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7. P RESENTATION DES RESULTATS

7.2. F ONCTION FORMATION ET GESTION DE SES ACTIVITES

Lynch costuma ser citado como um dos pioneiros da análise visual urbana, de fato, é inegável a sua contribuição à questão com um trabalho paradigmático. Entretanto, é necessário observar que a preocupação central do pioneiro trabalho de Lynch é com a imagem141 urbana. Ele estudou a percepção que o usuário tem do seu espaço, a influência que o meio urbano possui na formação de uma imagem de lugar, de orientação, entre outras questões, mas todas de ordem imagéticas. Lynch preocupa- se com o que resulta na relação entre o meio e o sujeito que o percebe, e não com a questão da relação entre o objeto e o meio. Lynch, em suas investigações a respeito do meio urbano, busca compreender como se forma e se articula o processo perceptivo do sujeito no meio, investigando como a imagens são estruturadas e formadas; como a experiência visual se desenvolve e como estas informações são retidas.

140 Nesta direção de compreensão formal também segue Casasús, que observa: "A noção de forma está

estreitamente relacionada com a idéia de contorno e de pertença a este. A idéia do contorno fechado, que divide o mundo em duas partes.- a de dentro e de fora-, é essencial para o observador que deste modo decompõe a forma isolada, concentra sua atenção nela e desvaloriza o resto do que contempla. Qualquer forma imperfeitamente fechada propõe espontaneamente ao observador o problema de fechá-la, isto é, de completá-la." Casasús, José. Op. Cit. P. 34.

141 É importante observar que Lynch não considera a cidade como uma manifestação de linguagem, mas a

Neste sentido, Lynch, assim como outros autores, a exemplo de Appleyard, Canter e Lee, busca uma compreensão do processo perceptivo do espaço urbano, busca entender como a imagem deste espaço é percebida e apreendida pelos sujeitos. O seu estudo, oriundo da psicologia experimental, analisa sobretudo a compreensão e a retenção das imagens pelos sujeitos, baseia-se não na análise da forma visual dos objetos que compõem estes espaços, mas de que maneira estes objetos são percebidos.

Para Lynch, a imagem da cidade resulta da relação entre o observador e o observado, podendo variar significativamente entre os observadores. Lynch determina três componentes fundamentais para a formação da imagem da cidade: identidade, estrutura e significado, observando ainda que os objetos podem ter um significado tanto prático, quanto afetivo. O método adotado por Lynch apresenta algumas categorias que podem servir de referência à análise visual urbana aqui proposta, desde que devidamente convertidas à investigação dos objetos, descentrando-se do foco do sujeito, visto que é possível perceber em sua obra a preocupação com a identificação das qualidades visuais do meio urbano.

Figura 3. 4. Mapas de Boston elaborados por Lynch a partir de entrevistas verbais e mapas mentais esquemáticos.

Embora pareça indissociável; a análise visual da forma do objeto, independe de certo modo da percepção que os sujeitos tenham deste, é um recorte analítico que busca

analisar a forma visual do objeto material em si. O uso do recorte,142 é considerado como um recurso analítico necessário à instrumentalização do processo investigativo, pois objetiva uma melhor apreensão e compreensão da forma do objeto. É uma modalidade de abstração com o objetivo de melhor compreender o problema.

O próprio Lynch, em seu trabalho de análise visual, identifica uma necessidade de recorte semelhante, e observa que determinados componentes aparecem sempre associados, fazendo-se necessária uma abstração e separação destes, para se efetuar uma análise mais apropriada.

Lynch observa que “Uma imagem viável requer, primeiro, a identificação de um objeto, o que implica sua diferenciação de outras coisas, seu reconhecimento enquanto entidade separável”.143 Dito de outra maneira, faz-se necessário o isolamento do objeto em relação ao todo, tanto do meio em que este se encontra, como do sujeito que o observa. Para tanto, ele adverte que a preocupação de suas pesquisas em seus primórdios é muito mais com as partes do que com o todo, e que o todo seria reagrupado às partes posteriormente.

As categorias de análise visual propostas por Lynch, tais como os limites, os marco visuais, a inter-relação de elementos e direção; podem servir de referência para o desenvolvimento de um procedimento de análise da forma visual da cidade. Algumas categorias, quando rebatidas, podem indicar possibilidades de compreensão da configuração urbana, inclusive servindo como referência para a delimitação das áreas e das características do meio a serem estudados. O que Lynch classifica como um

142 A respeito do recorte no método de pesquisa, Dione e Laville fazem a seguinte observação: “Os elementos assim recortados vão constituir as unidades de análise, ditas também unidades de classificação ou de resgistro. A palavra importante aqui é unidade para significar que cada um desses fragmentos de conteúdo deve ser completo em si mesmo no plano do sentido.” Christian Laville, Chritian e Dionne, Jean. A Construção do Saber: Manual de metodologia de pesquisa em Ciências Humanas. Belo Horizonte. UFMG. 1999 .p. 216.

marco visual, pode também ser uma forte característica formal de um dado objeto presente no meio urbano, e assim ser formalmente compreendido.144

Entretanto, Lynch adverte que, mesmo sendo “o desenvolvimento de uma técnica de análise visual com que pudesse se prever a provável imagem pública da mesma”145 um dos objetivos iniciais do seu estudo, não se pode perder de vista a relação entre os elementos isolados e o todo visual complexo, lembrando que aí inclui também a idéia da imagem formada pelo sujeito.

Outro trabalho pioneiro de análise da forma visual urbana, e bastante próximo da problemática desta pesquisa, é o procedimento de análise visual da paisagem urbana desenvolvido por Gordon Cullen,146 que procura investigar as qualidades visuais da paisagem urbana adotando o método de análise visual a partir do ponto de vista do observador em movimento. É uma modalidade bastante interessante, visto que passa a considerar o dinamismo visual como uma categoria presente nestes espaços, associando-os ao movimento de quem dele se utiliza, onde com pequenos deslocamentos ou movimentos feitos pelo sujeito que observa a paisagem em sua volta,147 esta pode assumir diferentes configurações ao longo de um percurso.

144 Para Lynch, os marcos visuais são referências onde o observador não entra: "são externos. Em geral, são um objeto físico definido de maneira muito simples: edifício, sinal, loja , montanha. Seu uso implica a escolha de um elemento a partir de um conjunto de possibilidades. (...) Outros marcos são basicamente locais, sendo visíveis apenas em lugares restritos e a partir de uma certa proximidade. São eles os inúmeros anúncios e sinais, fachadas de loja, árvores, maçanetas de portas e outros detalhes urbanos que preenchem a imagem da maioria dos observadores". Lynch, Kevin. Op. Cit. 1999. p. 53.

145 Idem. Op. Cit. p. 166.

146 Cullen, Gordon . Op. Cit.

147 Em relação ao deslocamento e a visualização, Peixoto faz a seguinte observação: "Duas pessoas

caminhando delimitam um espaço topológico. Os limites da obra são determinados pela distância máxima que podem manter sem perde-se de vista. A linha de horizonte da obra, o seu campo, é determinada pela possibilidade de manter o olhar mútuo. Esta trama de perspectivas –a articulação dos vários pontos a partir dos

Cullen propõe diversas categorias de análise para o meio urbano, tanto no sentido de definir determinados pontos de vista de observação, como também de classificar tipologicamente os espaços existentes. O autor também demonstra uma preocupação com o aspecto perceptivo dos sujeitos, embora em menor grau que Lynch. Ele avança na questão apontando as possibilidades de visualização, e classifica uma série de pontos a serem observados.

Entretanto, Cullen não as desenvolve de uma maneira mais pormenorizada, indicando os tipos de observações e relações que devem ser realizadas por quem observa, ou melhor, ele não demonstra um modo específico de operacionalizar a análise visual,148 não apresenta uma técnica detalhada que viabilize a construção de uma análise categórica. O autor limita-se apenas a mostrar as diversas possibilidades de configuração que uma paisagem oferece, e delega ao observador a função de desenvolver um procedimento analítico mais preciso e talvez mais adequado a seus objetivos, o que é experimentado neste trabalho.

quais pode ser vista- constitui o seu 'horizonte interno'. O Observador nunca é estacionário: está em movimento." Peixoto, Nelson Brisac. Paisagens urbanas. São Paulo. FAPESP/SENAC. 1996. P. 150.

148 Operacionalidade aqui tem o sentido apontado por Maître: "um procedimento estratégico que vai no sentido teoria-empiria para chegar à coleta de dados pertinentes; o movimento inverso é uma 'interpretação' para chegar à validação ou à invalidação da problemática colocada por hipótese". Maître. Jacques In: Thiollent, Michel. Op. Cit. P. 221.

Figura 3. 5. .Exemplo de seqüência de percurso e observação em registro de Gordon Cullen.

Estas possibilidades de estudar o meio urbano, considerando a categoria do movimento, são desdobradas mais tarde em Rapoport e Lozano, como também em Trieb e de forma detalhada em Kohlsdorf, que, investigando os intervalos dos percursos, propõe técnicas mais detalhadas para a apreensão da forma urbana.149 Estudos desenvolvidos por Ferrara, embora com um foco centrado na semiótica,150 também apresentam contribuições relevantes para o aprimoramento do método proposto por Cullen. Algumas considerações a respeito dos métodos de investigação formal do meio ambiente urbano, são feitas no capítulo seguinte.

149 Ver estudos topoceptivos desenvolvidos por Kohlsdorf, Maria Elaine. A Apreensão da Forma Urbana. Brasília. Unb. 1996.

150 Ver também trabalho com linha de pesquisa semelhante em Pignatari, Décio. Semiótica da Arte e da Arquitetura. São Paulo. Cultrix. 1981.