1.4 Méthodes quantiques de calcul ab initio
1.4.2 La méthode des perturbations de Møller-Plesset
Imerge na banheira como no mar. Um mundo morno se fecha sobre ela silenciosamente, quietamente. Pequenas bolhas deslizam suaves até se apagarem de encontro ao esmalte. A jovem sente a água pesando sobre seu corpo, pára um instante como se lhe tivessem tocado leve o ombro.
Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector
A discussão dos espaços geográficos, em O paciente inglês, move-se da representação e encarceramento da terra, já que mapas são significadores cruciais de controle sobre o espaço e, portanto, do poder sobre a inscrição do ser, para a fluida cartografia do corpo humano. Quando Hana adentra a biblioteca para escrever nos livros, a relação de seu corpo com o espaço é assim descrita: “ela voltou caminhando de costas, pisando em suas próprias pegadas, por medida de segurança, mas também como parte de um jogo privado, pois pela imagem das pegadas parecia que depois de ter entrado na biblioteca o seu corpo físico desaparecera” (ONDAATJE, 2001, p. 15). Para evitar que pisasse sobre bombas, Hana retorna pisando sobre suas próprias pegadas. A sensação criada é a de que alguém teria se desintegrado em pleno ar na frente da estante de livros. Os corpos, no romance, ganham, por vezes, características etéreas e se tornam objetos de jogos individuais dos personagens que permitem que seus corpos recusem delimitação e composição sólida e se tornem livres e fonte do lúdico.
Os corpos, no romance de Ondaatje, sofrem por causa das traições de guerra realizadas por nações, como avaliado pelo paciente inglês: “como os homens traem uns aos outros em nome da pátria” (2001, p. 85). Durante o período de guerra, em que Caravaggio é preso e interrogado, seu corpo é torturado e mutilado para que o personagem revele informações que, na verdade, não possui: “Trouxeram uma das enfermeiras. Meus pulsos algemados aos pés da mesa. Quando cortaram meus dedões, minhas mãos se livraram das algemas sem nenhum esforço. Como um desejo que se realiza em um sonho” (2001, p. 45). Paradoxalmente, a mutilação do personagem, além de marcar seu corpo permanentemente, o liberta da tortura e o coloca no encalço do
paciente inglês, já que Caravaggio acredita que havia sido preso por causa de informações confidenciais veiculadas por aquele personagem.
O romance de Ondaatje também analisa outras traições pela voz do paciente inglês quando esse escreve em As histórias de Heródoto: “há traições na guerra que são pirraças de
criança quando comparadas com nossas traições em tempo de paz” (2001, p. 70). O romance
enfatiza traições privadas entre seres humanos, piores do que traições políticas realizadas entre nações em tempos de guerra. Na verdade, são as traições particulares, realizadas por um personagem em relação a outro, vinculadas às traições realizadas por nações, que causam as maiores deteriorizações nos corpos dos seres humanos. O paciente inglês, obviamente, é aquele que mais sente no próprio corpo os efeitos dessas traições. Além de ter sido preso porque havia sido considerado um espião, ele sofre um atentado cometido por Clifton, que quer vingança por causa do romance de sua esposa, Katharine, com o paciente inglês.
No entanto, é na própria relação com Katharine que a geografia do corpo parece ser possuída e marcada: “Quando a abraçava, verificava que objetos podiam estar ao alcance das mãos dela. Encontrava-a com outros, em público, com manchas roxas ou a cabeça enfaixada e explicava como o táxi tinha dado uma freada e a cabeça tinha batido de encontro à janela. Ou com iodo no antebraço, cobrindo a marca de uma chicotada” (ONDAATJE, 2001, p. 106). Nesse sentido, o romance de Ondaatje questiona o possuir, marcar e nomear o espaço geográfico e cria a possibilidade do marcar o corpo do outro, por vezes, de forma consentida. Na verdade, o desejo de Katharine de marcar o corpo de seu amante pode ser visto como uma resposta à afirmação do paciente inglês de ser a propriedade a pior coisa do mundo para ele. Já que ele rejeita qualquer tipo de compromisso com Katharine, ela reafirma seu desejo e vontade de marcar o corpo dele, marcando a si mesma sobre ele.
A ansiedade de poder e de nomear, tanto coisas e espaços geográficos quanto partes corporais, também se torna relevante no caso amoroso de Katharine e o paciente inglês. Na narrativa de Ondaatje, o questionamento de espaços geográficos é aliado ao uso questionador da linguagem quando, por exemplo, a parte do corpo de Katharine entre seu pescoço e seu peito recebe muitos nomes durante o desenrolar da narrativa. A concavidade na base de seu pescoço (2001, p. 112) é chamada de o mergulho do Bósforo – um nome usado por Katharine e o paciente inglês relacionado ao movimento de submergir –, e o ninho vascular (2001, p. 164). Entretanto, o nome oficial parece pouco importante devido à possibilidade de nomeá-lo de acordo com seus
gostos. Na verdade, a concavidade pode até mudar de lugar: do pescoço para os dedos dos pés (2001, p. 178). Nomear o corpo, em O paciente inglês, torna-se um ato de fluidez, isto é, cada personagem pode chamar a mesma parte do corpo, a concavidade, da forma que quiser. Em vez de marcar posse e exploração geográfica, nomear pode funcionar como uma forma de conectar pessoas e amantes, já que é um dos momentos de comunhão e prazer divididos entre os personagens.
O corpo, no romance de Ondaatje, também funciona como refúgio para o sofrimento pessoal por causa da guerra. Após Hana ajudar Kip a desmontar uma bomba, ela diz: “Eu queria tocar nesse osso no seu pescoço, a clavícula, é como uma asa dura por baixo da pele. Queria encostar meus dedos nela. Sempre gostei de pele da cor de rios e pedras (...) deixe que eu fique encolhidinha como se você fosse um bom avô que eu pudesse abraçar, adoro a palavra ‘encolhidinha’, é comprida, não adianta se apressar com ela...” (2001, p. 74-75). Hana, além de admirar a força e a cor do corpo de Kip, busca conforto para si mesma após situações estressantes de guerra e, ao mesmo tempo, para superar a ausência de sua família. A narrativa ainda brinca com o uso da palavra “encolhidinha” relacionando a grafia ao sentido de lentidão que a palavra expressa para Hana. A narrativa também enfatiza o cuidado do corpo pelo outro. É a decisão de Hana de permanecer na vila e cuidar do paciente inglês que permite que todas as estórias e histórias sejam contadas. Ela dá assistência ao paciente inglês: “vem tratando dele há meses e conhece bem aquele corpo, o pênis adormecido como um cavalo-marinho, os quadris magros, estreitos (...) Ela adora a concavidade abaixo da última costela, o despenhadeiro de pele. Ao tocar os ombros do homem, ela sopra ar frio no seu pescoço” (2001, p. 9).
A busca de cada personagem por autodeterminação e as relações complexas estabelecidas entre eles são também frequentemente descritas por meio de imagens e metáforas fluidas. Essas relações são, na verdade, um dos enfoques principais da narrativa de Ondaatje. Tentando valorizar a experiência humana, o paciente inglês afirma que nós “morremos contendo uma riqueza de amores e tribos, sabores que provamos, corpos em que nos afundamos e onde nadamos como rios de sabedoria, personalidades em que subimos nos agarrando como árvores, tremores onde nos ocultamos como cavernas. Desejo que tudo isso fique marcado no meu corpo quando eu morrer” (2001, p. 179). Essa bela passagem poética exemplifica as relações que a narrativa busca representar entre os personagens, que parecem rios se cruzando e se distanciando, por várias vezes. Além disso, há o desejo de que todos os amores, todos os encontros corporais, todos os
conhecimentos e todos os medos fiquem marcados no corpo. O paciente inglês espera que todas as experiências façam parte daquilo que o ser foi um dia e que possam ser visualizadas na carne.