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Une graduation des emplois : littéral et moins que

Les deux pôles de l’analyse cognitive

3.3 Métaphore et pragmatique

3.3.2 Une graduation des emplois : littéral et moins que

Apesar de ser um país tradicionalmente de imigrantes, a Dinamarca tem vindo a receber cada vez menos pedidos de asilo, verificando uma redução de quase 80% de meninas e mulheres requerentes de asilo entre 2015 e 2018, passando de 8325 para 1840. No entanto, continua a ser um destino preferido em termos percentuais e absolutos quando comparado com Portugal, considerando os cerca de 5 milhões de habitantes, metade da população portuguesa.

O perfil das mulheres refugiadas evidencia algumas diferenças, no computo geral, apesar dos refugiados na Dinamarca terem um nível de educação mais baixa do que a maioria da população dinamarquesa, um estudo realizado em 2017 verificou que 10% completaram o ensino médio, 14% tinham concluído o ensino profissional e 18% finalizaram o ensino superior (Thomassen, 2019).

A diversidade de perfis constatada através das seis entrevistas realizadas em Copenhaga e Roskilde demonstram a heterogeneidade do grupo de mulheres refugiadas.

Malika veio da capital da Síria, Damasco, no final de 2014. Tem 38 anos, é muçulmana, mãe de três filhos e divorciou-se antes de sair do país. Licenciada em Literatura Inglesa, trabalhou como professora de inglês e secretária no Ministério da Justiça, somou trabalhos menos qualificados na Dinamarca até montar a sua própria empresa. Em agosto de 2019 regressou à Síria. Recebe-me em sua casa com a mesa posta, repleta de iguarias Sírias que preparou e apresentou orgulhosamente. Não usa véu no quotidiano e refere que em Damasco as mulheres têm liberdade de escolha.

“Na Síria há algumas restrições, mas também há liberdade, eu ia às compras sozinha com

os meus filhos, não havia qualquer problema em andar na rua, em viajar, ou andar de carro”, e acrescenta “na cultura árabe preocupamo-nos muito com as relações familiares, todos têm um papel na vida”, valorizando as diferenças do seu país de origem.

A partir do seu estatuto de classe, salienta que “na Síria as mulheres são como princesas,

ficam em casa, recebem joias e ouro, diamantes, não têm que trabalhar, mas podem fazê- lo, se quiserem, mas poucas horas e não um trabalho muito duro”.

Fala fluentemente árabe e inglês, e apesar de perceber dinamarquês, não pretende fazer uso da língua, não por dificuldade de aprendizagem, mas por um posicionamento pessoal.

125 Raissa também é Síria, mas da cidade de Hama, citada frequentemente nos media como símbolo de oposição ao regime de Bashar al-Assad. Tem 36 anos, é muçulmana, casada e mãe de cinco filhos. É analfabeta e nunca trabalhou fora de casa. Domina apenas a língua árabe, mas quer aprender dinamarquês. A entrevista decorre em sua casa, onde sou recebida pela família. O marido insiste em ficar. Ao longo da conversa é evidente a vontade que tem de partilhar a sua história, intercalada com as opiniões da mulher. Malika estabeleceu o contacto e fez a tradução de uma longa conversa, em véspera da celebração do Ramadão. Saiu da Síria em 2012, rumo à Arábia Saudita e em 2016 juntou-se ao marido na Dinamarca. Reconhece diferenças em relação ao quotidiano das mulheres nos países onde viveu.

“Na Síria ia às compras, tomava conta dos filhos, havia alguma liberdade, não como

aqui, mas muito mais do que na Arábia Saudita,” descreve a sociedade daquele país do

Médio Oriente muito fechada, com normas muito restritivas, “não podia andar sozinha,

apenas na companhia de um homem, tinha que estar sempre acompanhada, de um homem e de um carro, nem que fosse para ir de uma rua para a outra”.

Para além das regras sociais limitativas, Raissa acrescenta a ameaça a que estão expostas as mulheres naquele contexto, “se fosse sozinha os homens iam tentar tocar-me, eram

abusivos, era inaceitável”. A vida tornou-se mais limitada, tudo o que precisava ou queria

fazer fora de casa tinha que ser com o marido, tornando-se cada vez mais dependente. Apesar de ser um país com uma religião comum ao da sua origem, as dimensões socioculturais têm delimitações distintas, demonstrando a heterogeneidade das sociedades e da sua influência no papel da mulher na vida familiar, social e nas negociações das relações de género.

O percurso migratório começou cedo demais para Edna. Aos 13 anos interrompeu uma vivência feliz com os pais e irmãos, e deixou a Eritreia para viver com uns amigos dos pais, na Etiópia, onde estudou até ao 12ºano. Tem 31 anos, é solteira, mãe de um filho com 8 anos. Fala as línguas predominantes da Eritreia e Etiópia, e domina o inglês. A entrevista realiza-se após vários contactos, explicações, adiamentos e alterações. A vontade de partilhar a sua história é sobreposta pelas interrupções constantes e pelos debates com o filho em permanente desafio e disputa pelo poder, denunciando uma instabilidade perturbadora e uma revolta face à partilha da história da mãe enquanto refugiada. Uma instabilidade que atravessa as relações

126 e emerge ao longo da conversa. Sobre o papel da mulher nos dois países onde nasceu e cresceu, salienta.

“As mulheres ficavam em casa, o homem é que decidia tudo, eram submissas, os direitos

eram diferentes. Aqui o sistema é igualitário, a mulher tem mais poder, direitos iguais, espero que o meu país possa vir a ter essa igualdade”, conclui.

Os direitos humanos e os da mulher em particular tornaram-se o tema principal da entrevista com Nadia. Nascida no Irão há 30 anos, casou aos 25 anos no Iraque com um jornalista e escritor, opositor do governo do seu país, razão pela qual abandonou o Irão há 21 anos. Licenciou-se em Engenharia de Tecnologias de Informação (TI), queria trabalhar, mas aponta o dedo ao sistema por não ter tido essa oportunidade. Fala persa, estuda dinamarquês e compreende o nível básico de inglês. Nadia propõe que nos encontremos em sua casa, na cidade de Roskilde. A conversa decorre em inglês e com recurso a um tradutor automático, sem margem para interpretações ou influencia de terceiros. Começa por explicar que a sua família é de uma vertente do Islão oposta à do poder e que ela não tem religião.

“Na minha família sempre houve igualdade, tenho irmãs e irmãos e todos estudamos”, advertindo que no Irão “as mulheres estão sob pressão, não têm liberdade, estão

confinadas à família. Apesar de poderem estudar, não podem ter qualquer emprego, não nos é permitido ser engenheira civil, piloto ou advogada”. Afirma que os direitos

humanos não eram reconhecidos e que as mulheres não têm liberdade social, “não há

segurança, quando eu estudava tinha medo de ir para casa sozinha porque às vezes era perseguida por homens”.

Refere a obrigatoriedade de usar o véu que cobre o cabeça – hijab – mesmo para os turistas, “eu não uso e não concordo, mas quando estava lá tinha que usar, se alguma rapariga ou

mulher andar na rua sem o hijab apropriado pode ser levada pela polícia, ser avisada e depois presa, dependendo da cidade onde está”. Nadia conclui salientando que “existem muitas questões que são aceites legalmente como o divórcio, andar de bicicleta ou conduzir, mas que são condenadas socialmente. Quando uma mulher o faz é humilhada e subestimada”, enaltecendo as diferenças socioculturais e de género na Dinamarca.

127 Nuria tem 23 anos, nasceu na Argélia, mas a nacionalidade é palestiniana. A história de refúgio começou com os seus avós quando fugiram da Palestina para o Líbano, onde nasceram os seus pais, e de onde fugiram da guerra para a Argélia. Os familiares mais próximos estão dispersos por vários continentes. É a segunda geração de palestinianos que não conhece o seu país. Nuria tem uma irmã gémea, Habib. Fizeram o percurso juntamente com um dos irmãos, os outros ficaram na Argélia. Habib também aceitou participar no estudo, mas as entrevistas decorreram separadamente, pela pertinência da análise das diferentes perceções e significados das experiências vividas nos mesmos contextos e períodos temporais. Os contactos começam várias semanas antes de nos encontrarmos pessoalmente e de se estabelecer o mínimo de confiança para se partilhar experiências pessoais e profundas. O local é escolhido por Nuria, um parque no centro de Copenhaga para as primeiras horas de entrevista. Fala inglês fluentemente, árabe e francês. Estudou até ao 12ºano na Argélia e atualmente está no 9º ano. O único objetivo é estudar e ir para a Universidade estudar psicologia ou neurociências. A família é muçulmana, mas Nuria afirma não se rever em nenhuma religião. Sobre o casamento esclarece que desde os 15 anos que não tenciona casar- se.

“Só tenho isso em mente, uma mulher não precisa de um homem para a apoiar. Não disse

aos meus pais porque eles irão querer convencer-me que as mulheres devem casar e ter filhos, que é parte do seu dever e que é assim que a mulher deve ser”.

Justificando com as tradições e a cultura da família. No país onde nasceu, mas no qual só tinha autorização de residência associada à mãe, a mulher deve casar jovem, dependendo das famílias, no entanto,

“algumas casam a partir dos 15, outras aos 18 ou mais tarde, depende. Mas o seu dever é

ficar em casa a cuidar dos maridos. Além disso, depois do pôr-do-sol é muito perigoso andar na rua, pode-se ser assaltada, violada, só por ser mulher,” conclui.

As divergências com as normas socioculturais são evidentes e o desgaste de um percurso de rejeições revela-se nos detalhes narrativos e nas marcas físicas e visíveis.

Habib viveu sempre com a sua irmã gémea, mas as narrativas e os significados individuais e coletivos das experiências vividas, demonstram-se díspares. Estudou até ao 12ºano na

128 Argélia e na Dinamarca regressou ao 9ºano. Fala inglês, árabe, francês e quer continuar a estudar. É muçulmana e voltou a usar o hijab há uns meses, por sentir a sua identidade reforçada, após ter experienciado vários sentimentos de perda. Identifica várias diferenças socioculturais entre os países onde viveu.

“A comida, a forma de vestir, as celebrações religiosas, a língua. Na Argélia as raparigas

casam por volta dos 20 anos, às vezes decidem se querem ou não casar, outras vezes os pais decidem”.

Apesar de referir o bom acolhimento dos argelinos, refere que as mulheres não têm tanta liberdade, “se os homens vêm uma mulher na rua, ela é muito assediada, constantemente”, exponenciando a insegurança por ser mulher. “Eu própria já fui perseguida quando vinha da

escola”, conclui.

A consciência dos direitos humanos e a reivindicação ou empatia pela igualdade é evidenciada nos discursos das refugiadas na Dinamarca flutuando entre os valores da família, às vezes divergentes da igualdade de género. As tensões emergentes do multiculturalismo no contexto Europeu levantam questões sobre as fronteiras entre a diversidade cultural e a igualdade de género (Okin, 1999).