A tabela 3.2 mostra quais estratégias e defesas são utilizadas pelos trabalhadores contra o sofrimento, os custos psíquicos, físicos e sociais. Os temas e os exemplos de verbalizações são apresentados a seguir. As estratégias de defesa mobilizadas aqui diferem dos mecanismos de defesa do ego por não serem interiorizados e persistirem, no caso, a partir do contexto da organização do trabalho.
Tabela 3.2
Eixo III - Vivência de prazer e sofrimento – Efeitos, Estratégias e Defesas – Categoria 2
Estratégias e Defesas Definição
Recursos, estratégias e defesas frente ao sofrimento. O custos psíquico, físico e social.
Sínteses Temáticas e Exemplos de Verbalizações
Estratégias: não criar expectativas: conformismo ou superá-las: servidão voluntária (1)
3-2.1-1 “O servidor público, ele é servidor de uma Secretaria de Estado e ele pode ser mandado pra outras unidades a qualquer momento e se ele cria esse vínculo muito forte, ele pode entrar em depressão, isso pode afetar a saúde dele por conta desse vinculo”
3-2.1-1 “A conclusão que eu cheguei depois de quase 7 anos de trabalho, é que o servidor ele não tem que ser muito bom e ele não tem que ser muito ruim, ele tem que ser mediano, servidor muito bom ele envolve o sentimento com tudo que faz e por conta da deficiência do cenário, esse servidor acaba sendo deteriorado, ao final disso tudo você pode se decepcionar”
3-2.2-1 “Ninguém veste a camisa, quem virar pra você e falar "Ah, eu visto a camisa'', é mentira, ninguém veste a camisa porcaria nenhuma, a gente trabalha assim pensando...eu, particularmente, trabalho pensando no meu filho...ah, eu tô aqui porque...não gosto disso aqui? Não gosto, mas eu tenho..chegar em casa meu filho me pede as coisas e eu tenho que ter pra dar, então eu vou trabalhar, dane-se. Tá ruim? Tá ruim, mas vou, não tem outro jeito. Se eu pudesse eu não estaria aqui”
3-2.3-1 “Não levar muito a sério mesmo, ficar mais tranquilo, não dar o meu sangue aqui...coisa que eu fazia antes. Não vale a pena”
3-2.2-1 “Mas...a verdade é que a gente acaba acostumando com os problemas porque a gente sabe que a gente não pode resolver, não adianta, eu não vou chegar aqui e vou resolver o problema, então...eu convivo com ele e pronto, acabou. Se eu tiver que sair agora numa escolta sozinho eu não posso chegar aqui e reclamar porque isso vai me causar um transtorno ou um mal estar.”
Ideologia Defensiva ‘não fazer por merecer para não ser vítima’ Contorno do risco: risco geográfico ou abuso de poder (2.1)
3-2.5-2.1 “A postura do agente frente ao preso, os que tem a postura boa não tem que temer nem aqui dentro e nem lá fora, se aconteceu isso aí...eu tenho pena, eu fico assim ''Poxa, morreu um agente'', mas eu acho que cada um procurou, alguma coisa ele fez, se ele mereceu, se ele procurou”
3-2.8-2.1 “(o risco) depende do modo de trabalhar da pessoa, claro que...e os locais que frequentam, né? Eu evito locais onde eu sei que vai ter um acúmulo de pessoas assim e, sei lá, eu tento evitar ao máximo” 3-2.13-2.1 “Indiferente daquilo que ele vive aqui, ele não vai se sentir à vontade, ele teria que ser subsidiado a morar em um lugar que, digamos assim, que proporciona uma segurança. O lugar que eu moro também, eu prefiro ter um pouco mais de...acreditar por ter uma segurança melhor, e o ambiente também das quais eu frequento também...é...em tese, né, ele acaba diminuindo essas possibilidades.” 3-2.14-2.1 “Isso pode acontecer comigo a qualquer momento, eu indo pra casa, de repente, eu nem volto pra casa amanhã, então, assim, é o preço da profissão, é o preço da profissão, não tem pra onde correr disso.”
3-2.17-2.1 “Ninguém morre à toa, eu acredito, ninguém morre à toa, toda ação tem uma reação...é...tem dez anos que eu trabalho, como eu te falei, não é em qualquer lugar que eu vou, por opção, não por medo, mas eu evito ir, nunca sento de costas pra rua, algum barzinho que eu vou, algum local, sempre de frente, de costas pra parede e de frente pra rua, é como eu te falei, em certos lugares eu não vou”
Ideologia Defensiva ‘não fazer por merecer para não ser vítima’ Aceitação do risco: inerente/assumido (2.2)
3-2.9-2.2 “Ah, melhor eu correr risco de vida do quê de passar fome, né?
3-2.17-2.2 “Quando você é um bom profissional e segue o quê o Estado quer de acordo, incomoda alguns internos que não querem corresponder de acordo com o quê o Estado quer, aí a ameaça é natural, então eu aprendi a lidar com isso”
Ideologia Defensiva ‘não fazer por merecer para não ser vítima’ Minimização do risco: enfrentado/dominado (2.3)
3-2.16-2.3 “É...pois é, então de novo uma racionalidade, eu falei ''Pô, isso não é..'' porque todo mundo fica: ''Oh, vai ter um salve geral, tão matando'', não, vagabundo não é burro, eles não vão bater de frente com o estado de jeito nenhum, eles se matam lá, mas não querem confusão com o estado porque sabem que os caras (IP) são doido”
Envolvimento afetivo/amoroso (3)
3-2.7-3 “O ambiente ele é predominantemente de homens...e...o ambiente é claro, é completamente machista, então...e há um comportamento um tanto quanto assim, não sei é pelos próprios presos, os agentes também tem um comportamento um tanto quanto infantilizado...é...de adolescente, tipo pegação. Não sei, é como se fosse uma auto-afirmação, por você trabalhar muito com homem e tá o tempo todo com homem, você tende a...a...querer estar ou permanecer o tempo todo, ter uma presença feminina, algo pra distrair a sua cabeça”
Afastamento do trabalho (4)
3-2.7-4 “Hoje eu já não tenho dado tanta conta, até porque eu fui afastado quinze dias pela psiquiatra, ainda vou ter uma nova consulta, eu já venho aqui na UCAP desde janeiro...é...tentei de alguma forma, algum tipo de estratégia pra tolerar, pra tipo...eu sair do meu corpo, mas as estratégias seriam...hoje...hoje elas não...”