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Chapitre 3. Privatisation et informalité dans le fonctionnement des camps informels

3.3. Intervention humanitaire dans les camps

3.3.3 Mise en œuvre de projets et négociations

Conforme se asseverou nos capítulos anteriores , embora o cristianismo tenha sido a base da cultura ocidental, com o deslocamento da população para as cidades, a Igreja Católica perdeu aquele enorme controle sobre a produção intelectual e cultural que possuíra na alta Idade Média156.

Não é de se estranhar, porta nto, que o chamado movimento renascentista157 tenha trazido o resgate de uma cultura considerada por anos como pagã e condenad a pela igreja.

Percebe -se um saudosismo em relação aos ideais gregos de beleza e a valorização da arte clássica. Há uma expansão na produção de conhecimento técnico, não apenas para a aplicação prática nos ofícios, mas agora pela produção de um conhecimento científico em superação ao modelo teocrático158.

Mais além, o período trouxe uma nova (re) visão do papel do hom em diante do unive rso que lhe envolve. É o que se denominou de antropocentrismo em referência ao papel central que a humanidade tomava nesta nova fase , em contradição ao Deísmo imposto pela Igreja Católica n o ápice da Idade Média.

156

WE LLS , H e r be r t G e o r g e. H ist ó r ia U n iv e r sa l. v. 4 . ( E st a do s U n id o s d o B r a s i l: 1 9 7 2, C o mp a n h ia E d it o r a N a c io na l) . p . 1 1 4 5.

157

A o r ig e m d e ss e t e r mo é a t r ibu íd a a o h ist o r ia d o r su íç o B u r c k ha r d t no fin a l d o sé c u lo X I X e mu it o c o nt e st a d a no me io a c a d ê mic o , p o r se r c o ns id e r a d a u ma t e nt a t iv a d e se a t r ibu ir a u m p e r ío d o e xa t o u m c o n ju nt o d e mo d if ic a ç õ e s q u e s e e nt e nd e u i mp r e c isa me nt e e nt r e a I d a d e Mé d ia e a I d a d e Mo d e r n a . ( LE G O F F, Ja c q u e s. As R a íz e s Me d ie va is d a E u ro p a . ( P et ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p . 2 7 6) . 158 I mp o ss ív e l nã o c it a r o p a p e l d e se mp e n ha d o ne ss e c a mp o p o r G io r d a no B r u n o ( 1 5 48 - 1 6 0 0 ) , N ic o la u C o p é r n ic o ( 1 4 7 3 - 1 5 4 3 ), Fr a nc is B a c o n ( 1 5 6 1 - 1 6 2 6 ) , Jo ha n ne s Ke p le r ( 1 5 7 1 - 1 6 3 0 ) e , co ns id e r a nd o - o ma is d o q u e u m a r t ist a , Le o na r d o d a V inc i ( 1 4 5 2 - 1 5 1 9 ) .

Impossí vel não notar neste resgate históri co, que é na fase renascentista aonde está o embrião do humanismo do século XVIII . A visão antropocentrista permitiu um salto fundamental entre a ideologia católica empregada na manutenção de poder da Igreja , e a valorização do ser humano.

Nesse sentido , é primeiramente interessante a referência que J aques Le Goff faz a Nicolau de Cusa e P awel Wlodkowic , naquele período. Para o historiador, Nicolau, ainda que destacando a primazia do cristianismo, teorizou as bases para o ecumenismo e anunciou, na mentali dade do século XV, a tolerância religiosa159. Wlodkwic, por sua vez, lançou as bases modernas do direito internacional e em suas reflexões pregou a existência de direitos naturais extensivos aos p agãos, dos quais emergiam direitos civis e políticos160. Ambos casos, apresentam, claro distanciamento em relação às concepções católicas da baixa Idade Média.

Em tal contexto de revisão de va lores , é importante destacar também Gio vanni Pico Della Mirandola, ou Conde Della Mirandola (1463 -1494). A produção intelectua l deste autor situa -se exatamente no momento em que se discorda em certa parte com a estrita orientação Católica, mas tenta -se concilia -la com o resgate de questões ontológicas transportadas da filosofia clássica.

O Conde, identificado como humanista já no século XV161, foi estudioso das obras clássicas da filosofia, bem como se aprofundou na filosofia escolástica. Sua formação permitiu -lhe uma contraposição clara entre a visão pré cristã do homem e a v isão do homem pec ador medieval. Essa é a essência do pen samento renascentista162!

Não é de se estranhar que a Oratio Ioannis Pici Mirandulani

Concordiae Comitis , seja um oratório de contemplação ao homem:

159 LE G O FF, Ja c q u e s. As R a íz e s Me d ie va i s d a E u ro p a . (P e t ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p. 2 5 8 . 160 LE G O FF, o p. c it . , p . 2 6 0 . 161 O q u e se r ve a c o mp r o va r q u e o hu ma n is mo d o S é c u lo X V I I I t e ve su a s r a íz e s no p e r ío do d o R e na sc i me nt o . 162 MI R AN D O L A, G io va n n i P ic o D e lla . D i sc u r so S o br e a D ig n id a d e d o H o me m. ( P o rt u g a l: 2 0 1 0 , E d iç õ e s 7 0 ) . p . X V I .

" F in a l me nt e , p a r e c e u - me t e r c o mp r e e nd id o p o r q u e r a z ã o é o ho me m o ma is fe l iz d e t o do s o s se r e s a n i ma d o s e d ig no , po r is so , d e t o d a a a d mir a ç ã o , e q u a l e n f i m a c o nd i ç ã o q u e lhe c o u be e m so rt e na o r d e m u n iv e r s a l, in v e já ve l n ã o só p e la s be st a s, ma s t a mbé m p e lo s a st r o s e a t é p e lo s e sp ír it o s su p r a mu nd a no s. C o isa in a c r e d it á ve l e ma r a v ilho sa . E c o mo nã o ? Já q u e p r e c is a me nt e p o r is so o ho me m é d it o e c o ns id e r a d o ju st a me nt e u m g r a nd e mi la g r e e u m se r a n i ma d o , se m d ú v id a d ig no d e se r a d mir a d o "163.

Ele (o homem) é apresentado como obra máxima da criação divi na, e merecedor de veneração em tudo que lhe tocar. O atributo que lhe confere o papel de protagonista dentre a s criaç ões divina s, é a liberdade164! É a capacidade de se sublimar aos anjos ou de se de generar aos vermes , por sua própria vontade. Essa possibilid ade de se auto determinar, é um câmbio significativo em relação à concepção de pessoa pré disposta ao pecado.

Mas a mudança de concepções não se operou de modo radical até o século XVIII. O prestí gio da Igre ja Católica e sua notável habilidade de se reinventar165 e resistir a cismas fizeram com que a instituição continu asse a ser um referencial no mundo renascentista. Não é por menos que o desenvolvimento das técnicas artísticas se manifestou em diálogo com temas bíblicos166.

Ao final do século XVII essa pres ença intensa do poder eclesiástico na sociedade começou a se ap resentar como indesejável.

Diversos fatores podem ser apontados para que novo s ideários, partidos do pressuposto antropocentrista, tomassem conta do ocidente e pouco a pouco reclamassem um domínio ideológico antes ocupado pela doutrina católica.

163 MI R AN D O L A, o p . c it . , p . 5 5 . 164 MI R AN D O L A, o p . c it . , p. 6 7. 165 P r inc ip a l me nt e c o m a s o r d e ns me nd ic a nt e s q u e p r e g a va m u m sa c e r d ó c io se m o p u lê nc ia s, e a d e v o t i o mo d e r na , q u e , na o br a A I mit a ç ã o d e C r ist o d e To má s d e Ke mp is, a p r e se nt a va u m no vo r e fe r e nc ia l d e d e vo ç ã o à ima g e m d a v id a d e C r ist o .

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E v id e nc ia - se e ssa c o e x ist ê nc ia no p a p e l d a a r t e r e na sc e nt ist a na o br a s sa c r a s do p e r ío d o . A e xe mp lo d a p int u r a , o c u id a d o co m a s fo r ma s hu ma na s, c o m a s c u r va s e o r e sg a t e do na t u r a lis mo n a r e t r at a ç ão de c e na s b íb l ic a s, c o lo c a r a m a s no va s t é c n ic a s a se r v iç o d a I g r e ja C a t ó lic a . Fo i o a ba nd o no d a t r a d iç ã o me d ie v a l d e fo r ma s p l a na s, o r na me nt a is e a nt i na t u r a list a s. ( LO P E R A, Jo sé A lv a r e z . H ist ó r ia G e r a l d a Ar t e . ( R io d e Ja ne ir o : 1 9 9 5 , D e lp r a d o ) . p . 6 2 )

Em prim eiro lugar a dimensão que as cidades tomaram, trouxe ram à vida social uma complexidade nunca antes observada . Nunca os centros urbanos estiveram tão inflados e repletos de tamanha diversidade de culturas, ofícios e tradições. A noção da existência de conceitos universalmente aplicáveis aos homens tinha um solo incontestavelmente fértil a ser explorado naquele ambiente167.

Essa situação se intensifica principalmente se levado em conta o desenvolvimento dos meios de transporte e navegação, afinal, isso implica no aumento na velocidade de deslocamento e de tráfego de informações. Qualquer novidade chegava rapidamente ao seu destinatário da mesma forma que surgiam noticias de lugares antes isolados168.

O compartilhamento de informações, por sua ve z, permitiu a difusão e desenvolvimento de ofícios relacionados à diversas áreas do conhecimento . Notou-se o sur gimento de nova s técnicas para a pintura169, artesanato, medicina, literatura e mesmo para a pesquisa cientifica de modo geral.

Todas essas inovações trazidas co m os novo s t empos da Europa, criaram, já no s séculos XV e XV I uma atmosfera de de slumbre com a capacidade do ser humano. Não é por menos que o antropocentrismo, como movimento que confere ao homem um papel valorizado frente ao mundo, se desponta e difunde pelo ocidente.

Mas o antropocentrismo se opunha diretamente aos interesses da Igre ja Católica. Afinal, conforme se apresentou nos capítulos anteriores, a justificação para os projetos de manutenção e expansão do poder católico ,

167 LE G O FF, Ja c q u e s. As R a íz e s Me d ie va i s d a E u ro p a . (P e t ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p. 2 5 4 . 168 LE G O FF, Ja c q u e s. As R a íz e s Me d ie va i s d a E u ro p a . (P e t ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p. 2 5 8 . 169

" U ma no v id a d e c h a ma d a a u m e xt r ao r d iná r io su c e sso a p a r e c e no c o me ç o d o sé c u lo X IV, o re t ra t o . É u m p r o d ut o r d a a fir ma ç ã o d o ind iv íd u o e d e s se no vo c ó d ig o d e r e p r e se nt a ç ã o q u e se c h a ma d e r e a lis mo . E le é e nc o nt r a d o e nt r e o s v ivo s e e nt r e o s mo rt o s. O r e st o do s q u e ja z e m d e ix a d e s e r c o nve n c io na l p a r a se t o r na r " r e a l" . O s r e t r at o s ma is a nt ig o s imp õ e a fig u r a d o s p o d e r o so s: p a p a s, r e is, se n ho r e s r ic o s bu r g u e s e s ; d e p o is o r e t r at o d e d e mo c r a t iz a . A in v e nç ã o , no sé c u lo X V , d a p int u r a a ó le o e o d e se n vo lv i me nt o d a p int u r a d e c a va le t e se r v e p a r a o r et r at o , q u e co nt inu a , no e nt a nt o , ho nr a d o no s a fr e s c o s. " ( LE G O F F, Ja c q u e s. A s R a íz e s Me d ie va is d a E u ro p a . ( P et ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p . 2 5 5. )

desde o século XI, partia d a premissa doutrinariamente afirmada de um universo teocêntrico170.

Todavia, a cúria não tinha o mesmo poder de resposta que possuira nos tempos de Inocêncio III. Devido aos inúmeros conflitos políticos em que se envolvera nos séculos XIII e X IV, em razão d e seus interesses expansionistas , principalmente na península Italiana e com os reinos da França e Inglaterra, os monarcas do antigo regime não ofereciam o mesmo respaldo aos desmandos eclesiásticos171.

Também entre a população, a cúria não goza va da melhor fama . As corrupções e vidas pecaminosas incompatíveis com o bendito ofício, por parte de certos clér igos, tornava m viral a descrença na instituição da Igreja Católica.

Venda de indulgências, simonias, a própria cisma172 em que se envolveu a Igreja, enfraqueceu a imagem de uma igreja santa e universal . Os abusos e as polêmicas em que os ocupantes do trono de São Pedro se envol viam, pouco a pouco esvaziavam o sentimento de sacralidade para com a posição do Papa, e no século XVI o posto de Pontífice parecia ma is uma coroação política do poder de certas famílias na Itália, do que a herança sagrada de um sumo sacerdote173.

E mais, a própria atmosfera de medo trazida pelo Santo Ofício e pelos Autos de Fé, as sociava o c atolicismo à uma imagem retrógada de rigor e 170 WE LLS , H e r be r t G e o r g e. H ist ó r ia U n iv e r sa l. v. 4 . ( E st a do s U n id o s d o B r a s i l: 1 9 7 2, C o mp a n h ia E d it o r a N a c io na l) . p . 1 1 9 9. 171 WE LLS , O p . c it . , p. 1 1 2 4. 172 E m 1 3 7 8 a I g r e ja C a t ó lic a p a sso u a se r c o ma nd a d a p o r d o is p a p a s: U r ba no V I , a p a r t ir d e R o ma , e C le me nt e V I I e m A v ig no n. E ssa d iv isã o se ma nt e v e a t é 1 4 1 7 c o m a e le iç ã o d o p a p a Ma r t in ho V . ( LE G O FF, Ja c q u e s. A s R a íz e s Me d ie v a is d a E u r o p a . ( P et ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p. 2 4 3) . 173 " O p a p a A le xa nd r e V I ha v ia c o mp r a d o p u b lic a me nt e a t ia r a , e se u s c in c o fi lho s ba st a r do s c o mp a r t ilh a v a m d e su a s va nt a g e n s. S e u filho , o c a r d e a l d u q u e B ó r g ia ma nd o u ma t a r , co m o a c o r do do p a i, o p a p a , o s V it e ll i, o s U r b ino , o s G r a v in a , o s O liv e r o t t o e c e nt e n a s d e o u t ro s se n ho r e s p a r a a p o d e r a r - se d e se u s d o mín io s. Jú l io I I , a n i ma d o d o me s mo e sp ír it o , e xc o mu ng o u Lu ís X I I , d e u se u r e ino a o p r ime ir o o c u p a nt e e , e le p r ó p r io , c o m e l mo na c a b e ç a e a c o u r a ç a no p e it o , pô s a fe r r o e sa ng u e u ma p a r t e d a It á lia . Le ã o X, p a r a p a g a r se u s p r a z e r e s, co me r c ia l iz o u ind u lg ê n c ia s c o mo q u e m ve nd e me r c a d o r ia s nu m me r c a d o p ú b l ic o " . ( V O LT AI R E , Fr a nç o is - Ma r ie Ar o u e t . T r at a do So br e a T o le r â nc ia . ( S ã o P a u lo : 2 0 0 6 , E sc a la E d u c a c io na l. p . 1 9 . )

medo. Absolutamente oposta ao clima renascentista de progresso e liberdade. O controle social católico era cada vez mais indesejado.

E não apenas a Igreja , como tudo mais que se ligava à essa imagem do passado da alta idade média, passava pouco a pouco a se tornar indesejado. De fato, o antigo regime paulatinamente se tornou incompatível com a nova mentalidade do homem ocidental em diversos sentidos . Entre elas note -se, em especial , que o regime monárquico, a nobreza, a legitimação divina do poder de govern o, tudo parecia destoante da ideologia de perseguição ao lucro, permitida pela propagação das cidades e difundida pela classe burgues a.

Não restam dúvidas que a burguesia, sedenta por projeção social174 foi a grande patrocinadora de todo o movimento que , em diversos níveis , tomava conta do mundo conhecido e emergia cada cidadão em ideais de busca por novos tempos.

Mas de todas as formas que a classe burguesa poderia incitar as populações para lutar contra o antigo regime e suas intuições, foi com o apoio à produção int electual que o legado de inconformismo se propagou175.

O papel foi o grande veículo de propagação da nova Europa pós medieval. Certamente a invenção da imprensa176, foi r esponsá vel pela expansão do renascimento para além da península itálica. Assi m, o lapso temporal entre o renascimento do séculos XIV e XV, e o século das luzes, não apenas foi marcado por pestes177, conflitos178 e pela reformulação do mapa europeu179. Foi também o tempo de maturação de um pensamento

174

Le ia -se “poder”, já que na Europa do Século XVIII o burguês já tinha uma posição de in c o nt e st á ve l d e st a q u e no me io so c ia l.

175

D a í se d e st a c a a f ig u r a d o s me c e na s: e n t u s ia st a s d a s no va s t é c n ic a s r e na s c e nt ist a s, so br e t u do na s a r t e s. É o c a so d a fa mí l ia Mé d ic i q u e a ssu me e st e p a p e l e m F lo r e nç a . E le s ( o s Mé d ic is) in a u g u r a m a t r a d iç ã o bu r g u e sa e m a p o ia r a r t ist a s e e st u d io so s, o q u e ma i s t a r d e é fu nd a me nt a l no fo me nt o d a R e v o lu ç ã o Fr a nc e s a . ( LE G O F F, Ja c q u e s. A s R a íz e s Me d ie va is d a E u r o p a . (P et ró po lis: 2 0 0 7 , V o z e s) . p. 2 5 6) . 176 LE G O FF, Ja c q u e s. As R a íz e s M e d ie va is d a E u r o p a . ( P et ró po lis : 2 0 0 7 , V o z e s) . p . 2 5 2 ; WE L LS , H e r b e r t G e o r g e . H ist ó r ia U n iv e r sa l . v. 4 . ( E st a do s U n id o s d o B r a s il: 1 9 7 2 , C o mp a n h ia E d it o r a N a c io na l) . p . 1 1 7 2. 177 LE G O FF, o p. c it . , p . 2 2 7 . 178 LE G O FF, o p. c it . , p . 2 3 7 . LE G O FF, o p. c it . , 179 LE G O FF, o p. c it . , p . 2 6 2 ..

renascentista, através de uma produção intelectual cada vez mais difundida e acessível.

E ressalte -se : neste campo (de produção intelectual), não só a dignidade humana, enqua nto valor foi içada pela vanguarda iluminista (e aqui a análise já caminha para os idos do século XVIII ). As sociada a ela, outros ideais foram tomados como mote para um movimento de projeção do ser humano muito além da imagem medieval de indivíduo pecador e penitente. Lemas de liberdade180, igualdade181 e fraternidade182 partiram do tinteiro de pensadores renomados pela mentalid ade vangu ardista, e foram parar na boca de populares organizados grupos revolucionários, dispostos a aplicar nos go vernos o pensamento que até então só fizera sentido nos livros. Obser ve -s e o caso fra ncês com as propostas jacobinas:

" T a l e r a a q u a lid a d e d a ma io r ia d o s lí d e r e s d o p a rt id o ja c o b ino . H o me n s d e ne n hu ma s p o sse s - ho me n s liv r e s e d e s i mp e d id o s. E r a m ma is d is so c ia d o s e ma is e le me nt a r e s, p o rt a nt o , do q u e o s d e q u a lq u e r o u t ro p a rt id o ; e e st a va m p r o n t o s p a r a le va r a s id e ia s d e l ib e r d a d e e ig u a ld a d e a t é a su a e xt r e mid a d e ló g ic a . O s se u s p a d r õ e s d e v ir t u d e p a t r ió t ic a e r a m a lt o s e r u d e s. H a v ia q u a lq u e r c o isa d e in u ma no , me s mo no se u z e lo hu ma n it á r i o "183.

Foi o tempo de se perceber - e realizar - o homem como ser digno, livre e social. Sua posição central n o cosmos, contemplada desde o Século X IV , reclamava seu reconhecimento como tal pelos governos do s recém formados Estados Nacionais. 180 " R e nu nc ia r à lib e r d a d e é r e nu nc ia r à q u a lid a d e d e ho me m, a o s d ir e it o s d a hu ma n id a d e , e a t é a o s p r ó p r io s d e ve r e s. N ã o há ne n h u ma r e p a r a ç ã o p o ssív e l p a r a q u e m r e nu n c ia a t u d o . T a l r e nú nc ia é in c o mp a t íve l c o m a na t u r e z a d o ho me m, e su bt r a ir t o d a lib e r d a d e a su a vo nt a d e é su bt r a ir t o d a mo r a lid a d e a su a s a ç õ e s" . ( R O U S S E AU , Je a n - Ja c q u e s. O C o nt r at o S o c ia l. ( S ã o P a u lo : 2 0 0 3 , Ma r t in s Fo nt e s ) . p. 1 5) . 181 " [ . . .] o p a ct o so c ia l e st a be le c e t a l ig u a ld a d e e nt r e o s c id a d ã o s q u e t o do s e le s se c o mp r o me t e m so b a s me s ma s c o nd i ç õ e s e d e ve m g o z a r d o s me s mo s d ir e it o s" . ( R O U S S E AU , o p. c it . , p . 4 1 ). 182 " Q u e m o u sa e mp r e e nd e r a i n st it u iç ã o d e u m p o vo d e ve se nt ir - se c a p a z d e mu d a r , po r a ss i m d iz e r , a na t u r e z a hu ma na ; d e t r a ns fo r ma r c a d a ind iv íd u o q u e , po r si me s mo , é u m t o do p e r fe it o e so lid á r io e m p a r t e d e u m t o do ma io r , d o q u a l e s se in d iv íd u o r e c e be , d e c e r t a fo r ma , su a v id a e s e u se r ; d e a lt e r a r a co nst it u iç ã o d o ho me m p a r a fo r t a le c ê - la ; d e su b st it u ir p o r e x ist ê nc ia p a r c ia l e mo r a l a e x ist ê nc ia fís ic a e in d e p e nd e nt e q u e t o do s r e c e be mo s d e na t u r e z a " . ( R O U S S E AU , o p . c it . , p . 5 0 ) . 183 WE LLS , H e r be r t G e o r g e . H ist ó r ia U n iv e r sa l . v. 5 . ( E st a do s U n id o s d o B r a s il: 1 9 7 2, C o mp a n h ia E d it o r a N a c io na l) . p . 1 4 3 2.

Ao que parece, as objeções pelo reconhecimento dessas características do homem, mani festou -se, em um primeiro instante, na busca pela igualdade entre indivíduos, e não apenas do ponto de vista jurídico, mas de maneira ampla, abarcand o a igualdade social e mesmo entre gêneros184. Mas o que se almeja, em resumo, é sanar os prejuízos sociais decorrentes dos privilégios da nobreza e do clero, decorrentes do antigo regime e inacessíveis, pela tradição, à burguesia.

Notável, portanto, o papel da classe burguesa na manipulação d a vontade geral em prol de seus interesses. Em eventos extraordinários na história da humanidade, como a R evolução Francesa e os movimentos por independência nas Américas, a base principiológica estava contaminada por esses ideais iluministas construídos com o fomento burguês185.

E se a modernidade foi construída a partir de tais marcos históricos, então nos co mpete dissecar o fundamento teórico que movimentou as engrenagens dos no vos tempos. É a premissa inevitável para se contrapor o sistema jurídico condizente com a modernidade , ao modelo medieval.

3.1 Revoluçã o do pensa ment o h u man ístico e as ra ízes do romp i ment o de

para dig ma n o pla n o jurí dico

Se nos capítulos iniciais a contextualização medieval se deu muito mais através da apresentação do pano de fundo, e a pesquisa se concentrou em trazer descrições daquele momento histórico, a atual fase do trabalho dem anda outra abordagem.

184 I mp o ss ív e l nã o me nc io na r a c o nt r ibu iç ã o p io ne ir a d e Ma r y Wo llst o ne c r a ft , q ue já a l i c o nc lu ía q u e a me nt e hu ma na nã o t e m d i st inç ã o d e g ê ne r o . 185 WE LLS , H e r be r t G e o r g e . H ist ó r ia U n iv e r sa l . v. 5 . ( E st a do s U n id o s d o B r a s il: 1 9 7 2, C o mp a n h ia E d it o r a N a c io na l) . p . 1 3 6 4.

O iluminismo, ao que importa à presente pesquisa , se impõe mais pelas construções teóricas que se sublimaram , do que pelos notórios acontecimentos históricos que lhe foram contemporâneos.

Enquanto que, para a análise do surgimento do inquisitorialismo importava a compreensão da realidade medieval, por outro lado, para que se perceba como o humanismo incidiu sobre os institutos processuais penais, faz-se mister a compreensão da mentalidade que contaminava o intelecto dos teóricos refere nciais do movimento.

Não se pretende tratar de modo simplista o período histórico que compreendeu o iluminismo . Não. As pesquisas re alizadas vieram carregadas com o conhecimento histórico a respeito do s éculo XVIII. Tem -se plena consciência que aquel e perí odo da Idade Moderna , não se restringi u ao iluminismo, mas foi marcada por efervescências políticas186, progresso s tecnológicos187 e obras emblemáticas da cultura ocidental188.

Entretanto, ao que se direcionam os presentes esforços, importa deter - se apenas do il uminismo em seu papel no surgimento de ideais de valorização do homem. Só a partir de então é que será possível demonstrar como o projeto iluminista alcançou o âmbito jurídico.

Mas, para se falar em reforma no campo jurídico, antes é necessário vislumbra r a s mudança s promovidas pelo iluminismo nos Estado s. Talvez pela pressão burguesa ou por acreditarem que o Estad o do modelo medieval era a causa de todo mal social, o movimento iluminista inicialmente se concentrou no campo político.

Atra vés das teorias c ontratualistas, procurou -se explicar, fora de uma perspectiva de legitimação Divina, o que era o Estado , de onde vinha seu 186 Mo v ime nt o s d e ind e p e nd ê nc ia d o s E st a d o s U n id o s ( 1 7 7 5 / 1 7 8 3 ) e H a it i ( 1 7 9 1 / 1 8 0 4), a lé m d a R e vo lu ç ã o Fr a nc e sa ( 1 7 6 9 ) e sp e c ia l me nt e t r at a d a . ( WE LLS , H e r be r t G eo r g e. H ist ó r ia U n iv e r s a l. v. 5 . ( E st a d o s U n id o s d o B r a s il: 1 9 7 2 , C o mp a n h ia E d it o r a N ac io na l) . p . 1 3 6 3 ) 187

D e sc o be r t a d o h id r o g ê n io ( 1 7 7 4 ) , d o p r inc íp io d a v a c in a ç ã o , r e a liz a ç ã o d o p r ime ir o vo o hu ma no ( 1 7 8 3 ) e a in ve nç ã o d o p ia no ( 17 0 9 ) .

188 Bach co mpõe “A Paixão Segundo São Mateus” ( 1729) e Mozart sua primeira sinfo nia ( 1 7 6 4 ) .

poder, e q uais eram os limites para sua atuação . E perceba -se : o po vo, surgiu como resposta quase uníssona do contratualismo a tais i ndagações

Note -se, por exemplo , no Contrato Social de Rousseau , a busca pela base legitimadora do Estado através do povo. O Estado se funda pelo poder das pessoas q ue a constituem:

" I me d ia t a me nt e , e m ve z d a p e sso a p a r t ic u la r d e c a d a c o nt r a t a nt e , e sse a t o d e a sso c ia ç ã o p r o d u z u m c o r p o mo r a l e c o le t ivo c o mp o st o d e t a nt o s me mb r o s q u a nt o s sã o o s vo t o s d a a sse mb le ia , o q u a l r e c e be , p o r e sse me s mo a t o , su a u n id a d e , se u e u c o mu m, su a v id a e su a vo nt a d e . E ssa p e sso a p ú b l ic a , a ss i m fo r ma d a p e la u n iã o d e t o d a s a s d e m a is, t o ma va o u t ro r a o no me d e C i d a d e , e ho je o d e R e p ú b l i c a o u d e c o rp o p o l í t i c o , o q u a l é c ha ma d o p o r se u s me mbr o s d e E st a d o q u a nd o p a ss ivo , so be r a no q u a nd o a t ivo e Po t ê n c i a q u a nd o c o mp a r a d o a o s se u s se me lh a nt e s. Q u a nt o ao s a sso c ia d o s,