e planejar as relações com os ambientes externos; cria autonomia com relação ao tempo, pois permite a liberação das ações frente às circunstâncias impostas por outros. Os motoboys vêm, ao longo de sua curta existência, tentando construir lugares próprios que lhes permitam algumas conquistas, bem como seu acúmulo. As associações e os sindicatos são exemplos desse movimento. Porém, como veremos no Capítulo 4, nem sempre conseguem a manutenção da adesão dos seus afiliados.

A tática, ou ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio (CERTEAU, 1994, p. 100), não pressupõe um poder instaurador de um espaço que permita algum controle sobre o tempo, nem a liberação das circunstâncias. Muito pelo contrário, ela está presa a estas e são elas que podem lhe possibilitar a ação astuta e eficaz. A tática se desenvolve no terreno do inimigo, pois ela não tem o seu próprio e nisso está a sua força: ela não é visível nem pode ser controlada de antemão, pelos adversários ou concorrentes, ela é surpreendente e combate golpe a golpe. Aproveita as ocasiões e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. “O que ela ganha não se conserva” (CERTEAU, 1994, p. 100). Ela se efetiva nas falhas de vigilância do poder e se constitui como uma das formas de antidisciplina mais importantes, quando consideramos as tensões e os conflitos sociais, uma vez que é uma das armas mais eficazes dos menos privilegiados e menos poderosos, como nos revelam os personagens de Suassuna58 diante da miséria, das desigualdades, do clima impiedoso e das injustiças dos homens e do céu.

Foi taticamente que, no começo, os motoboys conseguiram se impor na cidade de São Paulo e no Brasil como uma profissão reconhecida. Quando eles começaram com o serviço na cidade, eles se aproveitaram da necessidade de fluxo que a capital tinha, diante de sua configuração do espaço (SANTOS, 2005) e do seu paradoxal

58 Em seu Auto da Compadecida, assim como em outros trabalhos, Ariano Suassuna, escritor do Recife,

relata com clareza a luta pela sobrevivência dos mais pobres, diante dos poderosos do sertão, de que é um exemplo o personagem Chico, descrito pelo autor como um astuto.

trânsito engarrafado, que tudo inviabilizava para os instrumentos técnicos desenvolvidos até essa época. O motoboy não criou um novo instrumento, ele apenas recriou o papel da moto, transformando as asas da liberdade59 nas asas do trabalho60, improvisando um espaço, já usado pelos motoqueiros mais apressados, para suprir as necessidades da capital e as suas próprias. Esses trabalhadores não planejaram nada, não tinham representantes políticos da categoria, não eram uma profissão reconhecida. As possibilidades estratégicas vieram com o tempo e a história da categoria.

É com a utilização das teorias propostas por Certeau (1994, 1995) que pretendo compreender as práticas cotidianas dos grupos com os quais convivi, durante o campo desta pesquisa, na cidade de São Paulo: como vivem o seu trabalho e a sua articulação com a metrópole, bem como que possibilidades encontram nestes, para criarem alternativas e produzirem um maior equilíbrio entre o que querem realizar e o que lhes é imposto.

Como Certeau (1994) nos alerta sobre os equívocos que podem advir de uma análise científica, devido às dificuldades de seu método, que necessita sempre transferir o objeto estudado para fora de seu contexto, levando a uma mera reprodução do próprio discurso científico, pretendo estar atento às circunstâncias em que se desenvolvem as práticas cotidianas dos motoboys. Para tanto, busquei um contato mais estreito, que me ajude a descrever a relação dos motoqueiros com a cidade, dentro do contexto onde ela se concretiza.

59 Era a essa expressão que uma das principais montadoras de moto do mundo vinculava sua marca, no

imaginário dos brasileiros.