Ordenha em carrosel Ordenha robotizada Ordenha em espinha de peixe Gráfico 19 Percentagem de tipos de ordenha das diferentes explorações.
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4 - Discussão
Com base nos resultados obtidos e na revisão da literatura podemos verificar se as incidências relativas às doenças em estudo estão de acordo com a literatura.
Por uma questão de facilidade de comparação com a bibliografia, e tendo em conta que as doenças em causa têm uma ocorrência praticamente apenas durante o período de transição, utilizou-se os valores de prevalência como sendo de incidência.
Relativamente à cetose, as explorações em estudo revelam uma incidência superior à reportada na literatura que relata uma prevalência de 4,6% (Koeck et al., 2012). A incidência de deslocamento de abomaso nas explorações B, C e D encontram-se de acordo com a literatura internacional que reporta uma prevalência de 4% a 7%, no entanto, a literatura nacional reporta uma prevalência de 12%, compatível com a incidência da exploração A (Cameron et al., 1998; Castro et al., 2009). A retenção placentária, nas explorações estudadas, apresenta uma incidência próxima da incidência reportada na literatura (Koch, 2013). A incidência de metrite registada nas explorações em estudo é compatível com a prevalência reportada na literatura, a variar de 7% a 61% (Gilbert et al., 2005; Potter et al., 2010). Tenhagen e colegas (2006) reportam uma prevalência de mamites subclínicas de 26,4% pelo período de 50 dias em leite. À falta de estudos relativos à prevalência desta doença aos 30 dias em leite, utilizo esta referência sendo a mais próxima em dias em leite aos objetivos deste trabalho. Assim, tendo em conta a prevalência aos 50 dias em leite, as explorações em estudo apresentam uma prevalência aos 30 dias em leite superior à reportada por Tenhagen, à excepção da exploração H com uma prevalência aos 30 dias em leite de 11% (Tenhagen et al., 2006).
Vários autores referenciaram níveis ótimos de incidência a atingir por doença de forma a ter maior aproveitamento. Houe e colegas (2001) definiram para a paresia puerperal 0% a 5%. Para a cetose foi limitado uma incidência de 5% (Ingvartsen, 2006). O deslocamento abomasal não deverá exceder os 3% e a retenção placentária deverá ser inferior a 10% (Heuer et al., 1999). Leblanc (2010) definiu para a metrite uma incidência menor que 10%. Para a mamite subclínica, Hillerton e Berry (2005) relatam que 10% ou inferior é a prevalência ideal para esta doença.
Com base nestes valores de incidência ótima, observamos nos gráficos 5, 6, 7, 8, 9, e 10 que a maioria das doenças analisadas nas explorações se encontram acima deste nível alvo.
A exploração D detém uma incidência de deslocamento do abomaso no limite da incidência alvo. A exploração C detém uma incidência de retenção placentária inferior ao limite
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ótimo. As explorações C e D apresentam níveis ótimos de paresia puerperal inferior ao limite ideal.
Outras explorações, apesar de demonstrarem uma incidência superior à ideal, indicam uma incidência próxima deste limite, passível de ser alcançado. São estas a exploração D relativamente à cetose, a exploração C ao deslocamento do abomaso, a exploração H aproxima-se do limite ideal da mamite e as explorações A e B estão no limiar, relativamente à paresia puerperal.
Com base no tipo de alimentação e higiene de cada exploração, investigou-se se estes parâmetros estão relacionados com o aumento de determinadas doenças.
Sendo a higiene geral da exploração um dos fatores de risco para o desenvolvimento de metrite e de mamite, foi explorado o relacionamento entre a higiene e estas doenças.
Observando a tabela 6, constata-se que a mediana da incidência da mamite diminui com o aumento do score de higiene. Apesar do teste de kruskal-wallis indicar não haver significância estatística, estes resultados são compatíveis com estudos anteriormente publicados, admitindo que com boa higiene da exploração o número de casos de mamites diminui (Manzi et al., 2012; Schreiner e Ruegg, 2003).
O gráfico 16 demonstra a relação entre a higiene da exploração e a incidência de metrites. Observa-se que há uma diminuição da incidência de metrite com o aumento da higiene. Sendo reduzido o número de explorações onde foi possível analisar os dados relativos a esta doença, esta constatação não tem significância estatística. Na literatura diferentes autores referem não haver relação entre a higiene das explorações e a incidência de metrites admitindo que a higiene não é por si só um fator de risco (Hossein-Zadeh e Ardalan, 2011; Potter et al., 2010).
A alimentação é um dos fatores de risco do desenvolvimento de cetose e do deslocamento do abomaso (Ingvartsen e Moyes, 2013). Devido à forma de recolha do alimento e da mistura da comida, averiguou-se a possibilidade de haver relação entre estas doenças e o sistema de arraçoamento (self-propelled unifeed unifeed horizontal de reboque). Observando o gráfico 18, apesar de não ter significância estatística, verifica-se que a incidência de cetose e do deslocamento do abomaso são menores com o método de arraçoamento alimentar self-propelled unifeed comparativamente ao unifeed horizontal de reboque. A literatura disponível não apresenta estudos efetuados com estes dois sistemas de arraçoamento e a sua relação com as doenças em estudo.
Alguns autores afirmam haver alterações de saúde do ubere dependentes do mecanismo de ordenha (Dam Rasmussen et al., 2001; Reinemann, 2002). Estudos realizados na Europa demonstraram que ordenhas robotizadas apresentam uma contagem de células somáticas superiores a ordenhas convencionais, com uma diferença média de cerca de 50
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000 células somáticas, assim como uma contagem bacteriana total superior no mecanismo robotizado com um aumento em cerca de 6 000 unidades formadoras de colónias por mililitro (Koning et al., 2003; Reinemann, 2002). Esta diferença pode ser justificada pelo aumento de ordenhas diárias, mantendo o esfíncter aberto mais tempo ou a forma e limpeza dos tetos, contudo são necessários mais estudos para apurar a causa (Ohnstad et al., 2012). No entanto, outros trabalhos defendem que o aumento da contagem de células somáticas está dependente da gestão dos sistemas, não podendo a máquina substituir o homem (Hamann et al., 2002; Hovinen e Pyörälä, 2011).
Na literatura não está descrito o método de ordenha em carrossel comparando-o com o método de ordenha em espinha de peixe.
Devido à baixa representação de explorações com ordenha robotizada e ordenha em carrossel, não é possível analisar mais profundamente estes dados.
Um dos objetivos deste trabalho é identificar a correlação entre as diferentes doenças estudadas. A tabela 7 apresenta os resultados aplicando a correlação de Spearman entre as diferentes doenças. Observamos que correlação entre a incidência de paresia puerperal e a incidência de retenção placentária estão fortemente correlacionas, com rs =1 e p < 0,01, sendo
o único valor com significância estatística. A ocorrência de relação entre a paresia puerperal e retenção placentária encontra-se de acordo com estudos previamente publicados, no entanto, não está reportado uma correlação muito forte (Curtis et al., 1985; Dohoo e Martin, 1984; Erb et al., 1985; Grohn et al., 1990; Han e Kim, 2005; Markusfeld, 1987).
Examinando a mamite e a sua correlação com as outras doenças observa-se não haver qualquer relação entre esta e a cetose e correlação negativa com as demais doenças. Relativamente à relação da mamite com a cetose, este valor está de acordo com estudos publicados, afirmando que a cetose não influencia a incidência de mamite mas sim a sua gravidade e duração (Duffield et al., 2009; Suthar et al., 2013). A correlação negativa entre a mamite e as doenças uterinas, retenção placentária e metrite não se encontra de acordo com a literatura. Suthar e colegas (2013) reportam que ambas as doenças uterinas, metrite e retenção placentária, são fatores de risco para o desenvolvimento de mamite com incidências de risco de 1,6 e 2,7 respetivamente, assim como Leblanc e colegas (2005) apresentam incidências de risco de 1,8 e 6,2 respetivamente. Observa-se também uma correlação negativa entre a mamite e a paresia puerperal, no entanto Fleischer e colegas (2001b) reportaram uma probabilidade da paresia puerperal induzir mamite com um fator de risco de 1,7. Apesar de este trabalho apresentar uma correlação negativa entre mamite e deslocamento do abomaso, estudos prévios demonstram não haver correlação entre estas entidades nosológicas (Correa et al., 1993; Raizman e Santos, 2002).
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Observamos na terceira coluna da tabela 7 a correlação positiva entre a cetose e o deslocamento do abomaso, a retenção placentária e a paresia puerperal. Relativamente à relação cetose e deslocamento do abomaso, apesar de este trabalho apresentar p>0,05, a literatura relata correlação positiva entre estas duas patologias em que a cetose é um fator de risco para o desenvolvimento do deslocamento do abomaso a variar entre 2,17 e 13,8 (Correa et al., 1993; Duffield et al., 2009; Suthar et al., 2013). A cetose apresenta correlação positiva com a retenção placentária e correlação negativa com a metrite, ambas com p> 0,05. Vários trabalhos reportam correlações positivas para a retenção placentária e a metrite com índices de risco de 3,4 e de 1,7 a 3,35 respetivamente (Duffield et al., 2009; Markusfeld, 1987; Suthar et al., 2013). A relação entre a cetose e a paresia puerperal é compatível com a literatura, que suporta os valores obtidos neste trabalho, apresentando valores de incidências de risco de 2,4 (Correa et al., 1993). No entanto, Markusfeld não identificou relação entre estas doenças (Markusfeld, 1987).
A relação entre o deslocamento do abomaso e as doenças uterinas em estudo apresentam coeficiente positivo para a retenção placentária e coeficiente negativo para a metrite, no entanto, na literatura vários autores identificaram ambas as afeções uterinas como fatores de risco para o deslocamento do abomaso, sugerindo que existe correlação positiva (Ametaj et al., 2010; Duffield et al., 2009; Han e Kim, 2005; Markusfeld, 1987). A correlação positiva entre o deslocamento do abomaso e a paresia puerperal é compatível com os documentos da literatura disponível, com índices de risco que variam entre 2,8 e 3,5 (Duffield et al., 2009; Fleischer et al., 2001b).
Vários estudos relatam a correlação entre retenção placentária e a metrite, compatível com este trabalho com p>0,05, a incidência de risco varia entre 2,5 e 6,5 (Correa et al., 1993; Erb et al., 1981, 1985; Fleischer et al., 2001b; Grohn et al., 1990; Hossein-Zadeh e Ardalan, 2011; Suthar et al., 2013).
Estudando a tabela 7, observa-se que a correlação entre a metrite e a paresia puerperal é positiva com p> 0,05. A literatura disponível refere uma correlação positiva com índices de risco a variar entre 1,4 e 1,83 (Cheong et al., 2011; Erb et al., 1985; Fleischer et al., 2001b; Grohn et al., 1990).
É objetivo deste trabalho fazer o panorama económico destas doenças. Demonstrando incidências de doenças ao produtor de forma que este tome medidas de ação é ineficaz. Assim, é necessário traduzir % em € multiplicando os gastos médios de cada doença pela estimativa de casos anuais. Admitindo que os 5 meses em estudo são representativos, podemos extrapolar os custos anuais. Como orientação foram utilizados valores de gastos médios por doença da literatura indicada na revisão bibliográfica, provenientes de diferentes países com diferentes moedas, tendo sido feita a conversão para o euro de acordo com as
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taxas de câmbio em vigor no dia 9 de Outubro de 2016. As explorações A, B, C e D têm um gasto mensal aproximado de 1.931,97€, 2.106,48€, 1.956,88€ e 3.705,39€ respetivamente. Anualmente as explorações A, B, C e D têm um custo de 23.183,62€, 25.277,74€, 23.482,54€ e 44.464,68€ respetivamente. Por animal em produção o custo anual é de 231,84€, 194,44€, 126,93€ e 164,68€ respetivamente pela exploração A, B, C e D.
Assim sendo, é necessário investigar o peso económico destas doenças em cada exploração e o custo, eventual, necessário aplicar na medicina veterinária preventiva e avaliar de forma pragmática se compensa tratar estas doenças ou implementar planos preventivos.
Neste trabalho, devido ao tamanho da amostra, os resultados são estatisticamente pouco significativos. No entanto, com base na literatura e comparação com os resultados obtidos, verifica-se que de facto existem relações entre as doenças e que são necessárias tomar medidas. Tendo em conta que se trata de uma indústria, é preciso observar cada exploração e averiguar até que ponto é rentável intervir.
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5 - Conclusão
A indústria da produção leiteira evoluiu muito nos últimos anos, sendo cada vez mais eficiente e exigente, ficando o trabalho do médico veterinário mais direcionado à medicina preventiva. Assim sendo, é fundamental que haja um aperfeiçoamento das técnicas e métodos da medicina preventiva permitindo um melhor controlo das doenças nas explorações. Esta fotografia epidemiológica da área de Aveiro é insuficiente para retirar conclusões devido à baixa representatividade deste estudo, no entanto, é possível observar que a maioria das doenças se encontram com uma incidência maior do que a recomendada pelos diferentes autores, havendo necessidade de intervenção pelo corpo médico na prevenção e controlo destas doenças.
Em muitas situações, apesar do clínico recomendar um plano de ação para as explorações, os proprietários são relutantes a estas medidas. Na minha perspetiva seria uma mais-valia a disponibilização de um programa informático, como o Microsoft® Excel, permitindo aos agricultores registarem as diferentes ocorrências sendo que através de programação e com valores dos custos médios, referências obtidas da literatura e objetivos da exploração obteríamos dados passíveis de análise revelando a necessidade de intervenção e que tipo de intervenção.
Tendo em conta a preocupação das entidades mundiais em reduzir a utilização de antibióticos em Medicina Veterinária, em particular nos animais de produção, a Medicina Veterinária preventiva em bovinos de leite é crucial. A imunomodulação é essencial seja através da alimentação, vacinação ou novos fármacos como as cytokine colony stimulating
factor. Recentemente a Elanco® Animal Health, no congresso mundial de buiatria de 2016
realizado em Dublin, lançou um fármaco imunomodelador único na sua categoria, composto por bovine granulocyte cytokine colony stimulating factor, o IMRESTOR™. Sendo o primeiro fármaco deste tipo a ser comercializado será necessário algum tempo de modo a verificar a sua eficiência.
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6 - Referências bibliográficas
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