Chapitre 1 : La singularité de la trajectoire de reconversion du Bassin minier
1.1 DE L’ESPACE RURAL AU PAYSAGE INDUSTRIEL TOTAL
1.1.1 Les logiques de structuration spatiale
Crites (1969) identifica a abordagem desenvolvimentista como a terceira, em termos históricos, no campo da psicologia vocacional, precedida pelas abordagens traço-fator e psicodinâmica, e resultando de uma síntese compreensiva destas no final da década de 1940, com as publicações de Super e Ginzberg e colaboradores. A abordagem desenvolvimentista baseia-se em acepções sobre o ajustamento, o desenvolvimento e a motivação dinâmica e distingue-se por considerar que o comportamento vocacional se desenvolve à medida que o indivíduo progride na idade e se confronta com expetativas sociais.
Com esta abordagem, as conceções prevalecentes no campo da psicologia vocacional até ao início da década de 1950 são desafiadas em três aspetos importantes: a escolha e o ajustamento profissional é considerado um processo contínuo e
relativamente irreversível, estendendo-se ao longo da vida do indivíduo; esse processo constrói-se em padrões de crescimento explicados a partir de princípios derivados da psicologia do desenvolvimento e não só da psicologia das diferenças individuais; esses processos são considerados complexos e requerem o contributo de múltiplas perspetivas como as da economia, da sociologia ou da antropologia (Jepsen, 1990). Para Phillips (2015), a abordagem desenvolvimentista implica três pontos de partida (1) o tempo, que passa a ser explicitamente integrado na forma de conceber o comportamento vocacional; a evolução, ou capacidade de mudança que é reconhecida ao indivíduo; e (3) o contexto social, no qual a interação da pessoa se processa e através do qual o desenvolvimento ocorre. Tempo, evolução e contexto proporcionam uma nova lente através da qual se considera a experiência humana e um novo ímpeto para melhor compreender, prever e facilitar os processos de escolha e comportamento vocacional.
O modelo de Super
Para Super (1980, p. 283) carreira "consiste na sequência de posições ocupadas por uma pessoa durante o curso do seu ciclo de vida", o que preconiza a necessidade de uma perspetiva de estudo que acompanhe o indivíduo durante todo o ciclo de vida. Este aspeto é tornado claro quando defende que o seu modelo de carreira "pretende destacar uma perspetiva longitudinal e desenvolvimentista, por oposição à consideração de uma escolha única, ou perspetiva de equação, tais como se apresentam as da psicologia diferencialista ou a teoria da congruência utilizada por Holland" (Super 1984, p. 198).
No início dos anos de 1950 Super desenvolveu a ideia de que a escolha vocacional constitui uma tentativa do indivíduo implementar o seu autoconceito numa profissão, e que tal implica a conjugação da imagem que faz de si próprio com a imagem que tem daqueles que trabalham nas profissões que conhece ou em que está interessado (Super, 1981). No entanto, e como o próprio autor sublinha, é necessário atender ao papel desempenhado por fatores de natureza contextual, enquanto determinantes do desenvolvimento da carreira (Super, 1990) apresentando, assim, um certo desagrado por o seu trabalho ter sido classificado, quase exclusivamente, como uma "teoria do autoconceito” e ter sido criticado por não dar conta dos determinantes situacionais ou sociais da carreira (Super, 1981).
Para Super (1980), o padrão de uma carreira conjuga uma dimensão latitudinal, ou espaço de vida, que diz respeito à variedade de papéis desempenhados pelos indivíduos, e uma dimensão longitudinal, ou ciclo de vida, que diz respeito à maturação dos
indivíduos ao longo do tempo, ou seja, às fases do desenvolvimento da carreira, sendo estas as de crescimento, exploração, estabelecimento, manutenção e declínio. As fases da carreira distinguem-se pela demanda de resposta a tarefas de desenvolvimento "... que têm origem nas expetativas de que os indivíduos pertencentes a um grupo social evidenciem comportamentos sequentes e ordenados, ao prepararem-se e ao desempenharem as tarefas profissionais" (Duarte, 1993, p. 118 - referindo-se a Super, Crites, Hummel, Moser, Overstreet e Warnath, 1957). Por exemplo, durante a fase de crescimento, que se inicia com o nascimento e prossegue até ao início da adolescência (aproximadamente até aos 14 anos) a criança desenvolve o conceito de si própria através da identificação com figuras no seio da família e da escola; as escolhas apresentam-se como fantasistas e refletem as necessidades individuais. A maturidade vocacional consiste na “preparação para lidar com as tarefas de desenvolvimento com que o indivíduo se confronta, em função de desenvolvimentos nos planos biológico e social e de expetativas sociais para pessoas que se encontram nessa fase” (Super, 1990, p. 213). Após estudos extensivos no âmbito do Career Pattern Study e da análise dos resultados obtidos com instrumentos experimentais concebidos para operacionalizar e avaliar a maturidade vocacional, é proposta uma versão multidimensional do modelo de maturidade vocacional (Super, 1980/82; Super, 1983b), que atualiza as suas versões anteriores e visa englobar a natureza da maturidade de carreira nas fases adultas do ciclo de vida, designada de adaptabilidade de carreira, e ainda considerar papéis de vida, que não apenas o de trabalhador remunerado, O modelo proposto (Super, 1980/82; Super, 1983b), integra duas dimensões atitudinais (ou afetivas) - Planeamento de Carreira e Exploração de Carreira -, duas dimensões cognitivas - Tomada de Decisão de Carreira e Informação sobre a Carreira e o Mundo do Trabalho – e uma quinta dimensão simultaneamente atitudinal e cognitiva - Realismo de Carreira, referindo-se a uma complexa combinação de fatores fulcrais na fase adulta do ciclo de vida, simultaneamente afetivos e cognitivos, que englobam o autoconhecimento, a forma realista como o indivíduo se avalia a si e aos fatores situacionais, a consistência ou coerência das suas preferências, a cristalização dos seus autoconceitos e dos seus objetivos de carreira, bem como a forma como efetuou o seu estabelecimento nos principais papéis de vida. Numa extensão e elaboração das propostas de Super, e sob as lentes do construtivismo, Savickas (1997) propõem que o conceito de maturidade de carreira seja substituído pelo de adaptabilidade de carreira, conforme apresentado em 2.4.2 deste trabalho.
A temática da influência parental na obra de Super encontra-se presente desde a sua obra clássica The Psychology of Careers (1957), nela dedica um capítulo à relação entre família e desenvolvimento vocacional, reportando-se a diversos estudos empíricos, ao estudo de casos e ao trabalho de Roe. Neste texto considera explicitamente que a família: (1) fornece oportunidades para que as crianças e jovens se identifiquem (ou rejeitem identificar-se) com determinados modelos de papéis adultos; (2) cria, ou sublinha, necessidades e modela valores; (3) fornece experiências através de uma variedade de atividades, com consequências para a aquisição de informação e competências relevantes para as futuras atividades profissionais e; (4) proporciona (ou não) recursos como equipamentos, dinheiro e redes interpessoais, que condicionam a acessibilidade a determinadas profissões. Assim, a família exerce influências, mais ou menos subtis, nas crianças e nos jovens no sentido de determinadas escolhas, que considera expressarem-se em (1) modelação de preferências vocacionais, (2) entrada em determinadas formações e profissões, (3) sucesso e (4) satisfação profissionais (Super, 1957).
Nos anos de 1960 Super (1963) descreve a identificação com as figuras parentais e com os papéis tipicamente masculinos e femininos do pai e da mãe no processo de formação do autoconceito. Também o conceito de constelação e saliência relativa dos papéis de vida (Super, 1980) traz consigo novas formas de conceber como o papel de trabalho se presenta aos filhos nas diferentes famílias. Através do diálogo e da observação, os filhos aprendem como o desempenho de um determinado papel de vida (por parte dos pais, dos irmãos) influi no desempenho de outros papéis, seja considerando um momento específico no ciclo de vida, seja considerando implicações para fases de vida subsequentes, caso da interação ocorrida no passado entre diversos papéis de vida dos seus pais e implicações para posições profissionais alcançadas posteriormente. A influência e o envolvimento parentais estão amplamente presentes na concetualização de Super, preconizando-lhes um papel fundamental. Atendendo ao caráter desenvolvimentista da teoria, perceciona-se como fundamental o apoio dos pais ao planeamento da carreira dos filhos.
No modelo do arco normando da carreira Super (1980) identifica um vasto conjunto de determinantes pessoais e situacionais – que o modelo do arco-íris da carreira, apresentado em 1976, poderá não ter tornado suficientemente explícitos – que afetam as preferências, as escolhas, a entrada no mundo do trabalho e a assunção do papel de trabalhador, bem como mudanças nos vários papéis de vida e ainda o
desempenho nesses papéis. Os determinantes pessoais consistem na constituição genética do indivíduo, modificada pelas suas experiências no útero, em casa e na comunidade. Os situacionais são as condições geográficas, históricas, sociais e económicas em que o indivíduo se integra durante as fases da sua vida. O efeito dos diversos determinantes é contínuo ao longo do ciclo de vida e cada categoria ou determinante situacional influencia e modifica os determinantes pessoais.
Face à ausência de conceptualização sobre como o desenvolvimento da carreira na infância, Super e Bowlsbey propõem um modelo teórico interativo pessoa-meio para esta fase de vida. O modelo é descrito em Super (1990), destacando-se o papel determinante das figuras significativas, elementos fundamentais na relação com os processos de exploração, aquisição de interesses, determinação do locus de controlo, construção da perspetiva temporal, formação do autoconceito e aquisição da capacidade de planeamento, e elucida como os pais, enquanto figuras significativas, poderão agir de forma a influenciarem os processos descritos desde fases precoces da vida dos seus filhos. Super (1990) fundamenta, a partir deste modelo, a importância das intervenções de carreira realizadas com crianças estimularem e cultivarem a curiosidade, promovendo o desenvolvimento de (1) interesses, (2) da descoberta de modelos de papéis ou de figuras significativas, (3) do sentimento de controlo interno exercido de forma realista para a idade e fase em causa, combinado com a aceitação e uso construtivo de controlo externo (melhorado pela existência de bons modelos de papéis), (4) da autoestima, (5) da perspetiva temporal e (6) do planeamento.
A teorização de Super é tida como uma das mais compreensivas das apresentadas até à década de 1990 (Brown, 1990). Osipow (1983) considera-a uma representação bem ordenada e altamente sistematizada do processo de maturação vocacional, com considerável utilidade para a prática e a investigação. Não obstante Super ter afirmado o seu interesse em colher contributos em vários campos teóricos, inclusive das disciplinas sociológica e económica, a falta de uma efetiva integração de aspetos segmentais no seu modelo, parece ser a crítica que persiste (Brown, 1990; Osipow, 1983).
O modelo de Gottfredson
O modelo de Gottfredson (1981) propõe uma sequência de fases, ao longo das quais o autoconceito se vai diferenciando e complexificando (Herr e Cramer, 1996). Foca-se nos anos da infância e adolescência, considerados fundamentais nos processos que descreve, distinguindo-se de outros mais personalísticos sobre o desenvolvimento
vocacional: contextualiza-o e enfatiza a importância da localização do indivíduo face a categorias socialmente construídas como o poder, o género e a classe social. Confere também um peso acrescido a variáveis cognitivas colocando-as na base do processo de desenvolvimento das preferências profissionais na infância. (Vandiver & Bowman, 1996).
Segundo Gottfredson (1981) os diferentes elementos do autoconceito vão vendo progressivamente integrados de acordo com as diferentes fases do desenvolvimento cognitivo. A perceção de pertença a uma categoria de género é dos elementos mais precoces e centrais na formação do autoconceito, seguida da perceção da localização no espaço socioeconómico. A integração de aspetos psicológicos é mais tardia e requer progressos nas competências cognitivas de abstração. A tendência para uma classificação generalista por categorias amplas como género e classe social aplica-se também à forma como as crianças percebem a realidade profissional, construindo imagens, amplamente partilhadas sobre o grau de tipicidade de género e de prestígio associado às diversas profissões. As preferências profissionais que as crianças vão expressando ao longo do seu desenvolvimento refletem uma circunscrição progressiva em função da compatibilidade percebida entre as imagens que têm de si próprias e as imagens que têm das profissões. A perceção de barreiras para a implementação de certas preferências (por exemplo, distância geográfica para a frequência de uma formação adequada) restringe ainda mais as alternativas, agora em função da sua acessibilidade.
As aspirações profissionais constituem um produto das avaliações efetuadas por um indivíduo quanto à respetiva compatibilidade e acessibilidade. Essas aspirações localizam-se num espaço restrito - espaço social ou zona de alternativas aceitáveis - de um conjunto mais amplo que diz respeito à forma como o indivíduo conhece as diferentes profissões por referência às variáveis tipicidade sexual e prestígio – que constitui o seu mapa cognitivo das profissões. Assim, a circunscrição das preferências profissionais vai ocorrendo num longo processo de eliminação de alternativas, e a escolha profissional não é mais do que o final desse processo (Gottfredson, 1996).
Gottfredson (1981) propõe cinco fases para o desenvolvimento do autoconceito e das preferências profissionais: (1) orientação para o tamanho e o poder (3-5 anos); (2) orientação para os papéis ligados ao género (6-8 anos); (3) orientação para a valorização da posição social (9-13 anos); e (4) orientação para o eu (a partir dos 14 anos). Os processos de pensamento vão evoluindo desde o intuitivo (fase 1), para níveis
decrescentes de concretismo, (fases 2 e 3), até à capacidade de abstração (fase 4). A capacidade de abstração possibilita ao adolescente relacionar variáveis integradas em categorias mais complexas como interesses, aptidões e valores e orientar o processo de circunscrição em função de áreas de atividades profissionais e suas características mais objetivas (isto, não tão associadas à tipificação sexista ou ao prestígio social). No entanto, um importante trajeto foi já percorrido, no decurso do qual foram eliminadas da zona de alternativas aceitáveis um conjunto de atividades profissionais consideradas não adequadas, atendendo ao sexo e ao estatuto socioeconómico. O processo de restrição ocorre sem que o indivíduo tenha noção dele, sendo necessária estimulação externa, por exemplo, aconselhamento ou mudanças nos estímulos provenientes do meio social, para que se torne percetível ao indivíduo o mecanismo de circunscrição em curso (Gottfredson, 1996).
Gottfredson (1996) considera que a acessibilidade das alternativas é percebida a partir de fontes de informação consideradas convenientes e de confiança: pais, amigos, professores e outros elementos da rede social do indivíduo jogam um papel fundamental na formação das perceções de acessibilidade das profissões em função das duas categorias sociais críticas. Leung (2008) refere que em publicações da década de 2000 a autora elabora sobre a interação entre a constituição genética e o ambiente, considerando que a herança genética (fornecidas pelos pais) desempenha um papel importante na formação de características fundamentais dos indivíduos, como os interesses, as aptidões e os valores, sendo, porém, a expressão desta moderada pelo ambiente a que se encontram expostos (sendo a família um constituinte importante desse ambiente e filtrando o impacto de outros níveis ambientais). Porém, genes e ambiente não impedem que os indivíduos sejam agentes ativos que influenciam e mudam o seu ambiente. Assim, o desenvolvimento da carreira é visto como um processo de autocriação no qual as pessoas buscam caminhos para expressar as suas disposições genéticas com os limites impostos pelos seus ambientes culturais.
Já Richardson (2004) considera que que a teoria de Gottfredson pertence em espírito, se não de fato, ao campo do construcionismo social, pois na sua essência descreve como os fatores sociais do género e da classe inibem e circunscrevem o universo de possibilidades a partir do qual as pessoas exercem as suas escolhas profissionais. A gama de alternativas aceitáveis é construída e modelada por essas forças sociais, tornando certas possibilidades fora do alcance do indivíduo. A autora considera que a visão de Gottfredson se encontra a um passo da visão construcionista
social, mais comprometida com as forças sociais e os constrangimentos na base dos quais as pessoas constroem as suas vidas.