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Como afirmamos anteriormente, a mais antiga, senão a mais famosa afirmação sociológica da música caipira como literatura vem de Antonio Candido, quando realizou sua pesquisa de doutorado, na década de cinquenta, que mais tarde viria a se tornar o famoso livro Parceiros do Rio Bonito. A afirmação está no prefácio do livro, onde o autor diz que a intenção inicial da pesquisa era analisar as relações entre a literatura e a sociedade sendo que a sociedade, neste contexto, era a sociedade caipira e a literatura era o cururu que, assim como a moda de viola, integra a música caipira como um todo:

Este livro teve como origem o desejo de analisar as relações entre a literatura e a sociedade; e nasceu de uma pesquisa sobre a poesia popular, como se manifesta no Cururu – dança cantada do caipira paulista [...]. Não era difícil perceber que se tratava de uma manifestação espiritual ligada estreitamente às mudanças da sociedade, e que uma podia ser tomada como ponto de vista para estudar a outra. (CANDIDO, 1977, p. 9, grifo nosso)

No entanto, como se sabe, a pesquisa de Candido tomou outros rumos e o que era para ser um estudo das relações entre literatura e sociedade acabou se tornando um tipo de estudo de comunidade, onde o enfoque esteve ligado às condições materiais de existência do caipira, indo desde sua forma de organização social até o tipo de dieta que ele tinha naquele momento. Mesmo assim, o autor não deixou de dar a devida relevância à esfera da cultura quando fez referência aos bens incompreensíveis, como sendo aqueles que asseguram não a sobrevivência física, mas a própria vida do homem em sociedade, já que eles configuram o caminho para que ele se torne “verdadeiramente humano”:

J.L. Lebret fala com razão que os “bens incompreensíveis” não são apenas os que se reputam essenciais à estrita sobrevivência do indivíduo, mas todos aqueles que permitem ao homem

tornar-se verdadeiramente humano. Sob este ponto de vista, são incompreensíveis a participação na beleza, a euforia da recreação, o prazer dos supérfluos. (CANDIDO, 1977, p. 226)

Esses bens incompreensíveis, aqui brevemente descritos, são recuperados mais tarde por Antonio Candido num texto conhecido como O direito à literatura, onde esses bens têm seus exemplos nomeados, destacando-se o direito à arte e à literatura:

[...] são bens incompreensíveis não apenas os que asseguram sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São incompreensíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura. (CANDIDO, 1995, p. 241, grifo nosso)

E se aqui a literatura é claramente um bem incompreensível, nesse mesmo texto, o autor volta a apresentar uma concepção de literatura coerente com aquelas perspectivas que havia adotado nos Parceiros do Rio Bonito e que inclui, ainda que implicitamente, a moda de viola:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. (CANDIDO, 1995, p. 242)

Porém, a referência explícita de Candido à moda de viola como literatura2, na sua forma originária do meio rural, aparece num artigo chamado Estímulos da criação literária, onde o autor diz:

Pode-se com efeito duvidar da sua eficácia (da análise estrutural) para compreender, individualmente, os temas poéticos de Baudelaire ou as inovações formais de Mário de Andrade; mas não para entender os contos populares, as modas de viola, as adivinhas ou o canto de morte dos tupinambás. (CANDIDO, 2000, p. 43, grifo nosso)

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Antonio Candido, no entanto, não foi o único a sustentar este argumento da música caipira e, da moda de viola em particular, como literatura. Ele se perpetuou ao longo do tempo em análises acadêmicas como na dissertação de mestrado em Língua Portuguesa Ethos discursivo e cenas de enunciação em letras de

música de raiz (FERREIRA, C., 2008); na dissertação de mestrado em Letras Moda caipira: cantador,

universo, mediações e participação emotiva (BARISON, 1994); na dissertação de mestrado em

Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação intitulada Uma visão semiótica dos valores da cultura

caipira manifestados nas letras de músicas de raiz (GERALDES, 2007); e na dissertação de mestrado em Letras O poema narrativo na canção caipira (ALMAN, 2009).

Voltando, porém, ao texto anteriormente mencionado, vemos Candido afirmar que o direito à literatura é algo que precisa ser satisfeito pelo fato de ser um direito humano universal e, consequentemente, um aspecto indispensável de humanização:

Entendo aqui por humanização (já que tenha falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CANDIDO, 1995, p. 242-250)

O direito a literatura, vale ressaltar, era algo a que o caipira tinha acesso, nas suas formas de sociabilidade rural, antes que a crise se instaurasse no seu sistema de subsistência, empurrando-o para a economia de mercado e, consequentemente, para o meio urbano, conforme Candido destaca:

Ora, encarando o passado da sociedade caipira, vemos que os bens para ela incompreensíveis permitiam definir tipos humanos mais ou menos plenos, dentro dos seus padrões e das suas possibilidades de vida econômica, social, religiosa, artística. No entanto, como hoje o homem rústico se incorpora cada vez mais à esfera das cidades, à medida em que isto se dá, aqueles usos, práticas, costumes se tornam, em boa parte, sobrevivências, a que os grupos se apegam como defesa. (CANDIDO, 1977, p. 226, grifo nosso)

No entanto, a aceitação da música caipira em geral e da moda de viola em particular como literatura enfrenta potencialmente o mesmo obstáculo teóricos de outros estilos musicais como a MPB:

A admissão da MPB no pódio da literatura, no entanto, não é tão tranqüila assim: fora os que torcem de cara o nariz, existem os que cobram sua admissão: o preço é ser a MPB passível de uma reflexão que, passando por cima de seus elementos não estritamente verbais, aplica a ela os mesmos critérios e categorias tradicionais na literatura escrita. (LAJOLO, 1983, p. 111)

Portanto, a hipótese da moda de viola enquanto literatura deve ser compreendida segundo a perspectiva de Ezra Pound (1990, p. 32) que conceitua a literatura como “linguagem carregada de significado”. Neste sentido, as modas de viola que são, a propósito, caracterizadas essencialmente por narrativas, podem ser potencialmente vistas como um tipo de literatura que, inclusive, remonta à tradição oral – lembrando que a moda de viola já era uma tradição oral, voltada para a narrativa de histórias, antes mesmo do surgimento da possibilidade de ela ser gravada no formato disco. E desde seu

período rural, ela tinha o potencial que toda arte possui para a vida do homem: o poder de fazê-lo transcender a realidade imediata.

Estamos, portanto, diante de uma reflexão semelhante àquela feita por Benjamin, aqui já mencionada, sobre o cinema: a de que este veio nos libertar da prisão do cotidiano, fazendo “explodir esse universo carcerário com a dinamite dos seus décimos de segundo, permitindo-nos empreender viagens aventurosas entre as ruínas arremessadas à distância” (BENJAMIN, 1994, p. 189). Assim, enquanto as ruínas do passado levam o anjo da história a contemplá-las no desejo de reconstituí-lo e de fazer reviver seus mortos (BENJAMIN, 1994, p. 226), as ruínas da explosão artística da nova era técnica levam o homem a transcender a realidade imediata que, com sua mesmice, sua rotina e suas limitações aprisionam a alma (BENJAMIN, 1994, p.189), que desejaria ensaiar o voo de uma vida mais bela e completa.

A música, assim como o cinema, é uma arte que potencialmente permite ao homem empreender essas viagens do espírito, libertando-o de uma realidade muitas vezes marcada pela pobreza e pela lembrança do que se perdeu, tal como se tornou o cotidiano do caipira no período que corresponde ao êxodo rural, como veremos no capítulo seguinte. Antes, porém, cremos ser possível ilustrar o argumento de Benjamin a partir da exposição de uma moda de viola de Tião Carreiro e Pardinho (1981), de título Catimbau. Nesta transcrição, assim como nas demais, procuramos conservar a gramática original usada em sua respectiva interpretação. A letra da moda em questão diz o seguinte:

Tive lendo no romance, de um casal de namorado de Rosinha e Catimbau, dois jovens apaixonado Rosinha, família rica, Catimbau era um coitado capataz de uma fazenda, mas trabaiadô honrado Adomava burro bravo, no laço era respeitado um caboclo destemido, por tudo era admirado.

Catimbau encontrou Rosinha lá no arto do espigão por se ver os dois sozinhos quis ´proveitar da ocasião Catimbau pediu um beijo, Rosinha disse que não Ela bem estava querendo, mas não deu demonstração

De tanto que ele insistiu, ela deu uma decisão:

vamos deixar para outro dia, para as festas de São João.

Passaram esses cinco meses, chegou o esperado dia Rosinha tava mais linda, como uma flor parecia A festa estava animada, todos com grande alegria quando o pai de Rosa veio perguntando quem queria mostrar ciência no laço, pra laçar o boi Ventania e os vaqueiro amedrontado, todos eles se escondia.

Chamaram então Catimbau, mas ele não atendeu Rosinha disse: “meu bem, vá fazer o pedido meu.” Catimbau é corajoso, mas nessa hora tremeu

depois de um sorriso amargo pra Rosinha respondeu: “Eu vou laçar esse touro pra te mostrar quem sou eu, mas depois eu quero o beijo que você me prometeu.”

Catimbau mais que depressa no seu bragado amontô chegou a espora no macho e a laçada ele aprontô a laçada foi certeira que o povo se admirô Catimbau foi infeliz, o bragado se atrapaiô O laço fez um volta, no seu pescoço enrolô com o pialo que o boi deu, sua cabeça decepô

Trouxeram a cabeça dele, Rosinha nela pegô chorando desesperada, desse jeito ela falô

“Catimbau, prometi um beijo; receba agora eu te dô.” Na boca do seu amado tristemente ela beijô

Este é fim de uma estória dando provas que esse amo, Rosinha e Catimbau, que a morte separou.

Conforme foi esclarecido na introdução deste trabalho, ainda não é chegado o momento de realizarmos as análises das modas de viola de Tião Carreiro e Pardinho. Portanto, a exposição desta moda aqui tem o objetivo de apenas introduzir esse estilo musical sobre o qual discorreremos mais no próximo capítulo e, ao mesmo tempo, de ilustrar o poder transcendente da música, tal qual o define Benjamin, e que se alinha à perspectiva da música caipira enquanto literatura de Candido. Sem querer iniciar aqui a análise, devemos apenas destacar alguns aspectos da sua transcendência como, por exemplo, o de elevar o ouvinte a um plano estético superior à realidade através de uma narrativa que transpõe para contexto dos peões da cultura caipira tradicional o mito de Salomé de Wilde e Strauss, conseguindo instruir o ouvinte sobre o amor, o mundo e os determinantes da estrutura social do seu tempo3.

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Uma análise detalhada desta moda pode ser encontrada no capítulo A moda como literatura, do livro