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1.2 Onde de Densité de Charge

1.2.3 Description microscopique

A primeira nota característica do Estado é que essa entidade realiza a Política no mundo enquanto mobilizadora de recursos. O Estado, nessa faceta, seria um mecanismo (palavra que resgata a noção de ‘estrutura física’) e – ou – uma instituição (termo que mais lembra a potência de uma ideia) que sistematiza o recolhimento, o aproveitamento, a distribuição, o desperdício e a reciclagem de recursos.

A propósito, recursos, aqui, num sentido amplíssimo: (i) novos caminhos, como na raiz etimológica (re + cursus); (ii) meio ou suprimento material; e (iii) riqueza imaterial.

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Assim, Estado é um fenômeno que levanta, espalha, concentra, gasta, aplica, renova

etc. recursos materiais e imateriais, de uma forma que, na Modernidade ocidental, nenhuma

outra entidade consegue.

Uma empresa privada ou, especificamente, um banco privado, poderia representar, nesse primeiro sentido, algo próximo a um Estado. Sem dúvida, um banco obtém e investe bastantes recursos, mas, sobretudo, recursos materiais (dinheiro, metais preciosos, bens mobiliários e imobiliários…). Embora seja uma leitura curiosa e fértil compreender um banco e os ativos financeiros que movimenta como questões de recursos imateriais, feito a ‘confiança’ (nalgumas situações, a fé, a aposta, a esperança etc.)225, é notória a especialidade das instituições financeiras privadas para administrarem patrimônios materiais.

O Estado dinamiza patrimônios materiais e imateriais com a mesma capacidade.

Os sistemas tributários dos quinze países mais ricos do planeta, por exemplo, demonstram uma aptidão daqueles Estados em arrecadar uma média entre 25% a 50% das riquezas produzidas pelas respetivas sociedades226. Um quarto ou mais daquilo que é produzido em cada um desses territórios passa aos cofres públicos: esse volume de recursos, levantado sem qualquer custo (visto que a própria máquina de transferir as quantias é financiada pelas sociedades), nenhuma empresa ou nenhum banco privados conseguiriam amealhar.

De qualquer forma, outros recursos materiais que o Estado adquire devem ser mencionados, para que a comparação entre um empreendimento privado gigantesco (como o

Google ou a Microsoft) e um Estado que desperdiça mais que acumula (Chade ou Zimbábue,

entre dezenas de outros) não invalide esta classificação. Os recursos bélicos, por exemplo. As

225 Um escrito de Walter Benjamin, de 1921, é particularmente intrigante, nesse sentido: “o capitalismo como religião”. Nesse fragmento, Benjamin argumenta que “há uma religião a divisar no capitalismo, isto é, o capitalismo serve essencialmente à satisfação das mesmas preocupações, tormentos e inquietudes aos quais outrora davam resposta as chamadas religiões”. O autor, indo além do pensamento de Max Weber, afirma que não apenas as religiões (‘tradicionais’, como o calvinismo, o judaísmo e o catolicismo) contribuiram à aparição do capitalismo, mas sim, que o próprio capitalismo passara a se estruturar como um fenômeno religioso essencial. Esse

Kapitalismus als Religion é um fragmento do autor (5 páginas), reunido, entre outros ensaios, no livro:

BENJAMIN, Walter. Michael Löwy (organizador). O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo, 2013. 226 Ver, por exemplo, o relatório Paying Taxes 2016, levantamento elaborado pela PriceWaterhouseCoopers (PwC) a comparar as incidências de tributos em 189 países. Disponível em www.pwc.com/gx/en/services/tax/paying-taxes-2016.html. Acesso 18.5.2016.

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forças armadas e as polícias regulares, seus equipamentos e seus instrumentos são, dificilmente, reunidos por empresas privadas, a custo tão baixo quanto um Estado consegue227.

Não apenas o poderio dos Exércitos é um quase-monopólio estatal. Alguns modelos de exploração de recursos naturais (renováveis e não renováveis) nos respetivos territórios de cada Estado aparecem como quase-monopólios ou monopólios. É dizer, os cofres públicos arrecadam parte considerável ou, mesmo, a totalidade, dos valores obtidos com o fornecimento de energia a partir daquelas fontes ou daqueles combustíveis. As empresas privadas que concorrem no mercado energético, de regra, tornam-se parceiras de Estados228.

Mesmo com essa posição extraordinária no levantamento de recursos materiais, a excecionalidade que desequilibra a comparação entre qualquer Estado e (que seja) a maior empresa privada está nos recursos imateriais: a construção e a manutenção de narrativas como o patriotismo, as tradições nacionais, o orgulho pelas glórias, a cultura e a memória dos antepassados. Os Estados conseguem mobilizar e rentabilizar sua história a favor de seu crescimento.

Por mais que uma empresa privada, com excelente setor de propaganda e razoável qualidade naquilo que entrega aos seus consumidores, consiga um público fiel aos seus produtos ou aos seus serviços, não alcançará o nível de um Estado. Ser desleal à pátria é crime, em vários territórios. Ainda que não seja um ilícito penal, voltar-se contra a história, as tradições, os costumes ou as façanhas dos conterrâneos é, na maioria dos Estados, um atentado à moral vigente. Essa intensidade ‘espiritual’ é cada vez mais complicada para um empreendimento particular, tendo em vista a concorrência difusa, exponencial e globalizada no presente.

Isoladamente considerada, fica óbvio que essa primeira função do Estado o afasta do conceito de qualquer outra entidade apta a alavancar recursos (como uma empresa) pelo

227 A indicação sobre o custo faz diferença, pois, efetivamente, há exércitos mercenários como a Blackwater (Academi), a Aegis Defense Services ou a AirScan, bem como máfias tremendamente fortes (como a russa, a sérvia, a israelita, a japonesa, a chinesa, a siciliana, a colombiana, a mexicana, a jamaicana e a albanesa), que contam equipamentos e instrumentos, por vezes, maiores que os de Estados. Entretanto, acumularam-nos com altíssimo custo. Para mais a respeito: SCAHILL, Jeremy. Blackwater: a ascensão do exército mercenário mais poderoso

do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

228 Por meio de várias técnicas jurídicas que viabilizem essa associação de interesses de Estados e de particulares: parcerias público-privadas, empresas concessionárias, permissionárias ou subsidiárias de serviços públicos etc.

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grau. Assim, fosse a “movimentação de recursos” a única razão de ser do Estado, seria possível dizer que cumpre essa tarefa melhor que qualquer outra entidade conhecida.

É necessário, contudo, destacar o termo política da expressão ‘economia política’. Essa politização excluirá a possibilidade de conceber a economia – enquanto parte essencial do Estado – numa base exclusivamente técnica (fiscal, monetária, financeira, estatística etc.). A matemática da política tem outra dinâmica, muito além dos números. E, embora mais parecida, muito além da teoria dos conjuntos. Quando politizada, não há dúvida de que a economia perde um bocado de sua lógica e de suas certezas: a política confere inexatidão ao fenômeno econômico.

É nessa mistura do elemento político à economia que reside a especificidade e a completa distância entre o conceito de Estado – como mobilizador de recursos – e o conceito de empresa. A lógica do Estado não é a da eficiência numérica. É talvez a da eficiência numênica229. Não, portanto, a de uma eficiência que se analisa nas contas e nos balanços entre receitas e despesas, mas de uma eficiência que se supõe (nunca completamente se revela) num quadro abstrato de opiniões, de reivindicações e de tensões a respeito da maneira mais justa de mobilizar os recursos.

A politização da economia, nesse sentido, distingue, sem retorno, o Estado da empresa, sendo ambos mobilizadores de recursos, porque o interesse do Estado é tanto ou mais o capital político que o capital econômico e o interesse da empresa está total ou mais direcionado ao capital econômico que ao político. O capital econômico é aplicado (e cuidado) pelo Estado para render capital político – “quando a crise econômica está resolvida, dificilmente a crise política se prolonga”. O capital político é acumulado pela empresa para render capital econômico – “quando nosso candidato for eleito, ganharemos mais mercados”. Os vetores ficam contrários.

O Estado, então, é um mobilizador eminentemente político de recursos, por isso fomenta, sistematiza e reproduz uma economia política. A empresa é uma mobilizadora

229 Na filosofia de Kant, nomeadamente na Lógica Transcendental, o “númeno” é o real tal como existe em si mesmo, de forma independente da perspetiva – necessariamente parcial – em que se dá todo o conhecimento humano (prima facie, atrelado aos sentidos); coisa-em-si (Ding an sich), nômeno ou noúmeno é ente que, embora possa ser meramente pensado, por definição, é um objeto incognoscível. Q.v., entre outras obras, KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

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eminentemente econômica e de muitos menos recursos (quando incluídos os recursos imateriais na comparação e deduzidos os custos da alavancagem desses valores [em sentido moral e financeiro]).

Nesse cenário, a expressão economia política indicaria, sintética e didaticamente, uma primeira parte essencial do conceito de Estado: todos os agrupamentos humanos, desde milênios antes de Cristo ou, num recorte menor (e dir-se-á, mais técnico), todas as nações organizadas politicamente desde o início da Modernidade, exibiram uma sistemática de arrecadação, de distribuição e de reciclagem de recursos (materiais e imateriais) a fim de sustentar as suas necessidades230.