I.7. Poids et mesures
I.7.1. Rappels et remarques sur les mesures de longueur et de capacité
oferece, há uma pista que ajuda a situar Goa no quadro maior das literaturas indianas, tanto nas vernáculas quanto de língua inglesa (GARMES & CASTRO, 2014: 234-238). Os investigadores do projeto Pensando Goa argumentam o seu discurso a partir do contestadíssimo ensaio de Salman Rushdie, a introdução ao livro The Vintage book of Indian writing 1947-1997 (1997). Resumindo numa frase só os conteúdos deste ensaio, Rushdie afirma que a literatura dos autores indianos que escrevem em língua inglesa é a mais valiosa contribuição da Índia ao mundo da literatura, desclassificando, na opinião de Garmes e Castro, o resto das literaturas vernáculas indianas.65 Eles escrevem: «Existe uma tendência a considerar essas literaturas como restritas aos falantes dessas línguas, restritas aos Estados de onde emergem ou a certas origens étnico-religiosas. O adjetivo “indiano” é pouco utilizado nesse contexto» (GARMES & CASTRO, 2014: 236). Esse desvio para as outras literaturas da Índia serve aos dois investigadores para justificar o facto de utilizar a expressão literatura goesa de língua portuguesa, ao invés de literatura indiana de língua portuguesa. Eles optam por goesa porque tal termo explica, de maneira mais coerente, o vínculo com
64 Consulte-se a secção «Apresentação» na página http://goa.fflch.usp.br/.
65 Garmes e Castro reportam a refutação de Leela Gandhi aos argumentos de Salman Rushdie, no artigo «Indo-Anglian
Fiction: writing India, elite aesthetics, and the rise of the “Stephanian” novel» (1997). Para os conteúdos da refutação remete-se para o texto original de Gandhi ou o próprio texto de Garmes e Castro.
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a identidade cultural da comunidade que produziu aquela literatura: «insistir em adjetivá-la como “goesa” e não como “indiana” tem em vista a valorização do contexto privilegiado em que se pretende pensá-la» (GARMES & CASTRO, 2014: 238); porém, ao mesmo tempo, acreditam que esta se possa considerar uma literatura indiana ao par do resto das literaturas de Goa de língua concani, marata, hindi e inglês.
No contexto da história literária indiana, o debate à volta da supremacia da literatura de língua inglesa, e de um género de subordinação das literaturas vernáculas a esta, é um debate de longa data. De facto, o texto voluntária ou involuntariamente provocatório de Salman Rushdie (1997) foi bastante criticado tanto dentro quanto fora da Índia. Não é interesse desta tese incluir o resto das literaturas da Índia entre os seus objetos de investigação; não se insere nos seus objetivos, nem sequer a autora possui as competências para tratar adequadamente do assunto. No entanto, acolhendo a pista de reflexão multilinguística proposta por Garmes e Castro – bem como a de Sandra Lobo (2016) –, julga-se que observar de maneira básica e indicativa, como esse debate foi encarado no âmbito da historiografia literária indiana, pode ser complementar ao presente estudo.
As críticas endereçadas ao posicionamento de Salman Rushdie tiveram diferentes arguentes, como Leela Gandhi (1997), Sheldon Pollock (1998) e Amit Chaudhuri (2001), entre outros. Os três concordam sobre o facto de que atrás dos argumentos do autor de Midnight’s Children (1981) se esconde um discurso autorreferencial e, ao mesmo tempo, denunciam como esse tipo de discurso menospreza a literatura escrita nas línguas vernáculas,66 as bhashas – apesar do título do livro em que o ensaio de Rushdie se insere citar a expressão Indian writing. Além disso, Amit Chaudhuri, ele também escritor indiano que privilegia a língua inglesa na sua escrita criativa, citado por Somdatta Mandal (2014) para fazer o contraponto com a opinião de Rushdie, sustenta que é impossível não tomar em consideração o facto de que o desenvolvimento da literatura indiana de língua inglesa tenha acontecido simultaneamente ao desenvolvimento das literaturas vernáculas, sendo que uma produção literária alimentou outra numa constante e lucrativa concorrência (apud MANDAL, 2014: 109-110). Dessa forma, o raciocínio de Chaudhuri é muito parecido ao que Ipshita Chanda (2010) fazia relativamente à receção da literatura romântica europeia pela mediação de Tagore.
Hans Harder afirma que, à luz do papel que a língua inglesa teve na história da Índia, a literatura escrita em inglês constitui um verdadeiro desafio para a historiografia literária indiana (HARDER, 2010: 323). Harder observa, por um lado, que o inglês não é uma língua indiana, mas sim uma língua estrangeira. Aliás, esta seria não apenas uma língua estrangeira, mas a própria língua 66 Sheldon Pollock lamenta que a ascensão ao nível mundial da literatura indiana em inglês possa ser um dos sinais do
fim do milénio da vernaculidade e da emergência de um novo cosmopolitismo, caracterizado, negativamente, pela globalização capitalista. Cfr. POLLOCK, Sheldon, «India in the vernacular millenium: literary culture and polity, 1000- 1500» em Daedalus, vol. 127, nº 3, 1998, pp. 41-74.
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do colonizador. Por outro lado, ele julga o inglês como a única língua que pode reivindicar o estatuto de «all-India language» (HARDER, 2010: 324), podendo até assumir, de alguma forma, o papel de língua nacional. Também Snehal Shingavi, estudioso do romance nacionalista e do nacionalismo literário indiano, declara que: «Novels67 in English could do what none of the vernacular literatures could do, namely suture together a geographically and linguistically disparate readership in its identity as Indian, and therefore have to be preserved as part of the national heritage» (SHINGAVI, 2010: 354).
A pergunta problematizadora que Harder coloca é justamente como os historiadores literários interpretaram a relação entre esta literatura de língua inglesa e o constructo da nação: «how, to put it differently, do they inscribe this literature into the semantic complex that is India?» (HARDER, 2010: 335). De facto, a análise que Harder executa de diferentes obras de história literária é uma análise semântica, partindo do nome com que é identificada essa literatura – Indo-Anglian literature, Anglo-Indian literature, Indian English literature, Indian writing in English –, até chegar a averiguar, nas conclusões, de que maneira o conceito de hibridity, assim como é entendido por Homi K. Bhabha (1994), é aproveitado para justificar um género de naturalização do inglês como língua indiana.68 Contudo, a maioria das histórias literárias e estudos críticos que Hans Harder analisa ou, simplesmente, menciona no seu ensaio contemplam a literatura indiana de língua inglesa como uma literatura que precisa ser estudada, e historicizada, de forma separada do resto das literaturas vernáculas, com exceção de poucos exemplos, como os dois volumes de A history of Indian
67 O debate em questão concerne, principalmente, a prosa narrativa, e de maneira particular, o romance contemporâneo
indiano, a partir da década de 30. Shingavi tem uma interessante visão sobre a receção do romance nacionalista e da sua inclusão na historiografia literária. Ele acredita que entre a década de 80 e 90, devido à perda de consensos do Congress Party, à ascensão dos movimentos separatistas e dos naxalitas nos ambientes universitários, houve uma releitura do romance nacionalista de língua inglesa que levou ao seu declínio e ao seu apagamento na história literária indiana de língua inglesa. Shingavi escreve: «But instead of reorganising the historiography of the Indian novel in English, the postcolonial, feminist, and minority readings of these same novels found vice where there had previously been virtue. The novels of the 1930s and 1940s tended to be seen as allied to a variant of Congress Party politics and the agendas of its leaders, principally Gandhi; the novels continued to be perceived as homogenising or flattening out the differences in the Indian nation in favour of a mythic or imagined national unity which could only be in the service of stamping out the rights and identities of minorities; the novels were seen as products of limited, chauvinistic, and elitist worldviews all of which were directly related to the novels’ ideological proximity to nationalism» (SHINGAVI, 2010: 355).
68 Cfr. HARDER, Hans, «Indian literature in English and the problem of naturalisation» (2010: 323-352). Um exemplo
dessa tendência de considerar o uso da língua inglesa como fruto do hibridismo da literatura indiana, proporcionado por Harder, é o paradoxo construido por Amit Chaudhuri, no artigo «The East as a carreer» (2006), em que questiona a autenticidade do bengali literário, da mesma forma em que se deveria duvidar do inglês enquanto língua indiana: «In another article, Chaundhuri tries to dismantle the illusion of authenticity attached to Indian mother-tongue writing by questioning the author-audience-relation, claiming that a Bengali bhadralok author equally exoticises the peasant community he writes about for an urbanised public. These arguments have two sides to them. One is a sincere distrust in any facile kind of authenticity automatically bestowed on the basis of the choice of a literary medium, or, more generally, in the feasibility of any overarching authenticity as such. The other, however, appears to be an implicity strategy of declaring Bengali, in this case, equally inauthentic/unnatural, and, by his negation, present both English Indian and (at least certain types of) Bengali literature as partaking of a similar degree of inauthenticity – thereby, of course, and quite paradoxically, doing nothing else than reversely “authentificating” Indian writing in English» (HARDER, 2010: 351).
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literature do comparatista Sisir Kumar Das (1991-1995).69 Harder atesta que o primeiro estudioso a inserir a literatura indiana em inglês num âmbito diferente de investigação historiográfica foi Srinivasa Iyengar, autor de Indo-Anglian literature de 1943, The Indian contribution to English literature de 1945 e Indian writing in English de 1962. Iyengar tem uma consideração abrangente da literatura, em termos de géneros literários, dado que inclui também a prosa e a oratória política, e no sentido de entender «Indo-Anglian writing as part of both English and Indian literatures» (HARDER, 2010: 331). O único princípio de exclusão que ele aplica é o da procedência dos autores, a qual deve ser indiana.70 Pelo contrário, algumas histórias literárias publicadas a partir de 2000, como A history of Indian literature in English de Arvind Krishna Mehrotra (2003) e Literature & nation: Britain and India 1800 – 1900 de Richard Allen e Harish Trivedi (2000), voltam também a incluir autores que têm outros tipos de relação com o ambiente cultural indiano, como Rudyard Kipling e V. S. Naipaul. Por isso, avançam com um total restauro do cânone em questão e, além disso, optam pelo formato de livro multiautoral (ALLEN & TRIVEDI, 2000) e recusam o modelo narrativo linear, baseado no progresso teleológico da literatura (MEHROTRA, 2003).71
A procedência dos escritores enquanto critério de seleção do cânone e princípio de exclusão da história literária – tanto no sentido de procedência como lugar de nascimento, quanto de identidade cultural – é um problema que qualquer estudioso que se ocupa de literaturas surgidas em contextos de dominação colonial teve de confrontar. Também a única história da literatura em concani, compilada pelo poeta goês Manohar Rai Sardesai e publicada pela Sahitya Akademi em 2000, A history of Konkani literature: from 1500 to 1992,72 conta com nomes de autores portugueses e ingleses, sobretudo no que concerne o estudo filológico dessa produção literária. No caso da 69 Stuart Blackburn e Vasudha Dalmia (2004) registam que o primeiro trabalho que compreendeu autores que escreviam
em diferentes bhasas foi a antologia de poetas Shivsingh Saroj (1878), compilado por Shivsingh Semgar, inspetor de polícia da aldeia de Kantha, in Avadh, no atual Uttar Pradesh: «His anthology was motivated by the desire to fill what he saw as a gap in vernacular poetry (bhasa kavya), that is, historical information regarding the poets themselves. He had looked through Sanskrit, Arabic, Persian and English books, and collected information on 1000 poets, of which 836 were included in his anthology. In the Preface, he attempted to sketch the evolution of bhasa kavya, which began, inevitably, with a brief account of Sanskrit poetry, from which he considered it to be derived» (BLACKBURN & DALMIA, 2004: 4).
70 A expressão que Hans Harder utiliza é «writer’s ethnic origin» (HARDER, 2010: 331), mas acredita-se que não seja a
terminologia exata para descrever o princípio de exclusão utilizado por Iyengar.
71 A propósito da sua história literária, Arvind Mehrotra escreve: «Applied to Indian literature in English, which is made
up of discrete units and has come about more through a process of accretion, words like “development” and “growth” are perhaps inappropriate. Few writers claim and “Indo-Anglian” descent, indeed most would not miss the opportunity to deny it. Since the literary pasts they have drawn on have invariably been multiple and other than their own, stretching from the earliest English poems to Günter Grass, the sense of belonging has never been very strong. For a literature whose development has been piecemeal and ragged, or like a fresh start each time, an encyclopaedic arrangement which eschews both continuity and closure has seemed appropriate» (apud HARDER, 2010: 349).
72 A history of Konkani literature não se debruça apenas sobre a literatura em concani produzida em Goa, mas também
conta com duas secções sobre a literatura em concani no Karnataka e no Kerala. Sem pormenorizar, o livro de Manohar Rai Sardesai está organizado em dez capítulos, a saber, «The land, the people and the language», «The printing press», «Foreign influences», «Pre-Portuguese period», «Missionary period», «The age of scholars», «Konkani Renaissance», «Modern Konkani literature in Goa», «Konkani literature in Karnataka, «Konkani literature in Kerala».
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literatura goesa em português, vimos como Joana Passos (2012), Helder Garmes e Paulo Melo e Castro (2014), entre outros, enfrenteram a questão numa perspetiva pós-colonial; contudo, como será possível averiguar sucessivamente, com a análise do corpus ativo desta tese, a procedência e a pertença à literatura goesa é um dilema que encararam também Filinto Cristo Dias (1963), Vimala Devi e Manuel de Seabra (1971) na suas histórias literárias, cujas propostas de solução deixaram varias hipóteses em aberto.
85 III
Literatura indo-portuguesa: figuras e factos de Vicente de Bragança Cunha