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CHAPITRE II - LES LOGIQUES COMPORTEMENTALES DES USAGERS 1

7. LA DEMANDE DE TRANSPORT

7.1 L ES DETERMINANTS DE LA DEMANDE .1 Les critères relatifs au temps

Para Deliberador e Villela (2010), pensar saúde a partir do método fenomenológico se faz necessário em razão da importância do estabelecimento de um conceito de saúde que esteja em correspondência com a existência humana na sua particular manifestação e totalidade. A saúde é interesse explícito e implícito de todo ser humano e também um problema da existência de cada um, na medida em que diz respeito à disposição

27 primeira e mais imediata na vida humana. Assim, pensar sobre saúde não é responsabilidade apenas das ciências médicas ou dos especialistas, uma vez que, vista como um bem, a saúde passa a pertencer ao âmbito existencial e moral.

Para Correia (2006) a saúde é uma condição fundamental da nossa existência e é obtida através de uma interação satisfatória entre o nosso corpo e o mundo físico. Logo, um sujeito que se percebe como doente ou incapacitado não só poderá se perceber como limitado na sua forma de interação básica com o mundo, como essa limitação poderá colocar em causa um dos pilares básicos para sua atribuição de sentido existencial. Araújo et al. (2008) ressaltam a importância da autonomia para o ser humano. Segundo estes autores, a palavra autonomia, que deriva do grego auto (próprio) + nomos (regra, lei ou norma) expressa a ideia de autogoverno ou autodeterminação, condições fundamentais para que a pessoa possa escolher os rumos que pretende dar à sua própria vida em diversos aspectos. “A pessoa detentora de autonomia deve ter liberdade de pensamento, opções diversas para agir e alternativas que lhe convenham.” (Araújo et al., 2008, p. 119).

Para Lemos e Cavalcante Junior (2009) o doente deve ser o centro do tratamento, e a ênfase não deve ser a doença, mas a existência do doente, que é sujeito em potencial. Assim, as condições de saúde e doença se definem a partir de como a pessoa se coloca frente ao que se apresenta em sua existência, ou seja, não se trata de trabalhar a partir de definições prévias do que é saudável ou não, já que conhecer como cada um se coloca em relação àquilo que experiencia só pode ocorrer a partir da fala que possibilita a aproximação ao existir do outro.

A fenomenologia, neste sentido, não busca construir intervenções com o propósito de controlar saúde/doença, mas sim que o indivíduo, a partir de suas experiências, construa novos significados para a sua existência. Desse modo, concepções como saúde/doença passam a ser consideradas a partir das relações existenciais vividas pelo indivíduo (Santos et al., 2006). De maneira semelhante, a compreensão do termo corpo também se apresenta de outro modo. Em alemão existem termos que visam diferenciar as necessidades de atenção ao corpo físico, Körper, e a sua compreensão mais integrada com o vivenciado, Leib. Estes termos serão usados para distinguir cada um destes aspectos (Heidegger, 2009).

Segundo Nogueira (2011), Heidegger em nenhum momento expôs uma determinação rigorosa do que seja saúde, uma vez que o filósofo se impôs a tarefa de

28 pensar a saúde e a doença num período tardio de sua carreira. Svenaeus (2001) afirma que não há muitos fenomenólogos que tenham trabalhado com teorias gerais a respeito do conceito de saúde. No entanto, conforme Frank (2001), a partir da perspectiva das narrativas em primeira pessoa a respeito do adoecimento, os fenomenólogos podem apresentar diversos referenciais. A filosofia de Merleau-Ponty se direcionaria mais para o aspecto da intencionalidade a partir do corpo; Ricoeur apresenta uma aproximação das dimensões da temporalidade e da construção da narrativa; já no pensamento de Heidegger, torna-se possível considerar não somente a doença como o que se apresenta, mas o estar doente como um modo de apresentar-se ainda mais relevante para o aspecto da narrativa, ressaltando também a morte como um horizonte de finitude; e Levinas aborda o sofrimento e as obrigações mútuas, retomando o tema do cuidado de Heidegger.

Entretanto, Nogueira (2011) e outros autores de pensamento fenomenológico se põem a compreender a saúde, aliás, se põem a compreender doença como privação das possibilidades de ser do homem. De acordo com Svenaeus (2001), Gadamer, a partir do pensamento de Heidegger, considera que a saúde não é algo que se apresenta pela introspecção, mas sim no próprio modo de ser do Dasein1 enquanto ser-aí, que está lançado no mundo. Segundo Cardinalli (2004), para Heidegger o fenômeno de adoecer deve ser compreendido como privação da realização das potencialidades existenciais constitutivas dos modos de ser do existir humano. Nogueira (2011, p. 263) afirma que para Heidegger:

A despeito da firme posição defendida pela religião cristã quanto à sacralidade da vida, é preciso dizer que há algo mais precioso que a própria vida. O dom mais precioso é o apanágio da abertura ao ser. A saúde do homem radica-se não na vida, nem nos órgãos físicos, nem sequer na mente, considerada como ente interno racional que guia o homem. A saúde humana, portanto, não é um estado, nem uma condição que se encontra e se mede na efetividade dos sinais, sintomas e alterações bioquímicas do corpo. A saúde humana é diferente da saúde animal porque ela é a própria essência extática do Dasein. Sendo lançado ao mundo, o Dasein projeta-se sempre em suas potencialidades de ser; mas, como lembra Heidegger em Ser e tempo, o Dasein pode se fechar diante dessas potencialidades e até perdê-las por completo. O Dasein pode ser privado de sua abertura, enquanto a vida e o sistema de órgãos do corpo físico continuam em sua marcha tenaz.

Assim, ao considerar a compreensão fenomenológica hermenêutica de saúde e de doença, que é orientada pelo poder-ser (poder realizar) e pela liberdade para ser, é

29 possível esclarecer as experiências de cada ser humano que, ao mesmo tempo, são compreendidas como uma totalidade e situadas em seu contexto existencial. Sendo assim, revela-se a importância de lançar o olhar não ao adoecimento em si, mas àquilo que foi e é experienciado pela pessoa que adoeceu e precisou se haver com esta modificação em sua vida. A escolha do referencial da fenomenologia hermenêutica para este doutoramento reflete a compreensão de saúde e adoecimento a qual Heidegger desenvolveu principalmente nos dez anos que duraram os Seminários de Zollikon (1959-1969). Fica evidenciado que a compreensão dicotômica de saúde e doença padronizada pela modernidade pode ser limitante, uma vez que há uma ênfase à busca de um estado final de melhora, sem considerar o aspecto da existência daquele que se encontra adoecido. Por este motivo, faz-se necessário abordar a ontologia heideggeriana, considerando que ela se apresenta como base para a compreensão da existência a partir do referencial de pensamento deste filósofo.