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TRANSFERT DE PAPS PAR INCLUSION D’UN CAPILLAIRE EN MÉTAL

1 Transfert de PAPS par inclusion d’un capillaire en métal

1. TRANSFERT DE PAPS PAR INCLUSION D’UN CAPILLAIRE EN MÉTAL

Na coleção de Elmano Cunha e Costa nota-se uma vontade e um empenho em realizar um inventário rigoroso dos vários “tipos” que habitavam Angola, fotografando-os categoricamente (como mandavam as regras da antropologia física do século XIX) em poses

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91 91 exatas (de pé ou sentados e com os braços estendidos), num fundo neutro e de diferentes ângulos (de frente, de perfil e de costas), para “melhor” captar a sua morfologia. Observe-se as fotografias que se seguem.

Figura 8: “Tipo masculino” ECC. Figura 9: “Tipo de garota” ECC.

Figura 10: “Tipo feminino” ECC. Figura 11: “Tipo de mulher” ECC.

Observando as fotografias, é possível fazer algumas analogias entre as fotografias de Cunha e Costa e a fotografia antropológica/etnográfica dos finais do século XIX, na qual o fotógrafo português Cunha Morais foi exímio. Existem, de facto, algumas semelhanças, não só na escolha dos motivos fotográficos, como também nos modos de fotografar, que vão de encontro aos cânones “científicos” da altura.

92 92 De salientar ainda que, mesmo quando o foco principal não é a fisionomia, nem as características físicas do indivíduo, Cunha e Costa optou inúmeras vezes por usar esta fórmula nos seus retratos. Por exemplo, é comum aparecerem repetições deste género: “Noiva sentada” – “A mesma em pé” – “De costas” (ACTD s/d: s/p).

Ainda sob os cânones da antropologia do século XIX, importa sublinhar que os modelos retratados encontram-se frequentemente categorizados mediante critérios de género, idade, profissão ou estatuto, além, claro, da sua classificação étnica. Trata-se, assim, de vários espécimes representativos das suas etnias, sendo comum aparecerem protótipos de um “Tipo de rapaz” ou “Tipo de garota”, “Tipo de homem” ou “Tipo feminino”, “Tipo de velho”, “Tipo de caçador indígena” etc. (ACTD s/d: s/p). Com o objetivo de divulgar a riqueza e a diversidade étnica do império, partia-se do princípio que a visualização de um indivíduo “ilustrativo” de uma determinada categoria e/ou etnia permitiria a imaginação dos restantes elementos desse grupo/etnia.

Apesar de a grande maioria destas fotografias de Cunha e Costa seguir a mesma lógica “científica” – de costas, perfil e frente, corpo inteiro, ¾ ou rosto (exemplos: “Velho visto a ¾ costas”; “O mesmo de perfil”; “Busto do mesmo” (ACTD s/d: s/p)) – encontram-se também retratos de “tipos” em poses menos exatas e mais “naturais” (ainda que quase sempre encenadas). As fotografias que se seguem são, assim, exemplificativas das diferentes poses e dos vários retratos de “tipos” fotografados segundo critérios de género (fig.12 e fig.13); idade (fig.14, fig.15, fig.16, fig.17, fig.18 e fig.19); profissão (fig.20, fig.21, fig.22 e fig.23); e estatuto (fig.24, fig.25, fig.26, fot.27, fig.28 e fig.29).

93 93 Figura 14: “Velha Cuanhama” ECC. Figura 14: “Velha Cabinda” ECC.

Figura 15: “Um Seculu do Huambo” ECC. Figura 16: “Tipo masculino” ECC.

94 94 Figura 20: “Caçadores Indígenas Luenas” ECC. Figura 21: “Carregador Ganguelas” ECC.

Figura 22: “Linda Pescadora Cuanhamas” ECC. Figura 23: ”Jovem Pastor N'Guendelengo” ECC.

95 95 Figura 26: “Soba e mulher Calandulas” ECC. Figura 27: “Os reis do Congo” ECC.

Figura 28: “A Soba Nachichulu” ECC. Figura 29: “O Soba e as sete mulheres” ECC.

Com menos frequência, aparecem também retratos de grupo, ou de vários elementos de uma etnia (exemplo Fig. 30: “Três tipos masculinos Sossos”, Fig. 31: “Rapaziada Bundos” e Fig. 33: “Grupo feminino Bundos”), bem como retratos de famílias, onde as fotografias de mães com filhos predominam, mas onde figuram também, com menos expressividade, retratos de casais (exemplo Fig. 32: ”Um casal”).

96 96 Figura 30: “Três tipos masculinos Sossos” ECC. Figura 31: “Rapaziada Bundos” ECC.

Figura 32: “Um casal” ECC. Figura 33: ”Grupo feminino Bundos” ECC.

Dentro de um cenário pretensiosamente luso-tropicalista e de miscigenação, a predileção por retratos de mães com filhos parece estar relacionada com um apelo à fertilidade e à cooperação entre colonizadores e colonizados, através da publicitação de mulheres sensuais, disponíveis para procriar. As fotografias que se seguem são exemplificativas disso mesmo.

97 97 Figura 34: “Mãe e filho Cabinda” ECC. Figura 35: “Mãe e filho Cuissis” ECC.

Figura 36: “Mulher com criança ao colo” ECC. Figura 37: “Mãe e filho N’guedelengos” ECC.

98 98 Assentando a sua identificação em categorias de género, etnia, idade, atividade profissional ou estatuto, torna-se claro que estes retratos veiculam uma perceção do “Outro” essencializada, bem como uma desindividualização do sujeito.

Com o desígnio de ilustrar a variedade étnica de Angola, denota-se, também, ao longo da coleção, uma preferência por indivíduos representados enquanto elementos de sociedades pré-coloniais, isto é, por “tipos” autênticos, exemplares “puros”, nunca nominados, que visa exacerbar as diferenças e a distância cultural a que supostamente se encontravam esses “selvagens” e “seres primitivos”, intocados pela civilização do mundo Ocidental.

Nadia Vargaftig confirma essa visão tendenciosa na coleção de Cunha e Costa:

As fotografias de Elmano Cunha e Costa revelam um cânone visual de uma África “selvagem” e de povos que não tinham, ainda, contactado com a civilização, visão essa muito explorada pelas potência coloniais europeias e que legitimava a colonização sob um pressuposto civilizacional (Vargaftig 2014: 357).

Deste modo, na coleção, chega mesmo a existir uma ou outra fotografia em que o indivíduo é reduzido à sua “selvajaria” e “primitivismo”, figurando como um “tipo” de “selvagem”, que parece querer contrastar gritantemente com o seu oposto, uma mulher “civilizada” - que surge vestida “à europeia” e a trabalhar em cima de uma mesa, servindo de exemplo aos “selvagens” e mostrando o estado de civilização que todos devem almejar. Enquanto exemplar de um indivíduo assimilado/aculturado, também ela surge desindividualizada, sem nome, e apenas como protótipo de um elemento “civilizado”. Observe-se, a título de exemplo, as fotografias nº 40 e 41.

Figura 40: “Selvagem” ECC. Figura 41: “Maiombe Civilizada” ECC.

99 99 Por outro lado, contrariando a assimilação, figuram também, nesta coleção (tal como em quase todos os documentários produzidos em contexto colonial), inúmeros retratos de mulheres fotografadas “por razões que pouco têm a ver com a missão civilizadora de Portugal, e muito mais com suas qualidades físicas e claras finalidades eróticas, oferecendo aos visitantes uma versão, pobre e barata do harén colonial” (Vargaftig 2014: 350).

Assim, importa salientar a predileção do fotógrafo por retratos de “tipos” femininos, evidenciando, não raras vezes, (mesmo quando não explícito na legenda) os seus “corpos esculturais”, através de poses encenadas ou escolha de planos (normalmente plano picado) que realcem tais atributos físicos.

O gráfico que se segue representa visualmente a distribuição dos retratos dos “tipos” por género, na coleção de Elmano Cunha e Costa.

Gráfico 2: Divisão das fotografias dos Retratos dos “tipos” por género.

Na verdade, mesmo sem contabilizar os retratos que figuram na categoria “Trajes, Penteados e Adornos”, que são maioritariamente de modelos femininos, verifica-se que os retratos de “tipos” femininos, com 936 fotografias, têm mais expressão que os retratos de “tipos” masculinos, com 749 fotografias.

São, assim, os semblantes das mulheres exóticas e as beldades com “corpos esculturais” que mais aparecem na mira de Elmano Cunha e Costa, como se pode comprovar nas fotografias a seguir representadas.

"Tipos" Masculinos "Tipos" Femininos

100 100 Figura 42: “Corpo escultural” ECC. Figura 43: “Corpo escultural” ECC.

Figura 44: “Mulher Nianeca” ECC. Figura 45: “Penteado feminino, brincos e adornos” ECC.

Ora explicitamente denunciado no título das fotografias (através de designações como “Corpo escultural” ou “Linda pescadora”), ora camuflado por outros propósitos (como a inventariação de trajes e penteados ou traços fisionómicos étnicos), na coleção fotográfica de Cunha e Costa é, de facto, difícil não constatar a carga erótica que emana de muitos retratos de corpos femininos habilmente moldados (através da pose, do ângulo ou da luz) para fazer sobressair a sua sensualidade.

101 101 1.1.2 Aspetos do Quotidiano

Os aspetos e as tarefas do quotidiano retratados, tal como os trajes típicos e as tradições locais, parecem querer vir confirmar o estado pouco civilizado das “tribos indígenas”, mostrando “usos e costumes” que parecem coadunar com esse lugar “primitivo”, pobre e que urge ser colonizado. Assim, entre as 1530 fotografias referentes a Aspetos do

Quotidiano encontram-se retratos de indivíduos “Trepando à palmeira”, ou “às árvores

(coqueiros)”, “Transportando água”, “Fazendo cestos”, ou no “Fabrico de esteiras”, “Partindo o caroço do ‘gongo’”, “Pisando o painço”, “Enfiando missangas”, “Atirando a flecha”, “Fiando algodão”, “A pilar o cereal”, “A beber água”, “A lavar no rio”, “Na lavoura”, no “Transporte de peles”, “Em plena caçada”, na “Apanha de côco”, no “Banho na lagoa”, “A carregar à cabeça”, no “Mercado indígena” ou no fabrico de “Cerâmica indígena”, na construção de máscaras ou instrumentos musicais artesanais e, por fim, resumidamente, numa “Cena primitiva” (ACTD s/d: s/p).

Quase sempre as poses são encenadas e rigorosas (como se pode comprovar nas fotografias abaixo inseridas), no entanto, existem também alguns retratos espontâneos, ou aparentemente espontâneos, de que são exemplo as fotografias nº 54, 55, 56 e 57.

102 102 Figura 48: “Cena da vida doméstica” ECC. Figura 49: “Como transportam cargas” ECC.

Figura 50: “Vida familiar” ECC. Figura 51: “Trabalhos familiares Basundi” ECC.

103 103 Figura 54: “Trabalhos no campo” ECC. Figura 55: “Vida indígena” ECC.

Figura 56: “Pilar” ECC. Figura 57: “Pirogas no Cuando” ECC.

A respeito dos “aspetos do quotidiano”, Elmano Cunha e Costa refere que aquilo que ele considera ser “a vida material dos negros” oferece “aspectos de fácil apreensão e observação” (Costa 1943: 99). Na sua opinião, aspetos “tais como as habitações, a vida familiar, as artes, as indústrias, o comércio, os trabalhos domésticos, os utensílios de lavoura, a extracção dos minérios, os trabalhos em barro e ferro, os funerais, etc.”, a imagem fixa “com vantagem, representando insubstituível a acção a fotografia e o filme cinematográfico cultural de 16 milímetros” (Costa 1943: 99).

Talvez pela simplicidade com que encarou os “aspetos” etnográficos das “tribos indígenas”, Cunha e Costa tenha optado por utilizar as mesmas categorias para todas as

104 104 “tribos” e mesmo, assim, ter a preocupação de “evitar inúteis generalizações” (Costa 1943: 100). Tal evidência reflete bem o grau de generalização a que estes povos e indivíduos foram sujeitos. Atente-se nas palavras do fotógrafo: “A fixação pela imagem dos tipos, habitações, tatuagens, etc., é indispensável, mas ainda neste particular só há que fazer o que superiormente fôr ordenado para cada tribo, para evitar inúteis repetições, uma vez que há coisas comuns” (Costa 1943: 100).

Tidos enquanto representantes do seu grupo/etnia, os seus modelos fotográficos foram, assim, frequentemente sujeitos a uma generalização ainda maior, sendo, em última instância, encarados como elementos representativos de uma “raça”.

1.1.3 Habitação

Sendo a habitação e o lugar “onde vivem” também um aspeto de “fácil apreensão” (Costa 1943: 99), Cunha e Costa reduz, praticamente, os “tipos de habitação” a “tipos de cubatas”, “aldeias indígenas”, “celeiros” e “capoeiras indígenas” (ACTD s/d: s/p). Observe- se, a título de exemplo, as fotografias que se seguem.

105 105 Figura 60: “Tipo de cubata” ECC. Figura 61: “Celeiros e cubatas Calandulas” ECC.

Assim, as habitações, tal como os seus habitantes, são catalogadas de acordo com o “tipo” que representam. De facto, e apesar do ainda considerável número de fotografias comportadas nesta categoria, Elmano Cunha e Costa limita, basicamente, os seus motivos fotográficos a vistas gerais de aldeias “indígenas” ou a “tipos” de “cubatas” segmentadas segundo a etnia das populações, não fornecendo qualquer outra informação para além da sua classificação étnica.