“(…) la nuit a inventé le temps: les nuits d’amour sont trop courtes, les nuits de souffrance interminables (…)“
Luc Bureau (1997), Géographie de la nuit. Montréal: l'Hexagone.
A noite é um espaço-tempo com características específicas e, por isso, o comportamento nos territórios das pessoas, das empresas e das instituições não é igual ao de dia.
Em primeiro lugar, a ausência da luz natural do Sol faz com que as acessibilidades no território sejam condicionadas pela presença de iluminação artificial o que contribui de forma evidente para o desenvolvimento de fromas de segregação territorial.
O facto de não haver luz natural permite que outros aspectos do território que durante o dia são neutralizados por aquilo que podemos chamar a tirania da visão possam ser colocados em evidência, como exemplos os cheiros e os sons. Ou seja, a noite permite que desfrutemos de paisagens diferentes das do dia, como a dos sons ou a dos cheiros, mas também ao nível visual.
A falta de luz natural tem implicações sobre os modos como as pessoas se sentem e se comportam. Por exemplo, embora não existam dados que associem directamente a noite a criminalidade, o que é certo é que há uma forte associação entre noite e insegurança. Digamos que a escuridão perturba as pessoas e torna-as mais sensíveis e vulneráveis. Dados apresentados no Congresso da Noite por Alina Esteves revelam que, para o caso de Portugal, não há, em geral, mais criminalidade à noite. Segundo dados do Inquérito de vitimação de 1994 levado a cabo pelo GEPMJ a nível nacional, 60% dos crimes relatados pelos inquiridos tiveram lugar no período diurno (8-20 horas), 19% ocorreram entre as 20- 24 horas, e 20% entre as 24-8 horas (Esteves 1999). Um inquérito patrocinado pela APAV à vitimação e à percepção da evolução do crime realizado, em 2002, a 1133 indivíduos residentes em 11 concelhos da AML mostrou que por questões de oportunidade, os crimes contra as pessoas são cometidos na sua maioria durante o dia (57,2% dos roubos por esticão: 9-18 horas; 51,5% dos furtos por carteirista: 9-18 horas), ao passo que os delitos
contra o património móvel ocorrem mais durante a noite (42,6% dos furtos em veículos automóveis: 21-06 horas; 64% dos furtos de veículos automóveis: 21-06 horas). Os crimes como os assaltos a casas, tanto ocorrem de dia como de noite, o elemento fundamental é facto dos assaltos ocorrerem quando as casas estão vazias. No entanto, as pessoas sentem-se mais inseguras à noite e por isso fogem dos espaços públicos.
É evidente que existem conflitos que se acentuam à noite, mas são as especificidades deste espaço–tempo que de certo modo ampliam a realidade. Muitos destes conflitos resultam da cidade ser planeada para ser vivida de dia e não ter em conta que hoje temos cada vez mais pessoas a viver de noite, porque trabalham de noite, porque estudam de noite, porque se divertem de noite. Articular no espaço vidas cada vez mais dessincronizadas levanta questões que o planeamento não tem tido capacidade de responder.
No sistema dito normal de organização do tempo, a noite é por excelência o espaço da sociabilidade na esfera privada, familiar ou não, do tempo para si, cujo uso é cada vez mais definido de uma forma individual. À noite, menos pressionadas do que durante o dia, as pessoas têm mais disponibilidade para conviver, para sociabilizar. A noite representa o tempo de descanso, da recuperação de forças para no dia seguinte estar nas melhores condições para produzir economicamente. Quando as actividades desenvolvidas durante a noite não conduzem a esta situação podem ser mal vistas do ponto social.
É durante a noite que ocorrem as atitudes mais solidárias. Por disponibilidade de tempo dos que desenvolvem acções de solidariedade ou porque a noite amplia os problemas sociais, como a exclusão, a solidão e o abandono? As iniciativas de apoio aos sem-abrigo, como a distribuição de alimentos, de roupas e agasalhos ocorrem quase sempre de noite.
Com o desenvolvimento de novos ritmos, da dessincronização dos tempos, a noite está em perigo, pois corre o risco de se transformar apenas em mais um pedaço das 24h, perdendo o que tem de específico, esvaziando-se de substância (tempo de sociabilidade, tempo para si próprio, tempo de solidariedade) e do seu valor simbólico (tempo de liberdade, sonho, criatividade, possibilidade de reinventar o dia) (Heurgon 2005).
Heurgon (2005) diz que existem várias atitudes possíveis perante a possibilidade de destruição da noite: deixar andar e adaptar-se à mercantilização da noite; resistir e organizar a defesa da noite, mostrando a sua disponibilidade; regular e impor limites ao processo de globalização. Para Heurgon (2005) como a noite não é igual ao dia há que resistir e regular. Resistir através de um efeito pedagógico em que se dá a conhecer às pessoas as perdas e ameaças que representa o desaparecimento da noite como um espaço-tempo com características específicas. Perdas que tanto são para o ambiente, as atitudes humanas, como também em termos da capacidade produtiva. Quanto à regulação a grande questão que se coloca é saber até onde se pode e deve ir nas limitações, pois a tentação de controlo por questões de segurança é enorme.
Apesar de toda a carga negativa a noite tem vindo a ganhar novas representações, mais poéticas, e que se relacionam com aspectos como a liberdade e a criatividade. Inquéritos realizados em França (Espinasse, Buhagiar 2004) demonstram que a noite é definida pelos adultos jovens como um tempo escolhido, um tempo de liberdade, enquanto o dia está associado aos constrangimentos e às obrigações. Para os mais jovens, a noite está associada a festa, sono, sexo, divertimento, negro, morte, música, droga... Para os adultos a noite significa: calma, silêncio, quietude, segunda vida, sonho, divertimento, paixão, animação, liberdade, mulher, luz, tempo para si, repouso, diversão, mistério, lua, estrelas, insegurança, metamorfose. Quer para os jovens quer para os adultos a noite raramente evoca: trabalho, estudo e razão...
A noite já não corresponde a uma suspensão do tempo, a noite é um espaço-tempo com vida, mas percepcionado de formas muito diversas. Conhecer esta diversidade ajuda-nos a compreender melhor os modos como se organizam os territórios.
Bibliografia recomendada para leitura
Heurgon E (2005) “Préserver la nuit, pour réinventer le jour” in Espinasse C; Gwiazdzinski L; Heurgon L (coord.) (2005), La nuit en question(s). Paris: Ed. l'Aube, p. 50-60.
Referências bibliográficas
APAV (2003) Projecto Cíbele: estudo sobre prevenção de crime e vitimação urbana. Lisboa: APAV.
Espinasse C; Buhagiar P (2004) Les passagers de la nuit. Vie nocturne des jeunes. Paris: Editions L'Harmattan. p. 40-52.
Esteves A (1999) A criminalidade na cidade de Lisboa: uma geografia da insegurança. Lisboa: Edições Colibri.
GEPMJ (1995) – Inquérito de Vitimação 1994. Relatório elaborado por Maria Rosa Crucho de Almeida e Ana Paula Alão. Lisboa: Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Justiça.
Paula Rego (1980) Danças,Tate Collection
(http://i175.photobucket.com/albums/w127/daniel_trienal/paula_rego.jpg)
II. COMPREENDER OS TERRITÓRIOS À NOITE
« Sur la carte diurne, c’est l’immensité du territoire qui domine [Canada]. Sur la carte nocturne, ce n’est plus qu’une mince bande lumineuse au sud du pays. La nuit a une fonction épuratrice, sélective et élective. La nuit montre là où se trouve l’homme. »