Chapitre 3 : Problématique et méthode de la thèse
3.1 Conflits et Efforts de réconciliation en RD Congo
3.1.4 Bilan des conflits et des efforts de démocratisation et de réconciliation en
Antes de prosseguir com o tema proposto é necessário que falemos um pou- co sobre a inveja.
De acordo com a teoria kleiniana, “a inveja é a tendência a estabelecer rela- ções hostis com o objeto bom – não com o objeto mau, temido e persecutório. O objeto que promove a satisfação dos impulsos libidinais é atacado, como que por engano, mas na verdade porque é bom” (HINSHELWOOD, 1991, p.171). Klein relaciona a inveja à voracidade oral, que seria primeiramente dirigida ao seio nutridor. Nesse sentido, obser- vamos que o ressentimento pode ter como ponto de partida o momento da percepção de que existe algo exterior ao sujeito que contém algo muito valorizado e, portanto, deseja- do. A inveja envolve o reconhecimento da necessidade de algo e o impulso em direção
ao objeto capaz de suprir essa necessidade; envolve também o ataque a esse objeto e à capacidade de percebê-lo.
No fusionamento dos instintos de vida e morte, a predominância do primeiro provavelmente resultará no estabelecimento de relações de objeto bem-sucedidas, pois a discriminação entre objetos bons e maus, proporcionada pela supremacia do instinto de vida, permitirá que o bom objeto se mantenha separado do mau objeto e ele poderá então ser introjetado sem danos. “No desenvolvimento normal, uma forma de cisão normal separa o bom objeto do mau para que o processo de integração do ego baseado no amor e proteção ao bom objeto possa acontecer.” (Ibid, p. 171) Ao contrário, se os impulsos de morte predominam, essas relações serão perturbadas, pois a forma saudável de cisão entre objetos bons e maus é destruída e a confusão entre objetos e impulsos bons e maus se mantém. “O bebê que, devido à intensidade de mecanismos paranóides e esquizóides e ao ímpeto da inveja, não consegue bem sucedidamente dividir e manter separados o amor e o ódio, e portanto, o objeto bom do objeto mau, está sujeito a sentir-se confuso entre o que é bom e o que é mau em outros contextos.” (KLEIN, 1985, p. 216)
O termo inveja deriva da palavra latina invidia e, de acordo com Antenor Nascentes (1932, p. 433), significa “vontade de não ver, por despeito”. Esta definição suscita uma questão de grande importância: o que é que não se quer ver por despeito? Ainda dentro da teoria kleiniana, podemos dizer que é a percepção de ser separado do bom objeto. Tal percepção, que provoca a inveja, é intolerável – é melhor não ver! E a in- tolerância de ser dependente, porque necessitado de algo que não se possui, e ao mesmo tempo, de ser separado do bom objeto, leva à confusão (mistura) com o bom objeto pelo uso do mecanismo de identificação projetiva.
A constatação – pelo olhar? – de que outro alguém é possuidor ou desfruta de algo que não possuo ou de que não me é dado desfrutar – algo que a meus olhos
tem o estatuto de completude – dá origem a esse sentimento invejoso, de acordo com Scheler, um dos afetos/emoções que compõem a constelação afetiva do ressentimento. Mezan, numa passagem de seu artigo intitulado “Inveja”, diz: “O objeto invejado é invariavelmente um objeto idealizado, isto é, sobrevalorizado, no qual se supõe conter atributos extraordinários, quase mágicos” (MEZAN, 1988, p. 126). Mais adiante, citan- do Klein, ele diz:
... o objeto idealizado possui, segundo Klein, a propriedade de bastar-se a si mesmo, e também de deleitar-se com sua própria perfeição. É o caso do seio idealizado, imaginariamente capaz de produzir leite em quantidades infinitas e ilimitadas, e ainda de usufruir de todo o prazer que este leite pode proporcionar. O que caracteriza o seio idealizado (e, aliás o torna objeto de inveja, segundo Klein) é a capacidade de engendrar a partir de si mesmo, o que é uma variante da capacidade de se auto-engendrar, ca- pacidade esta que é o conteúdo de uma das principais fantasias narcísicas repertoriadas pela psicanálise. (Ibid, p. 130)
Partindo então da idealização, continuemos no caminho feito por Mezan no artigo citado. Limito-me aqui àquilo que considerei essencial à compreensão da inveja, porque, ainda que o trajeto seja muito interessante, o caminho é longo e nosso assunto não é esse. O autor estabelece a conexão existente entre o narcisismo e o objeto ideali- zado e, portanto, invejado porque possuidor de toda perfeição. Já dissemos antes que o desenvolvimento do Eu consiste num distanciamento do narcisismo primário, ou seja, que o investimento libidinal será deslocado para outros objetos: “Estes se convertem as- sim em duplos do indivíduo, ou melhor, em duplos de seu Ego Ideal: são precisamente os objetos idealizados, cuja característica é a de serem, como vimos, concebidos como per- feitos” (Ibid, p. 126). Como podemos deduzir, esses objetos idealizados são concebidos como perfeitos porque trazem a marca da completude que um dia foi fantasisticamente vivida pelo bebê e que agora é projetada no objeto – é o narcisismo primário revivido e
invejado. Essa fantasia de completude nos remete a um desejo compartilhado por todos os seres humanos, que é o de retorno àquele momento primitivo de totalidade, retorno impossível e por isso mesmo sempre desejado.
Retomando o que dissemos até aqui sobre a inveja, vemos sua importância para a compreensão da constelação afetiva do ressentimento; observamos sua relação com a voracidade oral, o que nos leva à hipótese deste trabalho de que o ressentimento se origina, em última instância, de uma falha narcísica que tem origem nestes momentos mais primitivos da vida, quero dizer, a oralidade.
Outro aspecto a ser destacado é o da importância da prevalência dos instin- tos destrutivos nos casos em que a inveja impossibilita a boa introjeção do bom objeto fazendo com que, defensivamente, o mecanismo da identificação projetiva entre em funcionamento, o que leva a uma confusão entre o sujeito e o bom objeto, eliminando fantasisticamente os limites e as diferenças.
A idealização presente na inveja e no ressentimento é também de grande importância: Kancyper (1994) atribui à idealização, à recusa da realidade e à agressivi- dade a serviço dos impulsos destrutivos o reforçamento na continuidade da relação in- discriminada no vínculo objetal. Kancyper, neste momento, refere-se ao ressentimento. Mezan também se refere à idealização como mecanismo imprescindível no surgimento do impulso invejoso.
O caráter agressivo tanto no ressentimento quanto na inveja não poderia dei- xar de ser notado, com a diferença de que o impulso invejoso, segundo Klein, tende a destruir o objeto na sua capacidade criativa e de gozo, enquanto o impulso ressentido, ao contrário, não visa destruir o objeto, mas sim castigá-lo.