2. LA CULTURE COMME INSTRUMENT DANS LES TERRITOIRES POSTINDUSTRIELS, MODE D’ACTION DÉCONTEXTUALISÉ OU
2.1.1 L’action publique saisie au prisme des bonnes pratiques et des modèles
Até aos anos de 1980, a configuração da família, considerada em termos do número de filhos, da ordem e do espaçamento dos nascimentos e ainda de alterações na estrutura do agregado familiar tradicional, é frequentemente abordada em estudos que relacionam esses fatores com os resultados e o desenvolvimento da carreira dos filhos (Schulenberg et al., 1984). O interesse por esta área de estudo decresce, sobretudo a partir de 2000, o que Scott e Church (2001) consideram relacionar-se com a mudança no foco dos estudos para as variáveis processuais e a tendência para abordar as variáveis usualmente consideradas estruturais como características sociodemográficas das amostras que integram os estudos, não constituindo matéria de estudo de per si. Também Johnson, Buboltz e Nichols (1999) notam que os estudos que abordam a relação entre a família e o desenvolvimento da carreira focam-se em variáveis como a vinculação ou o conflito conjugal e não tanto em aspetos estruturais da família; quando analisam os efeitos do divórcio dos pais em domínios da vida de filhos jovens adultos, os estudos abordam sobretudo domínios socioafetivos (p. ex., impacto nas relações românticas dos filhos) estando sub-representado o domínio da carreira. Whiston e Keller (2004) especificam a escassez de estudos sobre famílias de pais divorciados e famílias monoparentais, sugerindo que a investigação volte a abordar estas variáveis para averiguar se as conclusões da investigação sobre estes tópicos, sistematizada por Schulenberg e colaboradores (1984), se aplicam na atualidade.
Número de irmãos, ordem nos nascimentos e carreira
O número de irmãos na relação com resultados e processos de carreira é uma variável estudada entre 1960 e finais da década de 1970. Uma diversidade de estudos revela o seu efeito negativo nas expetativas educacionais e no nível educacional e estatuto profissional alcançados, sobretudo no caso dos filhos do sexo masculino (Blake, 1985; Schulenberg et al., 1984).
Para além do número de irmãos, também a ordem nos nascimentos é um tópico “popular”. Steelman e Mercy (1980) referem diversos estudos que encontram relação negativa entre a ordem de nascimento e os resultados de carreira dos indivíduos.
Diversas explicações têm sido consideradas para o efeito negativo encontrado entre resultados de carreira e o aumento do número de irmãos e da ordem nos nascimentos. Schulenberg e colaboradores (1984) referem a questão económica, já que quanto maior o agregado familiar menor a fatia do rendimento familiar que cabe a cada um e mais difícil se torna que os pais possam assegurar custos relacionados com o prosseguimento na escolaridade. Outra linha de explicação considera a redução da qualidade fisiológica do útero materno ao longo das sucessivas gestações, que implicaria condições menos benéficas à medida que se sucedem os nascimentos. Contudo, este fator fisiológico não explica as conclusões de estudos que apontam também resultados de carreiras mais favoráveis aos filhos mais novos (Steelman & Mercy, 1980). São ainda avançadas explicações relacionadas com alterações nas práticas parentais. Por exemplo, o tempo disponível para dar suporte individualizado a cada filho diminui à medida que aumenta o agregado familiar. Um estudo de Nye, Carlson e Garett realizado em 1970 (citado por Schulenberg et al., 1984, p. 134) refere práticas parentais autoritárias, maior domínio paterno, menos afeto positivo e maior
stress parental em famílias de maior dimensão, mesmo quando o estatuto
socioeconómico é controlado.
A explicação apresentada por Zajonc e Marcus, desde 1975, através do designado "modelo confluente", reinterpreta o que alguns autores consideraram uma sistemática variação aleatória, sendo teoricamente sustentado em conceitos da aprendizagem através do capital intelectual apresentado pela família (Zajonc, 2001). O modelo considera que a inteligência da criança é estimulada pelo ambiente intelectual do meio em qual se desenvolve. Assim, quanto maior o número de crianças relativamente ao número de adultos, menos benéfico será o meio intelectual existente. Por outro lado o menor ou maior espaçamento entre os nascimentos apresenta implicações para o nível intelectual do ambiente que a criança encontra ao nascer. O efeito negativo da ordem de nascimentos verificado em vários estudos é interpretado como reflexo de curto espaçamento entre os nascimentos dos agregados familiares considerados nas amostras desses estudos. Os últimos filhos, quando suficientemente espaçados dos anteriores, usufruem não só do ambiente intelectual proporcionado pelos seus pais, como também do proporcionado pelos seus irmãos mais velhos. A estimulação verbal acrescida no
caso dos filhos mais novos pode favorecer o desenvolvimento de competências verbais e o desempenho em tarefas de fluência verbal, vocabulário e compreensão. O modelo considera a possibilidade dos irmãos mais velhos exercerem sobre os mais novos a função de tutores, experimentando a componente ativa do processo de aprendizagem, o que poderá promover competências de responsabilização e organização, não solicitadas aos mais novos. A ausência desta função de tutoria no caso dos filhos únicos daria conta do desempenho intelectual mais fraco destes, encontrado em alguns estudos. O modelo dá também conta de resultados de desempenho intelectual mais baixo em crianças provenientes de famílias monoparentais, bem como em crianças provenientes de famílias afro-americanas. No primeiro caso, a ausência de um dos progenitores diminuiria o nível intelectual familiar. No segundo, e por comparação com os indivíduos euro-americanos, verifica-se que os afro-americanos se inserem em agregados familiares com maior número de irmãos, com menor espaçamento entre os nascimentos e ausência mais frequente do pai.
O modelo confluente é testado por Steelman e Mercy (1980) numa amostra de crianças euro-americanas, com idades compreendidas entre os seis e os 11 anos, provenientes de famílias intactas. Para além do número de irmãos e da sua ordem nos nascimentos, o estudo controla o ESE parental. Verifica-se que o aumento do número de irmãos afeta negativamente o desempenho intelectual das crianças (avaliado através de dois subtestes da WISC - vocabulário e cubos), independentemente de outras variáveis (ordem nos nascimentos e ESE). No entanto, este efeito é menos pronunciado no grupo com mais elevado ESE. Por esta razão os autores levantam a possibilidade do efeito do número de irmãos estar também relacionado com uma "diluição" dos recursos financeiros disponíveis, e não só do nível intelectual familiar.
Schulenberg e colaboradores (1984) sugerem que a metodologia dos estudos que abordam a questão da ordem nos nascimentos deverá ser abordada em estudos futuros, para melhor esclarecimento. Zajonc (2001) considera que em alguns estudos a relação encontrada entre ordem de nascimento e inteligência pode traduzir um erro metodológico, devido à aplicação incorreta do conceito de análise transversal de dados, os efeitos da ordem de nascimento podem ser confundidos com os efeitos da idade. No modelo confluente o autor prevê ainda que a ordem de nascimento tem uma influência nula ou negativa antes dos 11 anos de idade e positiva após esta idade.
White e colaboradores (1997) abordam a ordem nos nascimentos de um ponto de vista subjetivo e no contexto da teoria adleriana, através da “ordem psicológica de
nascimento”. Esta refere-se à forma como os indivíduos interpretam a sua situação e posição no quadro familiar. Verificam que a posição psicológica na ordem dos nascimentos não é preditora da preferência por áreas específicas de interesses inventariados numa amostra de estudantes universitários (n=491; média etária de 18 anos). Encontram tendências de resposta que relacionam com o padrão de comportamentos e atitudes que emerge da experiência psicológica da criança na família e no âmbito da sua experiência psicológica na fratria. Por exemplo, verificam resultados mais altos dos “filhos psicologicamente mais velhos” em áreas de interesses sociais e de contactos de negócios, que relacionam com a eventual experiência destes, no contexto familiar, de luta pela perfeição e por agradar aos outros, disputando a atenção conferida aos mais novos, o que estimularia competência sociais. Os autores concluem que a ordem psicológica de nascimento é mais importante do que cronológica, porém não pode ser analisada isoladamente, mas antes integrada num conjunto mais vasto de informação, nomeadamente a referente a informação narrativa sobre temas de vida (White et al., 1997).
Herrera e colaboradores (2003) relatam quatro estudos relativos a crenças no âmbito da ordem nos nascimentos. O estudo 1 solicita a estudantes universitários (n=196) que avaliem diversos atributos descritivos (p. ex., agradável, tímido, introvertido) abstratamente para filhos únicos, filhos mais novos, filhos do meio e filhos mais velhos. O estudo 2 (n=231 estudantes e 10 professores do ensino secundário) e o estudo 3 (n=203 estudantes universitários) abordam as profissões percecionadas como mais prováveis para filhos mais novos e para mais velhos. O estudo 4 compara a ordem de nascimento com o prestígio das profissões exercidas pelos adultos. O estudo 1 revela a perceção de atributos psicológicos distinta em função da ordem nos nascimentos, embora sem tendência favorável a nenhuma das categorias da fratria. Os estudos 2 e 3 revelam crenças sobre a ordem do nascimento, com atribuição de profissões de prestígio mais elevado aos filhos mais velhos. O tipo de profissões percecionadas para pessoas hipotéticas com diferentes ordens de nascimento mostra-se coerente com as características de personalidade que são atribuídas no primeiro estudo. O estudo 4 mostra associação negativa entre a ordem de nascimento e o prestígio da profissão, ou seja, os filhos mais velhos tendem a ocupar profissões de maior prestígio, resultado congruente com os obtidos nos estudos 2 e 3. Os autores consideram que, no seu conjunto, os estudos sugerem que as pessoas possuem crenças, que podem ser qualificadas como estereótipos, sobre a relação entre a ordem nos nascimentos e a
personalidade das pessoas, bem como o tipo de profissão que consideram adequado para certas ordens nos nascimentos. Estes resultados sugerem que, em certos domínios, as crenças e estereótipos das pessoas podem ter importância psicológica, e provavelmente consequências comportamentais e sociais com repercussões em domínios da carreira.
Rutura familiar, desempenho escolar e envolvimento parental
A comparação de resultados de carreira de indivíduos provenientes de famílias intactas com outros provenientes de famílias que sofrem ruturas revela tendência geral favorável aos primeiros. Astone e McLanahan (1991) referem estudos que apontam que indivíduos provenientes de famílias monoparentais apresentam menor probabilidade de completarem o ensino secundário ou frequentarem o ensino superior do que os provenientes de famílias intactas. Rosenthal e Hansen (1980) verificam que entre alunos que frequentam o 7º, 8º e 9º anos de escolaridade, os provenientes de famílias intactas apresentam classificações escolares e aspirações profissionais mais elevadas do que os provenientes de famílias monoparentais. Astone e McLanahan (1991) verificam que jovens provenientes de famílias monoparentais e reconstruídas relatam menor envolvimento parental em tarefas relacionadas com a escola, do que jovens provenientes de famílias intactas. Contudo, a questão poderá residir nos níveis de conflitualidade dos ambientes familiares. Musik e Meier (2010) comparam crianças que vivem com os dois pais em clima de conflituosidade, com crianças em famílias monoparentais ou reconstruídas (num total de 1963 famílias) e concluem que os primeiros apresentam desempenho escolar mais fraco e maior probabilidade de abandonar a escola, comparativamente aos restantes. A assiduidade na universidade é também uma variável estudada, relativamente à qual não se verificam diferenças entre configurações familiares.
Colpin, Vandemeulebroecke e Ghesquire (2004) realizam entrevistas “em profundidade” a pais belgas divorciados com quem os filhos vivem a maior parte do tempo (n=40), para explorar se sentem dificuldades em apoiar e envolverem-se na carreira escolar destes. As narrativas não sugerem dificuldades atribuíveis a recursos diferentes das famílias tradicionais, mas sim, e com forte expressão, ao facto de se sentirem alvo de preconceito quer de professores, quer de outros pais, resultado que os autores consideram concordante com os de outros estudos. Os pais do sexo masculino sentem-se frequentemente estigmatizados como “incompetentes” e culpados pela rutura familiar. Os autores consideram que estas perceções dos pais prejudicam o seu
envolvimento na carreira escolar dos filhos, sendo necessário promover a mudança de atitude na comunidade escolar face à diversidade de situações familiares, através de ações de formação e programas de preparação.
Rutura familiar e desenvolvimento de carreira
A ocorrência de rutura familiar tem sido estudada na relação com eventuais repercussões negativas na carreira dos filhos. Johnson, Buboltz e Nichols (1999) consideram que o divórcio dos pais afeta as tarefas de desenvolvimento interpessoal dos filhos, mas não necessariamente o processo de desenvolvimento da carreira. Porém, diversos estudos relatam resultados que sugerem efeitos negativos. Por exemplo, Biblarz e Raftery (1993) verificam que o estatuto profissional de indivíduos provenientes de famílias em que ocorreu rutura é mais baixo do que os de famílias intactas. Os autores consideram que o facto da investigação anterior ter revelado que a transmissão de estatuto socioeconómico é mais forte em famílias intactas, deverá ser considerada na interpretação dos resultados, podendo significar que a rutura familiar funciona como um fator empobrecedor dos recursos financeiros disponíveis para a carreira dos filhos, mesmo quando à partida a situação da família não era desfavorável. Também Scott e Church (2001) estudam o impacto da ocorrência de divórcio na decisão de carreira de jovens estudantes universitários (n=213). Verificam que os provenientes de famílias intactas revelam índices mais elevados de perceção dos pais como fonte de apoio e perceção de mais recursos para a tomada de decisão relativa à carreira, comparativamente aos filhos de pais divorciados. Os resultados, embora não inteiramente consistentes, sugerem também que alguns aspetos da separação psicológica dos pais são acelerados pelo processo de divórcio, que se expressam em medidas de maior independência funcional em estudantes filhos de pais divorciados.
Johnson, Buboltz e Nichols (1999) estudam eventuais efeitos do estado civil dos pais (solteiros, casados, divorciados) e do funcionamento familiar na identidade vocacional de estudantes universitários (n=230). A identidade vocacional dos jovens não se relaciona com o estado civil dos pais, mas sim com dimensões da relação familiar, como o conflito, a coesão e, em especial, a expressividade. Os autores consideram que os resultados vão ao encontro dos de estudos anteriores, que têm verificado que jovens que crescem em famílias que praticam a comunicação direta e aberta desenvolvem uma imagem relativamente clara e estável das suas metas e interesses vocacionais.