6. Modéliser les changements de la végétation terrestre
7.3. Estimer les vulnérabilités
7.3.1. Estimer la part d’une espèce ou d’une population spatialement soumise à une
Wendt julga ser possível estender o princípio holográfico às RI na medida em que sua efetividade independe de um meio específico. A postulação da existência do próprio universo enquanto uma projeção holográfica146, não apenas do ponto de vista metafórico, como também literalmente, seria o principal indício nesse sentido (WENDT: 2010a, 290). Consequentemente, haveria um cenário favorável para a aplicação da holografia nas relações internacionais.
Ao mesmo tempo, seria preciso considerar que, ao lidar com fatos sociais como o estado, ou o sistema internacional, o modelo holográfico de percepção, por si só, não basta, pois o que está em jogo não é a mera percepção visual de objetos físicos: “Although Germany is a spatial phenomenon, unlike physical objects it cannot be seen visually. [...] Rather, the only way to ‘see’ Germany is to know already that the part of the globe you are looking at is ‘Germany’.” (WENDT: 2010a, 290). Ou seja, policiais, juízes, parlamentares – e assim por diante – são apenas
143 A noção de monadologia quântica é bastante propícia para a ciência social quântica de Wendt,
tendo em conta que, conforme indicado por Nakagomi, seu objetivo primário consiste em elaborar um modelo de mundo onde os conflitos entre matéria – tal como descrita pela física – e consciência – entendida como experiência subjetiva –, estejam completamente resolvidos (NAKAGOMI: 2006, 241).
144 Nakagomi assim resume a relação todo-parte, também denominado mecanismo de reflexão
exterior-interior: “The whole-individual reflection means that the internal images of the whole in
respective individuals determine the whole and inversely the whole reflects into individual’s internal worlds.” (NAKAGOMI: 2006, 243).
145 O que não significa que todos os indivíduos possuem igual relevância para a política internacional,
pois, conforme será visto, além de mônadas dominantes, é possível estabelecer uma diferenciação entre mônadas ativas, mônadas passivas e meros objetos.
indícios da existência do estado, mas não o estado propriamente dito: “In social life, therefore, it’s not ‘seeing is believing ’ but ‘believing is seeing’.” (WENDT: 2010a, 290).
Com isto, Wendt pretende argumentar que fenômenos como o estado apenas se tornam visíveis quando, ao paradigma holográfico da percepção, adiciona-se o papel exercido pela linguagem, a qual se concretiza por meio de intenções coletivas que permitem considerar objetos físicos específicos como sinais definidores do estado, em contraposição a outros entes coletivos, e.g., organizações internacionais e organizações não governamentais (WENDT: 2010a, 291).
A linguagem sempre possuiu uma função de destaque nas ciências sociais, principalmente em razão do antagonismo entre positivistas e interpretativistas, recusando estes qualquer possibilidade de apreensão do sentido inerente à ação social por meio de abordagens similares àquelas presentes em pesquisas científico-naturais.
Entretanto, Wendt considera que, se o CCP for levado a sério, então a linguagem necessita possuir uma dimensão física, queiram ou não os interpretativistas. Logo, para o autor, a questão correta não diz respeito à existência/ausência de um componente físico na linguagem. Por considerar a referida existência como um fato, Wendt crê ser adequado indagar qual seria a sua espécie: “[...] the purely material stuff of classical physics or the minded stuff possible in quantum physics.” (WENDT: 2010a, 291).
A fim de reforçar a concepção da linguagem como um evento quântico, Wendt recorre a três analogias entre este domínio e aquele da física clássica. Todavia, conforme reconhece o autor, as analogias, por si só, não permitem provar que a linguagem realmente é quântica: “[...] a proper answer must await another time.” (WENDT: 2010a, 292).
O autor assim a sustenta, de modo tripartite, com base na inferência à melhor explicação (WENDT: 2010a, 293): (i) de algum modo, a linguagem deve ser física; (ii) a física clássica aparenta ser incapaz de dar conta de algumas propriedades fundamentais da linguagem, tais como holismo, não localidade e indeterminação; (iii) a única alternativa restante é a física quântica, cuja perspectiva, ademais, melhor condiz com as características indicadas. Voltemos às analogias.
A primeira delas diz respeito à localização do sentido em um texto. Na verdade, o sentido, por se tratar de algo essencialmente holístico, não pode ser obtido a partir de uma palavra ou de uma seção específica, tampouco da mera agregação de informação obtida no decorrer da leitura. Mesmo o significado das palavras, consideradas individualmente, depende do contexto. Assim, tal como no holograma, seria mais plausível afirmar que o sentido está presente ao longo de todo o texto como potencialidade, “[...] in the same way that the wave function is a non-local potentiality with respect to particles.” (WENDT: 2010a, 291).
A produção de sentido ocorreria apenas mediante o colapso da função de onda do texto, resultante de sua interação com o leitor. Obviamente, a analogia não é plena, pois (i) a eliminação de algumas palavras pode modificar o sentido do texto; (ii) algumas palavras possuem mais relevância que outras, de modo que sua exclusão pode gerar perda de significado com maior intensidade (WENDT: 2010a, 291).
Contudo, no que diz respeito ao nível elementar dos componentes textuais147, verifica-se a redundância comum aos hologramas, dada a possibilidade de substituição das palavras por sinônimos, sem inevitável perda de sentido.
Não obstante o apelo intuitivo da qualidade holístico-quântica do sentido, Wendt considera necessário tornar ainda mais sólido seu argumento, com apoio na filosofia da mente externalista: “Externalism is the view that the contents of at least some mental states are individuated by the physical and/or social environment.” (WENDT: 2010a, 291 e 292). Trata-se de uma relação de natureza constitutiva e, portanto, não causal: apenas podemos definir alguns de nossos estados mentais levando em conta o contexto que nos cerca: “The result is a radical holism about meaning, in which it is out there with us in the world rather than just in our heads.”(WENDT: 2010a, 292). Wendt nota, a este respeito, que poucos externalistas questionaram a possibilidade física dessa forma de holismo, dado este interessante, pois o mesmo contradiria os postulados da física clássica, mas não os da física quântica.
147 Ainda que Wendt não seja expresso a esse respeito, ao menos implicitamente o autor dá a entender
que considera a palavra como a unidade semântica mais básica. Entretanto, semelhante raciocínio também poderia ser aplicado àpossibilidade de mudança de alguns caracteres das próprias palavras, com a respectiva manutenção de sentido, e.g., n0 qye d1z respe1to ao míwel elrmemtar d0s
A segunda analogia se refere à dinâmica antes que à estrutura, mais precisamente, ao fenômeno da não localidade. Sob o prisma linguístico, a não localidade quântica (que pressupõe, dentre outras características a ação à distância), poderia ser identificada com o processo conhecido como mudança de Cambridge. O exemplo mais recorrente consiste na transição imediata do estado de Xantipa de casada para viúva, com suicídio de Sócrates. Ainda que a morte deste tenha decorrido de efeitos causais, a transformação do status de sua esposa foi instantâneo e não causal, transmitido não localmente por meio da linguagem compartilhada que mantinha o emaranhamento de suas respectivas identidades enquanto marido e mulher (WENDT: 2010a, 291)148.
A última analogia recorre à distinção de Ferdinand de Saussure entre langue e
parole: “A linguagem tem um lado individual [fala] e um lado social [língua], sendo impossível conceber um sem o outro.” (SAUSSURE: 1970, 16). Como uma função de onda, a língua se refere à estrutura de potencialidades (significados) enquanto que, como uma partícula, a fala se refere a uma atualização específica dessas potencialidades:
“At the level of langue a concept or sign may have multiple, even conflicting meanings, which from a quantum perspective may be understood as co-existing in a superposition. That superposition collapses into a context-specific meaning in parole, which may be understood as the response of the quantum subject to the measurement by the environment. Moreover, also like the collapse of the wave function, speech is not predictable from language – indeed even by a speaker herself. Speech seems fundamental free in the way it brings forth an actuality from potentiality, in much the same way the quantum measurement calls forth a ‘choice’ by the system in question.” (WENDT: 2010a, 292).