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Quelques témoignages de productions locales

I.7. Poids et mesures

I.8.1. Quelques témoignages de productions locales

O terceiro capítulo é bastante determinante para compreender a maneira como o pensamento político de Bragança Cunha influi no seu entendimento de história, sendo esta a parte do livro em que ele exprime as suas opiniões sobre duas questões importantes: a carência de uma historiografia em língua portuguesa sobre a Índia e o problema das castas. No jornal A India Portugueza, o mesmo capítulo é publicado em três diferentes números da rubrica «Literatura Indo-Portuguesa», nomeadamente nas edições dos dias 10, 19 e 26 de maio de 1919.99 Em relação à edição de 1926, não há omissão e nem adição de conteúdos, porém a ordem destes é muitas vezes recomposta, dando aos argumentos uma maior coerência. As problemáticas tratadas, a iniquidade da limitada historiografia indo-portuguesa e o castismo, estão ligadas entre si, sendo a segunda uma das causas da primeira.

Vicente de Bragança Cunha introduz o seu argumento com uma citação de David Lopes, em que elogia o trabalho historiográfico, objetivo e pontual, conduzido pelos ingleses sobre a própria Índia Portuguesa,100 frente à escassez e a mediocridade da produção historiográfica em português. A seguir, o capítulo desenvolve-se à volta das explicações que o intelectual goês encontra para justificar tal falha, acusando essas narrativas de serem parciais. Em primeiro lugar, ele menciona a presumida ignorância dos portugueses sobre assuntos orientais, e, em segundo lugar, a tendenciosidade dos relatos das castas brâmane e chardó. De toda forma, as alegações referem-se, de maneira generalizada, a uma lacuna historiográfica indo-portuguesa. Ao longo do capítulo, Bragança Cunha, usando preferencialmente o pronome nós, as formas verbais a este associadas e os respetivos adjetivos, procede a uma operação de repartição das culpas entre os portugueses e os goeses, apresentando o problema enquanto penalizador tanto para a fama da metrópole quanto para a da colónia. Nessa crítica, é ainda exaltado o problema da língua, realçando a exigência de ter uma história escrita em português.

99 O artigo do dia 26 de maio de 1919 apresenta, na sua parte final, os comentários sobre o sistema das castas presentes

no terceiro capítulo da edição de 1926. Porém, a parte inicial é dedicada ao Abade Faria, resenhado por Bragança Cunha no quinto capítulo do seu livro.

100 «“A historia do dominio português na Asia tem tido, nos ultimos anos, grande número de cultores entre os ingleses,

especialmente nos territórios em que êles foram nossos herdeiros ou seja a India propriamente dita e Ceilão. É sabido que Danvers escreveu uma historia geral do dominio português na India, (The Portuguese empire in India: its rise and

decline) e outro tanto fez Whiteaway. (Rise of Portuguese power in India) Nós não possuimos em português nenhuma

obra acerca do mesmo assunto e sôbre esse plano”, escrevia David Lopes, em 1897, no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, publicando as Cartas de Rajas Sing, rei de Candia, aos holandeses. Efectivamente, é para lastimar que não tenhamos nada que se compare com os trabalhos históricos ingleses, que denotam um alto espirito de analise e de critica» (CUNHA, 1926: 9). Bragança Cunha adiciona aos exemplos de David Lopes, The life of Prince Henry (1868) de Richard Major, «Albuquerque» (1892) de H. Morse Stephens – na série Rulers of India –, Vasco da Gama and his

successors (1910) de Kingsley Garland Jayne e o nome de Donald Fergusson, «autor de importantes monografias sobre

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A exemplaridade da historiografia inglesa, e a comparação com a portuguesa, serve para exaltar as imperfeições da segunda. Bragança Cunha elogia, também, o esforço dos ingleses para traduzir textos em persa e árabe, atestando que «só assim é possível entrar no conhecimento da história» (CUNHA, 1926: 9) e, portanto, reconhecendo a importância de usar não apenas fontes europeias. De facto, na segunda página, ele escreve que foram poucos os portugueses que se serviram, realmente, de documentos historiográficos – apesar da abundância bibliográfica disponível para poder compilar uma «história luso-indiana» (CUNHA, 1926: 10) –, tendo estes preferido permanecer fiéis à literatura dos cronistas do século XVI, baseada em lendas e fábulas.101 Em conclusão, os portugueses são acusados não apenas de se descuidar do assunto – ou seja, de não se interessarem pela escrita dessa história –, mas, sobretudo, de descredenciar as fontes literárias locais: «A verdade é que os portugueses não conheciam a literatura do paiz que haviam descoberto. Em assuntos da historia oriental é o português – custa dizê-lo mas diga-se porque é verdade – o mais atrasado da Europa» (CUNHA, 1926: 10).

A correlação entre a falta de uma adequada historiografia indo-portuguesa e o problema do castismo é feita por meio das figuras de Joaquim Heliodoro de Cunha Rivara (1809-1879) e de Filipe Nery Xavier (1801-1875) – se bem que a este último Bragança Cunha dedique um espaço menor. A escolha dessas duas personagens é, provavelmente, devida ao facto de estes terem dedicado parte dos seus estudos aos aspectos sociais e culturais da sociedade goesa e à construção de um ambiente intelectual em Goa (cfr. DEVI & SEABRA, 1971; LOBO, 2013). Portanto, Cunha Rivara e Filipe Nery caracterizam-se por serem o exemplo oposto da negligência historiográfica criticada por Bragança Cunha. No espaço reservado a estes autores, no capítulo, são introduzidas algumas das questões que ele comentará na parte relativa ao castismo, como por exemplo, a estrutura das antigas comunidades hindu e a organização da coeva sociedade indo-portuguesa.

Não analisarei os comentários que são tecidos sobre estas duas figuras, mas transcreverei apenas um breve excerto sobre Cunha Rivara, em que estão presentes pormenores interessantes para a observação do discurso de Vicente de Bragança Cunha:

No meio da triste inanição que atacou a sciencia historica entre nós, foram portanto, bem vindos os esforços de J.H. da Cunha Rivara, que com tanto zêlo procurou reunir materiais para a historia portuguesa no Oriente. Cunha Rivara aproveitando dos conhecimentos que possuia da arte paleografica, preservou da acção do tempo,

101 Nesse ponto, Bragança Cunha apoia a sua reflexão numa citação de José Caldas do livro História de um Fogo Morto

(1904), a qual diz respeito a este assunto: «[os nossos escritores] O mais que fazem è vestir o caso a moderna, não curando saber se êle é invenção pessoal do cronista suspeito, ou se está deturpado por calculo em proveito das lendas cortezãs. Isto agravado pela insuficiência da cultura profissional, torna o estado da sciencia da Historia entre nós numa verdadeira vergonha» (apud CUNHA, 1926: 10).

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muitos documentos que dizem respeito ás coisas da India, publicando-os pela imprensa. Cunha Rivara foi o redactor do Cronista de Tissuary que tem hoje um digno sucessor no Oriente Português revista da comissão arqueologica da India Portuguesa. O Cronista de Tissuary abunda em informações para a história luso-indiana. (CUNHA, 1926: 10)

Com este excerto confirmam-se duas ideias que Vicente de Bragança Cunha exprime no início do capítulo. Em primeiro lugar, a ideia de que a falha historiográfica seja uma falha indo- portuguesa, cuja responsabilidade é partilhada pelas duas partes envolvidas e indicada pelo uso do pronome nós – «a triste inanição que atacou a sciencia historica entre nós». Em segundo lugar, a importância e a fiabilidade dos documentos indianos para a reconstrução de uma história indo- portuguesa – «muitos documentos que dizem respeito às coisas da India». Podemos notar, além disso, que como no caso da poesia indianista, a história em questão é definida como «história portuguesa no Oriente», ao mesmo tempo que é particularizada com a expressão «história luso- indiana».

As últimas três páginas do capítulo falam da repartição em castas da sociedade hindu, enquanto modelo organizativo reproduzido fielmente pela sociedade indo-portuguesa, e também reparam na interferência que a presença portuguesa teve nessas transformações sociais. A relação entre a sociedade castista e a colonização portuguesa é descrita por duas combinações binómicas que contrapõem valores negativos a valores positivos, nomeadamente, bem e mal, decadência e progresso e hierarquia e igualdade. Opondo estas combinações, Vicente de Bragança Cunha move- se num território intricado até chegar a falar das rivalidades entre as castas brâmane e chardó, tomando uma posição contra tais hostilidades. Ele inicia esta última parte do capítulo da seguinte forma:

A dominação portuguesa no Oriente foi um mal ou foi um bem. Não o sabemos; mas sabemos que foi uma necessidade. A verdade é que da dominação resultaram dois factos – a decadencia da sociedade indú e os progressos de organização na sociedade cristã. Mas não obstante, em Goa a tradição ancestral da hierarquia indú luta contra os principios democraticos de igualdade cristã. (CUNHA, 1926: 13)

O que é posto em contraposição é a ideia de um progresso necessário, indispensável para a evolução da sociedade goesa, e a ideia de tradição, um conjunto de valores irrenunciáveis para a permanência de papéis sociais, convenientes ao exercício do poder. Na realidade, a frase que

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interroga os efeitos da «dominação portuguesa no Oriente» contém já uma resposta ao questionamento. Se o domínio colonial é assumido enquanto «necessidade», este é naturalmente julgado pela sua conotação positiva, ergo, por ser «um bem». A permanência da organização castista na sociedade católica é o travão que bloqueia o caminho dos indo-portugueses para o progresso. Está implícito o confronto entre Oriente e Ocidente, entre valores primitivos e valores modernos, sendo apropriado fazer uma ligação com o que Bragança Cunha escrevia em relação à poesia indianista: uma manifestação literária impregnada pela tradição imagética hindu, mas que se expressa com as formas modernas da língua portuguesa.

O verdadeiro progresso, pelo contrário, inicia quando aquilo que é considerado inconveniente é marcado, com consciência, como valor retrógrado. A partir dessa reflexão, a menção, nesse capítulo, de dois historiadores como Cunha Rivara e Nery Xavier e dos respetivos trabalhos sobre as comunidades de Goa encaixa-se numa propensão a representar a organização social hindu enquanto arcaica e obsoleta. Como escreve Everton Machado (2018), intelectuais que foram funcionários do governo colonial, como Cunha Rivara, Nery Xavier e outros goeses como Francisco Luís Gomes e Constâncio Roque da Costa, se interessaram pelas antigas comunidades de Goa, representando estas como exemplo da rudimentaridade da sociedade pré-portuguesa, «numa permanente subalternização do mundo hindu» (MACHADO, 2018: 117).

Isto reflete-se, também, nos argumentos que Bragança Cunha usa para construir a sua posição sobre o castismo. Ele escolhe dois textos de autoria alheia aos quais contrapõe a sua visão, que, por sua vez, é fundamentada em fontes literárias indo-portuguesas. O primeiro, a favor das castas, é uma citação de Auguste Comte – sem referências bibliográficas – que defende a ordem desse sistema como «demasiado preciosa para ser precipitadamente sacrificada a qualquer Moloch do progresso. Mais vale a órdem sem progresso, se é possível, do que o progresso sem ordem...» (apud CUNHA, 1926: 13). O segundo texto é uma extensa citação do estudo Sistema das castas do goês A. B. Bragança Pereira (1920), em que é criticada a interpretação pela qual à distinção das castas corresponderia a distinção das raças: «Dizia-se que as castas hierarquicamente dispostas representavam raças sobrepostas assentando as camadas vencedoras sobre as vencidas. A casta bramane – a casta suprema – era considerada raça ariana – a raça suprema, a raça triunfante. Estas teses não correspondem, porêm, a realidade dos factos» (apud CUNHA, 1926: 14). Essa última citação não figura na rubrica «Literatura indo-portuguesa» de 1919, por esta ser anterior à data de publicação do estudo de Bragança Pereira, publicado só em 1920. Contudo, é interessante notar como Bragança Cunha sentiu a exigência de inserir outro texto mais recente para contrabalançar as posições de Comte e, a seguir, as suas.

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Bragança Cunha escreve que os brâmanes «fizeram remontar até a divinidade a origem dos seus privilegios» (CUNHA, 1926: 13), citando, a propósito, uma frase do código de Manú que fala da criação dos homens a partir do corpo de Brama (I, 51, 31) e que determina a supremacia brâmane, tendo estes nascidos pela boca do deus, «uma teoria que embora atraente, não tem por base fundamentos etnicos muito seguros» (CUNHA, 1926: 14). Se a citação de Auguste Comte serve para demonstrar que o castismo é o antípode do progresso, a citação de A. B. Bragança Pereira serve para corroborar, com fundamentos científicos a insustentabilidade da supremacia dos brâmanes. Bragança Cunha reconhece, dessa forma, a natureza social e política do problema do castismo no interior da sociedade indo-portuguesa. De facto, o uso de fontes literárias que remetem para o século XVIII, como os tratados jesuítas Aureola dos indios e nobiliarchia bracmana do padre brâmane António João de Frias (1702) e Promptuario das definições indicas do religioso chardó Leonardo Pais (1713), prova como o problema do castismo se encontra enraizado na identidade cultural indo-portuguesa. Bragança Cunha acusa os dois religiosos de se terem tornado ridículos no ato de alimentar o discurso castista para a produção de documentos historiográficos (CUNHA, 1926: 14). Dessa forma, ele aproveita para voltar ao problema da inadequação da historiografia indo-portuguesa, escrevendo:

Conhecemos na India, onde o egoismo é absorvente, e ambição tudo converte em utilidade propria, escritores que se dizem catolicos e que sopram a vaidade castista como se sopra uma bexiga de pôrco.

Grandes barreiras separam as duas castas – bramane e chardó – e do lado dos indios de pouca nobreza principalmente, reinam preconceitos aos quais nada pode vencer. Pandits e ascetas formavam o corpo docente do bramanismo. O brâmane cristianisado de Goa, porêm, astuto e sagaz nas operações mercantis, renunciou, ha muito, ao seu dominio espiritual. A classe chatria era privilegiada e os reis eram antes tirados dela. Mas a aristocracia chardó na nossa India não avulta pelos feitos marciais dos antepassados. E coisa curiosa, consideram-se nobilitadas em Goa as familias chardós e bramanes, que tiveram por membros sacerdotes da religião cristã! Raras são as familias que teem a sua arvore genealogica desde o primeiro convertido ao cristianismo que adoptou nomes europeus. (CUNHA, 1926: 15)

O perigo da tendenciosidade da literatura historiográfica indo-portuguesa, apresentado pela «vaidade castista», refere-se a um problema de representação em que cada casta tende a promover a sua versão da história, em função de um discurso celebrativo dos próprios mitos de fundação e, portanto, legitimador dos privilégios gozados. A desconfiança de Bragança Cunha assume uma dimensão maior no momento em que ele repara que as origens celebradas não dizem respeito apenas à tradição hindu, mas às próprias raízes católicas – «E coisa curiosa, consideram-se

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nobilitadas em Goa as familias chardós e bramanes, que tiveram por membros sacerdotes da religião cristã» –, sublinhando, dessa forma, a artificialidade de tais narrativas.102