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Deux applications op´ eratoires ´ ecrites-lues re-´ ecrites

Dans le document La forme ou l'arithmetique du temps (Page 131-139)

3. Notes biblio-graphiques

3.7. Deux applications op´ eratoires ´ ecrites-lues re-´ ecrites

Como indicamos no subtítulo enunciado acima, há elementos que indicam ser o coro de Perdição uma paródia de As Bacantes de Eurípedes e também da Antígona de Sófocles.

Em Perdição, Hélia Correia nos informa que “um hino a Dioniso será entoado ao longo da peça, nas mudanças de cena, nos silêncios, ou como fundo em certos diálogos”. Percebemos a forte ligação do lamento exposto pelas bacantes no ditirambo que permeia o drama no percurso de sua heroína rumo ao trágico.

Comecemos por Eurípedes. No coro de Perdição fica patente que há, no caráter orgiástico do drama, um apelo paródico à sua continuidade, e, certamente, com tom de alerta à nós, leitores/espectadores. Lembremos que Eurípedes, no prólogo d’As Bacantes, apresenta-nos Dioniso justificando suas ações “contra” as mulheres de Tebas que ele torna suas seguidoras, por terem as mesmas desdenhado de sua origem divina (vv.46-54):

Em altos brados, elas proclamavam que,

se Zeus a fulminou [sua mãe Sêmele], foi para castigá-la por ter tido a idéia de vangloriar-se

de amores com um deus. Por isso compeli todas as mulheres de Tebas a deixarem seus lares sob o aguilhão de meu delírio. E agora, vítimas da mente transtornada, elas passaram a morar nos altos montes,

usando apenas a roupagem orgiástica (EURÍPEDES, 2002, p.210).

O intento de Dioniso é fazer com que Tebas reconheça “a grande falta que lhe fazem” suas danças e mistérios, para que ele “possa vingar a honra de Sêmele”, insultada, por dizerem às outras que seu filho não era de Zeus. Logo, em seguida, surge o coro de bacantes, que, tresloucadas, cantam (vv.177- 185):

Viemos apressadas lá da Ásia e do sagrado Tmolo – doce esforço gostoso de sofrer, pois é por Brômio69.

116 (...)

É doce para nós nos altos montes, quando saímos da corrida báquica, ficar deitadas na relva abundante sob a pele da corça, e capturar um bode para ser sacrificado e devorar a sua carne crua, extasiadas, enquanto corremos pelos montes da Frígia, ou então

nos montes lídios levadas por Brômio! (EURÍPEDES, 2002, p.213-214).

Tirésias é o primeiro personagem que dialoga em As Bacantes, de Eurípedes. Junto a Cadmo, o fundador de Tebas, ele lhe pede, crendo ter ao seu “lado a límpida verdade” (vv. 247). (p.216), para que ocorram os ritos a Dioniso, pois, “quem não fizer o mesmo será um demente” (vv. 248). (p.216).

Como sabemos, o excessivo Penteu, neto de Cadmo e rei de Tebas, ignora qualquer apelo em prol de Dioniso. Assim, manda acorrentar o deus que, também desmesurado, em um “divino terremoto” (vv.748), deixa o castelo de Penteu semidestruído, e diz às suas bacantes que se jogaram ao chão: “(...) Levantai-vos, / acalmai vossos corpos expulsando deles / o habitual tremor causado pelo medo (vv. 771-773)” (EURÍPEDES, 2002, p.235).

Outra passagem relevante para o nosso estudo é a que mostra Penteu, descrente do poder do deus da desmesura, sendo induzido por Dioniso a desejar ver as bacantes no Cíteron. O rei, mesmo desconfiando que se trate de um ardil por parte do deus, cai em sua armadilha (vv. 1077-1084):

Dioniso – Gostarias de vê-las soltas nas montanhas? Penteu – Por certo, mesmo que custasse muito ouro. Dioniso – De onde te veio este desejo violento?

Penteu – Devo dizer que ficaria compungido ao vê-las nessas condições constrangedoras.

Dioniso – Então sentes vontades de presenciar um espetáculo que te causa desgosto?

Penteu – Sinto, mas escondido entre os altos pinheiros (EURÍPEDES, 2002, p.246).

Girard (1998) constata que Dioniso e Penteu “não disputam nada de concreto” (GIRARD, 1998, p.181), visto que disputam a própria divindade, “mas sob a divindade só há violência” (p.181).

117 O que vemos, na sequência, depois é Penteu pedindo a ajuda de Dioniso para realizar o seu desejo, que será prontamente atendido, não sem antes o rei passar por algumas mudanças no vestir, visto que seria estripado pelas bacantes se aparecesse “descoberto”. Assim, porá vestes de linho, peruca, manto, mitra, um tirso e “a pele de corça malhada” (vv.1103). Enceguecido pela divindade, Penteu, mesmo achando inadequado se vestir de mulher, e, com isso, abrindo mão de comandar os seus “soldados” (vv.1113) cai no estratagema de Dioniso, que assim o prepara ritualisticamente para torná-lo uma vítima expiatória. Como todos, inclusive, velhos, exaltarão o deus em seu culto, pois, tal como anuncia Tirésias (vv.261-265):

O deus, não faz a menor distinção

entre as idades; são iguais jovens e velhos em seus sagrados coros; ele quer apenas receber homenagens de todos os crentes,

pois em seu culto não há discriminações (EURÍPEDES, 2002, p.217).

A fúria homicida de Dioniso se propagará para toda comunidade, conditio sine qua non para o fim da crise.

Assim, Penteu é travestido em monstro, sendo flagrado e estraçalhado pelas bacantes. Depois de morto, no colo da mãe, Agave, a metamorfose: “– Que bezerrinho lindo! Ainda cresce / na cabecinha do pobre animal / um pelo bem macio e abundante!” (vv. 1545-1548). (p.265).

Depois que Agave experimenta uma anagnorisis, ao ver que está diante do filho morto, ocorre uma peripeteia, e, se antes a mesma era feliz, agora ela lamenta seu infortúnio: “Agave – Não... Ai de mim!... trouxe a cabeça de Penteu...” (vv. 1672).

Maior anagnorisis ocorre quando descobre que, enlouquecida pelo deus, ela mesma, dançando inebriada junto às bacantes, o matara: “Agave – Agora compreendo... Perdeu-nos Diôniso...” (vv. 1685) (EURÍPEDES, 2002, p.272).

Uma das últimas falas de Dioniso, ao se referir à causa da morte de seu antagonista poderia, facilmente, ter sido dita por Penteu e endereçada ao deus (vv. 1745-1749):

118 ele tratou injustamente um benfeitor,

encarcerando-o de maneira humilhante,

cobrindo-o de ultrajes (EURÍPEDES, 2002, p.275).

Como vemos, não foi um objeto que gerou o conflito. Assim, a solução encontrada pelos rivais é a invenção de pretextos para desencadear a violência (GIRARD, 2008, p.182).

Deste modo, Dioniso “perturba a paz” que ele próprio buscara engendrar. A justificativa para a sua ação divina é que foi tomado por uma “cólera legítima contra uma hýbris blasfematória”, porém, conforme constata Girard (2008), é impossível diferenciá-las “até o momento da unanimidade fundadora” (GIRARD, 2008, p.171).

Note-se que Dioniso, com sua ação, castiga não só Penteu, como toda Tebas, por não reconhecê-lo como filho de Zeus. Em suas ações, aniquila um genos inteiro. Condena as bacantes a partir da ótica de Tebas, pois: “Os assassinos nunca mais terão direito/ de viver perto da tumba de suas vítimas” (vv. 1756-1757) (EURÍPEDES, 2002, p.275).

Foi a partir de Nietzsche e de Rudolf Otto que surgiu uma visão “deleitável” das ações violentas de Dioniso. Girard (2008) constata que, por isso, o leitor desprevenido:

[...] sempre se espanta com o caráter odioso de Dioniso. Durante toda a tragédia, o deus erra pela cidade semeando a violência em sua passagem, provocando o crime com a arte de um sedutor diabólico. Somente o donquixotismo masoquista de um mundo tão protegido da violência essencial, como é ainda o nosso, pôde encontrar algo de deleitável no Dioniso d’As Bacantes. Segundo todas as evidências, Eurípedes permanece alheio a estas ilusões, que seriam completamente cômicas se não fossem inquietantes (GIRARD, 2008, p.169).

Para que este argumento fique mais claro, devemos citar tanto o último lamento de Agave, como as considerações finais do coro, que, de maneira ambígua, justifica as ações de Dioniso (vv.1823-1832):

Agave – [...] Vamos até onde o Cíteron execrável não possa ver-nos nem meus olhos possam vê-lo, lugares onde nada me faça pensar

em meus cortejos! Cuidem disso outras Bacantes!

Coro - A vontade de um deus tem muitas formas e muitas vezes ele surpreende-nos na realização de seus desígnios.

119 Não acontece o que era de esperar e vemos no momento culminante o inesperado. Assim termina o drama (EURÍPEDES, 2002, p.279).

Como vemos, se há dúvida no que diz o coro, que parece justificar a ira de Dioniso, o lamento de Agave é categórico, pois, ela manda um recado às seguidoras do deus da desmesura e à plateia: que olhemos para as vítimas. Porém, apesar de proferido em alto e em bom som, o bramido sincero da mãe de Penteu não repele do Cíteron as bacantes recriadas por Hélia Correia (nem a nós), mas é a sua a dor que ecoa e, mesmo que a sua repercussão não chegue claramente, é o suficiente para que as prosélitas do deus questionem a validade das ações de Dioniso.

Algo similar ocorre no estásimo V na Antígona, de Sófocles. Nele, há uma invocação ao deus da cidade realizada pelo Coro, em sua última aparição, como derradeiro recurso para um desfecho feliz:

Deus de múltiplos nomes, alegria da virgem Cadméia, da mesma raça de Zeus tonitruante, protetor

da Itália gloriosa, tu, que reinas no fundo vale aonde todos vão, sacrário de Deméter Eleusínia, Baco, patrono da cidade-mãe

das Bacantes, de Tebas que se alonga pelo caminho líquido do Ismeno

sobre a semente do dragão feroz! (vv.1240-1148) (...)

E agora, que a cidade e o povo todo são presas de um flagelo violento, vem, com teus purificadores pés, pelas alturas do monte Parnaso ou cruza, então, o ruidoso passo! Tu, condutor das danças das estrelas ígneas, maestro das noturnas vozes, criança de Zeus poderoso, rei,

mostra-te a nós com o séquito da Tíades de Naxos, que em bailados delirantes, intermináveis, pela noite adentro

te adoram, Íaco, rei generoso! (vv. 1262-1273) (SÓFOCLES, 1989, p. 242-243).

Logo após vem o êxodo e então somos informados, pelo mensageiro, da mudança de sorte de Creonte, que se encaminhava para libertar Antígona: Antígona está morta e, por isso, Hémon se matou. Um segundo mensageiro lhe diz que, após Eurídice saber da morte do filho, também se suicidou.

120 Sutil é o papel do coro, pois, após chamar pelo deus da desmesura, evocando a sua generosidade, testemunha os fins trágicos dos envolvidos no conflito. Com isso, vemos claramente a violência descrita em termos de sacrifício. Mas a contradição maior fica por conta dos anapestos finais, através dos quais este mesmo coro lamenta a falta de bom senso dos tebanos.

Para ser feliz, bom senso é mais que tudo. Com os deuses não seja ímpio ninguém. Dos insolentes, palavras infladas

Pagam a pena dos grandes castigos;

A ser sensatos os anos lhe ensinaram (vv.1347-1353) (SÓFOCLES, 1989, p. 246).

Como ocorre entre Agave e o coro de As Bacantes, o trecho citado acima é mais um do “véu poético”, que já mencionamos, lançado pelo poeta “sobre realidades que seriam na verdade sórdidas” (GIRARD, 2008, p.11-12).

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