P ROCESSUS ET D IFFICULTÉS A PRÈS LE R ECLASSEMENTECLASSEMENT
B. Le processus de transition en douceur
Como bom cronista, Neruda também espraia seu olhar viajante sobre a paisagem latino-americana, apresentando uma visão da natureza que se filia de forma clara à linhagem dos cantores americanos. A perspectiva intertextual é evidente, pois o canto revisita diversas obras literárias que se ocuparam, nos últimos
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cinco séculos, em construir uma representação da natureza americana, associada a uma perspectiva do continente. Neruda parte da concepção mítica – o poeta com seu poder genésico, fundador, mergulhando nas matrizes da criação, regressan- do ao útero cósmico. Trata-se do poeta como demiurgo, como voz criadora, numa concepção que se aproxima, com algumas variantes, das poéticas de Vicente Huidobro2 ou Octavio Paz.
Do mítico, passa à visão épica da natureza idílica, revi- sitando o locus utópico da retórica das crônicas de conquista, na esteira das “visões do paraíso”. Segue pelo barroquismo das intrincadas descrições naturais até chegar ao tom didático da poesia dos próceres neoclássicos, quando se coloca como cantor das potencialidades americanas (vide Agricultura de la zona tórri- da, de Bello). Revisita os românticos quando, como Heredia, volta ao passado e vê na natureza as marcas da tirania (En el teocalli de Cholula). É também modernista – não por acaso dedicou um poema a José Martí, auge do americanismo do século XIX. Em suma, realiza um processo retórico de simbiose entre o estilo evocado e os relatos da época. Entre tantas referências, desta- caríamos sua filiação a Andrés Bello, “pai” do americanismo em sua feição independente, que utilizara seus poemas para cantar o futuro americano. Lembremos os célebres versos, que dirige à “Divina Poesia”, convidando para que “[...] dejes ya la culta Europa/ que tu nativa rustiquez desama/ y dirijes el vuelo adon- de te abre/ el mundo de Colón su grande escena” (BELLO, 1981). Emir Rodríguez Monegal, crítico uruguaio que estudou a fundo tanto a obra de Bello como a de Neruda, sublinha a ironia de que “A obra de exaltação americana que Bello inicia em 1823
2 Neruda recusa a ideia do poeta como um “pequeno deus”. Para ele o poeta
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[...] foi concluída em 1950 por um poeta chileno que nem sequer sabia que era seu discípulo” (RODRÍGUEZ MONEGAL, 1966, p. 237-238, tradução nossa). Será graças, aliás, à indicação deste crítico que Neruda buscará os poemas de Bello, para comprovar a influência do venezuelano em sua poesia. Pouco tempo depois, Neruda destacará em um discurso:
bem, foi Andrés Bello, cujo ilustre nome decora esta sala, junto ao de Sarmiento, quem começou a escrever antes que
eu meu Canto General. Canto General. São muitos os escri-
tores que sentiram deveres primordiais para com a geografia e a cidadania da América. Unir-me a meu continente, desco- bri-lo, construi-lo, recuperá-lo, esse foi o meu propósito. Falar com simplicidade era o primeiro de meus deveres poéticos (COLEMAN, 1987, p. 114).
Efetivamente, apesar da distância de mais de um século, há em ambos o afã de uma interpretação histórica e política da América Latina, a concepção do compromisso do escritor é comum seja ao poeta civil da Literatura de Emancipação como ao poeta engajado do século XX. Ambos comungam do mesmo senso de missão (o que Carpentier chamou certa vez de compro- misso), entretanto se diferenciam em suas opções ideológicas. Bello fala desde um lugar da elite, valorizando o idioma espa- nhol em sua modalidade americana como elemento integra- dor, que evitaria a fragmentação do continente. Sua concepção letrada e culta atende somente aos reclamos das elites de sua época. Em Neruda, por sua vez, atua como “mediador cultural” entre as vozes dos vencedores e as dos vencidos, considerando o “porta-voz” dos excluídos de América, entre os quais estão indígenas, operários e camponeses. Nesse sentido se assimila à
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perspectiva dos indigenistas de todas as vertentes, que buscam “falar pelo índio”, a quem seria vetada a palavra3.
A dimensão instrumental deste modelo poético, que muitos críticos condenaram, era comum e coerente com o ideá- rio que conformava o otimismo intrínseco ao escritor, dentro de uma perspectiva iluminista que o considerava membro indispensável da coletividade, “criador” de uma nova realidade histórica latino-americana, o que supõe o vínculo entre traba- lho criativo e posição ideológica.
São várias as versões do poeta social, desde a época da conquista, passando pelo poeta da corte colonial; o civil, da emancipação; o engajado, do século XX, todos obedecem a um determinado padrão de compromisso com a sociedade e seu tempo, que se opõe a épocas recessivas, em que a arte se fecha sobre si mesma. Nesse sentido é que se pode ler a crítica de Neruda aos poetas “celestes” e aos “eruditos”, que se enclausu- ram, uma vez que Neruda reivindica em alto grau o compromis- so do artista com sua época. Daí sua saudação a poetas como Miguel Otero Silva, Alberti ou Miguel Hernández, nos quais encontraria a mesma disposição:
3 Atualmente se questiona a representação do subalterno por mediadores
culturais, como foi o caso dos indigenistas, geralmente membros da elite letrada, mestiços e intelectuais. Hoje, já se pode falar em uma literatura índia, escrita pelas próprias comunidades e descendentes dos povos autóc- tones do continente.
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Por eso cantas, por eso,
para que América deshonrada y herida Haga temblar sus mariposas
y recoja sus esmeraldas
Sin la espantosa sangre del castigo, coagulada En las manos de los verdugos y de los mercaderes (NERUDA, 1952, p. 438).