Ler Bloch e não se sensibilizar com as suas histórias e as suas palavras é impossível. Ele ainda tinha mais a contribuir do que já o havia feito para as ciências caso não tivesse sido fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944, próximo a Lyon, na França, deixando inacabado o livro Apologia da história ou o ofício do historiador.
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históricas naturalizadas, ele inaugurou a noção de “história como problema”, em que o fato histórico não é fato positivo e, sim, produto de construção ativa que transforma a fonte em documento (fato histórico), o qual, por sua vez, se torna problema (SCHWARCZ, 2001; LE GOFF, 2001). Para ele, a História talvez fosse a “ciência dos homens, ou melhor, dos homens no tempo” e não mais a “ciência do passado”: vê o passado como uma estrutura em movimento conforme o lema dos Annales. “Novos problemas, novas abordagens, novos objetos”.
Segundo Bloch, mesmo o mais claro e complacente dos documentos não fala senão quando se sabe interrogá-lo. É a pergunta que fazemos que condiciona análise, e, no limite, eleva ou diminui a importância de um texto retirado de um momento afastado. Concordo com ele que novos tempos levam a novas historicidades; boas perguntas constituem campos inesperados. Nenhum objeto tem movimento na sociedade humana exceto pela significação que os homens lhe atribuem, e são as questões que condicionam os objetos e não o oposto (SCHWARCZ, 2001, p. 8) .
4.1.1 1907-1908 x 1942-1943 – Tempos históricos
Definir um período. Fazer o recorte. São momentos de ansiedade durante a pesquisa. A quantidade e a riqueza de material fazem com que, muitas vezes, nos percamos no tempo, que corre e se torna impiedoso nos prazos a serem cumpridos.
Para reflexão, trago a contribuição de Bloch sobre o tema “tempo”, elemento do qual nenhuma ciência pode-se abstrair. No caso do historiador (e do analista do discurso), estudamos “os homens no tempo”. Segundo suas palavras, o tempo é um continuum e perpétua mudança, definição que nos traz os grandes problemas da pesquisa histórica, o de se considerar o conhecimento do mais antigo como necessário ou supérfluo para a compreensão do mais recente (BLOCH, 2001, p. 55).
Trazendo-nos um provérbio árabe, ele nos orienta: “Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”, portanto, homens, em um mesmo ambiente social, em datas próximas, sofrem influências análogas, particularmente em seu período de formação, marcando- os como comunidades, como gerações. Daí, não temos uma sociedade una, mas composta de diferentes comunidades, diferentes ambientes. Segundo Bloch (2001), para se explicar um fenômeno histórico plenamente, deve se realizar o estudo no seu momento.
Ressalta que, por definição, nada mais modificará o passado como dado, mas o seu conhecimento é algo em progresso, em transformações e em aperfeiçoamentos incessantes. Não
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podemos interromper o rio das eras, mas a minha análise necessita de recortes, que sempre são arbitrárias. Conforme orientação de Bloch (2001), elas devem coincidir com os principais pontos de inflexão da eterna mudança e se adequar, a cada vez, à natureza do fenômeno estudado, no meu caso, o imigrante japonês.
Com a segurança das palavras de Bloch, apesar do rico material, de diferentes períodos e de fatos, com dor no coração, decidida a cumprir prazos, selecionei o período do início da imigração japonesa e da Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, passo por momentos difíceis após a visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, em São Paulo, entidade que a grande maioria dos imigrantes japoneses, de seus descendentes e de pessoas que frequentam a comunidade nikkei já ouviu falar. Levantei uma série de documentos e copiei alguns autorizada pela Sra. Lídia Reiko Yamashita. Foram momentos de muita emoção por ler, sentir e ver documentos históricos, muitos deles cedidos pelos familiares e pelos próprios imigrantes japoneses. Com a perda dos documentos, tive que ir novamente ao Museu, mas como são muitas pastas, alguns dos documentos não foram resgatados. Contudo, li mais algumas reportagens e emocionei -me novamente. Compreendi alguns fatos que presenciei e vivenciei ao longo da minha curta história de vida como nissei e como brasileira.
Um dos momentos de emoção foi verificar, por meio de uma máquina lá disponibilizada, com a inserção dos nomes dos meus avòs paternos e de meu pai e o da minha avó materna, descobrir quando saíram do Japão, quando chegaram, para qual fazenda foram destinados. E minha surpresa: a presença de alguns nomes dos quais não havia ouvido falar muito: são os amigos que se juntaram para formar a “família”, cláusula dos contratos de imigração japonesa, como veremos no item 4.3.2 – Um retrato do processo da imigração japonesa.
Com as inúmeras leituras, alguns pontos foram se firmando. Um deles foi como fazer a interdisciplinaridade da Análise de Discurso Crítica com a História.
4.1.2 Imbrincando História e Análise do Discurso Crítica – ADC
Segundo Cameron (1992), conhecer a sua linguagem é conhecer-se a si mesmo e a sua história. Tais palavras já me deram mais segurança. Conforme Moreira (2009), a interdisciplinaridade da História com outras Ciências Sociais, como a Linguística e a Comunicação, propiciou a inserção de novos conceitos, métodos de análise e técnicas de
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pesquisa. Isso propiciou à História ampliar o seu estudo, com a incorporação de novas temáticas, e novos problemas surgiram e tiveram de ser enfrentados. No nosso caso, a presença do racismo ao imigrante japonês.
Chilton e Wodak (2005) descrevem que, no discurso, a legitimação e a deslegitimação geralmente ocorrem por meio de expressões avaliativas positivas ou negativas, que descrevem as ações que requerem legitimação e os legitimam, sendo somente reconhecidas por nosso conhecimento de senso comum e cultural. Alertam para o fato de a análise discursiva linguística ir até esse nível, devendo a pesquisa discursiva histórica assumir para que o historiador social e cultural possa explicar o status moral dessas expressões.
Meyer (2003) complementa que uma das contribuições da Análise de Discruso Crítica – ADC é o olhar de que todos os discursos são históricos, assim, somente pode-se compreendê-los pela referência a seu contexto, com a inclusão de elementos sociopsicológicos, políticos e ideológicos. Para tanto, a ADC utiliza, como fatores extralinguísticos, os nomes de cultura, sociedade e ideologia.
E como podemos ver o “discurso” neste momento?
4.1.2.1 O discurso na História
Segundo Jäger (2003), o discurso opera como um “fluir de conhecimento” e cria as condições não só para a formação de sujeitos, como também para a estruturação e a configuração das sociedades. Temos aqui os discursos como ramos ou tranças que se emaranham entre si, gerando uma “massa de discursos enrolados” e resultando em um “exuberante e constante crescimento dos discursos”, que a Análise de Discurso Crítica se esforça em desvendar. Esses discursos ganham significado desde que os nossos antepassados ou vizinhos tenham dado-lhes importância. Portanto, concordando com esse autor, ao considerarmos a história e a sociedade como um texto inacabado, “se o discurso troca, o objeto não somente troca seu significado, sim, que se converte em um objeto diferente; perde sua identidade prévia” (JAGER, 2003, p. 76). Segui esse olhar na busca do sentido original do significado (simbolismo coletivo) quanto ao imigrante japonês dentro de um emaranhado de significados criados ou que tenham existido ao longo dos 100 anos da imigração japonesa, sem esquecer que o sentido é mutável.
Quanto ao papel dos meios de comunicação, para Jager (2003), todos os acontecimentos têm raízes discursivas, ou seja,
podem ser encontradas as pegadas de sua origem em constelações discursivas cujas materializações são os acontecimentos. Não obstante, unicamente podem considerar-se
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acontecimentos discursivos aqueles acontecimentos em que se haja posto um especial ênfase político, é dizer, aqueles que, como regra geral, haja recebido dito trato nos meios de comunicação (JAGER, 2003, p. 80).
No meu caso, nas duas notícias analisadas, isso ocorre, pois há ênfase nos dois acontecimentos: a chegada dos imigrantes japoneses a São Paulo e a retirada dos imigrantes do litoral paulista.
Na escolha temporal das notícias e dos documentos dos dois períodos, ocorre uma lacuna de meses. Isso se justifica com as palavras de Jager (2003, p. 86):
Como o discurso tem uma história, um presente e um futuro... será necessário analisar marcos temporais mais amplos dos processos discursivos com o fim de revelar sua força, a densidade do emaranhamento dos respectivos fios discursivos com outros fios discursivos, junto com suas mudanças, fraturas, desaparições e reaparições.
Portanto, há um caráter prognosticador, de cenário em contínua evolução, que recebeu uma ampla cobertura midiática. Assim, análises críticas de tais discursos possibilitam-nos, segundo esse autor, constituir o fundamento que permite trocar o nosso “saber” sobre os estrangeiros, como o imigrante japonês, e nossa atitude em relação a eles, mudando o nosso discurso sobre eles.
Ressalto que não assumi o tempo cronológico, pois, caso o fizesse, admitiria que o desenvolvimento da identidade por meio de narrativas dar-se-ia do seguinte modo: identidades anteriores fornecem o material básico para as identidades posteriores. Concordo com De Fina, Schiffrin e Bamberg (2006, p. 27) que as histórias são reflexões mais atuais que iluminam de uma forma diferente o que aconteceu e que “as construções das identidades através de narrativas escorrem recorrentemente entre o presente e o passado”.
Passo ao tema Imigração.