2.1. Aux origines du Prometrópole : l’application des suggestions du PQA- PQA-PE pour transformer une région critique
2.1.1. La conception du programme : une perspective intégrative, démocratique et durable ?
implicações na qualidade da relação amorosa e psicopatologia
Tornou-se percetível que a qualidade das relações primordiais estabelecidas nos primeiros anos de vida são um contributo importante para o desenvolvimento, promoção ou comprometimento do bem-estar físico e psicológico do indivíduo.
Neste sentido, a qualidade da relação conjugal, e em especial as relações conflituosas, têm despertado grande interesse à psicologia, uma vez que pode influenciar de forma positiva ou negativa o comportamento, equilíbrio e bem-estar psicológico dos filhos (Garcia, Marín, & Currea, 2006).
A adolescência é um período desenvolvimental caracterizado pelo desenvolvimento físico e psicológico, em que o bem-estar psicológico vai aumentando à medida que o indivíduo transita da fase inicial para a fase final, ou jovem adultícia. A maior vulnerabilidade da fase inicial pode dever-se às modificações biológicas e contextuais comprometidas por dificuldades de competências e falta de recursos para enfrentar as demais adversidades que possam ocorrer nos diferentes domínios da vida do indivíduo (Fernandes, 2007).
Ainda que existam muitas teorias que procurem descrever e compreender o bem-estar, e nenhuma chegue a um consenso na definição global, todas são unânimes ao compreender o constructo como complexo, multidimensional e que é influenciado por fatores biológicos, cognitivos, sociais e de personalidade (Remédios, 2010).
O estudo do bem-estar tem sido desenvolvido e enquadrado segundo diferentes perspectivas com base em dois constructos teóricos subjacentes: o bem- estar subjetivo e o bem-estar psicológico (Ryan & Deci, 2001).
Para Diener (1984) o bem-estar subjetivo compreende a dimensão afetiva e cognitiva. Sendo que a dimensão afetiva tem implícitos os afetos positivos e os afetos negativos. Já a dimensão cognitiva diz respeito à avaliação subjetiva que o indivíduo faz de si e da sua satisfação com a vida.
Para Carol Ryff (1989a) o bem-estar refere-se a um modelo multidimensional, mais abrangente do que a simples ideia de bem-estar, como a perceção de uma vida positiva e afetos positivos, designado de bem-estar psicológico que engloba dimensões como a autonomia, domínio do meio, crescimento pessoal, relações positivas, objetivos de vida e aceitação de si. Neste sentido, o modelo de bem-estar psicológico de Ryff (1989b) focaliza os aspetos positivos do funcionamento psicológico, desvalorizando aspetos como a doença. Para Novo (2003) trata-se de um modelo que contempla dimensões que avaliam aspetos da satisfação com a vida e a felicidade em diferentes domínios, seja pessoal, social e relacional.
Na perspectiva de Massé et al. (1998) o bem-estar psicológico não se refere simplesmente à ausência de sintomas ou reações negativas, como autodepreciação, ansiedade ou depressão, mas à presença de sinais de felicidade, autoestima, autocontrolo, equilíbrio mental, sociabilidade e envolvimento social manifestados pelo indivíduo.
Deste modo, o bem-estar psicológico não diz respeito apenas à relação interior que o indivíduo desenvolve e estabelece consigo mesmo mas, também, ao envolvimento positivo que estabelece com os outros. Para o indivíduo manifestar uma boa saúde mental é condição sine qua non manter boas relações de sociabilidade, motivação e envolvimento, principalmente com aqueles mais próximos de si (Massé, et al., 1998).
Neste sentido, a presença de conflitos numa família poderá ser percecionada como natural e a capacidade de resolução pode apresentar-se como um facto que pode ajudar no crescimento emocional, uma vez que é importante que os indivíduos ao longo do seu desenvolvimento tomem contacto com a existência de dificuldades que devem ser discutidas e resolvidas em prol do seu bem-estar e ajustamento psicológico (Benetti, 2006).
Os conflitos interparentais têm implícitas particularidades que podem diminuir a qualidade do funcionamento familiar, uma vez que quando não ultrapassados condicionam a oportunidade para os filhos aprenderem a resolver eficazmente problemas, ou mesmo comprometer o desenvolvimento de estratégias de resolução. Acresce ainda o facto de lograrem reduzir a perceção da capacidade de comunicação e suporte parental, suscitar o estabelecimento de alianças disfuncionais entre os adolescentes e os pais, além de reduzirem a experiência de possibilitar, aos jovens,
perceber a família como um sistema coeso e de suporte (Unger, Brown, Tressell, & McLeod, 2000).
O conflito interparental ocorre com frequência em algumas famílias, cujas repercussões muitas vezes são claramente percebidas pelas reações comportamentais dos filhos do casal. Neste sentido, a exposição dos filhos aos conflitos do casal pode resultar em danos emocionais e comportamentais como a exteriorização, refletida por elevados níveis de agressividade. Contrariamente, quando os filhos são expostos a comportamentos construtivos e a emoções positivas na resolução de conflitos, tem-se verificado que os filhos manifestam baixos níveis de agressividade. Deste modo, as diferentes respostas comportamentais dos filhos à exposição de conflitos interparentais depende da forma como os pais gerem e resolvem as suas diferenças, das estratégias de resolução e dos padrões de conflitos (Cummings, Goeke-Morey, & Papp, 2004). Para além de que os efeitos nocivos da exposição aos conflitos podem não depender necessariamente da intensidade do conflito, mas sim da capacidade, características internas e resiliência dos indivíduos (Benetti, 2006).
Segundo Moura e Matos (2008) independentemente da configuração familiar, a existência de conflitos interparentais, não resolvidos, tem um efeito negativo na qualidade da relação entre pais e filhos. Deste modo, o conflito parental parece ser um aspeto importante nas relações familiares. A existência de conflitos interparentais, não resolvidos, inadvertidamente afeta os filhos e a longo prazo fragiliza a estabilidade e coesão do ambiente familiar.
Autores como Mota e Matos (2009) referem que o conflito interparental, mais do que o divórcio, pode predizer a qualidade do desenvolvimento, adaptação e resiliência dos jovens, uma vez que se tem verificado que filhos de pais divorciados, que presenciaram baixos níveis de conflito interparental, apresentaram uma maior capacidade de resiliência, comparativamente com filhos de famílias intactas com elevados níveis de conflito interparental.
Jovens de famílias intactas que presenciam elevados níveis de conflito interparental, também, não são imunes aos problemas, sentindo-se muitas vezes envolvidos nos próprios conflitos que podem resultar em prejuízos, quer no seu bem- estar quer na qualidade das suas relações com os pais, tanto em filhos mais novos como em filhos mais velhos. Também se tem verificado que os pais, aquando dos conflitos, exercem mais pressão nas filhas para que tomem partido por uma das partes, levando a que estas se tornem mais sensíveis aos conflitos interparentais, comparativamente com os filhos rapazes (Amato & Afifi, 2006).
Neste sentido, o conflito interparental pode, também, interferir nas relações entre pais e filhos, uma vez que estes podem sentir-se forçados a tomar partido e manifestar afeto positivo apenas por uma das partes envolvidas nos conflitos, facto que pode provocar e desenvolver sentimentos de insegurança nos filhos (Walper, Kruse, Noack, & Shwarz, 2005).
No estudo de Moura e Matos (2008), com o objetivo de estudar as implicações da configuração familiar e conflito interparental na vinculação dos jovens aos pais, que contou com uma amostra de 310 jovens com idades entre os 14 e os 18 anos, verificou-se que as raparigas têm uma maior perceção relativamente à existência de conflitos interparentais, e simultaneamente, também se sentem mais ameaçadas pelos conflitos comparativamente com os rapazes. No que diz respeito à configuração familiar, os filhos de famílias divorciadas revelaram uma menor qualidade do vínculo emocional ao pai, e também percecionaram maiores níveis de conflito antes do divórcio dos pais, comparativamente com a menor perceção de conflitos pelos jovens provenientes de famílias intactas.
Conflitos interparentais que envolvam principalmente o recurso à violência física e verbal têm efeitos negativos no desenvolvimento emocional, cognitivo e social dos filhos. Deste modo, o conflito interparental de carácter pejorativo, para os filhos, deve ter em conta a intensidade, frequência, conteúdo, estratégias de resolução e a expressão do conflito, que pode ser de forma aberta ou camuflada (Benetti, 2006).
A existência ou ausência de conflitos interparentais, assim como a gestão da separação pelos elementos do casal, são aspetos determinantes na forma como os filhos se adaptam à nova realidade. Jovens que presenciam elevados níveis de conflitos interparentais, encontram-se mais susceptíveis a manifestarem dificuldades de ajustamento. Os conflitos interparentais podem, também, refletir-se no bem-estar psicológico dos filhos, particularmente ao nível da autoestima (Mota & Matos, 2009).
Muitas vezes a existência de um ambiente familiar conflituoso pode apresentar- se como uma variável de risco no desenvolvimento de problemas, tanto internos como externos, nos filhos do casal (Castillo, 2007).
A existência de conflitos interparentais pode levar a uma diminuição da qualidade das relações parentais, estas por sua vez podem provocar alterações e influenciar a relação entre pais e filhos, comprometendo o bem-estar dos mesmos, mais do que propriamente a existência de conflitos. Assim, as evidências sugerem que pode não ser a simples ocorrência de conflitos que afetam o bem-estar e o desenvolvimento de sintomatologia depressiva, mas sim a qualidade dos conflitos e o impacto que estes têm nos filhos, em interação com as suas características individuais como o seu estilo cognitivo (O’Donnell, Moreau, Cardemil, & Pollastei, 2010).
A presença dos filhos aquando do conflito entre os progenitores pode originar um estado de desajuste emocional, desenvolvendo nestes elevados níveis de ansiedade, frustração, raiva, auto-culpabilidade, baixa autoestima e afeto deprimido interferindo assim no seu processo de desenvolvimento psicossocial (Benetti, 2006).
Os comportamentos observados no seio familiar têm sido relacionados com o tipo de comportamentos que os filhos extrapolam para as relações que vão estabelecendo e desenvolvendo fora da família, nomeadamente no que se refere ao estabelecimento de relações amorosas. Deste modo, existem alguns fatores passíveis de constituir um entrave no desenvolvimento da qualidade da vinculação com os pais, o que poderá ter efeito na qualidade das relações amorosas. Um exemplo constitui a perceção dos jovens relativamente à existência de conflitos interparentais, uma vez que estes podem, de certo modo, predizer reações e comportamentos posteriores na sua relação com os pais, irmãos e mesmo parceiro romântico (Reese-Weber & Kahn, 2005).
Para além disso, a frequência, intensidade e forma como os pais resolvem os conflitos, podem resultar em consequências nas relações de intimidade que o jovem mais tarde desenvolve na vida adulta. Os padrões destrutivos de comportamentos observados no seio familiar podem ser reproduzidos mais tarde e ameaçar negativamente quer o bem-estar emocional do sujeito quer, por sua vez, o bem-estar emocional do parceiro amoroso, bem como a qualidade dos padrões comunicacionais estabelecidos entre os parceiros românticos (Herzog & Coney, 2002).
De acordo com Bragado, Bersabé e Carrasco (1999) os conflitos interparentais podem apresentar-se como um dos fatores de risco para o desenvolvimento de psicopatologia em adolescentes e jovens adultos.
O estudo de Castillo (2007), com o objetivo de averiguar variáveis de risco do contexto familiar no desenvolvimento e adaptação dos filhos, numa amostra de 200 crianças e adolescentes, revela que os sujeitos que apresentam maiores problemas de comportamento e agressividade são provenientes de famílias cujos conflitos interparentais acontecem frequentemente, principalmente no que se refere a filhos do género masculino.
Os resultados da investigação de Garcia, Marín e Currea (2006) que contou com uma amostra de 256 famílias constituídas pelos pais e filhos adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos de idade, com o objetivo de identificar características das relações parentais preditoras do ajustamento psicológico dos filhos, tornaram evidente que a existência de conflitos entre o casal se encontra associada ao desenvolvimento de problemas de internalização nos filhos, como ansiedade e depressão, e de externalização como problemas de conduta agressiva.
Unger, Brown, Tressell e McLeod (2000), num estudo realizado com uma amostra de 107 adolescentes com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos de idade, provenientes de famílias intactas e divorciadas, com o objetivo de estudar o funcionamento familiar e a influência dos conflitos interparentais no ajustamento psicológico dos filhos, sugerem que os conflitos interparentais têm estreita relação com o humor deprimido dos filhos, tanto provenientes de famílias intactas como divorciadas. Esta relação parece ser mais problemática nas filhas comparativamente com os filhos, enquanto estes tendem a desenvolver mais problemas de externalização.
Segundo o estudo longitudinal de Chango, McElhaney e Allen (2009), com 184 adolescentes, cujo objetivo foi relacionar a organização da vinculação e padrões de resolução de conflitos no grupo de pares e o desenvolvimento de psicopatologia, verificou que os adolescentes mais preocupados manifestam maior risco de desenvolverem sintomas depressivos comparativamente com adolescentes menos preocupados. Embora o estudo não faça referência aos motivos da preocupação, torna claro que a procura de apoio pode ajudar ou agravar os sintomas tendo em conta o tipo de apoio que os demais lhe fornecem.
Para O’Donnell, Moreau, Cardemil, e Pollastei (2010) o desenvolvimento de sintomatologia depressiva pode resultar de alterações negativas no ambiente familiar com o surgimento de conflitos parentais, em interação com um estilo cognitivo pessimista dos filhos. Em crianças com maior capacidade de resiliência tem sido verificado um menor impacto dos conflitos interparentais
No estudo de Lemos (2010), que contou com uma amostra de 63 adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos com um percurso delinquente, constatou-se que a falta de envolvimento, negligencia, fraca supervisão das figuras parentais e conflitos interparentais podem ser fatores preditores do comportamento antissocial e desenvolvimento de psicopatologia. No que se refere à presença de conflitos interparentais, os jovens que relatam a existência de conflitos interparentais apresentaram índices elevados de psicopatologia, contrariamente aos jovens que não percecionam a existência de conflitos entre os pais.
Autores como Unger, Brown, Tressell, e McLeod (2000) enfatizam a importância de se realizarem estudos, relativamente aos efeitos dos conflitos interparentais, uma vez que podem apresentam-se como uma mais-valia para se desenvolverem programas de intervenção e prevenção em adolescentes em risco de desenvolverem depressão, de modo a que estes sejam ensinados a desenvolverem estratégias de coping para lidarem com as suas perceções, medos e cognições negativas de que os conflitos interparentais podem levar ao fim da estrutura familiar. O
casal também pode ser auxiliado a desenvolver técnicas de resolução de conflitos, bem como ensinados a limitarem as suas discussões em ocasiões que os filhos estejam ausentes.
Capítulo III – Transições familiares no processo desenvolvimental dos