Plan du chapitre 4
Section 4.2. Couleur et autres perceptions
A oferta curricular da EMRC é apresentada no programa de 2014 como sendo um “valioso
contributo para a formação da personalidade”, na medida em que, considerando a dimensão
religiosa como constitutiva da pessoa humana, propõe a matriz cristã como resposta às
interrogações sobre o sentido da vida, apresentando os valores evangélicos na promoção do
bem comum e do cuidado do outro e revelando igualmente como “o Evangelho inspira valores
de fé e de humanidade que tecem a história e a cultura da Europa.”100
A EMRC estrutura-se então em 3 Domínios de Aprendizagem (Religião e Experiência
Religiosa; Cultura Cristã e Visão Cristã da Vida e Ética e Moral) das quais emanam um total
de 17 Metas Curriculares definidas a partir das finalidades da disciplina, e que representam os
conhecimentos e capacidades que os alunos deverão adquirir e desenvolver. Os Domínios da
Cultura Cristã e Visão Cristã da Vida e da Ética e Moral complementam entre si as suas Metas,
de forma que o conhecimento da mensagem e cultura bíblicas possibilitem a identificação dos
valores evangélicos da fraternidade, do amor, da liberdade, da justiça, da tolerância e da paz e
conduzam para um agir (ético cristão) em situações vitais do quotidiano. Tal significa, porém,
que detendo respetivamente 8 e 5 Metas cada, a sua soma represente mais de 75% do total das
Metas estabelecidas. Assim, verifica-se que a definição das Metas Curriculares da EMRC se
centram mais na configuração para um agir ético-moral dos alunos, de acordo com a “proposta
cristã de leitura e ação sobre as realidades humanas”101, o que revela um certo desequilíbrio
entre os respetivos Domínios.
“As Metas do Programa têm, assim, como referência maior, a configuração de cada homem e mulher, que são os nossos alunos como seres humanos integrais, pois, na medida em que o forem, estarão a caminhar para a configuração total com o Mestre.”102
Tal missão numa disciplina confessional parece ser óbvia, no entanto, importa ter em mente
que as turmas são plurais, e foi valorizando e aceitando essa pluralidade que a disciplina
“é oferecida a todos os alunos, independentemente da sua diversidade de crenças e opções religiosas: com fé católica ou outra, em situação de procura, indiferentes ou descrentes. Esta diversidade corresponde à situação das famílias que solicitam o apoio da EMRC."103
Parece um contrassenso então que, perante a pluralidade de alunos aceite e recebida, e sendo a
vocação de todos o desejo natural de serem felizes, tal se revista no contexto da proposta de
EMRC com uma configuração a Cristo, proposto como Mestre.
Na conclusão sobre o valor educativo da EMRC no programa oficial da disciplina, é feita uma
referência que revela o peso da confessionalidade e a sua sempre dualidade entre anúncio e
ensino, catequese e escola.
“A pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, está vocacionada para a bem-aventurança que corresponde ao desejo natural de felicidade. Essa vocação humana reveste-se de uma forma pessoal que, para o crente cristão, significa manifestar a imagem de Deus e ser transformado à imagem de Cristo.”104
A noção primeira de transcendente como “Deus” não tem o mesmo significado para todos. Nem
a vocação dos alunos inscritos é tornar-se um crente cristão. Cada vez mais a sua origem diversa
configura a sala de aula como um microcosmo de culturas e fés. Lado a lado sentam-se cristãos
católicos, cristãos evangélicos, cristãos ortodoxos, muçulmanos, budistas, bahá'ís, não crentes,
101 Programa de EMRC 2014, 163. 102 Ibidem, IV.
103 Ibidem, III. 104 Ibidem, 163.
curiosos e indiferentes. A preocupação primeira será acolhê-los bem, a todos, sem
protagonismos, num ambiente de diálogo e tolerância onde as diferenças sejam a sua força e
não um obstáculo. Para os alunos sem conhecimento e/ou vivência religiosa cristã, os valores
evangélicos são facilmente associados aos ditos valores “humanos” e debatidos e
experienciados nas dinâmicas de grupo e/ou projetos de pesquisa, solidariedade e voluntariado.
É fundamental hoje não esquecer, até porque a curiosidade é uma competência prioritária a
desenvolver atualmente, que os alunos são cada vez mais curiosos em relação às restantes
tradições e manifestações religiosas não cristãs ou crenças espirituais e filosóficas, motivados
quer pelas outras áreas de saber, quer pelos media e redes sociais, quer pelo próprio contacto
pessoal com outras culturas. Neste sentido, o domínio da Religião e Experiência Religiosa que
presentemente tem apenas 4 Metas, deveria ser reorganizado tendo em conta o conhecimento
fundamental sobre o fenómeno religioso nas suas múltiplas identidades e expressões.
O que se propõe argumentar neste ponto é que, considerando-se que a “marca identitária não é
uma insuficiência desta disciplina, mas a sua força” e que “não pode supor-se uma educação
neutra porque não é neutra a condição humana, antes sempre situada”, pois é “em situação que
a totalidade do humano se realiza”105, tem que se ter forçosamente em consideração que são
múltiplas, na verdade, as situações em sala de aula que preconizam o humano. Abrindo a porta
a todos as bases terão que ser os valores universais, com um enquadramento histórico-cultural
da matriz cristã é certo, mas nutrindo-se acima de tudo a linguagem do amor e da compaixão,
da proximidade e do afeto, da compreensão e da tolerância, da paz e da justiça que todos estão
ávidos por viver. O amadurecimento do pensamento e do comportamento advêm pois,
grandemente, das experiências pedagógicas que possibilitam “aos alunos e às alunas uma
participação na vida da escola, no seu processo educativo e na intervenção social.”106 Neste tipo
de contribuição a EMRC destaca-se de todas as outras disciplinas.
A educação religiosa escolar participa assim com as demais áreas disciplinares na educação
integral das crianças e jovens para a edificação de uma sociedade mais justa, bondosa e bela,
sem para tal ter que se alicerçar numa vertente pastoral juvenil missionária cristã. São as
histórias de cada um, a tal cultura “profunda” que Rosário Farmhouse falava, as disposições
individuais perante a vida e os outros, a educação familiar, as suas aspirações pessoais e o
contexto coletivo em que se inserem na escola que inspiram os alunos a pensar, a criar, a fazer
e a “querer mudar o mundo”. Temas relacionados com a sua própria condição de adolescentes
(amizade, sexualidade, liberdade, projeto de vida, ecologia), ou questões da atualidade como a
migração e os refugiados, os conflitos internacionais, a pobreza, o empreendedorismo, a
sustentabilidade do planeta, a fraternidade e a construção da paz estão na base da decisão para
a inscrição na disciplina de EMRC. Esta geralmente mantem-se quando a lecionação
corresponde mais a uma vertente cultural e formativa, sendo a moral proposta uma descoberta
construída e não uma herança recebida. Neste ponto é importante inserir o recente estudo sobre
religiosidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos realizado pelo antropólogo e professor
Alfredo Teixeira que refere as cinco tendências claras que os jovens europeus mais valorizam
na sua experiência:
1. “o valor da realização pessoal e a necessidade de construir em vez de receber algo pronto";
2. “o ceticismo” das “juventudes perante modelos de sociedade globais”, onde se incluem as Igrejas;
3. a “forte disponibilidade para a diversidade e tolerância”, sendo “a experiência da viagem um elemento fundamental da experiência de si e da construção do eu”;
4. o despertar para a ecologia e
5. a crescente tendência de adesão a nacionalismos e a posições de extrema direita, “fruto do medo e da vida na incerteza”.107
Tendo em conta este estudo, poder-se-ia olhar para a última página da conclusão do Programa
de EMRC e propor uma nova perspetiva
“os adolescentes que frequentam as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, nelas participando com interesse e curiosidade, encontram, na qualidade da lecionação e da relação pedagógica, os meios para interpretar refletir sobre a imensidão do universo e os desafios da convivência humana e, assim bem guiados acompanhados e incentivados, procurar dar um sentido à sua existência e ao mistério que a envolve. Têm o direito, e uma necessidade constante, de descobrirem o significado profundo do existir humano, de procurarem a verdade que lhes oferece direção e plenitude, de se confrontarem com as interrogações, muitas de natureza essencialmente religiosa, que surgem da inteligência e da vontade e expressam a dimensão mais elevada da pessoa.”108