PRATIQUES ORDINAIRES D ’ ELEVES PLURILINGUES
3.2 A PPROPRIATION LANGAGIERE EN CONTEXTE SCOLAIRE : DES SAVOIR -FAIRE IGNORES
3.2.1 De la démarche ethnographique à la méthode intersubjective
Antes de detalhar as contribuições dos primeiros estudos acerca da polidez em conjunto com meus dados de pesquisa piloto17, esclarecemos a razão que nos fez optar por esse termo em vez de cortesia. Posterior à escolha epistemológica por polidez, Fraser (1990, p. 219) reforça a necessidade de sermos claros quanto à concepção do que seja polidez, não deixando, assim, que nosso leitor deduza qual seria o nosso posicionamento.
É por essa razão que, além de me posicionar quanto ao termo mais apropriado para nosso corpus de pesquisa, busco esclarecer qual é o meu entendimento sobre o termo polidez, especialmente por ainda haver constante contrassenso conceitual nos estudos sobre o assunto.
Cabe ressaltar, logo nas primeiras linhas, que Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 41), cujas pesquisas estão assentadas em perspectiva cultural, chama a atenção para a inexistência de isomorfia lexical entre politesse (francês) e cortesía (espanhol), que, sem dúvida, se estende para politeness (inglês) e cortesia (português). Essa isomorfia lexical também afeta os dicionários monolíngues de Língua Portuguesa, pois os lexicógrafos, com frequência, consideram ambos os termos sinônimos, tornando legítima a ausência de limites para o usuário da língua em geral.
Houaiss & Villar (2009) apresentam o substantivo “cortesia”, mas não “polidez”, apenas o adjetivo “polido”. Para eles (ibid), cortesia é definida como amabilidade, polidez; já o sujeito polido é aquele que recebeu fina educação, é cortês e atencioso. Embora seja inegável a sinonímia entre os termos, os lexicógrafos sinalizam a seguinte sutileza: o sujeito cortês é amável (emotivo); já o polido foi “lapidado” (recebeu instruções sociais).
Com definições bastante similares, e apresentando a mesma falta de paralelismo (cortesia (substantivo) e polido (adjetivo)), Ferreira (2008) destaca que a cortesia está relacionada à amabilidade, à delicadeza e à civilidade, mas não a associa à polidez; já o
17 Para ilustrar este capítulo teórico, optei por usar dados de pesquisa piloto realizada quando ministrei aulas de
português para falantes de espanhol no PEPPFOL (Programa de Ensino e Pesquisa para Falantes de Outras Línguas), atual NEPPE (Núcleo de Ensino e Pesquisa de Português para Estrangeiros). Naquela ocasião, discuti, com minha turma de nível intermediário, aspectos cotidianos que envolviam a negociação de convenções de polidez a fim de escutar, também, a percepção que eles tinham de tais estratégias.
sujeito polido é avaliado como cortês e atencioso. Ou seja, para esse lexicógrafo, ser polido é ser cortês, mas ser cortês não é, necessariamente, ser polido.
Em Aulete (s/d), cortesia consiste em qualidade ou atributo de quem ou do que é cortês; já polidez, qualidade do que é polido. É evidente o tratamento de sinonímia dado aos dois termos, pois ambos estão associados à amabilidade, à delicadeza e à gentileza. Contudo, há, para o mesmo autor (ibid), acepção específica para a linguagem, que se relaciona à “característica do discurso que emprega delicadeza, gentileza e cortesia...”.
Assim, os dicionários em geral trazem pouco esclarecimento quanto à distinção entre os termos polidez e cortesia, porém, apesar disso, é possível depreender das diversas definições consultadas que a polidez está associada a sujeitos que “encenam” ações, já a cortesia, a sujeitos altruístas. Como sabemos, o contexto de ensino de português para estrangeiro favorece, por vezes, o simulacro de situações-problema rotineiras a serem, provavelmente, enfrentadas pelo aluno no dia a dia. É comum, então, que o estudante simule, por exemplo, estar no aeroporto, necessitar de pedir determinada refeição em restaurantes etc., isto é, a preocupação do docente centra-se na comunicação, não na interação, e a prova disso é a gama de publicações relativas ao ensino de português na perspectiva comunicativa (maiores detalhes sobre essa perspectiva são encontrados no capítulo 2).
A partir da constatação desses autores, concluo que o cenário da sala de aula propicia ao estudante o acesso a situações-problema, optando, constantemente, pelos atos “politicamente corretos”, ou seja, o altruísmo (cortesia) abre espaço para que a encenação (polidez) ocorra. Na medida em que a sala de aula se constitui, nas palavras de Goffman (1967), como palco para os atores encenarem, é comum ser a preservação de face, perante outros colegas, preocupação constante. Ser avaliado positivamente (valorizar a própria face, e manter sua imagem positiva), mesmo que a fala não corresponda às ações, torna-se, assim, com frequência, imposição social, ou melhor, sociocultural. Desse modo, já sinalizo o caminho terminológico adotado nesta tese, uma vez que a sala de aula constitui espaço para formação de estudantes, o que nos leva a pensar, neste contexto, muito mais em polidez.
Em pesquisa nos dicionários de linguística, não encontrei definições para cortesia, somente para polidez. Em Charaudeau & Maingueneau (2008), encontrei similaridades com os dicionários anteriores, pois, para os autores (ibid, p. 381), “[polidez é] o conjunto dos procedimentos postos em funcionamento para preservar o caráter harmonioso da relação interpessoal...”. Assim, a ideia de que a polidez se volta para a necessidade de relação entre os sujeitos em sala de aula, fortalecendo, assim, minha escolha terminológica por polidez: por
constituir esse atributo preocupação frequente dos discentes para o estabelecimento da harmonia que regula a interação entre estes e o docente.
Apesar de a cortesia [cortesía] ser termo mais recorrente na literatura hispânica e na portuguesa, talvez até pela ausência de termo equivalente para polidez na língua espanhola, Villaça & Bentes (2008, p. 32) esclarecem que a polidez está relacionada à formação de registros; já a cortesia, à produção de estilos, incluindo também os registros. A cortesia, para as autoras (ibid, p. 45), estaria mais ligada à dimensão subjetiva das práticas linguageiras, estando ela pouco presente nas práticas cotidianas do sujeitos (as manifestações são bastante sutis). Talvez a necessidade social de preservação de faces tenha colaborado para os rituais interacionais (como as convenções de polidez, por exemplo), assim como propôs Goffman (1967) na metáfora encenação-palco-atores sociais.
Fraser (1990, p. 221), por seu turno, complementa que historicamente a polidez está associada a estilo e, intrinsecamente, a contextos formais, o que vem ao encontro do contexto no qual se insere a comunidade de prática18 de nossos colaboradores. Sendo assim, ratifico minha opção terminológica em razão de a natureza do estudo privilegiar a análise de dados contextualmente situados, ou seja, pretendo incorporar as normas já instituídas por dada comunidade de prática (neste caso, as negociadas no contexto de sala de aula).
Ao ler Unterbäumen et al. (2010), pude ter ainda maior clareza quanto ao uso do termo polidez e, por consequência, de suas repercussões epistemológicas. Os autores (ibid, p. 191) iniciam a discussão citando Hernández Flores (1999, p. 49), que situa a cortesia no rol das atitudes amáveis e respeitosas, associando o termo à boa educação e ao tratamento agradável, ratificados pela sociedade. A meu ver, a cortesia, nessa perspectiva, estaria
18 O termo comunidade de prática surge a partir da necessidade de se ter maior abrangência do que a expressão,
criada por Hymes (1972a [1967]), comunidade de fala. Segundo Hymes (ibid, p. 54), determinado grupo que “partilha regras para a condução e interpretação da fala e regras para interpretação de pelo menos uma variedade linguística” constitui uma comunidade de fala. Contudo, esse conceito, apesar de considerar as situações de uso, restringe-se às práticas de linguagem verbal. Rampton (2006) assegura que comunidade de prática constitui termo mais adequado por voltar-se para a análise de interações face a face em diversos contextos, embora isso não signifique que a sociolinguística tenha abandonado o interesse nos processos que envolvam a fala (RAMPTON, 2009b [1998]); ela apenas, a meu ver, ampliou o olhar investigativo. Young (2008) ressalta ainda a necessidade de valorizar não somente a cadeia da fala, mas investigar como determinada comunidade é capaz de usar a linguagem e outras semioses na interação com outros membros, e como esse grupo consegue partilhar e interpretar os aspectos linguísticos e os não linguísticos. O conceito de comunidade de prática apresenta, segundo Haneda (2006), certa fragilidade por não investigar os diferentes tipos de aprendizagem dos sujeitos, isto é, os aspectos individuais desses sujeitos não são investigados. Para tanto, a autora (ibid, p. 814) propõe redimensionamento do conceito (new CoP), de modo que a nova CoP possa desafiar as normas e as práticas aparentemente homogêneas de dada comunidade. Assim, julgo serem adequadas as contribuições dos estudos sociocognitivos à perspectiva da comunidade de prática com vistas a discutir as intencionalidades dos sujeitos em sua comunidade, a romper certa concepção de homogeneidade desses agentes na atividade interacional e a caracterizar a relação entre estes e sua comunidade em perspectiva dialética, isto é, os sujeitos atuam sob a comunidade e a comunidade atua sob os sujeitos.
relacionada a um período inicial de formação, que consiste na aquisição de “regras de bons costumes” na infância, reforçadas positivamente por adultos a fim de que estas sejam preservadas na interação face a face. Ao tratar sobre essas normas, os autores (2010, p. 191) acreditam que elas se estabelecem na sociedade, sendo partilhadas, aceitas e valorizadas, porém as denominam cortesia, indo de encontro aos argumentos sustentados nesta tese.
Apesar de o termo não estar em consonância com minha linha de pensamento, as reflexões dos autores (ibid) tornam-se essenciais para discutirmos aspecto relevante sobre convenções de polidez. A partir do que é definido por contratual dentro das instituições (MARCUSCHI, 2008, p. 67), como no caso do contrato interacional entre os participantes de nosso estudo a partir do domínio discursivo no qual se inscrevem, o ensino de português como segunda língua pressupõe que
os sujeitos ficam atrelados às normas e às convenções sociais, embora tenham liberdade de decidir por seus níveis de competência pragmática, sociocultural e linguística, se a situação e os falantes envolvidos exigem e merecem um comportamento cortês, o que os leva a escolher as formas de polidez adequadas para cada situação comunicativa (UNTERBÄUMEN et al., 2010, p. 191).
Assim, reforço, mais uma vez, que em minha pesquisa só posso ter acesso àquilo que é contratual, ao estabelecido na enunciação e às fórmulas selecionadas para as situações comunicativas propostas pelo professor, que podem diferir, em graus variados, nos contextos de interação face a face. Consideramos, então, que a polidez pode ser aprendida (e ensinada) com base em convenções preestabelecidas socioculturalmente, e a cortesia pode ser adquirida naturalmente no contato socio/intercultural. Contudo, ressaltamos que não é apenas o ambiente escolar o responsável por ensinar as normas de polidez, pois pode haver outras situações que envolvam debate metadiscursivo sobre essas convenções. Em outras palavras, é possível que, na própria interação face a face, dois interlocutores focalizem dada norma de polidez, governada por determinadas propriedades sociodiscursivas.
Para tanto, sistematizo essa discussão no quadro a seguir. Quadro 1 – Distinção entre polidez e cortesia
POLIDEZ CORTESIA
Baseia-se em normas coletivas Baseia-se nas percepções individuais
Integra o registro Integra o estilo
Associa-se às normas Associa-se à identidade
É formada a partir de diversos discursos É formada a partir de um prisma pessoal
Para melhor esclarecer essa relação entre os dois termos, recorro à Análise de Discurso Crítica representada por Fairclough (2003), ao discutir acerca da natureza das práticas sociais. Segundo ele (ibid), há três tipos de significados presentes no que denomina ordens do discurso.
O primeiro é o significado acional/relacional (gêneros), que consiste nas diversas possibilidades de interação; o segundo é o significado representacional (discursos), voltado para as maneiras particulares de os sujeitos representarem os aspectos do mundo; e, por fim, o terceiro, que é o significado identificacional (estilos), associado às maneiras de o sujeito identificar-se.
Em complementaridade a esse raciocínio, Ramalho & Resende (2011, p. 47) sistematizam os três significados, mencionando haver entre eles relação dialética, que se dá por meio da articulação e da internalização (RESENDE & RAMALHO, 2006, p. 39). Ou seja, há relação tanto interna (de determinado significado consigo próprio) quanto articulada (dos três significados entre si).
Figura 1 – Ordens do discurso
Fonte: RAMALHO & RESENDE, 2011, p. 47.
Aproveito toda a construção teórica de Fairclough (2003) e Ramalho & Resende (2011) para situar polidez e cortesia nessa perspectiva. A polidez, por estar mais relacionada aos discursos, reflete uma série de normas, que são construídas por meio destes. Assim como a cortesia, a polidez é negociada socialmente, no entanto, aquela está inserida nos estilos, que são abarcados pelos discursos, e refletem o tipo de linguagem usado por determinada comunidade de prática em particular.
Em conclusão, utilizo-me da reflexão de Briz (2004), por ser pesquisador hispânico e por sua língua não possibilitar o uso do termo polidez, ao realizar certa distinção aplicável a esta seção entre a cortesia codificada e a cortesia interpretada (mais detalhes são discutidos
nas próximas páginas deste capítulo). Para o autor (ibid), a cortesia codificada estaria mais relacionada às ações que já são convencionalmente estabelecidas como corteses; a cortesia interpretada, por sua vez, às ações que dependem da percepção dos sujeitos, sendo interpretadas a partir da ótica individual.
Em minha análise, a cortesia codificada funcionaria como polidez (a reprodução de fórmulas já convencionadas por dada comunidade de prática); já a interpretada seria a cortesia (escolhas individuais na enunciação e na percepção dos atos dos interagentes, suscetíveis à avaliação de cada membro da comunidade de prática). Reitero também que essa escolha (e essa discussão) se aplica ao nosso contexto de pesquisa (o contato entre professor brasileiro e alunos falantes de espanhol no contexto de aprendizagem de L2), podendo, evidentemente, colaborar com a decisão terminológica de outros pesquisadores (em outros contextos investigativos). Por fim, deixo claro que, apesar de minha escolha terminológica ter sido pela polidez, optei por manter os termos originalmente escolhidos pelos autores citados nesta tese, especialmente os de origem hispânica, pois reitero que ambos os termos possuem conceituações distintas, assim como discutimos nesta seção, não sendo de modo algum equivalentes entre si. Todavia, o nosso objetivo aqui se centra na análise das normas de polidez negociadas na interação face a face entre estudantes estrangeiros e professora nativa, visto que a polidez é ensinada, e a cortesia, vivenciada.