É importante ressaltar ainda como a violência em Bolaño se apresenta com algumas diferenças a depender de sua geografia. Em entrevistas, chega a diferenciar sua percepção da Europa e da América Latina no que tange a esta questão.439
O Chile está representado por uma tríade de tempo e utopia: de início era o sonho e, suas narrativas em geral situam um Chile do governo de Allende, para logo depois revelar-se como o pesadelo do que este país se tornou no pós-golpe. E, por último, depois do sonho e do pesadelo, se apresenta a vigília, que se revela amarga e sem utopias. Já na primeira página de Estrella distante, o narrador se refere a esse momento como a luta que abriria as possibilidades de uma nova vida, possibilitando a realização do sonho Mas hoje já se tem conhecimento de que os sonhos “a menudo se convierten en pesadillas”
Na sua literatura, embora a violência esteja disseminada em todo o globo terrestre (violências interpessoais, muitas vezes de cunho machista e/ou nazista na Europa, mutilações justificadas por ritos religiosos na Índia, guerras no continente africano), dois lugares ganham especial destaque no tratamento dado a essa constante, o Chile e o México.
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, como é anunciado logo a seguir pelo narrador. O autor já sabe e afirma, no discurso da entrega do prêmio Rómulo Gallegos, o quanto a América Latina, em toda a sua extensão, está marcada pela violência e pela perda de seus jovens que ousaram acreditar no referido sonho de uma vida mais justa e em caminhos melhores para o continente.441
O Chile guarda o lugar da utopia política, da chave do que um dia poderia ter se revelado como um sonho, na ascensão democrática de um governo socialista. No
439 Como apontado no capítulo 1, ao narrar um incidente com uma mulher nua nas ruas espanholas, aponta as diferenças de tratamento em um continente e em outro, sobre a conduta da polícia e as possíveis agressões. Por fim, afirma: “En ese momento me di cuenta de que estaba en Europa. Yo he vivido en países latinoamericanos donde la violencia es horrible.” BRAITHWAITE, 2013, p. 120. Tradução minha: “Nesse momento, percebi que estava na Europa. Eu vivi em países latino-americanos em que a violência é horrível.” 440
BOLAÑO, Estrella distante, p. 13. 441
entanto, tanto o autor Bolaño, quanto o personagem Belano, ao retornarem para participar desta construção, são impedidos por um poder opressor. Da mesma forma, milhares de outros também foram expulsos da edificação e da participação histórica de seus países ao discordarem da política imperialista e ditatorial que dominou a América Latina no século XX. Essa mesma geração, a dos nascidos na década de 1950, que viveram uma tentativa de sonho, forma uma legião de escritores desterrados, sem lugar dentro do cânone literário ou de um pertencimento territorial.
O Chile está permeado de enganos. Poetas que se revelam matadores nazistas, como em Estrella distante, ou escritoras que, na superfície têm oficinas de literatura, mas mantêm porões de tortura, críticos literários participantes da Opus Dei e informantes do governo de Pinochet, amigos de uma infância distante que trabalham como policiais para um governo violento, como nos exemplos trazidos acima. Todos esses são personagens baseados em figuras reais, que fizeram parte do contexto vivido não só pelos seus conterrâneos, mas também pelo autor. É uma terra perigosa, semeada de morte, até mesmo no terreno do que deveria estar a salvo: a poesia e a infância. A violência no Chile se apresenta como uma força institucionalizada nos poderes oficiais. Uma luta que se mostra falseada, seguida de um governo violento e de uma consequente hipocrisia concordada. Um poder que esmaga, oprime e se dá de forma vertical.
No México, embora o governo se mostre por vezes autoritário e capaz de imensos ataques, como em Amuleto, a violência que persegue seus personagens vem de outras fontes, de forma mais horizontalizada, atingindo-os de maneira atomizada, por todos os lados. Uma violência dos cidadãos para com eles mesmos, uma agressividade que se apresenta até mesmo entre companheiros de luta e de esquerda, como a homofobia sofrida por Ojo Silva. Marcado por um Estado que consegue dissimular sua participação nos atos de violência, como no massacre de Tlatelolco, a agressividade mexicana em Bolaño é fruto da marginalidade e da ausência de proteção. Seus personagens transitam por meios que negam seu direito ao pertencimento, seja através do fracasso literário e econômico442
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O México guarda ainda o desejo da ascensão e reconhecimento da poesia, que nunca se realiza tampouco. Em uma proposta de junção entre vida e obra, como propunha infrarrealismo, os poetas de Los detectives salvajes vivem como poetas, embora não consigam publicar suas poesias. Uma estética do fracasso, mas que para além das normas de um mercado editorial, mantém a experimentação estética e sexual.
, das mulheres de Santa Teresa ou do submundo do Distrito Federal. Enquanto no Chile a
violência é explícita e institucionalizada443
Bolaño chega a afirma que o “México es un país tremendamente vital, pese a que es el país donde, paradójicamente, la muerte está más presente. Tal vez sólo así, siendo tan vital, puede tener la muerte tan presente.”
, no terreno mexicano a violência é geral e irrestrita, não se encontra sob uma ditadura declarada (como de fato a história do país nunca assim a declarou), mas é praticada em todos os setores da sociedade, pulverizada nas ações cotidianas, entre todos. O narcotráfico, o feminicídio, as brigas interpessoais, a exploração sexual de homens e mulheres etc. são atos de violência constantes que têm no Estado um aliado por sua omissão.
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Ahí está la historia cotidiana de Chile, la historia particular, la historia puertas adentro. Describir con lástima al padre de la patria por su bastardía. O escribir sobre este punto sin lograr disimular cierta complacencia
Há, na obra de Roberto Bolaño, alguns romances que se centram especificamente no Chile e seus momentos de negociação com o máximo horror, como Nocturno de Chile e Estrella distante e outras que indiretamente também trazem o contexto chileno, como Amberes e Pista de hielo. E há outras localizadas especificamente no México, mas que direta ou indiretamente retornam ao Chile, como na volta de Belano em Los detectives salvajes e, como um caso especial de sua última grande novela 2666, a partir da inserção de Amalfitano e seu passado. 2666, como um romance total, retoma e reúne as questões mais caras à narrativa de Roberto Bolaño, entre elas, a junção da violência máxima, e, a partir dela, o encontro entre o México e o Chile. E, no norte mexicano, a última fronteira da América Latina, se dá o encontro entre estes dois loci, ao inserir o Chile como seu lote mais violento. Um terreno vago, clandestino e que recebia o lixo do deserto e os corpos das mulheres. Esse pedaço de terra, que concentra em si os dois lugares, ao norte do México, mas com nome Chile:
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En octubre no apareció ninguna mujer muerta en Santa Teresa, ni en la ciudad ni en el desierto, y las obras para eliminar el basurero clandestino de El Chile se interrumpieron definitivamente. Un periodista de La Tribuna de Santa Teresa que hizo la nota del traslado o demolición del basurero dijo que nunca en toda su vida había visto tanto caos. Preguntado sobre si el caos lo producían los
.
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Essa institucionalização pode ser do Estado, da igreja ou do campo literário, como apontado nos diversos exemplos tratados anteriormente, principalmente constantes em Nocturno de Chile.
444 BRAITHWAITE, 2013, p. 40. Tradução minha: “México é um país tremendamente vital, ainda que seja o país onde, paradoxicalmente, a morte está mais presente. Talvez só assim, sendo tão vital, pode ter a morte tão presente.”
445 BOLAÑO, 2666, p. 277. Tradução minha: “Aí está a história cotidiana do Chile, a história particular, a história portas adentro. Descrever com lástima ao pai da pátria por sua bastardia. Ou escrever sobre este ponto sem conseguir dissimular certa complacência.”
trabajadores municipales vanamente empeñados en el intento, contestó que no, que el caos lo producía el pudridero inerte.446
Nessa cartografia da errância proposta na literatura de Bolaño, parece-me interessante seguir com os lugares de (não) pertencimento e as implicações dos deslocamentos na temática e na estética do autor.