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Groupes fuchsiens

Dans le document Uniformisation des surfaces de Riemann (Page 195-200)

Como mencionado anteriormente, refletir sobre o exercício da maternidade dentro de uma instituição onde temos a privação de liberdade por parte dos filhos, nos leva a entender o lugar dessas mulheres como sujeitos sociais, participantes do processo de construção de suas identidades enquanto grupo, bem como compreender o espaço que vem sendo ocupado por elas na família, na sociedade e nas relações sociais. Significa entender o papel social que essa maternidade se coloca para esses sujeitos – mães, mulheres.

Podemos hipoteticamente dizer que essas mulheres apresentam algo em comum: fortalecer o direito de exercerem a maternidade junto aos seus filhos que estão privados de liberdade, lutando por atendimento socioeducativo que deve estar pautado na convivência familiar e comunitária. Como já explicitado, é identificar a maternidade como um elo na “rede de significados” apontado por GEERTZ (1989).

Nos reportaremos, então, ao que GEERTZ conceitua como cultura:

O conceito de cultura que eu defendo, e cuja utilidade os ensaios abaixo tentam demonstrar, é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais enigmáticas na sua superfície (GEERTZ, 1989, p. 4).

Sua percepção é de que a cultura é uma “rede significados”, um conjunto de valores e crenças que sistematicamente estão sendo modificadas pelas pessoas que fazem parte de uma determinada sociedade. Analisando a inserção das mulheres na sociedade, devemos levar em consideração o aspecto cultural, a “teia de significados” que foi tecida por essas mulheres nos diferentes tempos.

Verificamos isso na história das mulheres do ocidente ao longo do século XIX, quando nos deparamos com um movimento de apropriação por parte dessas mulheres dos espaços públicos, na busca de um lugar na sociedade, de uma posição política, buscando um “tecer de significados”, de uma nova cultura, na construção de uma consciência de gênero (PERROT, Michelle, 1999).

As Mães dos Meninos do Degase exemplificam o que PERROT aponta em seu estudo sobre a história dessas mulheres do ocidente, apresentando um histórico de construção de lutas, marcadas por episódios de perdas nos diferentes contextos, culminando em formas de organização como as instituições AMÃES, AMAR e o Movimento Moleque e demais formas com as quais vêm se fortalecendo, como sujeitos sociais, constituindo-se como grupo a partir de suas identidades.

Sujeitos sociais que no mundo pós-moderno apresentam não uma identidade fixa, mas uma variedade de identidades, indo para além das apontadas enquanto classe social, de acordo com HALL (2006). Ele destaca a importância do movimento feminista, trazendo para o campo político e público temas próprios da esfera privada, como a família, o trabalho doméstico e a sexualidade.

Para as mulheres, mais especificamente para esse grupo – Mães dos Meninos do Degase, a maternidade aparece como uma categoria de identidade que permitiu a instituição organizada politicamente de grupo, entretanto, como uma identidade possível de mutações e variações (LIRA, Vílnia, 2006, p. 24), podendo em nossa análise, modificar a formatação desse grupo - AMÃES, AMAR, Movimento Moleque e demais movimentos organizativos que estudamos. Portanto, a construção da identidade permite que os sujeitos sociais possam redefinir os significados, podendo mudá-los ou ressignificá-los. Entendendo como identidade, o conceito de CASTELLS (1999, p. 22) “[...] processo de construção de significado com base num atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o (s) qual (ais) prevalece (m) sobre outras fontes de significados”.

As mulheres, Mães dos Meninos Do Degase, são mães e possuem isso como uma de suas formas de identidade: ser mãe; mas também são mães que lutam; outra forma de identidade: mães que se organizam para lutar. Elas possuem o que CASTELLS (1999, p. 23) define como identidades: “[...] são fontes mais importantes de significado do que papeis, por causa do processo de autoconstrução e individuação que envolvem [...] pode-se dizer que identidades organizam significados, enquanto papeis organizam funções”.

Estamos falando de sujeitos sociais que apresentam uma história de luta para garantia do exercício da maternidade, do seu espaço na família e na sociedade, buscando novas formas de relações sociais, com alicerces nos direitos humanos e sociais. Falamos de mulheres, mães que encontraram uma nova forma de exercer a maternidade (FREITAS et all, Rita de Cássia, 2009) indo para as ruas, para a vida pública, através da luta e dos seus movimentos de grupos, transformando suas angústias, tristezas e incertezas – suas dores - em plataformas de organização.

Ao falarmos dessas mulheres e suas organizações nos reportamos incialmente ao conceito de gênero adotado por Scott (Joan, 1990) quando afirma que o núcleo essencial dessa definição está baseado em duas proposições inter-relacionadas:

[...] o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre à mudança nas representações de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único (SCOTT, Joan, 1990, p. 21).

Significa trabalharmos com a percepção de que os papéis (masculinos e femininos) são socialmente construídos numa sociedade, podendo se tornar diferente, entre sociedades ou até mesmo dentro de uma mesma sociedade (SAFIOTI, Heleieth Iara, 1994).

Freitas (Rita de Cássia, 2000) fala da imagem criada da mulher - a responsável pelo cuidado dos filhos - com base no comportamento dessa mulher. Durante algum tempo as mulheres permaneceram com a função de cuidadora do lar e dos filhos, dentro de um modelo de família nuclear burguesa, onde a maternidade seria a única condição para essas mulheres. Para Giddens (1993, p. 54) “[...] As ideias do amor romântico estavam claramente associadas à subordinação da mulher ao lar e ao seu relativo isolamento do mundo exterior”.

Imagem essa que perdurou por muito tempo dentro da história dessas mulheres, como abordado por Michelle Perrot (1999) e já mencionado anteriormente - a história do “Sair” dessas mulheres para os lugares públicos, para o mundo do trabalho, constituindo, ao longo dos tempos, novos modelos de famílias na sociedade. O que percebemos são novos deveres e obrigações que vão sendo atribuídos às mulheres.

Vários fatores contribuíram para atuação da mulher no mundo social, dentre eles a decisão de ter ou não filhos com o advindo da pílula anticoncepcional, assim como a participação nos diferentes movimentos sociais, como também no mundo do trabalho, desencadeando os novos modelos de família, conforme já explicitado.

As Mães dos Meninos do Degase retratam o movimento que Freitas (Rita de Cássia, 2000) denominou “Mães em Luta”, onde a figura materna se destaca como o ator principal das lutas políticas, caracterizando a politização da maternidade. Desta forma, podemos enumerar alguns movimentos sociais mais recentes onde as mulheres estiveram à frente do processo de organização dos grupos, tendo com o grande elo, a maternidade: as Mães de Acari, as Mães da Cinelândia, as Mães de Crianças Desaparecidas de São Paulo23, as Mães contra a violência24, as “Mães do DEGASE” (assim intitulada pela autora) - através da AMÃES, AMAR/RJ e Movimento Moleque.

Essas mães iniciaram suas histórias de luta há cerca de dezesseis anos atrás, em prol de melhores condições no atendimento socioeducativo de seus filhos que se encontravam privados de liberdade; fato esse que motivou a organização das mães enquanto grupo, denunciando as situações de maus-tratos e buscando o direito desses adolescentes na garantia da convivência comunitária e familiar assegurado, na época pelo ECA.

Mulheres que criam como estratégia uma rede protetiva, como possibilidade de encarar as atividades próprias da vida moderna, onde assumiram os diferentes papéis que lhes foram impostos. Mulheres que “saíram” (PERROT, Michelle, 1999) à luta. Que se organizaram

23 Associação Brasileira de Busca e Defesa à Criança Desaparecida - ABCD.

através de entidades, na busca de garantir condições mais dignas no atendimento socioeducativo, na busca de seus direitos!

Abordaremos agora as bases teóricas dos Movimentos Sociais, visando subsidiar a compreensão das direções tomadas por esses grupos organizativos do Movimento de Mães dos Meninos Do Degase.

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