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Polarisation de spin intra-ligand

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 170-174)

Um dos eventos mais importantes que ocorreram no período em que transcorre o romance foi a criação e a propagação do modelo produtivo do fordismo. É importante destacar o papel do fordismo ao falar sobre a lógica industrial e a sua colonização das relações sociais porque, conforme mostrou David Harvey, isso implicava mais do que uma “racionalização” por meio do gerenciamento e da segmentação do tempo na linha de produção, como havia sido proposto no taylorismo. O método desenvolvido por Frederick Taylor, filho de uma família com raízes Quaker e puritana da Nova Inglaterra, foi implementado pela primeira vez entre 1897 e 1898. Após três anos de estudos e modificação, “140 homens estavam realizando as tarefas anteriormente feitas por 600”394, e os resultados foram divulgados em artigos e livros entre 1900 e 1911. Taylor, que nunca abordou em seus escritos o problema do “desemprego gerado por seus sistemas”395, foi bastante criticado na época e seu método enfrentou ampla resistência por parte dos trabalhadores organizados. Ainda assim, a noção de eficiência pela racionalização da produção e aumento de ganhos era tentadora. A difusão e a discussão de seus textos extrapolaram a esfera industrial e houve uma disseminação por toda a sociedade de alguns valores novos, principalmente do termo “eficiência”, aceito a partir de então como um valor praticamente universal mesmo pelos críticos do taylorismo396. Ford realizou um

393 TAVARES, Maria Conceição; BELLUZO, Luiz Gonzaga. A mundialização do capital e a expansão do poder americano. In: FIORI, José Luís (Ed.). O poder americano, cit., p. 119.

394 TICHI, Cecelia. Shifting gears, cit., p. 78. 395 TICHI, Cecelia. Shifting gears, cit., p. 78.

396 Para uma análise muito interessante sobre todo o processo de difusão da noção de eficiência a partir dos textos de Taylor, ver TICHI, Cecelia. Shifting gears, cit., p. 75-96.

avanço técnico em relação a Taylor com a implementação “eficiente” da esteira rolante, a elevação dos salários (já prevista por aquele) e a produção de todos os componentes do produto final na mesma fábrica. Contudo, o que particulariza sua concepção é o fato de ela almejar a fabricação de uma verdadeira economia da vida social. A criação do novo operário, em uma organização que permitia horas de lazer e que garantia poder de compra, resultaria em uma regulação econômica de longo prazo. Segundo Gramsci:

Visto que existiam estas condições preliminares, garantidas pelo desenvolvimento histórico, foi relativamente fácil racionalizar a produção e o trabalho, combinando habilmente a força – a destruição do sindicalismo operário de alcance nacional – com a persuasão – altos salários, benefícios sociais diversos, propaganda ideológica e política muito hábil –, conseguindo-se, assim, basear toda a vida do país sobre a produção397.

Além de regular o tempo de trabalho no interior da fábrica, Ford chegou a colocar em prática, por determinado período no ano de 1917, um programa em que uma equipe específica examinava a vida doméstica de seus empregados com o objetivo de avaliar se no campo privado e familiar esses funcionários correspondiam àquilo que se esperava deles: exigia-se e criava-se um “padrão de trabalho e lazer”398.

Em O grande capital, Dos Passos destaca a relação estabelecida entre o projeto industrial e o projeto de sociedade em uma passagem longa, mas profundamente iluminadora:

Eficiência era a palavra de ordem. A mesma engenhosidade que entrava na melhoria do desempenho de uma máquina podia entrar na melhoria do desempenho dos operários que produziam a máquina. (...)

operários bem remunerados podiam economizar dinheiro suficiente para comprar um Ford Bigode; no primeiro dia em que Ford anunciou que operários americanos de cabelo cortado e devidamente casados em busca de emprego tinham uma oportunidade de faturar cinco dólares por dia (é claro que havia certas condições; sempre havia certas condições)

juntou-se uma multidão tão grande do lado de fora da fábrica de High and Park

durante toda uma noite de janeiro a zero grau que houve tumulto quando os portões se abriram (...)

O Plano Americano; prosperidade automotiva vazando de cima para baixo; só que havia certas condições.

Mas aqueles cinco dólares por dia

pagos a operários americanos bons e limpos

que não bebiam nem fumavam cigarros nem liam nem pensavam, e que não cometiam adultério

e cujas esposas não recebiam pensionistas,

fizeram mais uma vez da América o Yukon dos suados operários do mundo; fizeram todos os Fords Bigode e a era automobilística, e incidentalmente

397 GRAMSCI, Antonio. Americanismo e fordismo. São Paulo: Hedra, 2008, p. 38.

398 DENNING, Michael. The cultural front: the laboring of American culture in the twentieth century. New York: Verso, 1998, p. 27.

fizeram de Henry Ford, o homem do automóvel, o admirador de Edison, o amante de pássaros,

o grande americano de sua época399.

O controle da “moralidade”, como observa Gramsci, mais do que um sintoma do puritanismo latente, era um projeto de controle produtivo: um trabalhador casado teria menos tendências ao alcoolismo e à vida desregrada, o que asseguraria um compromisso e uma assiduidade maiores com a fábrica. Como enfatiza Gramsci, o projeto era não só criar um novo “trabalhador” mas também um novo “homem”400. Além disso, a decorrente desqualificação do trabalho nas esteiras de produção permitiu a empregabilidade de uma legião de mão de obra sem preparo. É importante notar como essa estrutura foi alimentada pela multidão de imigrantes, pois havia uma grande resistência por parte dos trabalhadores estadunidenses e dos sindicatos401. Esses homens que, de outra forma, poderiam organizar-se, eram assimilados no novo ritmo fabril em um sistema, por um lado mecanizado, que lhe retirava a propriedade de trabalhador, e por outro o integrava à massa de consumidores, fazendo com que a sua identificação não se desse mais, necessariamente, em relação à classe operária. A alta rotatividade de trabalhadores, a desqualificação do serviço de base e a alta qualificação de um pequeno grupo responsável pela construção e manutenção do maquinário gerava uma ruptura interna na organização dos operários. A conversão da “classe trabalhadora em uma massa de trabalhadores”402 mostrou-se uma forma de

desorganizar as possíveis mobilizações, realizando um verdadeiro gerenciamento do conjunto da sociedade.

As implementações nas fábricas tiveram tamanho sucesso em termos quantitativos que o “modelo de organização das empresas Ford se impôs aos demais concorrentes”403. A implementação desse projeto em larga escala permitiu que, sem ser necessário aumentar o número de trabalhadores, a produção industrial do país dobrasse nos anos logo após a Primeira Guerra Mundial404. No mesmo capítulo de O grande capital, citado anteriormente, Dos Passos explicita essa relação:

Quando a guerra estourou na Europa, tinha suas ideias também sobre isso. (A desconfiança em relação ao pessoal do exército e à profissão de soldado fazia

399 DOS PASSOS, John. O grande capital. São Paulo: Benvirá, 2012, p. 70-71. 400 GRAMSCI, Antonio. Americanismo e fordismo, cit., p. 66.

401 HARVEY, David. Condição pós-moderna. Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992, p. 123.

402 DE MARIA, Fábio. Estado e classes sociais. Crítica da autoridade: Max Horkheimer e a primeira fase da teoria crítica, 2017. (Tese de Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017. . p. 15. 403 DE MARIA, Fábio. Estado e classes sociais. p. 20.

parte da tradição rural do Meio-Oeste, como a poupança, a perseverança e a perspicácia em questões de dinheiro). Qualquer mecânico americano inteligente via logo que, se os europeus não fossem um bando de estrangeiros ignorantes e mal pagos que bebiam, fumava, tinham moral frouxa com as mulheres e eram relaxados nos hábitos de produção, talvez jamais tivesse havido guerra. (...)

Contratou um vapor, o Oscar II, e encheu-o de pacifistas e assistentes sociais,

para ir lá explicar aos principescos da Europa que o que estavam fazendo era ruim e tolo. (...)

Dois anos depois Ford estava fabricando munições, lanchas Eagle, Henry Ford planejava tanques individuais e submarinos individuais.405

É nesse âmbito cotidiano que Dos Passos procura mapear e tornar visíveis as forças que, se operam de forma evidente na guerra, nem por isso constituem um momento de exceção. Pelo contrário, a guerra seria apenas um desdobramento alternativo de uma mesma lógica em operação no dia a dia da vida comum. Assim, o tempo que constrói essa cidade literária é análogo ao tempo industrial, bruscamente segmentado em partes que não diferem qualitativamente umas das outras e se repõem consecutivamente. Os esquetes das personagens aparecem, nesse sentido, como peças dessa máquina ou como os operários na linha de produção: preenchendo funções, eles são absolutamente substituíveis. A sensação de que as personagens são quase descartáveis fez com que Henry Longan Stuart, em uma resenha de 1925 sobre Manhattan Transfer, tenha resumido a trama de Ellen em oito breves linhas, argumentando que não estaria fazendo injustiça a Dos Passos, já que não havia qualquer indício de que o próprio autor consideraria aquela trama relevante.

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