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modifiant celle du 12 mars 2013 sur la Cour des comptes (LCComptes)

Através dessa seção, observa-se pelos discursos da entrevistada que a religião exerce grande atuação na construção tanto da identidade da entrevistada, quanto dos seus familiares, influência que se apresenta mais forte na saída de casa, quando ela adentra no ambiente da universidade, fato que será abordado de na próxima seção, focando a religião nesta. Maria deixa claro a importância da sua religião em sua formação desde a infância, destacando que nesse período foi quando ela atuou mais fortemente nas atividades eclesiásticas. Como exemplo, pode-se observar no fragmento abaixo, Maria deixa claro a igreja como influenciadora e construtora de muitos dos seus comportamentos.

Graças a Deus a gente foi uma família bastante unida, somos uma família evangélica, foram todos os quatro filhos, meu pai e minha mãe sempre teve o cuidado de criar em um lar cristão. Então, sempre tivemos esse diferencial, sermos crianças né, como todos, com brincadeiras, mas comportadas por ter uma educação bastante rígida por conta de minha mãe e de meu pai, também por ter uma criação dentro da igreja, onde também, norteava o comportamento da gente, desde criança. Então, nós tivemos um convívio bom nos bairros que a gente morou, por conta, justamente, das dificuldades financeiras a gente várias vezes mudou, foi para vários bairros da cidade, alguns bairros aqui em [nome da cidade] e por isso também deu oportunidade da gente conviver em diversidades também sociais, desde bairros mais, chamados, no centro até periferias e no entanto a família sempre se manteve unida, integra e até hoje permanece assim.

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A religião permeia os discursos e as performances de Maria em vários momentos, até o seu jeito de vestir sempre seguiram um certo “padrão religioso”, não usando decotes, sempre com calças e roupas folgadas. Apesar da religião aparecer nas diversas categorias analisadas, criou-se esta seção sobre a importância da religião, principalmente na infância e adolescência, pois nos encontros com a pesquisada, ela enfatizou muito nesses dois momentos falar ligadas à religião da mesma. A ênfase que a entrevistada dava quando se falava da religião e da sua fé foi algo marcante no recolhimento de todos os encontros, mas principalmente nos primeiros. Para se ter uma ideia, no primeiro dia que nos encontramos para os relatos, ela sempre afirmava a importância da igreja, e em menos de cinquenta minutos, se referiu a igreja dezesseis vezes, falou cristã outras três vezes e mais uma vez, evangélica. Maria e todos os seus irmãos foram criados na igreja, “então a gente tinha um comportamento

muito bem assim, seguro né?!”. Além disso, Maria coloca a igreja como disciplinadora

dos comportamentos.

Então a gente, eu creio assim, o marco maior da gente além da criação era o diferencial, a questão da igreja que disciplinava muito o comportamento da gente... e a gente tinha essa coisa que o que ouvia na igreja tinha que colocar em prática dentro de casa”.

Em seu estudo, Foucault (2006) identifica que as instituições jurídicas e religiosas são as mais fortes formas dos discursos serem construídos por regras rígidas e de procedimentos de controle. Assim, há vários tipos de controle dos discursos da entrevistada pela igreja. É importante relatarmos que na obra de Foucault, o mesmo critica a ideia de verdade, a qual não existe, indo de encontro ao pensamento e discurso religioso, cuja ideia pregada é a verdade. Em uma igreja o que se apresenta é uma verdade essencialista que está articulada com uma série de procedimentos e regras discursivas que sustentam as práticas assumidas naquele grupo religioso (FOUCAULT, 1985; 2006). Foucault (1985) diz que a verdade é poder, ou seja, a religião e as instituições que a pregam, estão pregando uma forma e exercendo poder. A religião exerce poder porque produz e apoia, além de reproduzir jogos da verdade.

Foucault (1995) ao falar do Cristianismo, traz que características totalizadoras e individualizantes do Estado moderno advém dessa religião, que o mesmo chamou de tecnologia do poder pastoral. Para o autor, o poder pastoral diferencia porque não

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cuida apenas da comunidade em geral, mas de maneira particular nos indivíduos durante tora a vida (FOUCAULT, 1995). Maria nos diz que o envolvimento na igreja não foi algo apenas dela, mas sim de todos os filhos, fazendo com que esse envolvimento ajudasse construção da forma deles serem. “[...] um fazia parte de

conjunto na igreja, outro era presidente de adolescente, outro era diretor da escola bíblica, [...], sempre tínhamos cargo na igreja, então de uma certa forma, foram adolescentes mais disciplinados”.

Foucault (1999) traz reflexões sobre aspectos doutrinários, os quais para ele “a doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe [...] todos os outros”. As doutrinas estabelecem diferenças, influenciando diretamente nas identidades individuais e coletivas. As relações de poder, inclusive dentro da igreja, fabricam os indivíduos. A religião faz um papel de adestramento do corpo da seguinte forma: regulando os comportamentos e normalizando o prazer; objetivando a criar indivíduos úteis (1985; 1995). Fica claro nos discursos de Maria, que a religião exerceu um forte papel em diversas áreas da sua vida.

Na adolescência, [...] eu acho que eu ainda continuei um pouco da timidez, mas menos porque teoricamente quando a gente faz parte da igreja, a igreja bota a gente pra ir pra frente, pra canta, pra ensinar... então a gente vai quebrando mais isso... eu fiquei mais um pouco extrovertida [...].

A religião é um forte produtor de sujeitos e através de suas técnicas de jogos de verdade faz a sujeição dos indivíduos (FOUCAULT, 1985; 1995; 2006). Essa construção ocorre também nas identidades de gênero. Louro (2008) afirma que a igreja é um dos responsáveis por repetirem os discursos onde os indivíduos aprendem “a viver o gênero e a sexualidade na cultura” (p.22). Assim, a próxima seção discute a saída do lar da entrevistada, onde a religião exerce uma forte influência nas performances de Maria, bem como fica mais visível os desafios de gênero que ela enfrenta. Antes, é interessante falar um pouco da religião de Maria em relação ao gênero e a performatividade construída dentro da religião.

Os discursos presentes na base religiosa de Maria apresentam uma forte perspectiva normativa, na qual existe apenas um único modelo para o exercício da sexualidade, o casamento cristão, o que for contrário isto precisa de restauração. Os discursos evangélicos recorrem a uma naturalização da hierarquia do gênero, onde a ideia do

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homem superior e a mulher inferior é visto como algo normal (NATIVIDADE, 2006). Apesar disso, Mafra (1996) afirma que os evangélicos problematizam essa hierarquia, não a negando, mas afirmando que isso não “signifique, no contexto social local, o retorno a uma situação de opressão ultrapassado e/ou uma perda de ‘poder’ por parte das mulheres” (p. 92, grifo da autora). A maioria dos discursos evangélicos são dominados pela heteronormatividade, cujos praticantes desta religião reproduzem os discursos na vida em sociedade (SOUZA, 2013). A religião de Maria também exerce forte controle acerca da sexualidade, em que a pessoa deveria se manter virgem até o casamento, pois assim seria uma mulher honrada. Algumas denominações controlam as vestimentas dos sujeitos, apesar disso, a que a participante segue, deixa-os “livres” para escolher o que vestir (SOUZA, 2013). Todavia, o corpo teórico deste trabalho questiona se realmente os indivíduos são livres realmente para escolher o que vestir (DREYFUS; RABINOW, 1995; SALIH, 2012).

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