3.1 V ERS UNE CONCEPTION DYNAMIQUE ET INTEGRATIVE DU CONCEPT D ’ IDENTITE
3.1.2 Processus de la double réflexivité
No período do Romantismo, o amor era supervalorizado e idealizado. Esses
ideais eram fortemente cultuados pela literatura da época, principalmente em seus
romances. Repletos de histórias de amores platônicos, esses textos encantavam as
mulheres e contribuíam com o desejo de conseguir um amor verdadeiro e casar-se
por amor, para se atingir o lema: “felizes para sempre”.
Para Maria Ângela D’Incao (2015, p. 234), o período romântico,
principalmente a literatura urbana, apresenta o amor como um estado de alma, uma
condição de felicidade, pois, sem ter alguém para amar, não seria possível ser feliz.
Ainda segundo a autora, “ama-se porque todo o período romântico ama, ama-se o
amor e não propriamente as pessoas”. Sendo um estado de alma, parece que as
condições favoráveis desse período seriam promover o amor apenas pelo conjunto
de ideias que se tinha sobre o amor. Amava-se a ideia existente sobre o amor e não
aos amados.
Com isso, o contexto da época é um incentivo à insistente vigilância que
sofrem as mulheres. A questão da virgindade passa a ser um tabu, e as mulheres da
elite precisam se manter virgens até o dia do casamento. Esta era considerada uma
condição fundamental sobre o status da noiva, sendo uma condição de valor
econômico e político.
Percebe-se que as mulheres não podiam controlar o próprio corpo, não
podiam viver sua sexualidade e nem poderiam questionar tal condição, restava a
elas obedecer. Tal controle, além de dizer algo sobre a reputação da mulher,
também garantia ao futuro esposo a certeza de filhos legítimos. Assim, o ideal da
mulher romântica foi propagado e muito vivenciado tanto nos romances quanto na
vida social.
O legado deixado por esse controle resiste até a contemporaneidade e segue
criando rótulos e esperando que as mulheres correspondam a essas expectativas.
Cada vez mais as mulheres precisam reafirmar seus valores, crenças e direitos na
sociedade. São lutas diárias e incessantes e cada nova conquista de espaço, ainda
que individual. Isso torna-se também uma conquista coletiva.
Quanto ao controle sobre o corpo das mulheres, segundo Mary Del Priore
(2015), nos primeiros tempos da colonização, homens e mulheres acreditavam que
as doenças eram um tipo de castigo divino, com o objetivo de redimir a pessoa
doente de seus pecados. O discurso da medicina e o da Igreja não se diferenciavam
muito. Acreditava-se que as enfermidades eram, portanto, um castigo dado por Deus
a fim de obter a remissão do espírito do ser que padece.
Em tempos nos quais culpa e doença se misturam, tinha-se uma crença ainda
mais ardilosa em relação ao corpo feminino. O corpo da mulher era visto tanto por
padres, quanto por médicos, como “palco nebuloso e obscuro no qual Deus e o
Diabo se digladiavam” (PRIORE, 2015, p. 78). As doenças que acometiam as
mulheres eram prontamente associadas a indício de ira celestial, sinal demoníaco ou
bruxaria.
Mesmo grandes médicos pesquisadores da época associavam todo o tipo de
enfermidade no corpo da mulher como algo além da medicina, ligado à “fragilidade”
específica do corpo feminino ou a sua natureza “vulnerável” a ações do demônio. O
que se sabia a respeito do corpo e da saúde da mulher se resumia à existência do
útero, chamado na época de madre. Sua função seria unicamente a reprodução, não
influenciando em outras atividades do corpo.
Ainda que países como França, Inglaterra e Holanda avançassem
cientificamente, a Inquisição só contribuía para o atraso da medicina portuguesa. A
Igreja seguia controlando tudo o que seria relacionado à produção cultural e
conhecimentos científicos da época.
Além disso, a ciência médica passou a perseguir as mulheres que soubessem
tratar o próprio corpo. Trabalhos de manipulações e combinações de ervas
medicinais eram conhecimentos herdados de mãe para filha. Com orações, palavras
e costumes como usos de ervas e receitas naturais, muitas curandeiras passavam a
tratar da saúde de outras mulheres, principalmente nos lugares onde os médicos
não conseguiam chegar. Isso acabou também despertando a atenção da Igreja, que
passa a condenar essas práticas, alegando que isso era a manifestação satânica no
corpo das doentes.
Com o passar dos anos, foi se desmistificando tal crença, mas outros
costumes, como a vigilância da virgindade e a forte doutrinação da Igreja ainda
exerciam papel decisivo no controle sobre a mulher. Incluso, na sua propensão
natural a encantar e seduzir, o que também poderia ser muito perigoso. O fato é que
desde muito tempo as mulheres sofrem demasiado controle de suas atitudes e são
induzidas a certos comportamentos que dizem mais sobre as atitudes de uma
sociedade patriarcal e opressora do que sobre elas mesmas.
Quanto à demonstração de sua sexualidade, segundo Emanuel Araújo
(2015), ainda no período colonial, esperava-se um comportamento passivo por parte
das mulheres, que elas demonstrassem apenas com olhares algum tipo de interesse
e esperassem o pretendente tomar a iniciativa da corte, isso com a autorização do
pai e sempre com a supervisão de algum ente da família. Assim, as mulheres eram
constantemente vigiadas e suas sexualidades abafadas, pois eram obrigadas a
seguir os modelos estereotipados de comportamento da época. Aquelas que não o
seguiam, sofriam duramente com castigos da família e da Igreja, que muito
influenciava nesses assuntos.
Acreditava-se que o homem era superior à mulher, sendo toda a autoridade
exercida apenas por ele. Baseando-se em textos bíblicos, afirmava-se que a Igreja
está sujeita ao próprio Cristo, e, do mesmo modo, as mulheres deveriam estar
submissas aos seus maridos ou alguma figura masculina de seu lar, pai ou irmão.
Eles representariam o Cristo dentro do universo familiar.
Para a Igreja, as mulheres partilhavam da “essência de Eva” e isso justificaria
a excessiva vigilância sobre elas, pois “A mulher estava condenada por definição a
pagar eternamente pelo erro de Eva, a primeira fêmea, que levou Adão ao pecado e
tirou da humanidade futura a possibilidade de gozar da inocência paradisíaca”
(ARAÚJO, 2015, p.46).
Possuidoras do amargo carma da culpa de Eva, inclusive, frequentemente
lembrado a elas, as mulheres deveriam ser obedientes e submissas para se
redimirem da “culpa” que paira sobre elas. Além disso, a crença na natureza
traiçoeira e o fato de serem consideradas impressionáveis, capazes de despertar
ardentes paixões com suas seduções, também as uniria de algum modo às “forças
do mal”, em uma associação entre feitiçaria e sexualidade.
Educadas para serem recatadas e envergonhadas, o aflorar da sexualidade e
sua demonstração eram facilmente associados à bruxaria, práticas severamente
condenáveis pela Igreja e pelo Estado. As mulheres consideradas feiticeiras eram
perseguidas pelo Santo Ofício, acusadas de ensinarem práticas pagãs e diabólicas,
como simpatias de sedução, ou de promoverem leitura de cartas e rituais feitos à
noite, parcialmente despidas (ARAÚJO, 2015, p.48).
A vigilância sobre a sexualidade da mulher não se finda ao longo de sua vida.
Mesmo estando casada, ela sofre interferência da Igreja regulando o relacionamento
conjugal. Erotismos excessivos eram proibidos, segundo Araújo (2015, p.52),
“moderação, freio dos sentidos, controle da carne, era o que se esperava de ambos,
pois o ato sexual não se destinava ao prazer, mas à procriação de filhos.”
Com isso, o casamento e a intimidade do casal também deviam seguir
diversas regras. A mulher não poderia expressar livremente seus desejos ou seduzir
o seu esposo, mas deveria apenas insinuar, caberia ao esposo estar atento e
corresponder. Tudo isso para que a mulher se tornasse mãe, objetivo maior do
casamento e considerado o momento ápice na vida da mulher. Nesse momento de
sua vida, ela se afastaria do complexo de Eva e se assemelharia a Maria, mãe de
Jesus, mulher pura e delicada que, segundo a crença católica, fora mãe ainda
virgem (ARAÚJO, 2015, p.52).
No exercício de sua maternidade, a mulher seguia vigiada e submissa a seu
marido, ao Estado e à Igreja no intuito de ser uma mãe dedicada, mas atenta aos
saberes dominados apenas pelos homens. Mas será que todas tinham esse desejo
de ser mãe ou isso seria algo imposto socialmente?
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