Em um artigo de 1987, Christine Poggi observou que, ao introduzir o jornal no plano da pintura, as colagens de Picasso configuravam e absorviam uma experiência que, na época, idealmente deveria ser banida da esfera da arte: a produção em massa. O expediente adotado pelos cubistas em suas primeiras colagens contrapunha-se, ainda segundo Poggi, a uma faceta corrente da crítica da época que pode ser verificada, por exemplo, em Stéphane Mallarmé. Segundo essa perspectiva, estaria implícita na escrita do poeta, e também muito difundida entre artistas e críticos associados ao movimento simbolista, a noção de que o jornal seria o grande representante de um processo conflituoso para a esfera da arte. Ele consistia na expansão sem precedentes da alfabetização e na forma como o desenvolvimento técnico dos meios de impressão começavam a perturbar certas fronteiras sociais que permitiriam estabelecer uma série de distinções, por exemplo, entre iletrados e letrados, entre detentores da cultura e aqueles que deveriam permanecer fora dela. Como Robert Park observou, há uma correlação entre o crescimento das grandes cidades e a expansão do público leitor e da circulação do jornal, pois o que era “um luxo no campo, tornou-se necessidade na cidade”422. Nessa transformação social, o
domínio da literatura passou a ser invadido pelos jornais diários, que só na Paris de 1880 já eram mais de setenta, e por meio dos quais floresciam os romances de folhetim423. O jornal, com sua justaposição aleatória de materiais mundanos, estaria em imediata oposição ao rigor poético capaz de “disciplinar o acaso” e, nessa medida, representaria um problema à arte.
Indústria de massa, desenvolvimento técnico, justaposição e (aparência de) acaso são todos elementos que, como já sabemos, são parte essencial da própria configuração de Manhattan Transfer. Além de servir como base histórica e indicador
422 PARK, Robert E. The Natural history of the newspaper. The city, cit. p. 81.
423 POGGI, Christine. Mallarmé, Picasso, and Newspaper as Comodity. In: HOFFMAN, Katherine (Ed.). Collage. A critical view. Michigan: UMI Research Press, 1989, p. 171-192.
cronológico para esse romance de Dos Passos, o jornal e sua desordenação formal424, ou seja, a relação meramente contingente de suas partes, influenciaria também a própria estrutura da obra? A fragmentação de Manhattan Transfer seria apenas uma reprodução da lógica aleatória do jornal da qual ele se apropria425 – ou, ainda, uma submissão a ela? Delmore Schwartz, editor da Partisan Review, sugeriu uma aproximação similar entre o jornal e a forma do romance em sua resenha de 1938 sobre a trilogia U.S.A.:
If we think for a moment of the newspaper as a representation of American life, we get some idea of the basis of John Dos Passos’ enormous novel. (...) It is in its whole sense of American life and its form character – its omnibus, omnivorous span – that Dos Passos’ novel seems at least one reader to derive from the newspaper426.
Embora o objeto em discussão no trecho acima seja a trilogia, os elementos que o crítico elenca para justificar a afirmação de que a origem do romance seria o jornal − embora mais intensos na trilogia − poderiam ser atribuídos também à Manhattan Transfer: “a sensação das vidas desconhecidas por trás dos anúncios de casamento e obituários, a lacuna imensa entre a vida privada e os eventos públicos”427. A fragmentação formal do romance reconheceria, por um lado, nesses artefatos do mundo da cultura de massa o seu significado social, em pé de igualdade com qualquer produto intelectual e artístico; por outro, ao explodir a possibilidade de uma concatenação lógica entre as partes, o romance viveria a reposição do mundo arbitrário, em que os itens não se relacionam e aparecem todos nivelados, exatamente como na lógica do jornal, “plain, sloppy making”428.
É também por esse suposto processo de nivelamento e da ausência de distinção qualitativa entre as partes que Georg Lukács criticou o método da descrição no gênero do romance, tal como se desenvolveu primeiro no Naturalismo. Em obras como as de Zola, mas também em todo o modernismo que, segundo Lukács, derivaria de tendências naturalistas, “a descrição nivela todas as coisas”, incapaz de promover,
424 “A narração distingue e ordena. A descrição nivela todas as coisas.” LUKÁCS, Georg. Narrar ou descrever?, cit., p. 62.
425
Discutindo o romance 1919, Sartre tenta compreender certos aspectos do tom narrativo de Dos Passos e argumenta que “Dos Passos reports all his characters’ utterances to us in the style of a statement to the Press”, indicando a permeabilidade entre o estilo jornalístico e a prosa de Dos Passos. SARTRE, Jean-Paul. John Dos Passos and 1919. (1938). In: MAINE, Barry (Org.). Dos Passos: the critical heritage. New York: Routledge, 1988, p. 172.
426 SCHWARTZ, Delmore. John Dos Passos and the Whole Truth (1938). In: MAINE, Barry (Org.). Dos Passos: the critical heritage. New York: Routledge, 1988, p. 176.
427 SCHWARTZ, Delmore. John Dos Passos and the Whole Truth, cit., p. 176. 428 POGGI, Christine. Mallarmé, Picasso, and Newspaper as Comodity, cit., p. 175.
artisticamente, a “justa distribuição dos pesos”429. Em seu ensaio “Narrar ou descrever?”, no qual contrapõe ao método narrativo, tal como encontrado no realismo de Balzac ou Tolstói, o “método descritivo” que vemos em Flaubert ou Zola, Lukács menciona Dos Passos e, especificamente, Manhattan Transfer. O romance estadunidense seria, para o crítico, um exemplo significativo do modernismo, um adepto das correntes naturalistas e com o qual partilharia as mesmas fraquezas e distorções. A menção ao livro de Dos Passos não é fortuita, em primeiro lugar, porque representa um desenvolvimento do conhecido debate sobre o Expressionismo dos anos de 1930430 no qual Dos Passos havia sido mencionado. À escritora Anna Seghers, Lukács chegou mesmo a enfatizar que tratou em seu ensaio da obra de Joyce e Dos Passos unicamente porque Ernst Bloch os havia citado como exemplo anteriormente431. Em segundo lugar, é importante lembrar que a obra de Dos Passos era objeto de uma viva discussão também dentro da União Soviética e nas revistas estadunidenses ligadas ao Partido Comunista. Trata-se, está claro, de um debate levado a cabo dez anos após a publicação do romance, quando já eram outras as condições históricas que norteavam a interpretação das obras do período anterior ao crash. A importância dessa discussão, no entanto, reside no fato de ele ter pautado boa parte das interpretações posteriores sobre o que foi produzido nos anos 1920. E embora o debate sobre o Expressionismo dos anos 1930 já esteja bastante difundido entre nós, a discussão sobre Manhattan Transfer e a trilogia na União Soviética e nas revistas literárias estadunidenses nos é menos familiar.
Em um breve “excurso” de seu livro Vom Umgang mit der Moderne, Gudrun Klatt mostra como a produção literária de Dos Passos passou, na União Soviética, por diferentes apreciações antes da avaliação, mais conhecida por nós, de Lukács em “Narrar ou descrever?”. Em março de 1933, foi organizado na União Soviética um encontro de três dias para debater a obra de John Dos Passos432. Klatt observa que a discussão sobre a obra de Dos Passos era norteada a partir de duas questões centrais. A primeira lidava com a figura pública de Dos Passos (levando em consideração, por
429 LUKÁCS, Georg. Narrar ou descrever?, cit., p. 61-62.
430 Sobre o assunto, ver MACHADO, Carlos Eduardo Jordão. Um capítulo da história da modernidade estética: debate sobre o Expressionismo. Ernst Bloch, Hans Eisler, Georg Lukács e Bertolt Brecht. São Paulo: Editora da Unesp, 1998.
431 LUKÁCS, Georg. LUKÁCS, Georg. Problemas del realismo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1966, p. 328.
432 MURPHY, James Francis. The proletarian moment: the controversy over leftism in literature. Chicago; Illinois: University of Illinois Press, 1991, p. 98.
exemplo, seu engajamento no caso Sacco e Vanzetti e sua proximidade ao Partido Comunista) e sua obra literária. A segunda tinha como objetivo examinar o que, na arte ocidental e capitalista, poderia, ou deveria, ser assimilado e absorvido pelos artistas soviéticos na nova fase da “revolução cultural”433. Entre algumas abordagens da época, Klatt destaca dois críticos que se detiveram com maior interesse sobre a obra de Dos Passos. Dentre esses, o crítico Dmitri Mirski teria rejeitado a tradicional associação entre Joyce e Dos Passos434 por não reconhecer neste último um “derrotista” que encontraria um “prazer tortuoso” no mal por ele mesmo desvelado – e seria esse o caso Joyce, segundo Mirski. Embora houvesse semelhanças entre as técnicas de ambos, três aspectos da obra de Dos Passos o tornavam mais relevante e notável aos olhos do crítico. Em primeiro lugar, na obra estadunidense Mirski reconhece uma relação mais intensa e consequente com produtos do presente (o jornal e a propaganda) do que em Ulisses. Em segundo lugar, contava a favor de Dos Passos a expressiva influência dos diretores de cinema soviéticos na técnica literária desenvolvida pelo escritor estadunidense (Mirski tem em mente os dois primeiros volumes da trilogia U.S.A., escritos após o encontro de Dos Passos com Eisenstein). Por fim, a forma de construção de seu romance possibilitaria interpretações diversificadas da realidade capitalista, ou seja, haveria em seu texto uma força de descoberta criativa, o que representaria uma espécie de “libertação da interpretação burguesa” da sociedade435. Ainda assim, lamenta Mirski, seria necessário que Dos Passos desenvolvesse seu “talento literário” no sentido de apreender de “forma proletária o que até então ele havia compreendido de forma burguesa”436. Ou seja,
seria preciso superar a representação restrita dos destinos individuais, que dominariam a obra toda, para alcançar a representação do verdadeiro movimento histórico coletivo.
Após a publicação da crítica de Mirski, o debate sobre John Dos Passos continuou agitado na União Soviética e sua posição era avaliada ora como sendo a do
433 KLATT, Gudrun. Exkurs 1: Debatten um die “Literatur des Westens” im Umfeld des 1. Allunionskongress der Sowjetschriftsteller – das Beispiel John Dos Passos. In: _______. Vom Umgang mit der Moderne. Ästhetische Konzepte der dreißiger Jahre. Lifschitz, Lukács, Lunatcharski, Bloch, Benjamin. Berlin: Akademie-Verlag, 1985, p. 123.
434 Mirski estaria debatendo com alguns críticos (especialmente o dramaturgo W. W. Wischnewski) responsáveis por aproximar de tal forma os dois autores, “… que os ouvintes e leitores teriam a impressão de que se trataria de um escritor chamado Joyce-Dos Passos”. KLATT, Gudrun. Exkurs 1, cit., p. 125.
435 KLATT, Gudrun. Exkurs 1, cit., p. 125. 436 KLATT, Gudrun. Exkurs 1, cit., p. 126.
criador de um “realismo revolucionário”437, ora como a de um apoiador da luta revolucionária, o chamado “fellow traveler” [Kampfgefährte] – um intelectual simpatizante, mas não realmente engajado e filiado ao Partido Comunista. É, portanto, nesse panorama de indagações acerca da interpretação literária e de modelos para uma “cultura revolucionária” que se insere a crítica de Lukács à obra de Dos Passos. Não nos interessa aqui retomar todo o debate sobre Realismo e Expressionismo desenvolvido pelo crítico húngaro com Adorno, Bertolt Brecht, Benjamin e Bloch – um assunto importante, mas já bastante pesquisado e analisado, e que levaria a problemas e conteúdos que fogem a nosso interesse específico. Contudo, é interessante mencionar a crítica de Lukács na medida em que o autor destaca especificamente o romance Manhattan Transfer para indagar acerca dos pressupostos e do resultado dessa forma literária, quando estava em jogo o fortalecimento da Frente Popular.