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I.7. Poids et mesures

I.7.2. Les mesures de poids

A obra Literatura indo-portuguesa: figuras e factos de Vicente de Bragança Cunha (1926), como adiantado no primeiro capítulo do presente trabalho, não é uma história literária no sentido convencional do termo e, justamente, ao longo do livro, nunca é feita menção de estarmos perante uma história da literatura. Contudo, esta obra é o primeiro trabalho a problematizar a questão literária em Goa, a falar da existência de uma literatura indo-portuguesa, associar esta a um espaço identitário nacional, e a discutir sobre a maneira como essa literatura devia ser produzida e, sobretudo, feita circular. Achamos um antecedente – como também estudado no primeiro capítulo – no artigo «Duas palavras sobre o progresso literário em Goa» de 1864, de autoria de Jacinto Caetano Barreto Miranda. Porém, esse artigo abrange uma ideia de progresso literário vinculada à problematização da escassez da produção escrita e à incipiência das manifestações literárias no período pós-constitucional. O artigo de Barreto Miranda não apresenta qualquer tipo de abordagem particular às obras e aos seus autores, enquanto Bragança Cunha expressa a sua opinião sobre grande parte das figuras e dos factos que ele descobre.

Até hoje, os textos de história literária goesa foram estudados apenas na sua função de texto de consultação, como demonstram os casos dos livros de Filinto Cristo Dias (1963) e de Vimala Devi e Manuel de Seabra (1971), pluricitados nos estudos atuais. O caso do livro de Vicente de Bragança Cunha, Literatura indo-portuguesa: figuras e factos de 1926, destaca-se por não ser considerado uma referência no âmbito dos estudos literários, mas sim um texto que aborda a história da literatura de Goa a partir de uma problematização política e cultural, como outros investigadores já notaram (PINTO, 2007; GARMES, 2016; LOBO, 2016). O livro de Bragança Cunha é um texto que fala de literatura, uma literatura analisada desde um ponto de vista politizado, com um comprometimento intelectual do seu autor que, na altura da sua publicação, não tinha antecedentes em Goa. O ponto de vista subjetivo e o ardor com que o autor defende os seus argumentos estão entre os aspetos mais marcantes da obra, sendo o discurso do autor virado a promover a ideia da literatura indo-portuguesa como parte de uma literatura nacional portuguesa e, por consequência, suscitar nos leitores goeses um sentimento de pertença a e reflexão nessa própria literatura.

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Os únicos trabalhos de maior amplitude que se debruçaram sobre esse intelectual, se bem que em linhas gerais, foram o livro de Rochelle Pinto Between empires (2007), e a tese de doutoramento de Sandra Lobo, O desassosego goês (2013), dois trabalhos dedicados ao estudo da formação política das elites goesas, na virada do século XIX para o XX – com um enfoque particular no papel da imprensa nesse processo, sobretudo no caso de Pinto – e que se enquadram no âmbito da história cultural. Estas duas contribuições colocam a atividade de Vicente de Bragança Cunha num contexto transnacional, em diálogo com outras realidades em fermentação política – como a da França, de Portugal e da vizinha Índia Britânica, entre outras. Na sua tese de doutoramento, Sandra Lobo dá ênfase ao contexto transnacional em que os intelectuais das elites se formaram, numa tentativa de edificar uma modernidade goesa, que se constituísse de valores criados a partir de um diálogo entre Ocidente e Oriente (LOBO, 2013: 22). O clima político da Revolução vintista e os efeitos da promulgação da Constituição exerceram sobre os goeses uma forte influência que os levou a discutir, a partir de uma posição protagonista, a própria identidade cultural. Os ventos de renovação que chegaram da metrópole impulsionaram os goeses a questionarem os processos históricos que permitiram o apagamento de valores e práticas culturais locais, a considerar a sua capacidade de autodeterminação política e, por fim, tomar consciência da exigência de escrever a sua própria história. De facto, o ano 1821, com o reinício da atividade de imprensa e publicação em Goa, poderá ter marcado o início dessa tomada de consciência, de tal forma que para alguns estudiosos a nós contemporâneos é nessa altura que devem ser datadas as origens de uma literatura goesa local e autónoma (PASSOS, 2012; CASTRO & GARMES, 2014).

A isto devem ser adicionadas as mudanças trazidas pelo início do regime republicano, em Portugal e nas colónias, a partir de 1910. Vale a pena prestar atenção ao contexto da Primeira República Portuguesa, sendo que proporciona elementos importantes para a compreensão do percurso de emancipação política e cultural dos goeses, o qual levou à criação das condições propícias para que se avançasse em direção à abertura do espaço público aos goeses hindus (Cfr. LOBO, 2013: 234-284).

À luz disso, faz sentido contemplar a figura de Vicente de Bragança Cunha e o seu trabalho nesse último enquadramento histórico, dado que Literatura indo-portuguesa: figuras e factos foi concebido nessa altura e publicado na íntegra em 1926. Apesar disso, não procederei com uma reconstrução desse período, remetendo para outras autoras que já o fizeram de maneira pormenorizada (PINTO, 2007; LOBO, 2013; 2016), fazendo referência a este contexto, na medida em que servirá para justificar algumas das abordagens de Bragança Cunha em relação à literatura indo-portuguesa, sendo que aquilo que decidi priorizar é o entendimento da ideia de literatura indo- portuguesa e as estratégias discursivas usadas para o sustentamento dessa ideia.

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Optarei por considerar o livro de Bragança Cunha como uma pré-história literária – de acordo com o sustentado por Hans Harder (2010), citado no primeiro capítulo –, tendo em conta o valor seminal dessa obra para a historiografia literária de Goa em língua portuguesa. Conforme isso, as reflexões finais que surgirão do estudo dessa obra irão se apoiar na problematização da história literária que foi enfrentada nos dois primeiros capítulos desta tese.

Finalmente, cabe um esclarecimento sobre o porquê de não ter colocado o livro de Vicente de Bragança Cunha nos textos à margem da história literária, examinados no primeiro capítulo. A motivação é simples e está ao mesmo tempo relacionada com a complexidade dessa obra. Literatura indo-portuguesa: figuras e factos é um livro que nunca foi estudado na sua totalidade, e nunca lhe foi reconhecida significância, no campo dos estudos sobre Goa, até a publicação do livro de Rochelle Pinto (2007). É um livro complexo, cujo estudo não pode ser exaurido numa sub- secção de um capítulo de tese. Julgo ser extremamente importante colocar esse livro no primeiro plano, dedicando-lhe um inteiro capítulo, por nos revelar um dos poucos testemunhos à volta da literatura de língua portuguesa em Goa durante o período republicano, tendo sido, também, o primeiro trabalho a preocupar-se com dar um nome a essa literatura, indo-portuguesa, significando, assim, a literatura pela sua carga identitária e comunitária.73