C. De l’approche communicative à l’approche par compétence
2.8 A PROPOS DE LA COMPREHENSION
Outro eixo importante do estudo referente ao tráfico negreiro está relacionado às doenças e mortes de escravos. Ao estudarem o tráfico, diversos autores preocuparam-se em analisar o seu papel como provedor de mão-de-obra e como transmissor de doenças, muitas das quais letais para a população do Brasil, principalmente para os indígenas.66 De acordo com Manolo Florentino, o tráfico negreiro era encarado como uma forma de abastecer o Rio de Janeiro com mão-de-obra, em razão das várias enfermidades e baixos índices de reprodução biológica. Por essa razão, a economia fluminense caracterizava-se como dependente cada vez mais da mão-de-obra africana para desenvolvimento dos negócios dos proprietários.67
Mas é importante ressaltar que, ao aportarem no Rio de Janeiro, da mesma forma que em várias regiões do Brasil, muitas embarcações tornavam-se as grandes causadoras da transmissão de doenças. Segundo Marcelo Ferreira de Assis, o tráfico negreiro para o Rio de Janeiro influenciou, grandemente, essas mortes na medida em que os escravos tornaram-se agentes do contágio na região. As mortes ocorriam não apenas entre os africanos, mas, sobretudo, entre os escravos nascidos no Brasil, os chamados crioulos,
65 SILVA, Daniel B. Domingues. “The Atlantic Slave Trade to Maranhão, 1680-1846”pp. 484-
485.
66 Entre eles Dauril Alden e Joseph Miller (1987), Manolo Florentino (1997), Marcelo de Assis
(2000), Jaime Rodrigues (2005).
considerados os principais infectados pelas embarcações que transportavam escravos aos portos cariocas.68 Ao comparar as mortes entre as paróquias urbanas de São José e a paróquia rural de Saquarema, o autor percebeu que as crianças eram as mais atingidas entre os cativos, enquanto os adultos aparecem como os hospedeiros da bactéria que servia para disseminar as doenças, principalmente nas cidades, por ser um espaço onde circulavam muitos escravos.69
Assis constatou que, no período de 1810 a 1830, eram mais comuns as doenças infecto-contagiosas que cresciam relativamente nos dois ambientes, coincidindo com o aumento do tráfico para o Rio de Janeiro.70 Na medida em que esse historiador analisa o tráfico como responsável pelas doenças disseminadas nas regiões cariocas, matando grande quantidade de trabalhadores crioulos, ele entende que o próprio tráfico assumiu um caráter mais que comercial, o que diferencia seu trabalho dos tradicionais estudos historiográficos marcados por um viés puramente econômico.71
Entre essas doenças, Jaime Rodrigues destaca a varíola que, juntamente com outras, concorreram para reduzir os tripulantes e a carga humana dos navios.72 Dauril Alden e Joseph Miller consideram que a varíola, introduzida no Novo Mundo oriunda da Europa e da África, foi evidente a líder em mortes. O Brasil, como o principal centro de importação de escravos, recebeu de alguns portos africanos levas de infectados pela doença, que a espalharam rapidamente ás populações indígenas que não estavam preparadas para um contato próximo com os africanos. Dessa maneira, os autores entendem que a varíola chegou ao Novo Mundo frequentemente por via do africano, e assolou as regiões brasileiras ao longo dos séculos em que existiu o tráfico negreiro.73
68 ASSIS, Marcelo Ferreira de. Tráfico atlântico, impacto microbiano e mortalidade escrava,
Rio de Janeiro, p. 10.
69 Ibidem, pp.13-14, 16 70 Ibidem, pp. 12-13. 71 Ibidem, pp. 10, 14, 15.
72 RODRIGUES, Jaime. De costa a costa, pp. 14, 40
73 ALDEN, Alden and Joseph, MILLER. “Out of Africa: The slave trade and the transmission of
smallpox to Brazil, 1560-1831”. Journal of Interdisciplinary History, vol. XVIII, nº 2 (1987), 195-244.
A mesma compreensão têm os diferentes autores ao analisar o tráfico para a Amazônia, e ao relacionar o comércio de escravos às doenças que se desenvolveram na região. Para eles, as doenças foram as responsáveis pelas mortes não apenas dos índios, mas também dos negros. Os escravos muitas vezes saíam infectados dos portos e as infecções se alastravam na região em razão das péssimas condições dos tumbeiros e do precário regime alimentar.74
De acordo Colin Maclachlan, a criação da Companhia do Grão Pará e Maranhão, na segunda metade do século XVIII, acelerou os frequentes surtos de varíola na região amazônica que atingiam a população em proporções criticas. A entrada de escravos de maneira regular pela Companhia possibilitou o contato constante da doença na bacia amazônica. Antes desses carregamentos, a região repousava em um delicado equilíbrio proveniente das mortes causadas pelo sarampo e pela varíola, principalmente nos últimos anos de 1720, e em meados dos anos de 1740, em que centenas de indígenas morreram da doença.75
Para Maclachlan, o aumento da mortandade consistia no fato de que a Companhia geralmente vendia parte da carga de escravos contaminada ao Maranhão e Pará que em pouco tempo infectava o restante da população, principalmente os indígenas, mais suscetíveis aos malefícios do contágio da peste. Embora as autoridades utilizassem isolamento, quarentena e outros métodos para prevenir ou conter a varíola, a doença espraiou-se de maneira incontrolável durante os vários anos em que a Companhia ligou o litoral amazônico à costa africana.76
Rafael Chambouleyron entende que o desenvolvimento do tráfico negreiro aconteceu em razão de alguns “elementos específicos da formação colonial no Estado do Maranhão”, entre eles a morte de muitos indígenas causada pelas epidemias de bexigas, que impulsionou a vinda de africanos como forma de manter os trabalhos.77 Essa ideia é retomada por Magali Romero Sá que entende que os surtos de bexigas e o tráfico
74 Manuel Nunes Pereira (1952), Ferreira Reis (1961), Antônio Carreira (1983), Rafael
Chambouleyron (2006), Magali Romero Sá (2008).
75 MACLACHLAN, Colin M. “African slave trade and economic development in Amazonia,
1700-1800”. p. 134.
76 Ibidem, p. 135.
negreiro são faces da mesma moeda, na medida em que o crescimento do número de infectados por essas doenças ensejou a regularização de uma rota entre a Amazônia e as costas africanas para suprir a região com mão-de-obra; muitas embarcações negreiras, ao aportar na região, traziam a doença, o que contribuía para dizimar índios e, consequentemente, fazia com que mais escravos fossem pedidos.78
Para a autora, fundamentada em Arthur Viana, um grande estudioso das epidemias no Pará, a regularização do tráfico e a falta de higiene nos navios aumentaram a capacidade de contaminação da doença. Embora o governo tenha tomado providências por meio de vigilância e inoculação, pouco efeito houve e a chamada “peste branca” se desenvolveu no decorrer dos anos em que o tráfico negreiro existiu, vitimando parte da população.79 Conforme defende Arthur Cezar Ferreira Reis, essa visão negativa das epidemias provenientes dos navios entrados nos portos sobressaiu na historiografia quando se discutia a escravidão na Amazônia, fato que obscureceu a própria visibilidade do africano.80