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Enquanto a ideia de performance pode dar conta de diversas instâncias sem dicotomizar os aspectos de sentido e presença dos objetos para os quais olhamos – e penso aqui objeto de maneira aberta já que, como demonstrado, a performance é também um como, uma maneira de olhar para os objetos –, julgo importante que abordemos melhor os aspectos da performance que estão mais diretamente ligados a produção de um eu – como introduzido na discussão sobre performatividade. Isto é, se podemos olhar para todos os comportamentos de artistas – e de não-artistas também – como sendo performáticos, é importante que entendamos que as narrativas que estes artistas compõem sobre si – seja em entrevistas, shows ou produtos diversos – produzem questões específicas que dialogam diretamente com as maneiras como os entendemos enquanto sujeitos e que, assim, constroem por meio de suas obras e produtos narrativas de identidade.

Judith Butler (2017), ao abordar o relato de si, pensa o quanto o sujeito se compõe e toma a compreensão de um Eu a partir do ato em que se relata, persuadindo-se em um sujeito coerente apenas a partir do esforço narrativo. Neste esquema, a autora compreende que a ética

desenvolve um papel importante neste processo, já que fornece os materiais com os quais podemos nos narrar, seja a partir dos termos disponíveis em nossos repertórios orais ou nas formas como valoramos as condutas às quais nos referimos. Em contrapartida, é especificamente numa tentativa de assimilação vital com as normas éticas, que os sujeitos acabam por fragilizá-las enquanto se compõem enquanto um Eu, dado que nossas vivências são reconfiguradas quando as contamos e os termos que estão disponíveis para as nossas narrações não foram fundados por nós e são questionados e revisados à medida que os usamos.

Ao abordar os escritos de Nietzsche sobre o assunto, a autora pontua que “o sujeito se forma em relação a um conjunto de códigos, prescrições ou normas e o faz de maneiras que não só (a) revelam a constituição de si como um tipo de poiesis, mas também (b) estabelecem a criação de si como parte de uma operação de crítica mais ampla.” (BUTLER, 2017. P. 28 – 29). A este processo de relato, Butler relaciona uma espécie de criação de si, que elabora uma “estética do si mesmo que mantém uma relação crítica com as normas existentes” (Ibidem. P. 29).

Acontece que a corporalidade – e o eu – são cercados por uma opacidade que não permite que remontemos a nós mesmos de maneira plenamente consciente, afinal as normas éticas que nos fornecem materiais para compor nossos selfs, bem como a origem dos nossos corpos e consciência, são parcialmente inacessíveis às nossas memórias e, de certa forma, antecedem nossos eus. Esta questão leva Butler a pensar que sempre que tentamos remontar nossas origens, construímos nossas narrações como uma espécie de ficção, que tomam, porém, nossos corpos como referentes. Numa pequena síntese:

Há (1) uma exposição23 que não pode ser colocada em forma narrativa e

estabelece minha singularidade, e há (2) relações primárias, irrecuperáveis, que formam impressões duradouras e recorrentes na minha história de vida, e por isso (3) uma história que estabelece minha opacidade parcial para comigo mesma. Por fim, há (4) normas que facilitam meu ato de contar sobre mim mesma, mas que não crio e fazem de mim substituível no momento exato em que busco estabelecer a história da minha singularidade. Essa despossessão da linguagem é intensificada pelo fato de que dou um relato de mim mesma para alguém, tanto que a estrutura narrativa desse ato de relatar é suplantada pela (5) estrutura de interpelação na qual ela acontece. (Ibidem. P. 54-55)

Neste esquema, é importante notar que uma noção de eu só é passível de ser construída diante de cenas de interpelação que nos questionam a nos identificarmos – e nos produzirmos. Desta forma, é também a partir de um reconhecimento diante do outro que

23 A autora se refere aqui às vivências do corpo e do indivíduo, à exposição às ações e modulações sensíveis com o mundo.

podemos nos construir como um eu. Isto é, o Eu que construímos só existe porque pressupomos, lidamos com e fabulamos um ou vários outros para os quais precisamos nos relatar. Nesta lógica, enquanto somos convidados a nos relatar, também demandamos um relato dos outros e estas estruturas de interpelação produzem reconhecimentos que são sempre relativos a como nos construímos e a como entendemos estes outros. Desta maneira, alguns sujeitos podem se tornar ininteligíveis diante de determinados sujeitos ou grupos, o que nos lembra constantemente de como estes processos de sujeição estão ligados às normas éticas e as nossas impossibilidades de nos assimilar plena e vitalmente a elas24; a dissidência no reconhecimento, afinal, está diretamente ligada às questões de valor.

A opacidade dos sujeitos e destas estruturas de interpelação se torna ainda mais acentuada quando lidamos com pessoas e personagens que estão inscritos dentro da lógica do cenário midiático e mais especificamente da música pop. Por conta disso, João André da Silva Alcântara e Jeder Janotti Júnior (2016) ao refletir sobre o videoclipe, uma das diversas instâncias que produzem o sujeito no pop, consideram importante compreender estas aparições – que operam como relatos – a partir do estatuto da performance. Com isto, eles propõem que não busquemos correr atrás de uma suposta verdade anterior ou escondida destes sujeitos, mas que lidemos com aquilo que se torna aparente.

Como ensaiado até aqui, afinal, pensar as ações performaticamente envolve dissolver o sujeito de uma suposta essência e pensar a sua produção a partir de suas ações e da presença, que são, também, relatos do reconhecimento de si. Nesta lógica e pensando os sujeitos do pop, “precisamos considerar que o audiovisual no universo da música popular massiva é parte de uma complexa rede de coletivos humanos e não humanos que compõe escutas conexas que integram música, audiovisual, entrevistas, participação em filmes e novelas, etc.” (ALCÂNTARA e JANOTTI, 2016. P. 358).

Com isto, os autores chamam atenção para a importância de considerar os diversos aspectos que nos agenciam na compreensão destes relatos dos sujeitos inscritos na música popular. Assim, fornecem uma espécie de base teórico-metodológica bastante relevante para que consideremos tanto a relação destes relatos com a produção de autenticidade, como

24 Esta ideia reverbera imensamente com a teoria de Louis Althusser (1971), que também traz questões pertinentes sobre esta ideia do sujeito que se constrói a partir da interpelação – Butler a emprega para pensar sua teoria da sujeição (2017). Para Althusser, o processo de se entender como sujeito é um duplo: envolve tanto a consciência de um Eu que tem o poder de subjetivar, quanto a submissão, o ato de estar sujeito, às estruturas ideológicas que nos interpelam. O valioso neste pensamento, para este trabalho, é perceber que ao assumirmos uma posição de sujeito, ao nos apresentarmos como um Eu, respondendo às interpelações que atravessam autoridades – e aqui podemos pensar todas as estruturas ideológicas que exercem poder sobre nós, da heteronormatividade ao mundo do trabalho e do capital – estamos, também, nos submetendo ao poder e normas que circulam na sociedade, construindo um Eu que está sempre em diálogo com estas normas.

também a atenção aos cuidados específicos que se deve ter quando tomamos as diversas performances como relatos de si – interessa-me aqui, principalmente, a observação sobre a atenção que se deve ter com a materialidade em que cada relato é inscrito:

o relato de si mesmo não é feito de forma linear, contínuo, tampouco realizado somente através do discurso verbal. Gestos, acenos e expressões podem ser lidos por fazerem parte de códigos de linguagem que agenciam traduções de sentidos e podem operacionalizar ideias de autenticidade. Com estas informações, formulamos uma espécie de cartografia que aciona o videoclipe como performance através de elementos que podem articular os relatos de si, em meio às particularidades ou configurações da música popular massiva. Continuamos a priorizar os pontos que já explicitamos: a) a materialidade da inscrição; b) a sua configuração; c) as possíveis interpelações e d) a opacidade e despossessão nestes relatos. (Ibidem, p. 360). Em suma, a ideia do relato de si é importante para que demos conta das instâncias performáticas dos sujeitos – e no caso deste trabalho, das aparições de Lady Gaga – que lidam diretamente com a produção de um eu e com maneiras de reconhecimento. Participam aqui agenciamentos performáticos diversos, como entrevistas, videoclipes, discursos, aparições em premiações, etc, que trazem, cada um, especificidades ligadas a estes suportes. Com esta noção, tentamos nos apegar aos efeitos de presença, em detrimento à busca por um sujeito anterior a sua presentificação e, assim, compreender que é principalmente a partir da performance que podemos perceber a ideia de relato.