• Aucun résultat trouvé

Les obstacles environnementaux de type physique propres à la prison : aspects

CHAPITRE 4 : PROFIL D’APTITUDES DES HOMMES ADMIS EN DÉTENTION

5.2. Les obstacles environnementaux de type physique propres à la prison : aspects

Uma das maneiras para compreendermos o uso que as pessoas fazem das coisas está relacionada ao que elas conferem autoridade (CERTEAU, 1995). Esta pode estar representada em pessoas, textos, discursos, obras, instituições, entre outros elementos, que fundam uma verdade, disponibilizando uma possibilidade de comunicação que irá articular pessoas. Por ser portadora de uma credibilidade, consegue ter um poder (a autoridade), que as pessoas lhe conferem, através da adesão.

A forma de uso ou consumo que os indivíduos produzem, nessa relação com o que lhes é imposto cotidianamente, revela a arte de fazer com (CERTEAU, 1994). Esta arte – ou seja, como essas pessoas consomem os produtos culturais, como o espaço público, as informações, o risco de trabalhar – vai depender da relação entre elas e o que lhes é proposto, já que essa relação é marcada por dois ou mais registros culturais, ou duas ou mais formas de organizar alguma coisa ou lugar (a do produto cultural e a do sujeito), com uma resistência, uma antidisciplina, entre elas (imposta pelo sujeito), de sorte que o consumo será marcado por aquilo a que as pessoas irão aderir, ou melhor, conferir autoridade (CERTEAU, 1995). Pode-se dizer, então, que ao resistir, o sujeito não o faz de qualquer maneira, mas busca o sentido dessa ação nas coisas a que confere autoridade. Caso contrário, se pensarmos que essa relação fosse marcada pela aceitação do que é determinado por outras instâncias sociais, outros elementos do espaço (SANTOS, 1996, 2004, 2009), poderíamos sustentar que essas pessoas seriam exatamente o que elas consumissem e, assim, poderíamos determinar o que elas são, sem a necessidade de entrarmos em contato com elas, analisando somente o que a sociedade, o governo e a mídia determinam como comportamentos esperados.

Isso tudo não nos impede, entretanto, de imaginar que existe a identificação entre consumidor e objeto consumido, mas, o importante é compreender que essa identificação não precisa estar totalmente de acordo com os objetivos e determinações impostos pelo que se consome. Um exemplo disso encontrei no trabalho que desenvolvi na cidade de Assis, junto aos mototaxistas (CASTRO, 2004). Quando se implantou a lei que regulamentava a atividade, no município, muitas exigências foram feitas para os profissionais que queriam continuar trabalhando. Tais exigências envolviam muitos gastos com as adequações da moto, da vestimenta, dos equipamentos de segurança,

além do seguro de vida, que deveriam passar a pagar para eles mesmos e para os passageiros. Com tantos gastos impostos para os que queriam trabalhar em conformidade com a lei, o poder público e as autoridades competentes esperavam que houvesse a delação dos profissionais que insistissem em trabalhar de forma ilegal, clandestina, principalmente por parte dos mototaxistas que estavam tendo altos custos para se regularizar. Embora alguns mototaxistas se identificassem com a lei e buscassem se adequar ao que foi pedido, o uso que fizeram dela não significou o esperado pelas autoridades oficiais: a delação de companheiros.

Obviamente, não havia nada na lei que obrigasse os que estavam trabalhando legalmente a denunciar os que estavam trabalhando na ilegalidade. Todavia, acreditou- se que, devido ao aumento de custos para o motoqueiro legalizado, isso levasse a um sentimento de injustiça e, este, à delação. Não foi assim que eles fizeram com (CERTEAU, 1994) a situação que se apresentou, porque muitos aceitaram se submeter às determinações da lei, porém não se renderam ao apelo individualista do “salve-se quem puder”, implícito, como consequência, na aprovação e implementação da lei. Eles se mantiveram solidários aos companheiros, mesmo que estes continuassem na ilegalidade, pois não conseguiam ver neles uma concorrência desleal, mas somente pessoas que, como eles, estavam “enfrentando a vida”. Diferentemente do que acreditavam os legisladores e outras autoridades municipais, o que conferia sustentação à lei não era o egoísmo da competição – como proposto pelo darwinismo social de Spencer, que crê na sociedade do mais forte e mais adaptado –, mas o mutualismo, como proposto por Kropotkin (1946), que não ignora a luta pela sobrevivência do outro, que quer ser membro da sociedade, sem deixar de lado, seus companheiros de trabalho, uma vez que sem outros não se luta, não se sobrevive.

Essa reação imprevisível das pessoas diante dos fatos que as atingem, cotidianamente, faculta reafirmar que não estamos autorizados a definir as pessoas pelo que elas consomem, mas como elas fazem com essas coisas, ou seja, como as consomem, como as usam pela autoridade que conferem a essas coisas ao usá-las, ao consumi-las. Portanto, a resistência que se apresenta cotidianamente nas maneiras de agir e que acontecem no consumo, na utilização do que é imposto, poderá se desviar do propósito original da coisa consumida pela adesão que o consumidor tem a uma ou a outra coisa a que confere autoridade. Assim, através de Certeau (1994, 1995), podemos pensar uma outra possibilidade para compreender como as pessoas enfrentam as regras legais, sociais ou organizacionais, ao recebê-las e reverter o seu significado original.

Por isso, uma análise que permita a compreensão desses usos que as pessoas fazem do que consomem deve se dar no cotidiano, com uma convivência que propicie a

compreensão das circunstâncias em que os usos acontecem, que nos permita entender o que é crível e o que não é para os consumidores, no nosso caso, os motoboys.

Esse uso, que diz de uma adesão, de um poder acreditar em algo, lhe atribuir credibilidade, baseia-se na astúcia dos indivíduos para se aproveitar de uma circunstância e transformar algo que lhe é imposto, em algo que pode lhes favorecer, parcialmente ou totalmente. E sobre essas astúcias, geralmente, as estatísticas nada podem dizer, pois, quantitativamente, só se consegue contabilizar e compreender o que é usado. Se ficarmos com o número de acidentes e mortes contabilizados nesses anos em que a profissão vem existindo, na cidade, nunca compreenderemos por que as pessoas aderem a ela e acreditaremos que todos os motoboys são apenas loucos que gostam de se exibir e perturbar a vida dos outros condutores; cairemos no erro da psicologização perversa que imputa ao outro, aos grupos minoritários, ou mais fracos, os problemas de nossa sociedade (ENRIQUEZ, 1999). Começaremos, quiçá, uma campanha para distribuição gratuita de Ritalina57 para esses profissionais, ao invés de buscarmos a compreensão de tudo o que está em volta disso, tudo que dá manutenção a esses números, que são de responsabilidade da estrutura social, força motriz da constituição do espaço da metrópole (SANTOS, 2009) e da categoria que encontrou, nesse trabalho arriscado e que lhe demanda extrema perícia para se livrar de acidentes, uma fonte de renda e de dignidade.