A 25 de Agosto de 1900 morria em Weimar Frederico Nietzsche, havia onze anos mergulhado no torpor da loucura. A notícia expandiu-se célere pelos quatro cantos do mundo civilizado e a imprensa portuguesa, fazendo-se eco dos despachos das agências noticiosas estrangeiras, também deu relevo ao infausto evento. Dado parecer-me ter sido esse relevo decisivo para um maior interesse, por parte da
intelligentsia portuguesa, pela obra do finado de Weimar, creio ser relevante
apresentar uma resenha do modo como a sua morte foi noticiada entre nós. Começando pelos jornais da capital, constata-se que o Correio da Noite, conotado com o partido progressista, dava, na sua edição de 29 de Agosto, e em nota anónima, a notícia do falecimento do filósofo. A nota, sem título algum a encimá-la, começa de forma lacónica: "Morreu o filósofo alemão Frederico Nietzsche". Elucida depois o leitor de que o "pobre louco" foi definhando lenta e progressivamente, privado da sua luz da razão, consequência de uma paralisia total. O periódico lisboeta procede, em seguida, à caracterização tanto do defunto como da sua obra e do seu pensamento. Dos dados biográficos do autor de Jenseits von Gut und Bõse destacam-se as suas \ Cf. Diário de Lisboa, 22-VI-1926, p. 2.
pretensas origens polacas. É referido, não tanto como filósofo, pois não era titular de um pensamento "rígido", mas como "poeta devaneador" e sonhador, cujas fantasias o induziram a idealizar, para o homem de amanhã, um estado tão superior, que o porá, relativamente ao homem de hoje, à mesma distância a que este se encontra relativamente ao simples animal. O interesse de Nietzsche pela vida ditou-lhe capítulos autenticamente sublimes. Quanto aos livros que escreveu, eles tornaram-se "muito conhecidos, tanto dentro como fora do país" e "começaram a perpetuar-lhe o nome, antes mesmo, muito antes de a terra lhe comer o cadáver". A notícia só refere três. Em primeiro lugar Ricardo Wagner em Beyruth [sic], obra "que produziu muita impressão" e onde eram exaltadas "as qualidades do célebre músico". Depois é referido um livro publicado por volta de 1882, logo a seguir à recuperação de uma oftalmia gravíssima, e no qual Nietzsche "expôs, por completo, todas as ideias essenciais para a filosofia definitiva". Não é mencionado o título do livro, mas trata-se, sem sombra de dúvida, de Die Frõhliche Wissenschaft, aparecido em Agosto de 1882. E finalmente
Para Além do Bem e do Mal, "que foi talvez de todas as suas obras a que mais
contradições levantou". Não é mencionado o conteúdo da obra e, por isso, também não são aduzidos os motivos que provocaram essas "contradições".
Na notícia em análise é dado particular destaque ao relacionamento de Nietzsche e Wagner, inicialmente de íntima amizade e que inspirou "apaixonados" elogios ao "grande maestro", mas que depois evoluiu progressivamente para uma nítida hostilidade, expressa em críticas violentas, desembocando num corte radical. Para esse corte não são aduzidas razões conclusivas. Afirma-se que tanto se pode ter tratado de intolerância de temperamentos, como de pretensões, por parte de Nietzsche, de também se fazer passar por compositor, o que para Wagner era perfeitamente intolerável. Maneira simplista de analisar o complexo problema do conflito entre os dois génios. E a notícia encerra recordando o colapso verificado em Turim, em 1889,
manifestação da loucura incurável, a qual confinou o filósofo aos "cuidados da sua mãe eirma junto das quais morreu .
Também o Novidades, do mesmo dia, 29 de Agosto, dá a notícia da morte de Nietzsche, a duas meias colunas, iniciando-a da seguinte maneira:
"Faleceu em Berlim o extraordinário filósofo Frederico Guilherme Nietzsche, cujo nome era universalmente conhecido e respeitado, embora sejam poderosíssimas as correntes contrárias às doutrinas do seu ilustre possuidor."
É apresentada em seguida uma curta biografia do ilustre desaparecido, eivada de inexactidões, tanto no que diz respeito a datas como na grafia dos nomes alemães. Tal como o Correio da Noite, também o Novidades refere o bom relacionamento inicial entre Nietzsche e R. Wagner e os motivos que mais tarde ditaram o corte dessas mesmas relações:
"Diz-se que as ideias representadas pelo Parsifal foram o pomo da discórdia entre os dois altos e luminosos espíritos. Tudo, porém, leva a crer que a ruptura foi motivada por uma questão de carácter pessoal. Nietzsche, aos olhos de Wagner, queria fazer-se passar, além de filósofo, por músico e compositor. Wagner não o admitiu como tal e irritou-se. Daí o corte de relações."
São depois emitidos alguns juízos crítico-valorativos de determinadas obras. Assim, relativamente a Menschliches, Allzumenschliches, diz-se estarmos perante um "trabalho dum cérebro em via de desenvolvimento e a marcha dum espírito que só avançava por intuições e observações morais." Quanto a Also sprach Zarathustra, informa-se o leitor de que se está face a um "poema em prosa, em que as ideias do \ Isto não é totalmente exacto, pois a mãe de Nietzsche já tinha falecido a 20 de Abril de 1897. 2. Sabemos que Nietzsche faleceu em Weimar e não em Berlim. O redactor da notícia com certeza que se deixou induzir em erro pela proveniência do despacho da agência noticiosa.
filósofo são expostas sob a forma de meditações e de discursos satíricos ou líricos atribuídos ao profeta Zarathustra. " Sublinha-se igualmente o apelo lançado pelo autor para que se faça uma "completa transformação das ideias morais e das relações de direito actuais" e que se proceda "à ruptura com toda e qualquer doutrina religiosa ou filosófica tradicional". Finalmente destaca-se o conceito fundamental do livro, o "Ùbermensch", "produto natural do desenvolvimento da sociedade, um novo ser superior ao homem, como o homem o foi aos animais." Esta exposição valorativa alargada da obra e a citação do título no original alemão levam-me a crer que se tratava do mais conhecido trabalho de Nietzsche, e que do seu conteúdo os conceitos de Homem Superior e de Transmutação de Valores eram os que mais intensamente tinham interpelado os leitores. Com excepção de Also sprach Zarathustra e de
Menschliches, Allzumenschliches, todos os outros títulos são referenciados na sua
tradução portuguesa. É o caso de A Filosofia na Idade Trágica da Grécia, A Origem
da Tragédia ou o Helenismo e o Pessimismo, Schopenhauer como Educador e Ricardo Wagner em Bayreuth. É de concluir que estamos perante obras ainda pouco
divulgadas entre nós.
A notícia do Novidades é repetida no dia seguinte, quase ipsis verbis, pelo jornal republicano A Pátria, dirigido por França Borges e antecessor de O Mundo. Outros dois diários lisboetas do dia 29 de Agosto põem os seus leitores ao corrente da morte de Nietzsche. A Tarde refere-se em termos encomiásticos à obra e ao pensamento do finado. A notícia abre da seguinte maneira: "Acaba de falecer este extraordinário pensador alemão que deixa na sua memória obras de uma valia inconfundível." Quanto às coordenadas do seu pensamento elucida o leitor, embora de maneira confusa e atabalhoada, de que
"A ideia que Nietzsche desenvolveu no tema dos seus livros foi a filosofia em vida pelo trabalho ou, como ele próprio escreveu, a moral
dos fortes. Dela adviria, segundo o exposto pelo ilustre pensador, o
sobrehomem, que seria entre a espécie humana uma camada superior pela sua inteligência aliada a uma perfeição suprema de carácter, a uma alma constituída por todos os princípios decisivos de uma moral tipo."
É-nos difícil determinar se este fascínio pela obra e pelo pensamento do autor de
Aurora, patente no desenrolar da notícia, é já veiculado pelo despacho noticioso, cuja
má tradução é provavelmente responsável pelo português pouco escorreito, ou se é da vivência do próprio jornalista que elaborou a notícia para o leitor português. Também aqui é referenciado o relacionamento de Nietzsche com Wagner. Quanto à obra são citados só dois títulos, Au-delà du Bien et du Mal e Fondements de la Morale. A indicação dos títulos em francês é prova inegável de que o redactor da notícia a recebeu de fonte francesa e de que, portanto, a França continuava a ser a grande via de penetração em Portugal das componentes das culturas europeias, em geral, e da obra de Nietzsche, em particular. O Dia, outro diário lisboeta, encima a notícia com o simples nome do pensador: "Frederico Nietzsche". O autor anónimo que a redigiu começa por elucidar o leitor de que Nietzsche enfileira "na série de escritores que, por excentricidade de ideias e de temperamento, mais se destacaram no século findo". Fica-se, pois, a saber que estamos perante um "excêntrico". É-se também informado sobre as fontes em que o jovem Nietzsche hauriu o seu credo filosófico e estético, o primeiro em Schopenhauer, o segundo em Wagner. Fontes que mais tarde desertaria. Vem depois a resenha dos seus livros, os quais são classificados de "apreciáveis":
A Filosofia na Idade Trágica da Grécia; A Origem da Tragédia; Schopenhauer, YLducador; Ricardo Wagner em Bayreuth. Refere-se ter Nietzsche passado em seguida
"para o campo dos aforismos, publicando dois livros que provocaram grossa controvérsia no mundo intelectual. " Contudo não nos é dito de que livros se trata. O resto da notícia é um escorço de Also sprach Zarathustra, titulado em alemão, em contraste com os outros títulos, que são fornecidos em tradução portuguesa. Estamos
perante "um poema em prosa de extravagantes conceitos em que esse pensador
excêntrico condensou as suas ideias", as quais pretendem transformar "as ideias
morais e as revelações actuais do Direito" e romper "com toda a doutrina religiosa ou filosófica tradicional." Outro conceito central da obra é o do "sobrehomem", "produto natural do desenvolvimento da humanidade actual", cujo corolário é a "luta pela vida", conducente à "apoteose dos fortes, ou à moral dos mais fortes". A identidade na maneira de expor o conteúdo de Also sprach Zarathustra em Novidades e em O Dia aponta para uma fonte comum de informação. O leitor é ainda posto de sobreaviso contra a "incoerência" das ideias aí expostas. E o redactor da notícia termina-a com uma referência à eventual relação existente entre génio e névrose:
"Há quem lhe atribua génio; se o génio é uma névrose, como pretendem os adeptos da nova escola psicológica, triste névrose foi essa que levou o pobre Nietzsche à loucura e à morte e a sua obra apenas a uma categoria de curiosidade que talvez não dure muito" .
Receoso de que não saia certo o seu prognóstico quanto ao carácter efémero da obra, o autor acha por bem acrescentar: "E daí quem sabe? Nós caminhamos, ao que parece, para o Absurdo, empurrados pela ânsia de novidade em tudo, desde a estética até à teologia." Estamos perante um relato eloquentemente revelador de quão complexa era, e ainda é, a abordagem do pensamento nietzschiano. Atributos, por vezes contraditórios, como "livros apreciáveis", "extravagantes conceitos", "pensador excêntrico", "incoerência", "pobre Nietzsche", são disso revelação evidente. Trata-se, contudo, de um relato que é já um verdadeiro epitome, onde encontramos compendiado o essencial da obra do arauto do Homem Superior.
1. O itálico é meu.
2. Referência, com certeza, a Cesare Lombroso (1836-1909), cuja obra Génio e Follia (1864)
Também O Século não deixa passar em claro o infausto evento. Na sua edição do dia 28 faz-se eco dum telegrama lacónico vindo de Paris: "Toda a imprensa lamenta a morte de Nietzsche a quem considera o apóstolo da dignidade humana e maravilhoso poeta."
Finalmente a revista Arte Musical insere também uma notícia necrológica informando o leitor de que
"sucumbiu em Weimar, depois de longa e penível doença mental, o grande filósofo alemão Frederico Nietzsche, cujas estranhas ideias e particularmente a teoria sobre q homem do futuro, ocuparam muito a crítica durante os últimos anos" .
É ainda referida a amizade reinante entre o filósofo e Wagner, sendo o corte explicado pelo facto de este último não ter aceite as composições musicais que Nietzsche lhe enviava. Para o redactor da notícia, Nietzsche, enquanto filósofo, merece o atributo de "grande", mas quanto às suas ideias, elas não deixam de ser "estranhas".
Respigando os juízos sobre Nietzsche e sua obra esparsos nestas notícias necrológicas dos periódicos lisboetas, ressalta o desencontro que os caracteriza, indo do encómio mais rasgado à reserva mais cautelosa, testemunhos do sinal de contradição em que Nietzsche se havia tornado.
Quanto aos jornais do Porto três deles fizeram-se eco do acontecimento:
O Diário da Tarde, A Voz Pública e O Primeiro de Janeiro.
O Diário da Tarde, de 29 de Agosto, pela pena de João Grave [1872-
-1934] , responsável pela secção "Notas a lápis", que ele assinava com o pseudónimo
1. Arte Musical, Lisboa, n.° 41, 15 de Setembro de 1900, p. 136.
2. João Grave foi membro da Academia das Ciências de Lisboa e sucedeu a Sampaio Bruno como
director da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Nessa qualidade reproduziu e interpretou muitos dos seus manuscritos inéditos. Deixou também variados trabalhos de biblioteconomia. Jornalista, poeta, romancista e autor didático, a sua obra reveste um cunho regionalista, populista e historicista. Colaborou profusamente em Serões, A Província, Diário de Notícias, O Século, Diário da Tarde,
de Alfa & Omega, torna público o falecimento do "grande filósofo". Lembra que depois de ter sido discípulo de Schopenhauer e de Wagner, "os dois grandes pessimistas deste século", Nietzsche os repudia, "proclamando uma ética nova, uma ética que diz sim à vida, que vai até ao fundo da moral da renúncia e da piedade, a degenerescência cristã". Explana em seguida, em traços muito sumários, a filosofia do "Ûbermensch", do "homem supremo", e compendia o vitalismo nietzschiano nos seguintes termos:
"Diante de todos esses pessimistas que nos dizem que o seu reino não é deste mundo, que inventaram o paraíso cristão e que encontraram o Nirvana budista, o grande morto proclama a filosofia da terra e do instinto vital e criou essa grave e simples verdade de que, se a vida nos faz sofrer, não é porque ela não valha alguma coisa, mas sim porque
somos muito doentes."
Um pouco contra a corrente, João Grave apresenta-nos um Nietzsche profeta do anti- pessimismo. Lembra que é sobretudo em Also sprach Zaratustra que esta doutrina se
Ilustração Moderna, entre outros. Da sua bibliografia merecem particular destaque: Macieiras em Flor (1897), Os Famintos (1903), A Eterna Mentira (1904), O Ultimo Fauno (1906), A Anarquia, Fins e Meios (1907), Gente Pobre (1912), O Mutilado (1918). Vitória de Parsifal (1919), S. Frei Gil de Santarém, O homem do Diabo e de Deus (1923). Os Famintos e Gente Pobre inserem-se no ciclo da escola naturalista. O Mutilado é o primeiro romance aparecido entre nós tendo como tema a I Guerra Mundial. Devemos-lhe também a tradução de A Religiosa, de Diderot, e A Dama das Camélias, de A. Dumas, Filho.
Nascido em Vagos, é aqui que lança raízes o seu regionalismo: "é daqui - desta simbiose entre a pobreza da gente e o regalo sensorial da paisagem - que Grave leva a sensibilidade e a retentiva da infusão para a vida; é da vivência cinzenta do seu lar que ele arrasta, consigo, a fidelidade à progénie; e é com as raízes enterradas neste torrão que ele, contra todos os ventos e marés, e incorporado nos mais variados climas humanos, artificialmente perfumados, consegue ficar fiel, pela vida fora, ao odor rescendente das giestas que enfeitam os pinhais, e ao cheiro penetrante das madressilvas que trepam pelas paredes corroídas acima sem, e ao mesmo tempo, enjeitar o travo da terra da raiz, nem a agressividade dos tojos que lhe morderam os pés." (Frederico de Moura, "João Grave - escritor fiel à raiz", in Aveiro e o seu distrito, n.° 19, 1975, p. 42). João Grave revela-se, em alguns dos seus livros, um naturalista - o naturalismo encontra nele "o seu último epígono portuense apreciável" (Óscar Lopes, História Literária do Porto, Porto, Leitura-Arte, 1979, p. 17) - mas pode ser também considerado, em múltiplos aspectos, como um precursor da literatura neo-realista, sobretudo pelo estilo e pela análise psicológica. Cf. Dicionário da Literatura, direcção de Jacinto Prado Coelho, Porto, Figueirinhas, 3.a ed., 1979, pp. 377, 876 e 952.
encontra explanada e que é aí que Nietzsche se revela mais como moralista do que como filósofo. Mas João Grave mostra não estar ainda bastante familiarizado com o novo pensamento, quando afirma que "é simplesmente como moralista que Nietzsche se contará no pensamento europeu deste século." Estamos efectivamente perante uma
boutade denunciadora dum conhecimento ainda fragmentário e superficial da obra do
eremita de Sils-Maria. Isso mesmo o prova também a afirmação com que termina a notícia necrológica, de que foi "ao corrigir as provas de Zaratustra" que Nietzsche "foi atacado por uma febre cerebral que lhe matou a poderosa luz da sua inteligência."
A Voz Pública do mesmo dia 29 de Agosto, numa breve local anónima, veicula
igualmente a notícia do falecimento do filósofo: "Morreu este grande pensador que há anos se encontrava louco." Informa, em seguida, o leitor de que se está perante um "ilustre espírito que exaltou até ao lirismo o princípio da luta pela vida, do qual deduziu uma moral dos fortes em contra [sic] do princípio da renúncia do Cristianismo, como sendo o princípio duma moral de escravos". Do conjunto das obras de Nietzsche destaca Also sprach Zarathustra , sobre a qual somos elucidados de que o autor "nesta obra, pede, em linguagem assaz obscura, a completa transformação das ideias morais e das relações de direitos actuais, o rompimento com toda a doutrina religiosa ou filosófica tradicional." Em termos de recepção ficamos a saber que as suas ideias lhe granjearam "muitos discípulos, um dos quais é o grande escritor italiano, poeta e romancista notável, Gabriel dAnnunzio."
Finalmente O Primeiro de Janeiro, também de 29 de Agosto, regista, de igual modo, a morte de Nietzsche, encimando a notícia não assinada com a epígrafe "Nietzsche - a morte do filósofo". Depois de assinalar o crepúsculo mental do pensador, "desde 1889 que o genial espírito já não vivia, por assim dizer, porque a alienação mental o assaltara quando se achava em Turim", refere a sua morte física nos
seguintes termos: "Agora foi a morte física do famoso escritor que exaltara até ao lirismo o princípio da luta pela vida a deduzir dele uma moral dos fortes." Encontramos tanto na Voz Pública como em O Primeiro de Janeiro identidade na caracterização do pensamento nietzschiano, enquanto esforço por exaltar "até ao lirismo o princípio da luta pela vida". Também se poderia explicar esta identidade por ter sido o mesmo autor a redigir a notícia necrológica ou, tratando-se de redactores diferentes, ambos terem tido acesso à mesma fonte de informação. Estou convicto de que é a segunda hipótese que deve prevalecer, dado a redacção denunciar antes uma tradução que uma elaboração original.
Todos estes relatos da morte de Nietzsche revelam uma atitude positiva, e por vezes um verdadeiro fascínio até, relativamente à obra e ao seu autor. Ele é o extraordinário e grande filósofo, universalmente conhecido e respeitado, grande e extraordinário pensador, ilustre e genial espírito e famoso escritor. E as suas obras são duma valia inconfundível. Por outro lado damo-nos conta de que já então Also sprach
Zarathustra era o mais conhecido dos seus livros e que o vitalismo subjacente ao
mesmo, encarnado na doutrina do Homem Superior e da Moral dos Senhores, era o que mais ressaltava aos olhos dos leitores.