8 LA QUÊTE DE RECONNAISSANCE
8.3 Confirmation et infirmation
Em suas reflexões, Bhatia (1993, p. 1) norteia-se por uma questão que constantemente acompanha os estudos de gêneros textuais: “por que um determinado gênero é escrito de determinada maneira?”. No intuito de respondê-la, concentra-se em descrever e analisar a língua em uso, em vez de se deter em
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Ver, por exemplo, os estudos de Bhatia (1993), que se vale do modelo para a análise de carta de promoção de vendas e carta de pedido de emprego, e de Silveira (2005), que analisa o gênero ofício.
formas linguísticas da superfície textual. Para ele, uma análise reducionista de gênero, que considere apenas seus aspectos formais, pode levar a conclusões do tipo: i) um determinado gênero apresenta textos com os mesmos traços, independentemente do contexto em que circula, ou, ao contrário, ii) textos pertencentes a um gênero diferem-se uns dos outros, se estiverem circulando em contextos diferentes.
Assim como Swales (1990), o autor volta seus interesses para o estudo de textos acadêmicos, mas também os volta para o estudo de textos empresariais, contribuindo significativamente para a sua compreensão. Corroborando a conceituação apresentada por Swales26, Bhatia (1993, p. 13) concebe gênero como
um evento comunicativo reconhecível, caracterizado por um conjunto de propósitos comunicativos, identificado e mutuamente entendido pelos membros da comunidade profissional ou acadêmica em que ocorre regularmente. Frequentemente, é um evento altamente estruturado e convencionalizado, com restrições a possíveis contribuições em termos de sua intenção, posição, forma e valor funcional. Essas restrições, entretanto, frequentemente são exploradas pelos membros especializados da comunidade discursiva na concretização de intenções particulares enquadradas dentro dos propósitos socialmente reconhecidos.
Como vemos, apesar de existirem outros fatores como conteúdo, forma, intenções comunicativas dos interlocutores, suporte em que o gênero é veiculado, é o propósito comunicativo que caracteriza um gênero como tal. Nesse prisma, uma alteração importante no propósito resultará em um gênero diferente. O autor ratifica que o uso que uma comunidade acadêmica ou profissional faz de uma variedade de textos molda o gênero, atribuindo-lhe uma estrutura altamente convencionalizada. Então, ainda que um usuário tenha liberdade para realizar escolhas linguísticas que melhor o auxiliem no alcance de suas intenções comunicativas e na impressão de originalidade ao seu texto, ele segue as práticas padronizadas que caracterizam o gênero. Afinal, são essas práticas que ajudam a distinguir um gênero de outro, e, assim,
qualquer combinação ruim quanto ao uso dos recursos genéricos é percebida como estranha não apenas pelos membros da comunidade especializada, mas também pelos bons usuários da língua de modo geral. Essa combinação deve ser o resultado do uso de recursos léxico-gramaticais específicos, certos tipos de significados associados a gêneros específicos, a posição de certos elementos retóricos ou
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mesmo significados especiais concretizados por meio de certas expressões tipicamente associadas a um número restrito de gêneros (BHATIA, 1993, p. 14).
Ao se remeter à definição de gênero de Swales, Bhatia (1993) ressalta que – embora ela leve em conta um fator essencial, que é a fusão de fatores linguísticos e sociológicos na definição de gêneros – ela diminui a importância de aspectos psicológicos, de intenções particulares dos falantes, que contribuem para atestar que o gênero é um fenômeno dinâmico e não estático.
Bhatia observa que a análise de gêneros, por ser uma prática multidisciplinar, vale- se da contribuição de diversas áreas de estudo e, desse modo, são também diversas as metodologias adotadas nas atividades de investigação, as quais decorrem de diferentes tipos de orientação, dependendo da formação e da proposta de pesquisa do pesquisador.
Entre os tipos de orientação mencionados por Bhatia, o primeiro refere-se a uma orientação linguística, que privilegia traços linguísticos do gênero, tais como elementos gramaticais e lexicais, registros, aspectos retóricos. Nessa perspectiva, certas características da linguagem associam-se a tipos específicos de escrita ou estilo. Ressalta-se, então, a importância do registro, que consiste em uma variedade de língua estabelecida de acordo com seu uso em situações comunicativas.
Mas Bhatia (1993, p. 18) observa que análises isoladas de variedades ou registros ensinam pouco sobre a verdadeira natureza dos gêneros e sobre como os gêneros realizam propósitos sociais nos contextos em que circulam, o que mantém questões relevantes sem resposta. Entre elas, o autor destaca:
• os traços linguísticos identificados pelo analista ocorrem em todos exemplares do gênero?;
• como esses traços concretizam realidades sociais em um determinado campo acadêmico ou profissional?;
• por que os usuários de um gênero utilizam tais traços linguísticos e não outros?;
• a utilização desses traços representa convenções específicas de um gênero em particular? Caso positivo, o que ocorre se alguns usuários infringirem essas convenções?
O segundo tipo de orientação diz respeito a uma orientação sociológica, que permite ao analista compreender como um gênero estrutura e comunica a realidade social em que se insere, considerando que um texto só apresenta um sentido completo se for compreendido em seu contexto histórico, social e cultural. Bhatia (1993, p. 18) explica que esse aspecto da análise reforça a ideia de que o texto, por si só, não exprime sentido. Esse deve ser construído em um processo de negociação entre os interlocutores da cena comunicativa, os quais devem levar em conta aspectos como os papéis sociais que exercem, suas intenções comunicativas, suas crenças, valores etc.
O terceiro tipo, por fim, remete a uma orientação psicológica, que enfoca os aspectos psicolinguísticos e táticos empregados por usuários do gênero na construção de seus textos. Os aspectos psicolinguísticos apontam para a estrutura cognitiva que caracteriza um gênero no contexto em que circula, enquanto os aspectos táticos revelam as escolhas estratégicas individuais realizadas pelo usuário do gênero para alcançar sua intenção comunicativa.
As escolhas táticas são utilizadas para tornar uma mensagem mais eficiente, observando-se fatores como o perfil da audiência, os meios de veiculação do gênero e o conhecimento convencionalizado que norteia a produção textual. Essas estratégias, geralmente, não alteram o propósito comunicativo que caracteriza o gênero, por isso Bhatia as denomina estratégias não discriminativas. Elas consistem na exploração de regras já convencionalizada pelos usuários do gênero, que objetiva tornar o seu texto mais eficiente, tendo em vista fatores como suporte e audiência, entre outros. Não se trata, então, de estratégias que violam as convenções do gênero.
As estratégias discriminativas, ao contrário, modificam significativamente a natureza de um gênero, já que alteram seu propósito comunicativo. O uso dessas estratégias leva à noção de subgêneros: as reportagens esportivas, por exemplo, tornam-se cada vez mais distintas das reportagens de notícias gerais, pois abordam eventos específicos e apresentam propósitos peculiares. Daí ser essa uma espécie de texto compreendida como subgênero (BHATIA, 1993).
Mas Bhatia (1993) reconhece que os critérios para se fazer uma distinção adequada entre gênero e subgênero não estão claramente definidos, e delineá-los pode ser quase impossível.
Segundo o autor, o propósito comunicativo do gênero reflete-se em sua estrutura cognitiva, a qual, por sua vez, revela as regularidades presentes em sua organização. Bhatia explica que essas regularidades são de natureza cognitiva porque explicitam as estratégias utilizadas pelos membros de uma comunidade discursiva na produção e compreensão do gênero, com a finalidade de alcançar determinados propósitos comunicativos. Dessa forma, a estrutura cognitiva do gênero reflete o conhecimento social convencionalizado de que se valem esses usuários.
Tendo em vista uma investigação abrangente de qualquer gênero, Bhatia (1993, p. 22-36) sugere sete passos metodológicos que, dependendo dos objetivos da análise, poderão ser adotados total ou parcialmente. A seguir, explicitam-se esses passos.
1º passo – Inserindo o gênero em um contexto situacional
Assim que o analista identifica um texto representativo de um gênero específico, deve situá-lo em seu contexto de produção. Para tanto, deve valer-se de sua experiência como usuário de gêneros ou da experiência de usuários que o utilizam sistematicamente. Esse passo permitirá a identificação das convenções comunicativas que regem o gênero na comunidade em que ele circula.
2º passo – Pesquisando a literatura existente
O analista precisa investigar a literatura disponível sobre alguns tópicos a serem considerados na análise de gêneros. Entre eles, destacam-se as análises linguísticas do gênero analisado ou de outros gêneros similares, relevantes à investigação; recursos, métodos e teorias da análise linguística ou discursiva de gêneros que sejam relevantes para a análise que pretende realizar; manuais, guias profissionais ou específicos, que contribuam para uma melhor compreensão do gênero analisado; discussões sobre a estrutura social, cultural e histórica da comunidade que usa o gênero estudado.
3º passo – Refinando a análise contextual
Em seguida, depois de situar o gênero em uma estrutura, recomenda-se ao analista refinar a análise realizada, por meio de procedimentos como definição do usuário do gênero e da audiência, bem como das interações estabelecidas entre eles e de suas intenções comunicativas; definição social, histórica e cultural da comunidade em que o gênero circula; identificação da rede de textos e tradições linguísticas que envolvem a produção de um determinado gênero; identificação do assunto, da realidade extratextual que o gênero procura representar ou modificar, bem como a relação existente entre o gênero e a realidade em que ele circula.
4º passo – Selecionando o corpus
Para definir o corpus a ser analisado, o analista precisa, primeiro, identificar as características do gênero com o qual irá trabalhar, definindo-o como gênero distinto de outros existentes com base em critérios como seu propósito comunicativo e o contexto situacional em que é utilizado. Em seguida, precisa certificar-se de que os critérios que atestam que um texto pertencente a um determinado gênero estão claramente estabelecidos. Por fim, precisa definir os critérios para a seleção do corpus.
5º passo – Estudando o contexto institucional
É importante para o analista estudar o contexto institucional em que o gênero se insere e isso inclui examinar as regras e convenções linguísticas, sociais, culturais, acadêmicas e profissionais que regem o uso da língua nesse contexto. Afinal, essas regras e convenções são “com frequência, entendidas implicitamente e inconscientemente seguidas pelos participantes da situação comunicativa na qual o gênero em questão é utilizado” (BHATIA, 1993, p. 24). Segundo o autor, grande parte dessas informações é encontrada em manuais, guias profissionais e discussões da estrutura histórica, cultural e social já publicados.
6º passo – Observando os níveis de análise linguística
Nessa etapa, o analista verifica em quais níveis ocorrem os traços linguísticos distintivos mais relevantes para o seu problema de pesquisa. Segundo Bhatia, os níveis de realização linguística são:
Nível 1 – Análise dos traços léxicos-gramaticais
Bhatia chama a atenção para o fato de que um texto é constituído de traços linguísticos que o caracterizam, por serem predominantemente empregados em determinado gênero. Desse modo, um texto pode ser analisado do ponto de vista quantitativo, observando-se esses traços em uma amostra representativa do gênero estudado. Para exemplificar esse nível de análise, o autor menciona a predominância de um determinado tempo verbal em textos científicos e o número significativo de orações subordinadas em gêneros jurídico-legislativos. Mas ele enfatiza que a análise nesse nível deve ir além da constatação – é necessário confrontá-la com outros níveis de análise.
Nível 2 – Análise de elementos padronizadores do texto ou textualização Esse nível está estreitamente relacionado ao nível 1 de análise linguística, visto que o complementa e o amplia. A padronização do texto, de acordo com o autor, realça o aspecto estratégico do uso convencional de elementos linguísticos em um determinado gênero e determina o modo como uma comunidade adota essas convenções. Nesse nível, constata-se a predominância de determinados elementos linguísticos como constituintes do estilo de um gênero, ampliando-se o conhecimento construído no nível 1.
Nível 3 – Análise da estrutura do texto
No nível 3, a análise ressalta o modo como os usuários de um gênero estruturam e organizam as informações em uma determinada comunidade. Como exemplo de análise nesse nível, Bhatia remete aos estudos de Swales27 sobre a estruturação retórico-discursiva de introduções de artigos científicos, que o levou a constar que a estrutura de um texto é organizada em forma de movimentos retóricos que revelam os propósitos comunicativos do gênero.
7º passo – Obtendo informações especializadas para a análise do gênero
Nesse momento, o analista confronta suas descobertas com as informações obtidas de um informante especialista, que utilize constantemente o gênero. Desse modo,
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SWALES, J. M. Aspects of article introductions. Burmingham/UK: The University of Aston, Language Studies Unid, 1981.
pode confirmar suas descobertas, validar suas intuições e compreender melhor os aspectos psicológicos do gênero estudado. Esse passo é necessário para que o investigador chegue a uma explicação que ultrapasse a mera descrição da análise: ao se valer de informações advindas de um autêntico usuário do gênero, o estudioso compreende melhor sua constituição.
O trabalho de Bhatia (1993) é muito importante para a consolidação da perspectiva sociorretórica de gêneros textuais: partindo dos estudos de Swales (1990), concebe o gênero como veículo de uma ação retórica (o propósito comunicativo) a ser realizada pelos falantes de uma língua em situação social específica.
Evidenciamos, neste capítulo, as importantes contribuições de Miller (2009, 2009a [1984], 2009b [1992]); Bazerman (2009a [2004], 2009b [1994], 2006 [1997]); Swales (1990) e Bhatia (1993), para a compreensão de gênero como ação social. Contudo, os pressupostos teóricos aqui apresentados têm por foco o estudo de gêneros mais tradicionais, em que a noção de meio28 é compreendida como um fator contextual. Por conseguinte, tais pressupostos não são suficientes para o estudo de gêneros digitais, que têm o meio virtual não apenas como fator contextual, mas como parte integrante deles.
No próximo capítulo, explicitamos os traços constituintes dos gêneros digitais e, mais especificamente, da homepage. Apresentamos também o modelo de análise bidimensional proposto por Askehave e Nielsen (2004), que leva em conta características essenciais dos textos virtuais, entre as quais a hipertextualidade, a imaterialidade e o alcance global, além de reforçar a relação intrínseca entre o meio Web e o gênero. Destacamos também aspectos da educação on-line, universo em que se insere o gênero homepage.
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Compreendemos, neste trabalho, que o meio se refere ao domínio de produção e de processamento textual em que os gêneros surgem. Trata-se de um entorno com características próprias, que definem a produção de um gênero, como a Web, por exemplo.