Curiosamente, o momento de exposição da pesquisa aos alunos, retratado na Figura 4, sugere um quadro inverso às minhas intenções. Minha expectativa era apresentar uma proposta alinhada na necessidade de qualificação profissional, na medida em que propunha o desenvolvimento dos conteúdos da disciplina de uma forma mais ativa, envolvendo elementos de gamification. Entretanto, o instante fotografado (FIG. 5) exibe uma turma aparentemente alheia ao que era dito por mim à frente da lousa.
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FIGURA 5. Primeiro momento de experimento didático- formativo em sala de aula
Alunos recebendo instruções de como seria desenvolvida a tarefa de estudo
Fonte: acervo da pesquisa — autoria da fotografia: Flávio E. Oliveira
A julgar pela posição como estão sentados, pela direção do olhar, pelo que faz iam com as mãos, dentre outros traços, alunos e alunas estão atentos a outra coisa que não minha a exposição. Em primeiro plano, dois alunos parecem engajados em um diálogo ; atrás da dupla, um casal de discentes (o aluno de costas para o fotógrafo, a aluna quase de frente). Em segundo plano, na extrema direita, em meio a um quase círculo de cadeiras, um grupo parece ter uma conversa fluente. Igualmente, em segundo plano à esquerda, no fundo da sala, outro grupo parece engajado em um diálogo. Mais ou menos do centro da sala para o fundo, na fileira de cadeiras, há alunos autocentrados, ocupados com anotações, telefone e, talvez, pensamentos. No primeiro plano, à esquerda a aluna de blusa branca rente à parede parece ser a única com olhar focado no rumo da lousa, ou seja, na exposição oral.
Essa leitura da fotografia deriva de minhas convicções e reflexões sobre a aula expositiva como ex-graduando e como docente de graduação. Por mais que tenha seu momento e seu valor assegurados, esse tipo de aula me parece ser cansativa, porque se desdobra numa ação algo unilateral e monótona. Unilateral, porque é um comportamento quase exclusivo do professor; monótona por causa dos meios com que é conduzida (a oralidade e eventuais notas na lousa) e do tom excessivamente teórico -explicativa. Com as possibilidades que o smartphone e o computador portátil oferecem à sala de aula (acesso a entretenimento e passatempo, à comunicação instantânea com mensagens de
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texto, áudio, vídeo, fotográfica etc.), o estímulo da fala docente na aula exposi tiva, para atrair e reter a atenção reflexiva discentes tem de concorrer com estímulos acessíveis por tais aparelhos.
Essa leitura inicial que reconhece desinteresse foi abrandada com a possibilidade de eventuais conversas, sobre as orientações relacionadas ao experimento didático- formativo. Poderiam estar discutindo sobre o que fazer, a formação de grupos, as funções de cada membro da equipe no momento de desenvolver as atividades associadas com a tarefa de aprendizagem proposta que estava sendo exposta. E ssa possibilidade se mostra, por exemplo, na Figura 6.
FIGURA 6. Momento de ação docente no experimento didático-formativo
Etapa prática do experimento didático-formativo com a formação de grupos e definição e atribuição de papéis. À esquerda, a aluna de óculos assumiu a função de “líder” do grupo (responsável por receber material e ajustar os trabalhos de cada membro entre os rounds). O “líder” do grupo da direita havia se deslocado para buscar material a ser usado na fabricação de aviões.
Fonte: dados da pesquisa — autoria da fotografia: Tiago Bacciotti9
Com efeito, a imagem mostra alunos que pareciam dialogar na cena retratada na Figura participaram dos mesmos grupos. Como se vê acima, na equipe à esquerda, está o casal referido acima (aluna de vestido preto e óculos olhando para o fotógrafo, aluno de camiseta cinza à direita dela); igualmente, no grupo da direita estão os dois alunos que parecem dialogar na figura anterior: discente de óculos e camiseta listrada com tons de azul olhando para o fotógrafo e o de camiseta amarelo-claro à sua direita de costas para o fotógrafo. Em que pese a plausibilidade dessa constatação, ela não anula a necessidade de o
9 Todas as fotografias apresentadas neste trabalho foram realizadas na data do experimento, durante o mês de
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professor construir sua prática docente buscando métodos para executar seu fazer de modo a superar práticas tradicionais como a aula expositiva como medida da condução das aulas.
A formação de grupos alude a um postulado central do desenvolvimento humano, a colaboração, segundo a teoria histórico-cultural, e que deve ser característica da atividade escolar discente e docente. Tal postulado, convém reiterar, supõe que aprendizagem e desenvolvimento se sujeita às idiossincrasias de cada pessoa, seja psíquicas ou físicas. Exemplos seriam certas funções superiores com as quais a criança começa sua vida e aquelas que pode desenvolver a partir de então, seja no processo natural de socialização com pares, seja com as atividades escolares conduzidas, sobretudo, com a orientação do professor e em sala de aula.
No grupo, a possibilidade de que dado aluno ou dada aluna atuem na zona de desenvolvimento proximal parece se tornar mais plausível, em especial, porque a comunicação fundada no diálogo se torna elemento de mediação das relações no grupo. A colaboração se concretiza à medida que a comunicação converge para fins comuns e para o que cada um tem de fazer. Nos grupos formados, a figura do “gestor” ganha certo status de mediador das relações, pois é quem estabelece a comunicação com partes diretamente envolvidas na tarefa (os colegas do grupo) e partes envolvidas indiretamente, como o professor, que acompanha a execução da tarefa e oferece suporte e feedback.
O grupo de estudo/trabalho em sala de aula tende a criar condições de aproximação, estreitamento de eventual distanciamento entre estudantes de dada turma. Nesse caso, a turma de alunos tende a funcionar pouco como um grupo maior, pois as relações entre seus membros são de mais proximidade entre uns, mas não entre outros. Faixa etária, afinidades profissionais, interesses comuns a mulheres e homens, amizades anteriores, dentre outros numerosos outros fatores, são variáveis que tendem a adicionar um elemento de complexidade nas relações pessoais intraclasses; relações cuja administração demanda certo grau de desenvolvimento e amadurecimento para ser desdobrada como harmonia e equilíbrio.
A formação da equipe pode abrandar muitas dessas variáveis. Experiências variadas podem ocorrer na equipe de alunos que se juntam para executar dada atividade de aprendizagem: não só a execução da mesma da tarefa, mas ainda o estabelecimento de relações sociais; aprendizagem não só dos conteúdos propostos como objeto de aprendizagem, mas também outras condições que tendem a se materializar em práticas de comunicação em grupo, como a socialização (formação de laços de amizade). No grupo, dado aluno passa a conhecer mais de um colega, o que pode resultar em mais entrosamento, mais interação, mais troca de experiência, mais diálogo; diálogo que pode gerar a dúvida, o
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questionamento e a reflexão, o comentário, a sugestão, a crítica, a exemplificação, a concordância e a discordância, e assim por diante.
A julgar pelas fotografias apresentadas antes, essa possibilidade de interação foi efetivada. Exemplo disso é o grupo cujo líder foi a aluna de vestido preto e óculos e no qual parte dos componentes são discentes que estavam sentados em fila atrás dela (vide FIG. 5) e que pareciam envolvidos como outras atividades. É o caso de dois alunos (um de camiseta vermelha, outro de camiseta branca, além das alunas que sentadas rente à parede). Assim, o possível desentrosamento e distanciamento dedutíveis da posição que ocupam na sala de aula parecem terem sido anulados com a formação do grupo (vide FIG. 6).
Neste primeiro momento, os alunos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, após a apresentação do pesquisador. Todos os presentes assinaram, consentindo com sua participação.