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9. Pratiquer et diriger les recherches en analyse spatiale de la végétation terrestre

9.3. Développement méthodologique de l’analyse spatiale de la végétation terrestre

9.3.2. Développer le traitement d’image aux échelles et sur les objets où il est rarement

A discussão acima, relativa ao status ontológico das unidades da política internacional, possui consequências diretas para o debate relativo aos níveis de análise. Isto porque, considerado o estado e seu sistema como realidades virtuais, sendo o termo realidade, em sentido estrito, aplicável apenas a indivíduos, tem-se como resultado uma ontologia plana, ainda que profundamente holista, decorrente do emaranhamento quântico provido pela linguagem.

Além do mais, tendo em conta que nem todos os indivíduos possuem a mesma relevância na política internacional – na verdade, apenas uma parcela pequena da população pode ser considerada como mônadas ativas, e um número ainda menor como mônadas dominantes –, perde sentido conceber os estados como Leviatãs gigantescos que abrangem todos os cidadãos presentes em seu território. Alternativamente, uma ciência social quântica sugere a imagem de “pequenos mundos” formados por redes de tomadores de decisão, no centro do conjunto de cidadãos de um estado, sendo estes, em sua maioria ou meros objetos ou mônadas passivas. O sistema existe realmente para esses pequenos mundos, mas não para todos os indivíduos, mesmo que estes possam, por vezes, nele se engajar (WENDT: 2010a, 301). Ficam pendentes, contudo, algumas questões.

A primeira é relativa ao sentido no qual se pode dizer que a vida social é emergente em relação aos indivíduos. Wendt aventa a hipótese da “fusão” das identidades individuais através do emaranhamento quântico, de modo a gerar o

fenômeno social. Ao mesmo tempo, no entanto, haveria parte da individualidade de cada uma das unidades que seria mantida, ainda que isso contradiga o conceito clássico de emergência: “[...] whatever the situation with respect to their minds human bodies retain a classical, physical individuality.” (WENDT: 2010a, 302).

Recorrendo a Bohm, Wendt busca superar esse impasse afirmando que as mentes individuais se fundem em um todo emergente no âmbito da ordem implicada, enquanto que no âmbito da ordem explicada ocorreria da manutenção parcial de individualidade supramencionada. Tal como em seu texto anterior, Wendt sustenta que o emaranhamento social se assemelharia mais com um inconsciente coletivo – ou com a noção de habitus desenvolvida por Pierre Bourdieu, de modo que, inexistindo consciente coletivo, entendido como experiência de grupo, poderia ser dito que, no plano consciente, a experiência continua a ser um evento individual e, portanto, variável (WENDT: 2010a, 302).

Por certo, o problema diz mais respeito à utilização do conceito de emergência em termos clássicos, conforme o autor evidenciou em momentos anteriores, ainda que implicitamente. A ideia de partes isoladas, que tradicionalmente antecipam o fenômeno da emergência, não possui nexo algum em uma ciência social quântica: “[...] the parts, in the sense of experiences, of social life are not fully separable, even though they are realized in physically separate brains. To that extent, in short, emergence in the quantum context suggests that ‘I am You’, a fusion of otherwise distinct identities at the quantum level.” (WENDT: 2010a, 302).

A segunda questão diz respeito não à relação entre indivíduos e sociedade, mas entre os demais níveis de análise em RI. Como seria possível sustentar a emergência (seja clássica, seja quântica) do sistema internacional a partir dos estados, se ambos são projeções holográficas do nível mais básico, composto por indivíduos? Eis sua resposta: “If in world politics there is only one real level of analysis […] then all the other ‘levels’ must be simultaneously enfolded in, and emerge from, that single level, rather than building upon each other.” (WENDT: 2010a, 303).

Do ponto de vista prático, isso significa abandonar a versão verticalizada da ontologia – fortemente cristalizada no imaginário da comunidade acadêmica de

relações internacionais e centrada no eixo reducionismo (bottom-up) versus estruturalismo (top-down) – em prol de um modelo ontológico horizontal, que trabalha com a noção de escala ao invés de com a noção de nível. Sendo assim, ganha destaque a análise da relação entre escalas, centrada no eixo inside-out versus

outside-in:

“Neither direction of influence would be causal […] because there is no real reality beyond the individual to do any causing; thus, on this view it would not make sense to talk about ‘states’ affecting, or being affected by, the ‘international system’. However, the implicate order in which modern individuals are entangled is internally differentiated into many distinct wave functions (state and international system among them) that enable individuals to bring about changes on a vast variety of scales, and as such one could talk about the conditions under which people will act with reference to a global potentiality like the whole system vs. a local one like the state.” (WENDT: 2010a, 303).

Em suma, a imagem dos níveis de análise perde sentido perante uma abordagem quântica da vida social, pois, rigorosamente falando, há apenas um nível possível: o indivíduo. Contudo, Wendt sugere apenas o abandono do discurso dos

níveis, mas não de suas categorias156, e.g., o estado e o sistema internacional. Há tão somente a necessidade de revisar esses e outros conceitos, dada a presença do respectivo embasamento quântico.

Mas o que acontecerá com as análises sistêmicas? Ao contrário do que se possa pensar, Wendt julga haver ainda espaço para as mesmas: “Although wave functions are continuously evolving through their actualization in practice, through institutionalization they may retain considerable structure, understood as a potentiality that remains relatively invariant over time.” (WENDT: 2010a, 303).

Ou seja, potencialidades estruturais poderiam ser medidas com o auxílio de conceitos como culturas de anarquia, direito internacional etc., só que, a partir de agora, o conhecimento da estrutura não se daria sob a forma de um observador externo, mas a partir de dentro da própria estrutura – o que significa dizer que pesquisadores também são pixels, participando cognitivamente da realidade holográfica da política internacional: “[...] concepts, theories and indeed levels of analysis are ‘cuts’ in a holistic sea of potentiality at the quantum level that help produce a certain classical reality for participant-observers.” (WENDT: 2010a, 304).

156 “Indeed, because that is how the modern world is organized it is necessary to retain these

Isso não deixa de lembrar a ideia desenvolvida pelo físico John von Neumann, segundo a qual, muito embora a linha divisória entre observador e sistema observado possua uma dimensão arbitrária, só é possível sustentar a cientificidade de uma explicação quando essa cisão é operada157. O que Wendt alega, em razão da referida arbitrariedade, é que, em contextos quânticos, o ato de medição estará sempre emaranhado com aquilo que é observado, fato este que aponta para um modelo de observação participante nas RI158: “To that extent academics may be said to ‘see’ the international system only by conjurinng it into existence in their work.” (WENDT: 2010a, 304)159. Tais considerações fortaleceriam ainda mais a dimensão processual de sua ontologia160. Porém, como dissemos, este é um dos pontos que, até o momento, carece de maior estudo pelo autor.