A luta começa desde a busca pelo direito a voto. Na primeira metade do século XIX, José Bonifácio colocou em discussão o voto feminino na Primeira Câmara dos Deputados Gerais do Império. A partir daí, na segunda metade do mesmo século, diversas manifestações femininas foram surgindo, sendo um momento de constantes lutas e buscas pelo direito a voto feminino, no qual ainda assim, nada foi conquistado (COSTA, 1998). Virando o século, Leolinda Daltro, fundou o Partido Republicano Feminino e lutou para que em 1919 algum senador colocasse em pauta a discussão do voto feminino. Mas depois de muitas outras lutas e discussões em 1932 um decreto permitiu esse direito, apesar do estado do Rio Grande do Norte já havia permitido o direito ao voto feminino, desde que a mulher fosse alfabetizada, em 1927. O estado do Rio Grande do Norte saiu a frente também na eleição de uma prefeita, onde a cidade de Lajes possuiu a primeira da América do Sul no ano de 1929 (BRASIL, 2015).
No Brasil, a primeira deputada para a Câmara dos Deputados eleita foi Carlota Pereira de Queiroz, pelo estado de São Paulo, no ano de 1934. Bertha Lutz foi eleita como suplente nesta mesma eleição pelo Rio de Janeiro, assumindo em 1936. Em seguida, ocorreu a eleição de Antonieta de Barros, que foi a primeira deputada estadual negra,
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sendo eleita pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 1935. No Senado, Eunice Michiles, do Amazonas, que apesar de ser suplente, assumiu a cadeira em 1979 após a morte do titular. Após isso, no ano de 1981, Laélia de Alcântra foi a primeira senadora negra da história e terceira mulher a exercer esse cargo. Em cargos executivos, a primeira governadora, Iolanda Fleming, exerceu o cargo em 1986, mas foi eleita como vice-governadora do Acre e assumiu apenas pelo afastamento do titular para concorrer ao Senado. Eleita, a primeira governadora foi Roseana Sarney no ano de 1994 pelo estado do Maranhão. Prefeita de uma cidade importante, tem Luiza Erundina em 1988 na cidade de São Paulo, maior e mais importante cidade brasileira. Para a presidência, o Brasil elegeu em 2010 Dilma Rousseff (BRASIL, 2015; COSTA, 1998).
Ridenti (1990) ao estudar a relação das mulheres brasileiras com a política nas décadas 60 e 70, notou que muitas mulheres participaram da luta armada contra o regime militar no Brasil. Segundo o autor, a participação política das mulheres naquele período foi quando elas passaram a intervir significativamente no cenário político, seja apoiando ou combatendo a ditadura. Naquele momento, uma boa parcela dos combatentes daquele regime era composta por mulheres, números muito relevantes e acima da média de participação na vida pública feminina, pois a norma era a não participação das mulheres na política. Em alguns casos, chega a ter entre 20% e 35% da participação de mulheres em grupos contrários a ditadura militar, inclusive grupos armados (RIDENTI, 1990). Costa (1998) afirma que a partir da década de 70, os partidos começaram a valorizar o eleitorado composto por mulheres, aumentando o número de candidatas e incorporando demandas feministas aos programas partidários, principalmente os partidos de esquerda.
Com o fim da ditadura militar, a Constituição de 1988 passou a ser um marco significativo para o país bem como para a luta feminina, pois ela instituiu a isonomia entre os indivíduos, ou seja, a igualdade de direitos e obrigações de todos perante a lei e sem distinções, inclusive no voto. Homens e mulheres passaram a ser tratados pela lei iguais na vida familiar, no trabalho e na vida em sociedade (CORTÊS, 2012). A partir desse momento, foram adquiridas algumas conquistas, como a do ano de
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1995, que ocorreu a aprovação de uma lei que garantiu uma cota para gênero de 20% de candidaturas nas eleições de 1996, cuja cota passou em 1997 a ser de 30% em qualquer eleição do poder legislativo. Essa cota não é direcionada exclusivamente para as mulheres, mas sim que nenhum dos sexos pode dispor mais de 70% das candidaturas do partido (BRASIL, 2015). Costa (2010) ao discutir sobre a política de cotas, afirma que ela pode contribuir no aumento de mulheres candidatas, mas não há garantia que elas farão parte da política institucional, pois para isso devem ser eleitas. Isso é observado que após 20 anos que foi implementado esse sistema, não há o mínimo equilíbrio entre os sexos ocupantes de cargos eletivos. Grossi e Miguel (2001) e Miguel (2000) ao comentarem sobre a política de cotas, afirmam que as mulheres foram desestimuladas durante séculos a participar desse processo político e não será com rapidez que mudará esse quadro. A autora diz que “as cotas trazem o outro, a mulher, para a política. Transformam culturalmente, incomodam, questionam e mexem no Poder. Propiciam mudanças na mentalidade política e nas práticas políticas” (MIGUEL, 2000, p.178).
Feitosa (2012) afirma que o crescimento de candidatas não aumenta diretamente o número das eleitas, fazendo com que o desempenho não seja limitado por esse fator. A autora discute que o principal limitador para a participação de mulheres na política são os recursos, que vão desde à recursos materiais até presenças em meios de comunicação (FEITOSA, 2012). Romero, Figueiredo e Araújo (2012) discorrem que até a ocupação do horário gratuito de propaganda eleitoral demonstra um desequilíbrio entre homens e mulheres, no qual os partidos possuem preferências por candidatos masculinos. Nessas propagandas, há um reflexo da sub-representação feminina na política. Em seu trabalho, Sacchet e Speck (2012, p.448) discutem sobre os financiamentos das campanhas de homens e mulheres e observam que “há diferenças significativas entre o financiamento das campanhas de homens e mulheres”. Os autores chegaram a conclusão semelhante Feitosa (2012), afirmando que os financiamentos de campanhas ajudam na explicação do baixo desempenho das mulheres nas eleições (SACCHET; SPECK, 2012).
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Araújo (2010) traz alguns outros pontos importantes para a discussão sobre o acesso das mulheres na política institucional. Ela comenta que o parentesco é uma importante rota para essa entrada, onde existe a utilização do capital eleitoral proveniente de alguém do sexo masculino na família. Outro ponto notado pela pesquisadora, é que as mulheres normalmente exerciam cargos no secretariado pertencentes aos executivos municipais ou estaduais, sendo estes muitas vezes também, por influência de algum parente do sexo masculino, fazendo com que seu ingresso direto no cargo eletivo fosse algo raro. Por fim, foi observado que a militância partidária é outro fator preponderante para que a mulher fosse inserida num contexto de disputa eleitoral (ARAÚJO, 2010). Após essa discussão sobre a entrada das mulheres na política institucional no Brasil, a próxima seção discorrerá sobre como se apresenta o quadro de mulheres nessa política no Brasil atualmente.