Patto (1999) relatou atitudes e práticas que aconteceram em uma escola em São Paulo. A escola, com o objetivo de facilitar o trabalho do professor, realizava um conjunto de práticas e processos escolares de remanejar e classificar crianças para determinadas séries. Era realizada uma seleção prévia para a montagem de turmas de 1ª série. As turmas eram divididas em “fortes” “médias” e “fracas”. Geralmente as turmas “fortes” eram de alunos que já haviam estudado na educação infantil (antiga pré-escola).
Se ter tido acesso à pré-escola não acaba funcionando como um indutor de “profecia auto-realizada”, na acepção dada a esta expressão por Rosenthal e Jacobson, ou seja a simples freqüência à pré-escola predisporia a professora a esperar melhor rendimento das que passaram por esta experiência, em contraposição às que não a freqüentaram, aumentando as chances de sucesso das primeiras e de fracasso das segundas (1999, p. 258) .
Nas turmas “fracas” quase todas as crianças eram portadoras de uma história escolar marcada pelo fracasso. Por isso, constituía uma classe que “ninguém queria”. Geralmente, a professora que assumia a turma se sentia obrigada e destituída de poder para a escolha realizada. Freqüentemente, o professor não fazia nada para sanar as dificuldades além de se irritar e de repetir com exaustão os mesmos exercícios. O resultado, no final do ano, era sempre o mesmo: a reprovação.
De acordo com a lógica da instituição, aos “desenganados” designam-se os professores considerados menos eficientes. Desta forma, a produtividade da escola, precariamente expressa em número de aprovados, não sofre prejuízos: não se desperdiçam “bons” professores com “maus” alunos nem “bons” alunos com “maus” professores. (p 271).
Rodrigues e Petro (1997) afirmam que as expectativas do professor podem aludir aspectos positivos (espera êxito acadêmico) e negativos (antecipa fracasso). Crenças positivas ou negativas podem chegar a converter-se em realidades e não é difícil produzir este efeito. Além do que, as crenças negativas parecem ter um maior impacto do que as positivas porque as pessoas são mais suscetíveis às evoluções negativas que às positivas. Geralmente, a falta de confiança do professor no aluno pode fazê-lo crer que não seja capaz.
Rosenthal e Jacobson (1968) relataram um importante estudo realizado em uma escola americana, com o objetivo de verificar o efeito das expectativas dos professores sobre o rendimento dos alunos, especialmente de constatar se os alunos cujos professores tinham maiores expectativas de rendimento eram os que mais realizavam progressos.
Inicialmente os pesquisadores descreveram a expectativa dos professores no primeiro dia de aula. Em seguida, enfatizaram que os alunos do estudo se originavam de famílias pobres, negras além de alguns mexicanos. Algumas crianças necessitavam de banho, tratamento dentário, higiene e almoço com passe livre na cafeteria da escola. Com todas estas características estava então determinado o “status’ do aluno. O estudo aponta ainda que a comunidade mexicana que pertencia à escola falava espanhol e conhecia apenas algumas palavras em inglês.
Na escola havia uma prática de se dividir os alunos por fortes, médios e grupos baixos, ou, rápidos, médios e devagares, conforme Testes de Quoeficiente de Inteligência previamente realizados pelos professores. Na pesquisa foram apresentadas aos professores as crianças que tinham maior probabilidade de melhorar seu desempenho, tendo sido dito a eles que essas foram às crianças que obtiveram os melhores resultados em um teste de inteligência, quando na verdade, os alunos foram selecionados aleatoriamente pelos pesquisadores e por seus assistentes.
Os resultados da pesquisa demonstraram que aqueles alunos ditos fortes, das turmas fortes, obtiveram de seus professores expectativas favoráveis para o aprendizado, ou seja, as expectativas que os professores tinham sobre os seus alunos, provavelmente poderia influenciar inconscientemente seu comportamento. Essa influência poderia ter um impacto positivo ou negativo sobre o aluno.
O estudo citado anteriormente ficou conhecido como “Efeito Pigmalião”. A pesquisa mostrou algo que é muito simples: professores que têm uma visão positiva dos alunos tendem a estimular o lado bom desses e a obter melhores resultados; professores que vêm os alunos com olhos negativos adotam posturas que acabam por comprometer negativamente o desempenho desses. Esse efeito, chamado também de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é na verdade quem a faz acontecer, afeta as relações em todos os campos da vida. Estudos demonstram que professores, no início do processo de alfabetização de seus alunos, já tendem a considerar que estes apresentam dificuldades de aprendizagem e, ao fazerem um pré-diagnóstico, não acreditam na capacidade das crianças para aprender, além de responsabilizá-las por suas dificuldades na escola.
Segundo Schiavoni e Martinelli (2005, p. 313), “a literatura continua apontando para os efeitos das expectativas no comportamento dos indivíduos em geral e, particularmente, sobre a influência que as expectativas exercem sobre a interação professor-aluno e, conseqüentemente, no processo de ensino-aprendizagem.”
Patto (1999) e Lajonquière (1999) afirmam que professores tendem a agir, em sala de aula, significando em mente um aluno ideal. Aquele aluno que não aprende no tempo certo nem da forma esperada e não se comporta segundo os padrões corretos não é o aluno para o qual o professor sente-se preparado. Na grande maioria das escolas, esse aluno ideal encontra- se apenas no imaginário dos mestres.
Lajonquière (1999) utiliza o termo recusa do desejo por parte do mestre, o que significa que o adulto na posição de mestre e daquele que “sabe” sobre seu aluno, muitas vezes, não “reconhece” a marca neste de um sujeito. O que ocorre é que o professor ou a escola exige que seus alunos se entreguem e se coloquem no lugar que lhes é dado, a demanda é formulada nos seguintes termos: “façam o que quero que vocês façam”, ou ainda, “sejam o que eu quero que vocês sejam”. Assim, o bom aluno será aquele que atender, com todo seu ser, aos caprichos de seu mestre, será objeto da demanda e não sujeito do próprio desejo.
Patto (1999) revela que os professores discriminam seus alunos. Chama-nos atenção para as profecias auto-realizadoras, nas quais se determina o futuro do aluno no começo do ano letivo, como já relatado anteriormente. Esta diferença entre o ideal e o real faz com que algumas respostas sejam também estereotipadas para justificar o fracasso iminente destes alunos.
Patto (1999, p. 248) descreve o relato de uma professora desesperada por estar com um aluno indesejado: “eu estou com um menino com problemas neurológicos, fazendo psicodrama e está na minha classe, você acha? Não dá”
Como relatado anteriormente, um aluno com alguma patologia, no estudo em questão, a epilepsia, é afetado por uma baixa expectativa dos professores quanto à aprendizagem. O desejo do aluno ideal, que respeita as regras e que consegue aprender, é o modelo para o sucesso.
Nesse sentido, algumas das crenças que envolvem o sistema educacional, atualmente, como a baixa expectativa dos professores em relação à capacidade de aprendizagem dos alunos, reforçam atitudes negativas no contexto escolar. Conseqüentemente, pode-se ter um desempenho acadêmico rebaixado em virtude de poucas oportunidades oferecidas aos alunos. Diante do exposto, ressaltamos, mais uma vez, a importância de se investigar as concepções dos professores sobre epilepsia e desenvolvimento e aprendizagem de alunos com
epilepsia, pois estas têm relação direta sobre sua prática sobre o desempenho escolar dos alunos, levando ao fracasso escolar e dificuldades de aprendizagem.