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La modélisation comme moyen explicatif de la dynamique des systèmes

Novamente, temos aqui, de acordo com a leitura que estamos empreendendo, uma alegoria intencionalmente explicitada: a lógica tradicional que preside as estruturas gramaticais presentes nas línguas ocidentais é também individualizada na figura de Cartesius. O próprio Leminski declara: “O Catatau procura captar, ao vivo, o processo da língua portuguesa operando. E mostrar como, no interior da lógica todopoderosa, esconde-se uma inautenticidade: a lógica não é limpa, como pretende a Europa, desde Aristóteles” (1989, p. 211).

A linguagem não é apenas um instrumento de expressão de nossas idéias. Ela é também a própria condição de sua possibilidade, de onde elas emergem. Porém, não de modo espontâneo e natural. Histórica, a linguagem não é inocente ou neutra; ela traz em si, de modo implícito, uma ideologia, os traços culturais do seu desenvolvimento. Chu (2000, p. 203), analisando as relações entre linguagem e pensamento, reconhece que já é corriqueira a observação de que linguagem e cultura estão “intimamente relacionadas”. Mas adverte:

São, entretanto, relativamente poucos os que esquadrinharam especificamente a possibilidade de a estrutura de uma linguagem condicionar os processos do pensamento e, vice-versa, a de mudanças radicais no pensamento acabarem acarretando reformas estruturais na linguagem.

Jacques Derrida (1930 – 2004) foi, sem sombra de dúvida, um dos que, mais recentemente, se dedicou a essa empreitada. Seu projeto de reflexão contemplava a preocupação em tornar evidente o que jazia obscuro na tradição do pensamento ocidental, mostrar as implicações dessa revelação para os diversos campos do conhecimento, e resgatar, para a Filosofia, a

possibilidade de manutenção da criatividade e da invenção. Segundo sua abordagem, a “lógica da identidade” estaria na base das linguagens ocidentais. De características aristotélicas, ela é delineada a partir de três princípios fundamentais: o de identidade, o de

não-contradição e o do terceiro excluído. O primeiro nos diz que se algo é, esse algo é igual a

si mesmo, ou seja, existe uma identidade absoluta e necessária entre “o que é” e as características que o constituem. O segundo, praticamente uma condição do primeiro, nos assegura que é impossível que algo seja e, simultaneamente e numa mesma relação, não seja. Finalmente, o último determina que algo só pode ser uma coisa ou outra, isto é, não há uma terceira possibilidade. Derivados desses princípios ou leis do pensamento – por hipótese, anteriores à própria linguagem –, estão, de um lado, a pressuposição de uma realidade essencial à qual eles se referem, e, de outro, uma concepção binária implícita. Desse modo, os conceitos, de natureza racional e universal, correspondem às essências imutáveis e absolutas das coisas, e implicam em pares opositivos como verdadeiro/falso, inteligível/sensível, geral/particular, ideal/real, bem/mal, positivo/negativo, dentro/fora, mente/corpo, e assim por diante. Derrida (1995, p. 37) argumenta contra a imposição dessa necessidade da “simples escolha de um dos termos” do que ele chama “oposições metafísicas”, e salienta:

É preciso portanto tentar libertarmo-nos desta linguagem. Não tentar libertarmo-nos dela, pois é impossível sem esquecer a nossa história. Não libertarmo-nos dela, o que não teria qualquer sentido e nos privaria da luz do sentido. Mas resistir-lhe tanto quanto possível. (p. 49)

Mas como isso é possível se o nosso discurso se realiza no interior desses pressupostos? Não há como fugir à linguagem para pensá-la. Não há esse lugar significativo “fora” da linguagem, do qual a possamos contemplar. Sua crítica, portanto, deve ser exercida no seu próprio âmbito, com seus próprios conceitos e noções. Segundo Derrida (1973, p. 16), não devemos renunciar a estes conceitos, mesmo correndo “permanentemente o risco de recair”, pois “eles nos são indispensáveis hoje para abalar a herança de que fazem parte”. Não se

trata, portanto, de remover as contradições, as obscuridades, as aporias, as denominadas “impurezas” da linguagem, mas, estrategicamente, dá-las a conhecer, marcar as condições de sua eficácia, para que possamos assistir, além dos seu limites, “o inomeável, o brilho do além- clausura” (DERRIDA, 1973, p. 17). O impensável é assim “pensado” não só a partir da argumentação comum, como também dos chistes e dos jogos de palavras. Ao se revelar o que se escondia no fundo da linguagem e que, de lá, orientava nosso saber, faz-se com que este perca sua inocência e ingenuidade. Ao ser incorporado ao saber, aquilo que jazia oculto amplia as reais possibilidades desse saber, ao fazê-lo perceber seus próprios códigos, convenções e pressuposições, que o apresentava como natural e universal. Assim, o conhecimento deixa de ser divino, absoluto, para tornar-se humano, finito e artificioso. Derrida confirma:

O nosso discurso pertence irredutivelmente ao sistema das oposições metafísicas. Só se pode anunciar a ruptura desta ligação através de uma

certa organização, uma certa disposição estratégica que, no interior do

campo e dos seus poderes próprios, voltando contra ele os seus próprios

estratagemas, produza uma força de deslocação que se propague

através de todo o sistema, rachando-o em todos os sentidos e de- limitando-o por todos os lados. (1995, p. 37)

O “Catatau” procura, ardilosamente, com as intervenções de Occam, evidenciar aqueles pressupostos metafísicos, não só denunciando, no caso específico da língua portuguesa, os vestígios do logocentrismo no pensamento de Cartesius, como apresentando, de forma retórico-poética (trocadilhos, anagramas, paronomásias, associações inusitadas, fragmentações, e, sobretudo, palavras-valise) suas “impurezas” de sentido, isto é, as arbitrariedades da relação signo-realidade. A seguinte passagem do “Catatau”, escolhida aleatoriamente, dá bem a medida da sua artificialidade sígnica, na medida em que ao apresentar um alto grau de distorção das palavras, faz com que estas instaurem um universo

sonoro incapaz de precisar significados “fora” de si. A correspondência mundo-linguagem se apaga em favor do próprio jogo verbal e suas ressonâncias poéticas. Vejamos:

A laringelaranja arma a lesmória, espantanalho? Um ploma! O interpretérito desembrenha o aconhecimento, a alucilâmina apaziguezágua as cancramuscas. Oxaliás, o crifício não cancerne, o perlume ciclusulca... Espiralâmides trextram molusofuscolaturas, amassacramassam as pilhérnias que carcomascam os duélagos do ursucapiau! Marsup! Aurifúlgido, argenticerúleo dentorrostro! Com a brecadabra! Lampadainha em litany, ou em nenhumgatu? Qualqual chor? Um nenhúnflar! Em Quizília, rubicundam o imesmo langaré! Quadrilátero foi ondeontem, o massacrifídio triunfotriu no princípio, testenenhuma na ocacasião, ocacasial! A platéia ignogra colibristas, e por talismanhã – apalpenas o muselau! Calhauculo: quantos andromedrontários desvenclavestram o ojerizante? Calverdáver, mecanículas onde contagotagiosas? Acoli. Inverneja o descascaso, e cleampulepatrás! Terrestrecelestrelestra, queroquerubim: contitactos, tautuagem... O colopso acasalha a armandíbula. Verdade que óculosculta, e inclusive, eis-me achancelerado em tétalos, irreversando o que tem sido e vem sendo e, tendo o tempo todo para o ser, chegou cedo. E viva a voz! (47)

A pontuação, certas estruturas rítmicas e sintáticas, o uso de artigos, advérbios e conjunções, entre outros artifícios comuns da escrita, tentam criar uma sensação de normalidade textual, e parecem anunciar alguma nuance de representação de um universo extra-verbal, mas este se dissolve tão logo se insinua, em razão do inusitado dos vocábulos recriados segundo uma outra lógica, poética e musical. Haroldo de Campos destaca que o campo da poesia é o “domínio onde o ‘logocentrismo’ ocidental foi sempre, de um modo ou de outro, em maior ou menor grau, contestado pela prática da linguagem” (2000, p. 85). A metáfora, segundo ele, é uma “dissidência camuflada” do princípio lógico do terceiro excluído. Orientada por uma “relação de analogia” ela “busca a similaridade no dissimilar, produzindo a diferença a contrapelo, sob as espécies do mesmo” (p. 86). Algo semelhante também pode ser dito a respeito da palavra-valise, analisada detidamente por nós no terceiro capítulo. Presença estratégica no “Catatau”, ao fazer uso, na sua elaboração, do método ideogrâmico de composição, põe em destaque uma “lógica da correlação”.

Aqui se anuncia outro aspecto relacionado à estrutura lógica da linguagem: o da sua sintaxe. O subtítulo deste item faz referências a dois modos gerais de composição: o “lógico- discursivo” e o “sintético-ideogrâmico”. O primeiro, identificado com a “lógica da identidade”, está presente na linguagem ocidental através, sobretudo, da estrutura proposicional do tipo “sujeito-partícula-predicado”, linear e substancialista; o segundo aparece mais nitidamente no idioma chinês e traz, em sua base, outra lógica, de caráter relacional e analógico. O confronto desses dois modos, apresentado a seguir, tem por objetivo evidenciar certos limites enfrentados pelo pensamento ocidental, enclausurado na lógica tradicional. Para Sun,

Na medida em que o objeto da Lógica está nas regras de raciocínio implícitas na linguagem, a expressão desse raciocínio deve ser implicitamente influenciada pela estrutura da linguagem, e as diferentes línguas terão formas de Lógica mais ou menos diferentes. Daí a diferença entre a Lógica chinesa e a Lógica aristotélica. (2000, p. 177)

Segundo Haroldo de Campos, contrariamente à “lógica da identidade”, fundamento da lógica aristotélica, o idioma chinês e o pensamento a ele vinculado responderiam “a uma ‘lógica da correlação’ ou da ‘dualidade correlativa’, onde os opostos não são excluídos, mas integrados numa inter-relação dinâmica, mutuamente complementar” (2000, p. 84). Esta “outra” lógica privilegiaria um tipo de pensamento analógico, em que a ênfase recairia sobre as relações entre os signos e não em suas definições de caráter substancialista. Os conceitos de substância e atributo derivam da sentença sujeito-partícula-predicado, e deles decorrem a noção de causalidade. Desse modo, as categorias de identidade, substância e causalidade, subsumidas pelas línguas ocidentais, estão na base do seu pensamento. O mesmo não ocorre na sentença chinesa, em que não há, de modo geral, a presença padrão nem do sujeito nem do predicado. Sua lógica não é a da inferência, silogístico-linear, mas relacional e analógica.

A comparação com a língua chinesa teve por objetivo clarificar, por oposição, o modelo lógico básico adotado historicamente pelas línguas ocidentais. Modelo este posto à prova no projeto do “Catatau”, que não propõe, obviamente, a negação absoluta da sua eficácia. Seu questionamento, entretanto, aponta não só para o reconhecimento de sua não universalidade, como para a possibilidade de, dentro do seu próprio âmbito, novas estratégias alternativas de composição ser experimentadas. A este respeito, inclusive, salienta Hayakawa:

Todos nós estamos hoje familiarizados com o fato de que a teoria da relatividade, a moderna Mecânica dos quanta, a Matemática moderna etc, reformularam não apenas nossas noções do universo como também as hipóteses estruturais básicas sobre as quais vêm sendo construídas nossas convicções. Os acordos tradicionais que subscrevemos na ‘organização e classificação dos dados’, a estrutura inconscientemente atribuída ao universo pelos hábitos da linguagem tradicional demonstraram sua desalentadora inadequação aos propósitos da Ciência moderna. Desenvolveram-se, portanto, novas linguagens, envolvendo novas hipóteses estruturais. (2000, p. 230)

O capítulos 3 deste nosso trabalho sobre a “palavra-valise” e o método da “montagem”, recursos amplamente utilizados na composição do “Catatau”, analisa mais detalhadamente esses estratagemas.